Notas iniciais
Oi, meus xuxus ♥ como estão? Como sempre, converso melhor com vocês nas notas finais! Aproveitem o capítulo ♥

Suíça,

primavera de 1940.

Reyna Avila Ramírez-Arellano nunca sabia exatamente onde apareceria – isso era exclusivamente resolvido por Afrodite. A única coisa que tinha certeza era que, a cada vinte anos, podia escapar de sua prisão por algumas horas graças à benção da deusa da beleza.

Tinha se acostumado com aquela dinâmica há anos e, sentindo sua pele formigando ao se materializar fora de sua ilha, imaginava estar pronta para encarar qualquer que fosse a situação em que estaria metida; entretanto, não conseguiu evitar um arquejo de surpresa quando percebeu que, naquele 21 de março de 1940, estava parada em cima de uma montanha. Seus pés vacilaram sob o chão, que estava escorregadio devido a uma fina camada de neve, e com muito esforço conseguiu se manter ereta.

— Por que aqui? – resmungou para si mesma. Não tentava entender quais eram os critérios de Afrodite ao escolher para onde a mandaria.

Como sempre, Reyna estava usando seu vestido branco e uma sandália dourada que prendia-se em sua perna com tiras estendidas até sua panturrilha; apesar de imortal, ela não era imune ao frio e, por isso, seu corpo inteiro tremeu ao ser atingido pelo vento gelado do local. Abraçou seu tronco e, ao fazer um breve reconhecimento de onde estava, duas coisas chamaram sua atenção: a primeira foi a sombra de uma garota sentada mais a frente nos picos da montanha (alguém que, mesmo com apenas um encontro anterior, seria capaz de reconhecer em qualquer lugar por sua aura poderosa), e a segunda foi um enorme casaco cuidadosamente dobrado ao seu lado.

Com uma leve careta de descontentamento, ela abaixou-se e pegou o casaco – ao menos Afrodite pensara em deixar-lhe alguma proteção contra o clima. Desdobrou-o e conferiu se não tinha nenhum bilhete acompanhando-o; terminando sua breve inspeção sem achar nada, apressou-se em vesti-lo, apertando o tecido grosso contra o corpo. O pelo sintético dentro do casaco protegeu-a do vento forte, porém não foi muito útil em aplacar o frio que a sacodia, visto que sua pele continuava gelada pela falta de uma roupa apropriada para o ambiente.

— Thalia? – chamou, um pouco hesitante. Em seguida, repreendeu-se mentalmente; “hesitante” era algo que definitivamente não combinada com sua personalidade.

— Reyna. – cumprimentou a morena, virando minimamente a cabeça para encará-la por cima de seu ombro. Sua voz demonstrava surpresa pela companhia, mas se estava feliz com isso, não demonstrou. – Sente aqui, se quiser.

Receando não ter muitas opções, Reyna caminhou com cautela até a elevação que a outra estava. Movendo-se devagar, sentou-se ao seu lado e instintivamente abraçou os próprios joelhos, numa tentativa de agrupar melhor o calor do seu corpo para aquecer-se. Thalia não mostrara-se aberta a conversar, então as duas permaneceram em silêncio, admirando a paisagem que se estendia a frente delas.

Da altura em que estavam, a visão que tinham era de, predominantemente, outras montanhas menores. Não que isso diminuísse a beleza do lugar; os picos estavam esbranquiçados, resultados dos resquícios do inverso rigoroso experimentado em meses anteriores. Estreitando um pouco os olhos, também conseguiam ver a vaga silhueta de uma cidade, algumas casas ao longe, meio apagadas pela névoa espessa que acompanhava a altitude. Reyna julgava que ali a temperatura devia estar em volta de 2 graus Celsius e, pela posição do sol à oeste, devia ter umas duas horas antes de precisar ir embora – só podia ficar fora de sua ilha até o momento em que Apolo recolhesse seu último raio de sol do céu com sua carruagem.

Mesmo estando viradas para o sol e com a luz atingindo-as, a garota não conseguia parar de tremer. Thalia conferiu ela com sua visão periférica e, ao notar suas pernas desnudas e como estava encolhida, os muros ao redor de seu coração começaram a ruir e, rendendo-se a começar a conversa, disse:

— Suas roupas não são nada adequadas para um dia de escalada. – pontuou, enquanto puxava para seu colo uma mochila preta.

— Eu sei. – Reyna deu de ombros, um mínimo sorriso irônico cruzando seus lábios. – Não foi minha melhor escolha para hoje.

— Tenho uma calça sobrando. – Thalia murmurou, tirando uma calça de couro de sua bolsa. – Quer?

— Por favor.

Reyna pegou a peça e correu os dedos, sentindo a textura grossa do tecido. Nunca experimentara usar nada além do vestido branco que magicamente estava sempre em seu corpo e, no fundo, a ideia de trocar de roupa depois de séculos a empolgou. Levantou-se ao mesmo tempo que a Grace desviava seu olhar para lhe oferecer privacidade e, com uma rapidez invejável, vestiu a calça; o couro apertou suas pernas e ela dobrou-as, testando a sensação.

— Isso é maravilhoso. – Reyna disse, deslumbrada pela calça. Quando tornou a se sentar, colocou a mão sobre o braço da outra, apertando-o por cima do casaco dela. – Obrigada.

— A evolução da moda, huh? – Thalia evitou um sorriso. – Por nada.

— Onde estamos?

— No Monte Pilatus. – a Grace franziu a testa, confusa. – Suíça. Como você chegou aqui em cima se nem sabe que lugar é esse?

Como alguém não saberia onde estava? Encarou Reyna por uns instantes, com descrença; contudo, precisava admitir que havia diversos fatos estranhos sobre a mulher ao seu lado que ela não conhecia – e, em seu mundo, não era incomum que deuses pregassem peças esquisitas em sua vida apenas por diversão. Sua expressão se suavizou e, com um suspiro cansado, voltou sua atenção à natureza abaixo de si.

— Como você chegou aqui em cima? – rebateu a recém chegada, desviando o foco de si.

— Ora, pelo Caminho de Ferro. – apontando para um ponto vago atrás de si, Lia indicou os trilhos que atravessavam a montanha. – Desci na plataforma de visitação e depois me esgueirei para fora, para me sentar aqui. Primeira vez que experimento esse trajeto com eletricidade, sabia? O trem costumava funcionar com uma máquina a vapor, mas foi eletrizado há três anos.

— Por que a Suíça? – Ramírez tornou a questionar, a curiosidade transparente em sua voz, tirando a oportunidade de que a outra pudesse insistir em saber como ela chegara ali. Normalmente, poderia atualizar-se sobre o cenário mundial com o jornal vendido em bancas na cidade em que estivesse, mas ali, presa com Thalia Grace em uma montanha, precisaria se contentar que a morena seria sua fonte de notícias.

Thalia tinha muitas perguntas para fazer, a maioria envolvendo o motivo do sumiço de vinte anos da outra, além das óbvias: porque ela não sabia onde estava, como tinha chegado até ali e como ela poderia não saber que uma guerra estava chegando. Todavia, sabia que Reyna não lhe responderia facilmente nada disso, então decidiu aceitar a situação e contar o que estava acontecendo no mundo.

— Porque a Suíça é um território neutro, assim nomeada desde sua formação em 1648. – apontou casualmente e, com seu rosto ardendo pelo olhar ávido de sua companhia, continuou: – Uma guerra grande está se formando, Reyna.

— Quão grande?

— O bastante para ser chamada de Segunda Guerra Mundial. – diante de tal percepção, Reyna visivelmente empalideceu e voltou a tremer. De repente, o clima parecia mais gelado, o frio ainda castigando sua pele. Thalia mordeu seu lábio inferior antes de oferecer: – Venha mais para perto, podemos dividir meu casaco. É grande o suficiente para nós duas.

— Não precisa, obrigada. – ela prontamente negou, enfaticamente movimentando a cabeça em concordância com a recusa. Ia pedir que Thalia continuasse a narrar o que estava acontecendo, mas foi interrompida quando a morena abriu o zíper do próprio casaco e esticou o braço, sinalizando para que Ramírez se aproximasse.

— Eu não vou te morder. – debochou, esperando. – Não quero que você congele aqui em cima e que sua existência imortal seja condenada a ser um bloco de gelo nos alpes suíços.

— Me conte mais sobre a guerra. – pediu Reyna, deslizando mais para o lado suavemente, visando fazer pouco caso sobre estar tão próxima da outra, por mais que estivesse uma pilha de nervos internamente. Encaixou-se abaixo do braço de Thalia, rígida, e sentiu-a jogar metade do casaco por seus ombros, envolvendo-a num abraço desajeitado por baixo da peça.

— Está sendo causada por desentendimentos entre os filhos dos Três Grandes do Olimpo, tendo consequências por toda a Europa por enquanto. Diversos países estão mantendo-se neutros, mas minha aposta é que o conflito vai tomar proporções gigantescas, está só começando. – resumiu, sem vontade de se estender no assunto. – Para evitar uma participação forçada, vim para um país que tenho certeza que continuará neutro até acabar essa loucura.

— Você é imortal e conhece os deuses olimpianos, porém não é uma deusa menor. – Reyna ponderou, balançando um pouco a cabeça. Estava desconcertada pelas novas informações e sua mão foi até a curva do pescoço de Thalia, correndo a ponta dos dedos pelo pássaro preto marcado em sua pele. – Deuses menores não precisam de marcas da imortalidade como nós. Você é semideusa?

— Sim, filha de Zeus. – um breve arrepio percorreu sua coluna, sentindo os dedos gelados contra seu pescoço.

— Se a guerra é por rixas entre filhos dos Três Grandes, por que você não está lá?

— Eu prometi a mim mesma que nunca mais iria lutar. – Thalia contorceu-se, desconfortável, ao se afastar do toque de Reyna. O modo rude com que havia dito a frase fora o suficiente para que a garota entendesse que esse era um assunto delicado que, por segurança, deveria ser mantido quieto.

Um novo silêncio se fez entre as duas. Não era reconfortante e muito menos confortável; Ramírez permitia sua mente vagar com a ideia de que a humanidade estava em guerra e que talvez, em sua próxima visita, não existissem mais pontos turísticos para visitar (bom, era conhecimento geral o quanto semideuses conseguiam destruir cidades inteiras nesses conflitos armados). A Grace, por outro lado, remoía em sua memória seu último combate em uma guerra, e em como fracassara na luta.

O vento se intensificou, fazendo o cabelo castanho de Reyna voar, espalhando-se por seu rosto. Com a mão direita livre sendo sua única livre, visto que a esquerda estava ocupada segurando uma das pontas do casaco, tentou afastar os fios de sua boca e olhos, sem muito sucesso.

— Use isso. – sugeriu Thalia, pescando algo em seu bolso e entregando-lhe sem maiores cerimônias.

— Isso é... – Reyna perdeu a voz, embasbacada ao fitar a pequena presilha prata na palma da mão a sua frente, em formato de flecha. – Meus deuses, você guardou.

— Sim. Eu a usei por uns cinco anos, procurando por você. – admitiu Grace, num sussurro. – Depois disso, concluí que provavelmente não tornaria a vê-la, aí pareceu ridículo continuar usando, mas não consegui me desfazer dela. Fica sempre no meu bolso.

— Agradeço que você tenha guardado. – devolveu Reyna no mesmo tom baixo, aceitando o adereço para prender seu cabelo atrás da orelha, impedindo-o de atingir seu rosto. Atipicamente, seus batimentos cardíacos estavam descompassados por saber que Thalia pensara nessa durante esses anos; e, se fosse honesta, estaria mentindo se dissesse que ela não estivera em seus pensamentos também.

— Por que... Por que você sumiu por vinte anos?

— Thalia... – os olhos azuis elétricos encontraram os seus e, perante a intensidade do azul que a encarava, Reyna não teve outra opção senão contar-lhe a verdade; ao menos, parte dela. – Tem uma maldição que me prende em uma ilha fora dos mapas. Só posso sair uma vez a cada vinte anos, por algumas horas, até que o sol se ponha.

Dito isso, as duas ergueram os olhos para o céu. O tom alaranjado familiar ao pôr do sol se espalhava acima delas, sugerindo que Reyna tinha menos tempo do que imaginara. Ou será que estivera tão envolvida em sua conversa com a filha de Zeus que sequer notara o tempo passando?

— Que maldição é essa?

— Eu não lhe perguntei o porquê de você não lutar mais, então igualmente me dê espaço para não partilhar sobre assuntos incômodos para mim. – pediu Reyna, fechando os olhos para aproveitar melhor os raios solares que atingiam suas feições. De modo quase inconsciente, permitiu que sua cabeça tombasse para o lado, apoiando-se no ombro de sua companheira.

— Como quiser.

— Meu sonho é um dia poder ver as estrelas. – Reyna suspirou em sua confissão, fantasiando com os pontinhos luminosos no céu escuro. Já as tinha visto, claro, mas há mais de séculos atrás; antes de toda a confusão que rondava sua maldição.

Não houve resposta, porque Thalia não sabia o que poderia falar naquela situação. A de olhos azuis limitou-se a procurar a mão da mulher por dentro do casaco que dividiam e, quase simultaneamente, ambas entrelaçaram seus dedos; o contato provocou uma leve corrente em seus braços.

Inexplicavelmente, sentiam-se atraídas uma para a outra, como ímãs. Não importavam as circunstâncias estranhas em que se encontravam, nem mesmo importava que só tivessem se visto apenas duas vezes... Algo as conectava, como um elo inquebrável unindo-as. Reyna virou-se para encarar Thalia, com a bochecha apoiada contra o ombro dela, e o azul elétrico de uma misturou-se ao castanho claro que se assemelhava a ouro dos olhos da outra. Sustentaram o olhar intensamente, e Ramírez não sentiu a necessidade de decorar a paisagem ao seu redor para lembrar da natureza na ilha morta que ficava – de algum jeito, acreditava que decorar os diferentes tons de azul dos olhos da Grace lhe daria pensamentos muito mais interessantes no tempo confinada.

Talvez essa conexão entre elas fosse a soma da carência de Thalia à da própria Reyna. A primeira sentia-se muito sozinha vagando pelo mundo após ter perdido todos seus amigos para a mortalidade, ao passo que a segunda sentia a solidão de passar anos trancada sem contato com ninguém (e, também, nunca encontrava a mesma pessoa em suas visitas à Terra). Isso fazia sentido, certo? Essa seria uma explicação totalmente plausível para a proximidade que sentiam, porém, no fundo de suas cabeças, as duas sabiam que era mais do que isso.

Reyna, conhecendo bem a deusa do amor, sabia que Afrodite lhe diria agora que o amor não deve fazer sentido, que devia parar de procurar lógica em suas ações e aproveitar o momento. Mas como poderia aproveitar a ideia de se apaixonar, se ficaria vinte anos sem encontrar novamente àquela que despertava tais sentimentos? Parecia bem menos doloroso ignorar a revirada que seu estômago dava pela presença de Thalia e não ceder ao impulso de provar dos lábios rosados dela, que se entreabriam de forma muito convidativa. Para afastar-se dessas suposições, impulsionou-se para frente, deixando suas pernas penderem na beira da montanha.

— Não faça isso. – a voz de Thalia transmitia urgência. – Não fique tão na beirada, você pode cair.

— Me pegue se eu cair. Você não é filha de Zeus? – a de cabelo castanho sorriu ao voltar seu olhar para Lia, desafiando-a, mas seu sorriso sumiu ao ver o medo estampado no rosto dela. Depois de uns segundos buscando o porquê, Reyna não conteve uma gargalhada ao chegar a uma conclusão. – Espere, você tem medo de altura?

— Não tire sarro de mim.

— Não estou! – prometeu, entre risadas. Lia não diria em voz alta, porém julgava que aquela risada era o som mais bonito que já ouvira. – É só muito contraditório uma filha do Senhor dos Céus ter medo de altura.

— Eu sei, está bem?

— Se tem medo, por que escolheu vir para um lugar alto?

— “Grandes heróis são aqueles que enfrentam seus medos”, não é o que dizem? – recitou a morena, piscando ao gesticular as aspas com os dedos. Estava começando a achar graça naquele cenário cômico. – É bom sentir medo às vezes, me lembra que continuo sendo parte humana, sabe?

— Sei, minha heroína. – assentiu Ramírez com um olhar carinhoso.

— Não sou heroína de ninguém. – garantiu Thalia, sem emoção na voz; a garota no lado oposto quis discordar, e só não o fez porque percebeu, pela coloração do céu, que seu tempo tinha acabado.

O pouco tempo que desfrutavam da companhia uma da outra tornava cada segundo mais especial, como se estivessem vivendo os vinte anos perdidos em algumas horas, numa compensação do tempo perdido. No fim do dia, as duas estavam tristes com a partida.

— Feche os olhos. – Reyna instruiu assim que sentiu o calor do sol abandonando o ambiente, com uma das mãos na bochecha da outra. Seus dedos faziam um carinho raso na pele avermelhada pelo frio. – Logo vou embora, e vai ser uma explosão de luz. Odiaria incinerar você em minha viagem para casa.

— Gostaria que existisse algo que eu pudesse fazer para você ficar. – Thalia abriu um sorriso triste e contido, apertando seu rosto contra a mão em sua bochecha. – Te vejo em vinte anos?

Havia, sim, algo que poderia ser feito para livrá-la da maldição; mas Reyna não contaria isso a ela, não alimentaria falsas esperanças num plano impossível.

— Depende de Afrodite. – Ramírez riu levemente. – Se a deusa da beleza escolher me mandar para perto de você, nos veremos em vinte anos.

— Detesto depender dos deuses. – reclamou Grace, com uma careta expressiva. – Contudo, vou ofertar metade de minhas refeições à deusa do amor todo dia até dia 21 de março de 1960, na esperança de te ver.

Quando o formigamento familiar de sua locomoção percorreu seus membros, Reyna fechou os olhos de Thalia com a mão e inclinou-se sobre ela para dar-lhe um beijinho na testa, numa despedida.

— Adeus, Thalia, a única filha de Zeus na história com medo de altura.

Notas finais
Muito bem, eu confesso que tem sido um desafio contextualizar bem a fanfic nos períodos históricos em que a Reyna aparece shausa tipo, a ambientação, os eventos mundiais e etc.. Espero que esteja ficando coerente e, ao mesmo tempo, não esteja maçante de acompanhar! Não vou me demorar aqui porque virei a noite escrevendo SHUAHSU estou morrendo de sono, mas queria muito terminar esse capítulo e trazer para vocês! Não esqueçam de favoritas a história e, por favooor, deixem seus comentários com suas opiniões! É muito importante para mim receber o feedback de vocês! Beijinhos, até ♥