Notas iniciais
Eu sei que demorei, desculpa :( Vejo vocês nas notas finais, e boa leitura ♥

Atenas,

Primavera de 1960.

Dessa vez, assim que Reyna abriu seus olhos no mundo mortal, notou quatro fatores completamente incomuns:

Primeiro, estava em um cemitério. Sim, essa fora a primeira coisa que percebeu, pois tinha lembranças desagradáveis de quase cair de uma montanha em sua visita passada, por isso encarregou-se de verificar os arredores para garantir sua segurança.

Segundo, era muito cedo. O céu ainda estava escuro, os primeiros raios solares cortando as nuvens durante o amanhecer; um arquejo saiu entre seus lábios, visto que nunca havia tido mais de poucas horas livres. Ao que parece, nesse escape, Afrodite lhe dera um dia inteiro para aproveitar.

Em terceiro lugar, mencionando sua benfeitora, a própria Afrodite em pessoa viera recepciona-la.

— Olá, minha querida. – assim que Reyna terminou de esquadrinhar o local, Afrodite murmurou, num som que se assemelhava um ronronar manhoso.

— Lady Afrodite. – cumprimentou-a, fazendo uma mensura honrosa à deusa.

— Não são necessárias tantas formalidades, criança. – retrucou a outra, descartando as honrarias com uma das mãos. – Temo que não posso ficar muito, porque usei todo meu estoque de magia para trazê-la a Terra e mantê-la aqui por um dia inteiro.

— E eu estou tremendamente agradecida pelo tempo concedido, Lady, mas sob pena de soar ingrata, preciso perguntar... Por que fazer esse esforço?

— Creio que seja um dia importante, querida.

Era impossível descrever a beleza de Afrodite e isso era senso comum desde os primórdios da humanidade, quando os primeiros mortais atreveram-se a tentar transcrever ou até mesmo pintar os traços da deusa – qualquer representação nunca chegou aos pés de retratá-la com propriedade. Entretanto, quando a deusa da beleza sorriu amplamente, Reyna pôde jurar que ela se assemelhava à Thalia Grace. O pensamento fez suas mãos suarem.

— Pare de lutar contra o amor, Reyna Avila Ramírez-Arellano. – ralhou Afrodite. A mulher aproximou-se e pousou uma das mãos em cima de seu peito, numa espécie de gesto carinhoso. – Estou aqui com esse único propósito: adverti-la a parar de pensar tanto. O amor não precisa fazer sentido, minha querida feiticeira, você deve apenas senti-lo.

E, cumprindo com a dramaticidade atribuída a sua figura, Afrodite desapareceu em uma nuvem, deixando como rastro um cheiro característico de lírios no lugar. O que obrigava a imortal a encarar o quarto fator estranho que notara ao se materializar, mas que tentou ignorar: Thalia também estava ali. Essa era a questão, Thalia não simplesmente estava ali, como em seus outros dois encontros. Agora, a morena estava sentada em uma pedra, a cabeça enterrada entre as mãos, o corpo balançando com soluços. Sua aura misturava-se com outra igualmente forte, que Reyna deduziu ser de outra divindade, apesar de não conseguir enxergar para identificar que outro deus olimpiano estava presente.

— Thalia? – Reyna arriscou chama-la, o tom de voz baixinho. Com alguns passos vacilantes, aproximou-se o suficiente para estar parada em frente à amiga, observando a terceira companhia do ambiente tomar forma perto dela, sentada à direita da Grace. Assim que reconheceu a deusa, repetiu a mesura que fizera, curvando-se em sinal de respeito. – Lady Ártemis.

— O que fazes aqui? – questionou Ártemis, colocando-se de pé e puxando seu arco das costas. Sua postura agressiva era quase convincente o suficiente, porém, com um olhar mais atento à deusa, era possível identificar a tristeza que lhe caía sob as costas. – Não és bem vinda entre nós.

Mesmo que sua aparência de uma criança de 13 anos fizesse-a ficar menor que Reyna, a garota achou prudente recuar alguns passos.

— Milady, ela é minha convidada. – Thalia anunciou, após levantar a cabeça e ver a cena. A voz rouca arrastava-se por sua garganta numa vibração dolorosa e, somando isto à vermelhidão em seus olhos, era óbvio que ela estivera chorando. – Não nos deseja fazer mal algum, apenas veio prestar suas condolências comigo.

— Assim seja. – respondeu Ártemis, pendurando sua arma sob o ombro, o olhar calculista ainda analisando Reyna com cuidado. Com relutância, a deusa desviou sua atenção e agachou-se, sussurrando uma prece em grego antigo para as raízes da árvore que se estendia à frente das garotas; depois, virou-se para Thalia com um semblante que misturava preocupação e afeto. – Minha eterna tenente, é minha hora de partir.

— Vá em paz, minha senhora. – a Grace fez sua reverência desajeitadamente, mas Ártemis não pareceu se importar com isso.

— Não se culpe por nada. – a ruiva insistiu, segurando com firmeza o queixo de Thalia para manter seus olhos conectados. – Você foi e sempre será minha companheira mais fiel, Thalia Grace, os deuses testemunharam sua coragem e não merece viver carregando esse fardo. Você cumpriu seu dever comigo e com o Olimpo, agora é hora de descansar.

Ambas as imortais reconheceram que era hora de fechar os olhos quando sentiram o local esquentando. Logo, Ártemis se foi em uma explosão de luz; Thalia tornou a esconder seu rosto entre as mãos, balançando-se num choro silencioso e dolorido. Decidindo seguir o conselho de Afrodite, já que não sabia o que mais poderia fazer, Reyna permitiu que um impulso desconhecido a guiasse. Sentou-se ao lado da morena e a envolveu com seus braços, deixando que a Grace apoiasse a cabeça em seu ombro para chorar por quanto tempo precisasse.

— Achei que você só viria mais tarde. – Thalia disse, fungando.

— Foi uma surpresa para mim também. Afrodite me disse que pôde me libertar por mais tempo hoje.

— Pelo menos eu sei que minhas oferendas para ela durante os últimos vinte anos não foram em vão. – a Grace sorriu entre as lágrimas que manchavam seu rosto. O coração de Reyna se contorceu, desejando ser capaz de extinguir todo o sofrimento e culpa que cercavam-na, deixando a energia da garota pesada e infeliz. – Fico feliz que esteja aqui, mesmo que não seja meu maior momento de glória.

— Fico feliz de poder estar aqui para ajudar. – Reyna esforçou-se para oferecer um sorriso confortador. Pela suavização que encontrou nos olhos azuis, imaginou que tivesse atingido seu objetivo. – Você quer falar sobre isso?

— Ontem, dia 20 de março, completaram exatos cem anos da morte de minha colega mais próxima. – Thalia começou, apontando para a árvore com um gesto de cabeça. – Zoe Nightshade foi minha escudeira por um breve período em nossas jornadas com Ártemis. Todas as Caçadoras se uniram para honrar sua morte ontem, porém eu não... Não consegui...

— Não conseguiu ir embora e se despedir. – adivinhou Ramírez, acariciando as costas da outra com delicadeza.

— Ártemis me fez companhia durante a noite.

— O que a deusa estava falando sobre seu fardo... Você se culpa por isso, não é? – com certo pesar pela possibilidade, completou a pergunta: – Você é uma Caçadora?

Reyna esperou pacientemente pela resposta, sentindo-se patética por se apaixonar por alguém que sequer podia envolver-se romanticamente; que peça era aquela que Afrodite estava pregando? Quando Thalia ergueu os olhos para encontrá-la, estavam tão perigosamente perto que conseguiam sentir a respiração da outra nas próprias bochechas; ambas estudaram cuidadosamente suas feições, os olhos demorando-se um pouco mais nos lábios antes de encontrarem-se mais uma vez, recheados de uma cumplicidade inexplicável.

— Acho que eu lhe devo uma explicação. – a Grace sorriu sem graça, os cabelos negros balançando ao redor de seus ombros, embalados pelo vento. – Vamos para minha casa, Reyna. Temos vinte anos de conversa para pôr em dia, huh?

(...)

Thalia fora imortalizada com seus dezenove anos. Se fosse contar todos os seus aniversários, agora ela teria cerca de uns trezentos anos – durante sua trajetória de vida, enfrentara os piores monstros conhecidos, lutara batalhas que duraram anos e teve mais perdas do que achava possível contar. De alguma forma, toda a confiança que construíra com toda sua experiência parecia ruir perto de Reyna; agora mesmo, ela estava andando de um lado para o outro na sala, os dedos se contorcendo em nervosismo pela presença da outra em sua casa.

— É uma casa muito aconchegante. – disse Ramírez, após um longo silêncio.

— Obrigada. Infelizmente, nunca posso ficar mais do que alguns anos em cada cidade, pois logo os humanos percebem que não envelheço. – ela sorriu levemente. – Vamos nos sentar, acho que tenho uma longa história para contar.

— Não fique nervosa. – pediu Reyna, sentando-se no sofá. A conexão entre elas era tão surreal que, instantaneamente, ela soube que Thalia ficaria mais confortável se não mantivessem contato visual e, assim, abriu as pernas e indicou o espaço no chão para a morena.

— Tudo bem. – Thalia pigarreou, ajeitando-se. Estava entre as pernas de Reyna, que instintivamente colocou as mãos sob os ombros dela, massageando-os com suavidade, desfazendo os nós de tensão.

— Quando quiser começar a contar, estou aqui.

— Eu era uma Caçadora de Ártemis, sim. Me juntei à Caçada em minha adolescência, em meados de 1650, por aí; passei mais de dois séculos servindo à deusa, acompanhando-a em missões como sua tenente... Foi em 1860 que, pela última vez, batalhei ao lado de minhas irmãs Caçadoras.

“Foram tempos sombrios, Reyna. Os titãs que há muito estavam esquecidos voltaram a ganhar força, alimentando-se da energia vital do Olimpo, cercando os arredores dos símbolos de poder dos deuses, e era de conhecimento geral que um deles retornara à Terra; fomos todas convocadas a servir e proteger os olimpianos, que se concentravam na Grécia, naquela época.

Nesta noite em especial, no dia 20 de março, as Caçadoras estavam divididas. Éramos três grupos fazendo a ronda pelo monte Olimpo; Ártemis não estava conosco, porque estava encarregada de verificar a prisão de outros titãs. Foi o primeiro ataque direto do titã Ceos a nossa base, e nenhuma de nós tinha noção de quão perigoso um titã pode ser em combate. Não pretendo me alongar muito em detalhes, basta dizer que foi uma batalha muito feia... Em certo momento, quando Ceos estava a poucos centímetros de me atingir de modo fatal, Zoe pulou para interceptar o golpe. A descarga de energia do ataque foi tão intensa que atravessou todo seu corpo e ela não sobreviveu. Eu... deveria ter sido eu, não ela.”

— Isso não é culpa sua. – interrompeu Reyna, com um vinco de preocupação entre as sobrancelhas. Seus dedos agora moviam-se pela pele desnuda de Thalia, em carícias que subiam de seu pescoço ao couro cabeludo, tentando amenizar o desconforto dela.

— Claro que é. Eu nunca... Zoe tinha menos de cinco anos nos acompanhando nas caçadas, eu nunca deveria ter permitido que ela lutasse em uma guerra daquela proporção. – ela murmurou, cansada. Sua voz tremia, o que demonstrava que ela estava exausta, e por isso Reyna não insistiu no assunto para que ela continuasse seu relato. – E então...

“Tudo que se passou a seguir é embaçado em minha memória. Lembro-me de gritar em desespero, rezar por ajuda, sentir como se estivesse sendo esmagada pela dor... E só. Minhas irmãs depois me contaram que lutei como uma fera e, juntas, conseguimos prender e amordaçar Ceos no subterrâneo, onde Hades conseguiu cuidar do titã.

Depois disso, subimos ao Olimpo para recebermos menções honrosas dos deuses. Reyna, eu estava devastada, mal aguentava olhar para todos aqueles olimpianos sabendo que Zoe morrera por eles, minha irmã, àquela que eu devia proteger. E, como tenente de Ártemis e comandante em batalha, me concederam um pedido. Qualquer coisa que eu desejasse, eles atenderiam.”

— E o que você pediu?

— Pedi que nunca mais precisasse entrar em uma luta. – Thalia confessou, com os olhos fechados. – Eu nunca tinha sentido tanto a dor de uma perda quanto naquele dia. Zoe era mais nova que todas nós, foi imortalizada aos treze anos, e me seguia para todos os lugares porque “queria aprender a ser como eu”. Os deuses atenderam meu pedido e, por misericórdia de minha senhora Ártemis, eu deixei a Caçada, mas continuei imortal. E prometi a mim mesma que nunca mais usaria uma armadura de combate na vida.

— Thalia... – Ramírez deixou suas mãos caírem ao lado do seu tronco. Conseguira sentir toda a dor e melancolia que a garota carregava consigo nesses últimos cem anos, e não tinha certeza que conseguiria dizer algo para aliviar o sentimento.

— Não diga nada. – ela pediu, encolhendo-se; abraçava o próprio corpo como se quisesse se proteger, embalando-se lentamente.

Em um pulo, Reyna saiu do sofá e, num ato que surpreendeu as duas, sentou-se nas pernas esticadas de Thalia, os rostos nivelados. Ambas não conseguiram evitar o rubor que coloriu suas faces de rosa pela posição em que se encontravam, mas nenhuma fez qualquer movimento para se afastar.

— Thalia Grace, me escuta. – com as mãos posicionadas nas bochechas dela, passando seus dedos de leve sob a pele macia da morena, com a íris azul dela misturando-se a sua castanha, Reyna esforçou-se para enfatizar cada palavra que diria a seguir. – Nada disso poderia ter sido sua culpa, nunca. Você foi uma heroína, e nada vai tirar isso de você. Você agiu como julgou ser melhor e por isso todos nós estamos aqui, agora. O único culpado pela morte de Zoe foi Ceos, o titã, não você.

E ali, com o toque de Reyna aquecendo seu corpo e o olhar preso ao dela, Thalia sentiu que podia ser vulnerável, pela primeira vez na vida – e com a intensidade da cor quase dourada que prendia seu foco, se permitiu acreditar naquelas palavras. Lágrimas tornaram a escorrer por seu rosto e, dessa vez, sentia como se toda aquela água estivesse limpando-a, tirando seu sofrimento. Num ato impensado, jogou seus braços ao redor da que estava sentada em seu colo e a puxou para mais perto, encaixando sua cabeça na curva do pescoço dela.

Thalia Grace nunca havia se sentido tão amada quanto naquele momento.

Reyna cantava baixinho, perto de seu ouvido, enquanto seus dedos entrelaçavam-se com as madeixas negras dela. O contato tão próximo e o momento tão íntimo que compartilhavam constrangia as duas em certo nível, mas ambas sentiam a mesma necessidade de estarem perto uma da outra; era como se precisassem uma da outra. Não havia nenhum teor sexual entre elas naquele instante, seus corpos colados só atestava o quão desejavam estar perto, como estavam quase se tornando dependentes uma da outra; uma simbologia de como era viável aceitar a ajuda de outra pessoa para curar-se de feridas que latejavam a tanto tempo.

Naquela mesma posição, Thalia atualizou Reyna sobre os acontecimentos dos últimos anos em que esteve isolada – sobre a Segunda Guerra Mundial, o cenário depois disso, e a tranquilizou quanto ao futuro da humanidade –. Não se separaram para conversar e, durante a tarde, falaram de tudo e nada ao mesmo tempo, trocando carinhos desajeitados, afinal, nenhuma delas era familiarizada com isso. Quando reconheceram o pôr do sol através da janela da casa, a tristeza reverberou em ambos os corações.

— Adeus, Reyna. – Thalia sussurrou, com os braços segurando Reyna com força, quase acreditando que talvez pudesse mantê-la ali.

Ramírez deu um risinho abobalhado, sem conseguir acreditar que, de fato, deixara-se levar por um sentimento tão idiota. Odiava as borboletas que dançavam em seu estômago, odiava que apaixonara-se tão rápido, odiava como odiava pensar em ficar vinte anos longe de Thalia. Piscou demoradamente e inclinou-se com cuidado, distribuindo diversos beijinhos superficiais na face da outra; nas bochechas, queixo, nariz e testa. De propósito, evitou os lábios, pois já tinha pensamentos turbulentos demais para voltar a sua ilha – temia que, se a beijasse, sofreria o triplo pelo afastamento.

Tudo sempre parecia muito frágil entre elas.

— Adeus, minha heroína. – sussurrou de volta, admirando por uma última vez em vinte anos a beleza de Thalia.

Notas finais
Não tenho desculpas além de: enfrentei um bloqueio criativo muito chato e acabei perdendo a noção do tempo nessa quarentenaaa :( perdão, gente Prometo que vou tentar não demorar mais tanto assim Ps.: aos que me acompanham em Forgot You também, não pretendo demorar a aparecer por lá ♥ Espero que tenham gostado desse capítulo, fiquei muuuito soft escrevendo ele! Acho a coisa mais preciosa do mundo esse relacionamento delas, sério Nesse vocês conheceram melhor a Thalia e, no próximo, teremos a história da Reyna ♥3 to empolgadaaa Beijinhos, não esqueçam de deixar seus favoritos e comentários para incentivar essa autora que vos fala ♥ obrigada pela paciência, vocês são demais
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.