Desde que te vi
1 1920.
Notas iniciais
Essa fanfic, por incrível que pareça, é baseada nesse tiktok que viralizou no twitter: https://twitter.com/sofia_amarx/status/1277954416310657024?s=09
É baseado no tiktok, mas a trama envolve um leve mistério a mais e um plot um pouquinho mais desenvolvido que só o romance do vídeo porque eu não aguento não desenvolver a história KKKKKJKJK
Los Angeles,
primavera de 1920.
Thalia Grace sequer imaginava que aquele 21 de março de 1920 seria gravado em sua memória para sempre – e isso poderia ser dito de maneira literal, visto que ela é imortal.
Estava passeando por Los Angeles, sem nenhum rumo certo, e foi por total acaso do destino que entrou naquela cafeteria. O lugar pareceu uma ótima opção devido ao ar condicionado visível atrás do caixa, e ela estava derretendo em suas roupas; estava completamente arrependida de ter escolhido sair com uma blusa de mangas compridas e meia calça embaixo da saia cinza, que chegava até metade de suas coxas (comprimento que, com certeza, era considerado indecente na época e, sendo honesta, ela não dava a mínima para isso). Ninguém poderia culpa-la, afinal, a primavera estadunidense tornava o clima muito traiçoeiro.
Thalia a viu no instante em que pousou seus pés na cafeteria – e, desde aquela fração de segundo em que seus olhos se fixaram na garota, um calor subiu por sua nuca, com a certeza de que sua vida nunca mais seria a mesma.
Era um lugar muito aconchegante, de fato, mas a morena tinha sua atenção presa na garota que se encontrava apoiada no balcão, esperando seu próprio pedido; era impossível não nota-la, na verdade. Se você perguntasse à Grace, ela lhe diria que descrever aquela mulher como linda seria um eufemismo sem tamanho.
Com um vestido branco que ia até a altura dos joelhos, apertado na cintura apenas o suficiente para marcar bem suas curvas, e com um decote nas costas que revelava músculos bem definidos por baixo da roupa, a garota quase poderia ser comparada a um anjo. Quase, porque só era necessário atentar-se um pouco mais a sua postura rígida para deduzir que, se havia alguma comparação a ser feita com ela, seria a de uma amazona. Ou de uma deusa da guerra, pois ela parecia pronta para lhe dar uma surra, se precisasse fazê-lo. A pele bronzeada contrastava com o branco do vestido de uma forma tão estonteante que Thalia se percebeu sem fala; diante de alguns xingamentos de outros clientes por estar na passagem, ela conseguiu mover-se para o lado para liberar o caminho. O cabelo castanho da garota estava solto, caindo em cascata por seus ombros; uma pequena presilha prata prendia sua franja, dando-lhe um charme a mais.
Os pelos de Thalia se arrepiaram. Uma aura envolvia aquela garota, que despreocupadamente pegava seu copinho de café – algo poderoso, que a destoava dos mortais comuns do local. Quando se é imortal, você simplesmente sabe reconhecer essas coisas, entende? Estreitando os olhos, Grace viu um borrão preto marcado na pele da outra, entre a curva de seu pescoço e ombro, tão pequeno que facilmente poderia ser ignorado. Por reflexo, sua mão foi à sua própria marca, correndo os dedos pelo desenho que sabia estar ali. A marca da imortalidade.
A garota misteriosa e estonteante agora estava caminhando em direção à morena, que sentiu seus nervos retesando-se com a expectativa e levantou uma das mãos, num aceno tímido; para sua frustração, porém, a outra se limitou a olhá-la com o canto do olho antes de sair da cafeteria. Thalia demorou cerca de dois segundos para decidir que valia a pena enfrentar o calor da rua para descobrir quem era àquela que a ignorou.
– Ei! – chamou, em vão, enquanto a seguia.
Mesmo que a desconhecida se destacasse na multidão, era complicado não perde-la de vista, devido a velocidade com que ela se deslocava. Além disso, a modernização que tomava conta da cidade não ajudava em nada; alguns carros, considerados luxo pela inovação, passavam despreocupados pela avenida, causando certo congestionamento às vezes. Pessoas com roupas espalhafatosas também dificultavam a tarefa de Thalia – certamente eram aspirantes a atores, já que Hollywood recentemente se popularizara como referência de indústria cinematográfica nos EUA. Pela prosperidade do lugar, com a promessa de empregos abundantes, a população chegava perto de dobrar de tamanho, pela imigração de diversas famílias mexicanas e sonhadores, que desejavam fama.
— É difícil te acompanhar. – decretou ao alcançar a garota, na praia.
Estavam paradas na praia de Santa Mônica. Atrás de si, Thalia conseguia ver o píer um pouco acima de sua cabeça, erguido com vigas de madeira, com uns poucos turistas vagando; o parque construído alguns anos antes estava funcionando com o objetivo de tornar o píer atrativo e transforma-lo em um ponto turístico. O movimento ainda era baixo, e uns três homens carregavam materiais de construção para o local; pelo enorme cavalo de brinquedo apoiado no chão, não era difícil deduzir que a intenção era construir um carrossel.
— Por acaso passou por sua cabeça que eu não queria ser seguida? – respondeu a outra, em um resmungo. Sua voz melodiosa fez com que a Grace virasse a cabeça para observá-la e, finalmente, encontrou seus olhos.
A íris, normalmente castanho escura, tendia para um tom dourado com o pôr do sol, como se acompanhasse os raios que iluminavam seu rosto; seus olhos fixaram-se com intensidade aos azuis daquela que estava em sua frente, visando intimidá-la. Entretanto, por todos os deuses, Thalia encarara uma quantidade absurda de monstros durante sua vida por ser semideusa, então não seria o olhar daquela garota que iria assustá-la. O modo como suas sobrancelhas se juntaram em sua testa ao ver que a morena não recuaria denunciou que não apreciava sua companhia, mas não fez fortes objeções à garota ao seu lado, apenas voltou a encarar o mar.
— Qual seu nome? – perguntou Thalia, genuinamente curiosa.
— Reyna.
— Sou Thalia. – disse. Ela não perguntara seu nome de volta, mas isso não iria impedi-la de se apresentar. – Você também é imortal?
— É o que parece. – Reyna puxou um pouco seu cabelo, mostrando o contorno do pássaro tatuado em seu pescoço, sem desgrudar seus olhos da água a sua frente.
Apesar de Poseidon não ser seu maior fã – bem, ela continuava sendo filha de Zeus, certo? –, Thalia precisava admitir que a paisagem era de tirar o fôlego. O céu misturava-se em tons de azul claro, rosa e laranja à medida que o sol descia, parecendo sumir no mar, refletindo suas cores na água. Todavia, nada daquele espetáculo proporcionado pelos deuses superava a beleza de Reyna; sabendo ser precipitado, a Grace nunca admitiria o que estava sentindo em voz alta, ela achava patético como seu coração estava batendo descompassadamente, em um nervosismo inusitado.
Poderia ser sua carência dando às caras. Ser imortal tinha, obviamente, muitas vantagens; mas algo que não aparece nos livros sobre esses seres é a solidão que sentem. Thalia perdera a conta de quantos amigos viu morrer; era inevitável, depois de umas décadas, decidir que seria melhor não se envolver emocionalmente com ninguém. A única explicação lógica, em sua mente turbulenta, para se afeiçoar tão rapidamente a Reyna, era a empolgação de ter alguém que a entendia nessa jornada solitária de imortalidade, alguém que poderia se apegar sem medo de perder para o tempo.
Ou, claro, sempre tinha a possibilidade de Afrodite estar mexendo uns pauzinhos no Olimpo, entediada com os acontecimentos cotidianos. A deusa era conhecida por gostar de histórias trágicas de amor e, por isso, Thalia implorou em silêncio que esse não fosse o caso. Por mais estúpido que soasse, até mesmo jurou à deusa do amor que lhe faria uma boa oferenda na próxima refeição.
— Você é nova nessa vida infinita? Eu nunca a vi antes. – Thalia continuou, balançando a cabeça com leveza para espantar as divagações.
— Não. – Reyna trocou o peso do corpo de pé e cruzou os braços, na defensiva, como se o assunto a incomodasse. – Só nunca nos esbarramos por aí, eu acho. Terras mundanas são enormes, é trabalhoso visitar todas elas.
— Já passei por todas elas. – dando de ombros, os olhos azuis dela se concentravam em captar todos os movimentos da outra. – Sabe, eu poderia te levar para conhecer o mundo.
— Isso é uma tentativa de me chamar para um encontro? – Reyna abriu um sorriso mínimo, achando graça da situação, sem tirar seu foco do pôr do sol.
Era a primeira vez que esboçava qualquer sentimento positivo que fosse por aquela conversa, e Thalia ficou extremamente feliz por não perder aquela reação. Levou uns breves instantes para que o repuxado no canto de seus lábios rosados e carnudos voltasse ao normal, em uma linha fina.
— Não. – com um sorriso travesso, Thalia colocou-se na frente da garota, forçando-a a olhá-la. Com os olhos escuros pousados nela, prosseguiu: – Agora, oficialmente, é uma chamada para um encontro. Reyna, você quer sair comigo?
— Não. Você não faz meu tipo. – respondeu sem rodeios, sem vontade de se alongar no assunto.
— Como assim “eu não sou seu tipo”? – Thalia até mesmo fez aspas no ar, indignada. Seu rosto se contorceu em uma careta e, ao ouvir Reyna dar a primeira risada do dia, soube que a garota estava curtindo a interação tanto quanto ela.
Reyna deu um passo para o lado, tirando a outra de seu campo de visão; sentia que tinha a obrigação de aproveitar cada segundo e cada ângulo da visão privilegiada do sol se pondo antes de voltar a seu exílio, destinada a encarar uma imensidão negra, sem vida ou cores para distraí-la. Desejava estar sozinha para concentrar-se em decorar todos os tons que atravessavam o céu, para ter algo do que lembrar na ilha que ficava; contudo, bem no fundo, ela sabia que estava gostando de ter Thalia perto, por mais irritante que a achasse.
— Eu vou te convencer com o tempo. – afirmou Thalia, um sorriso petulante em seus lábios. Reyna quase riu mais uma vez, seu semblante sério desfazendo-se aos poucos.
— Não mesmo. – disse, acrescentando mentalmente que era muito provável que não voltassem a se encontrar. Não queria assustar e muito menos preocupar a nova companheira, por isso, manteve-se calada.
Quando o calor do sol abandonou sua pele desnuda, um último raio cortando o mar, Reyna sabia que seu tempo tinha acabado. Era hora de voltar para casa. Com um forte suspiro, murmurou um “preciso ir embora” para a garota ao seu lado e acenou uma vez com a cabeça; uma despedida desajeitada, perante uma conversa estranha e um pouco inconveniente.
— Eu tenho a eternidade a meu favor, sabia? – Thalia zombou, sem abandonar o enorme sorriso. Involuntariamente, Reyna sorriu de volta e deixou a cabeça tombar para o lado, esquentando momentaneamente o coração da outra pelo gesto.
— Feche os olhos, por favor. – Reyna pediu, sem saber como lhe dizer que assim que o céu escurecesse de vez, ela desapareceria; pensando que nunca a veria novamente, escolheu deixa-la sem respostas, perguntando-se o que teria acontecido.
Já sentia o formigamento em seus membros, que precedia sua viagem de volta para casa. De última hora, sentiu seu peito esquentando com a simpatia de Thalia e impediu um sorriso bobo de aparecer em sua boca; sentiu-se mal por partir sem mais explicações, mas, ao sentir os olhos azuis elétricos dela observando-a com certo carinho, soube que tinha tomado a decisão certa. Não poderia permitir que se apaixonassem, já que não havia possibilidade de estarem juntas – amaldiçoou Afrodite, mesmo sabendo que a deusa tinha boas intenções com essa aproximação, e pediu que fizesse a outra esquecê-la rapidamente.
Impulsivamente, Reyna decidiu deixar um presente; insistia para si mesma que era uma espécie de lembrança de despedida inocente, sem envolver sentimentalismo nenhum, para que a garota se lembrasse do encontro esquisito que tiveram na praia.
Thalia obedeceu à contragosto, talvez tentando conquistar a confiança de Reyna. Entretanto, quando tornou a abri os olhos, percebeu com pesar que a garota sumira – na areia, restava apenas algo prata que brilhava entre os grãos de areia. Abaixou-se para pegar o item e, ao reconhece-lo, fechou os dedos ao seu redor. Agora, tinha consigo somente a imagem do sorriso da garota e o presente que ela lhe deixara.
Era a presilha de Reyna, em formato de flecha.
Notas finais
A fanfic vai ser bem short, só com 6 capítulos mesmo (e acredito que esse vá ser o menor deles, pois os diálogos de Thalia e Reyna que virão vão ser mais elaborados, para esclarecer algumas coisas); além disso, tem um mistério no ar pelo desaparecimento da Reyna que vai ficar em aberto aqui...
De qualquer modo, espero que gostem! Acho que não vou demorar a terminar essa fic, e espero não decepcioná-los com a história (sim, a insegurança sempre bate antes de postar... mas fazer o que, né?)
Beijinhos, espero vê-los nos comentários com as impressões de vocês sobre a história e o casal que ainda não é casal hihihi ♥
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