Desconhecido
6 Tocata e Fuga em Ré Menor
“Eu espero que você não se importe
Espero que não se importe que eu expresse em palavras
Como a vida é maravilhosa enquanto você está no mundo”.
Desconhecido
Capitulo 06
Tocata e Fuga em Ré Menor
– Belo paletó – Nate comentou, sorrindo – seu blazer ficou grande demais para mim. Importa-se de eu ir somente de colete?
– Acredito que você deve ficar ótimo com um black-tie do seu tamanho. E nós nem iremos ficar muito tempo lá. Vá do modo que preferir. Estou indo de paletó, porque de uma forma ou outra estou representando minha empresa.
– Entendo – terminou de abotoar o colete de lã fria e escura – venha cá. Deixe-me arrumar a parte de trás da sua gola.
Fiquei de costas para o garoto – que acredito ter ficado na ponta dos pés, devido à diferença de altura. Ele segurava meus cabelos com uma mão e com a outra acertava minha gola. Senti minha nuca e bochechas esquentarem. Soltei um riso nervoso.
Agradeci-lhe e dei graças por ter me afastado. Minha nuca continuou em brasas, o que me obrigou a prender o cabelo num rabo-de-cavalo baixo. Ajeitei minha gravata em frente ao espelho, fechei o blazer e recuperei minhas chaves em cima da minha mesa no quarto.
– Vamos indo? – chamei.
River estava, sem exagero algum, um homem muito charmoso; calça social preta, sapatos lustrosos, um colete cinza e as mangas da camisa social branca dobrado em ¾. Por algum motivo havia decidido não pentear o cabelo grisalho e isso só lhe trazia mais charme ainda.
Porra Mello.
– Vamos? – me chamou do lado de fora – ou chegaremos atrasados.
– Ah... Claro, claro.
Tranquei tudo e dentro do carro observei a mensagem enviada por Halle, que informava o endereço, horário e nome do prédio onde iria acontecer o evento. Tudo havia acontecido muito rápido e agora, nessa altura do campeonato, eu estava me perguntando o que diabos estava fazendo. Por que eu estava indo para esse comitê?
– Dobre a esquerda, Mello.
– Tá bom. Teve noticiais do Matt hoje?
– Na verdade não. Isso é muito estranho?
– Um pouco. Ele meio que mora lá em casa, sabe? – paramos no sinal vermelho. O céu estava nublado, mas o vento tinha cessado e eu estava morrendo de calor dentro do paletó. Queria ligar o ar-condicionado, mas tinha medo de incomodar o garoto.
– E se ele não apareceu por que estou lá? – ele apoiou o braço na janela aberta do carro – se estou atrapalhando em algo pode me avisar Mello.
– Você não está atrapalhando nada. Mail pode simplesmente estar trabalhando. Isso é muito raro – o garoto franziu as sobrancelhas – é aquele prédio ali, né?
– É... É sim.
Era monstruoso. Deveria ter uns cinquenta ou mais andares. Senti-me minúsculo em contraste com o prédio e sei que meu carrinho também se sentiu assim; só havia Mercedes Benz, Ferrari, Lamborghini, Porsche e qualquer outra marca famosa de carro que eu não sabia o nome. Acho que está na hora de trocar meu Ford... Que além e sujo, estava com a lataria amassada do acidente de dias atrás e com um dos faróis sem saber se funcionava ou não.
– Se não quiser sair de dentro da minha banheira que chamo de carro e passar vergonha, não me importo – ri um pouco nervoso. Na verdade, não me importava muito.
– Vamos lá Sr. Keehl – ele retribuiu o riso e me lançou um olhar de confiança – vamos descobrir o que Matarazzo quer e depois compraremos chocolate o suficiente para duas semanas! O que acha?
– Acho perfeito, Sr. River.
Saímos do carro/banheira e nos dirigimos à entrada. O rapaz pediu meu nome completo e então entramos.
O salão era grande e de teto alto. Piso de carvalho envernizado, diferentes tons de marrom nas paredes, pesadas cortinas vermelhas, além de uma escada que parecia eterna. Em um canto, um bar e no outro, casais dançavam.
– Mihael – o garoto ao meu lado chamou – seja lá o que for não entre no jogo de Matarazzo, certo? Não concorde com nenhuma oferta ou proposta antes de pensar sobre a mesma.
Nate estava com um semblante sério e olhos passivos. Olhava tudo ao redor, como se analisasse a situação, com uma calma de me tirar os nervos. Ainda bem que River estava do meu lado. Odiaria ser analisado daquele jeito.
– Vamos acha-lo de uma vez, para irmos embora – disse.
Comecei a passar os olhos na multidação e achei o vice-presidente da Sublime: Raito Yagami. Um rapaz de quase 30 anos, com olhos castanhos sangrentos. Era arrogante e se achava “O dono da razão”. Sempre que dava entrevistas para a televisão passava a impressão que não havia nada e ninguém à cima dele, fora, claro, o próprio Matarazzo. Usava um terno bege e gravata azul.
– Ali – indiquei com um balanço de cabeça – Yagami é o vice-presidente da Sublime. Deve saber onde está Matarazzo.
Quando nos aproximamos, Yagami lançou o seu mais famoso olhar de reprovação, mas manteve sua compostura. Estava de braços dado com uma garota de cabelos escuros e vestido brilhante azul celeste.
– Boa noite, Sr. Keehl. Como posso lhe ajudar?
– Boa noite, Yagami – o encarei – senhorita. Recebi a ligação de Halle. Diz que o Sr. Matarazzo tem um assunto para tratar comigo. Sabe onde posso encontra-lo?
– O Sr. Matarazzo provavelmente está na sala seguinte, onde há um órgão, que aprecia muito tocar. É depois daquela porta. Posso acompanha-lo se quiser.
– Não será preciso, obrigado. Tenham uma boa festa. Vamos Nate.
O garoto de tons grisalhos manteve-se quieto. Na sala seguinte, encontramos o presidente da Sublime, tocando Tocata e Fuga em Ré Menor de Bach. Era sinistro de uma forma ou outra. Várias pessoas ao redor dele o prestigiavam em silêncio absoluto. Eu tinha que admitir que o cara tocava pra caralho e a cada nota, um pelinho da minha nuca se eriçava.
Quase seis minutos depois a música cessou. As pessoas ao redor bateram palmas e eu pude me aproximar. Era um homem de quase 1,90cm, de pele clara e cabelos e barba cinza. Estava em boa forma para sua idade. Trajado a rigor, quem o olhasse, diria que era um bom e bondoso homem.
– Boa noite, Sr. Matarazzo. Sou Mihael Keehl, vice-presidente da empresa Cocoa Empire. Recebi uma ligação de sua secretária, Halle.
– Ah! Claro! Pedi para ela lhe ligar mesmo – o inglês dele puxava para o italiano de forma brusca. Ele não parecia se importar, na verdade, aparentava ter até orgulho do sotaque – por favor, me chame de Lorenzo. Garçom, três taças de champgne, rápido. E você, é?
– Sou Nate River. Somente um acompanhante do Sr. Keehl. Muito prazer.
O rapaz chegou então com as três taças de bebida e nos serviu. Matarazzo nos chamou para sentar.
– Acho que podemos ir direto ao assunto: admiro seu trabalho e determinação. Aos vinte cinco anos e já é vice-presidente de uma grande empresa, por mais que essa seja nossa concorrente – ele soltou um risinho debochado – então decidi lhe fazer uma proposta pessoalmente.
Olhei para Nate que observava tudo quieto, mas com um olhar felino. Matarazzo continuou.
– Estou a ficar... De um modo nada elegante de falar, velho demais para o cargo. Preciso de férias. Preciso de alguém como você para assumir o cargo na Sublime. Digamos que você assumiria o cargo de presidente, mas seriamos parceiros; eu não perderia minha autoridade na empresa. E você, além do cargo máximo, um salário altíssimo, iria ver... Outro modo de administração de uma empresa, me entende? – ele tomou um gole demorado da sua taça – é vantajoso tanto para mim quanto para você.
– Entendo sim. Mas algo me incomoda... Por que não Yagami? Por que procurou alguém de fora? Ou melhor... Alguém da concorrência...
– O fato de você ser um empregado da empresa concorrente pouco me importa. Seu trabalho é bom e você é leal. Reparo como defende a empresa com unhas e dentes. Acredito que a Cocoa Empire não lhe dá o devido valor. Nós, da Sublime, iríamos lhe dar todo o valor e prestigio que merece. E Raito é um rapaz dedicado, mas é dedicado até demais. Ele é perspicaz e não mede esforços para alcançar seu objetivo. Se eu lhe passasse o cargo de presidente, logo estaria fora da jogada.
– Como foi dito, Sr. Matarazzo...
– Lorenzo.
– Sim, Lorenzo. Sou leal e defendo a Cocoa Empire com unhas e dentes. Sou muito bem pago e bem tratado por lá – queria também falar sobre eu ser totalmente contra o modo de administração dele e da Sublime, mas resolvi ficar de boca fechada. Eu estava cercado de funcionários e empresários ligados a mesma. Não queria sair de lá com hematomas ou nas mãos de um bruto segurança.
– Mas na Sublime não há comparações!
– Lamento, mas terei que recusar.
– Pense bem senhor Keehl. É uma oportunidade única na vida – ele se levantou e ajeitou a gravata borboleta – te darei uma semana para pensar na proposta. Espero, sinceramente, que faça a escolha correta. Não o quero na concorrência e se recusar minha proposta, terei de tomar providencias. Aproveitem a festa – ele sorriu – bebam ponche. Está uma delícia.
Lorenzo Matarazzo saiu de perto, em direção ao salão principal.
– Você notou o tom de ameaça, né? – o garoto sentando na cadeira do meu lado perguntou.
Passei a língua nos meus lábios secos e suspirei. Não tinha como não notar. Por que eu tinha vindo mesmo? Eu sou retardado ou o que? Por que eu ainda não me isolei? Arbustos não iriam ficar por aí tocando Órgão e me ameaçando.
– Vamos embora? Estou morrendo de calor.
– Claro.
Quando saímos do prédio, afrouxei a gravata e abri os primeiros botões da camisa. Um dos manobristas apareceu aparentemente feliz, mas depois ficou com uma cara tristonha ao descobrir que eu próprio havia estacionado meu carro. E depois ficou feliz de novo, ao descobrir que meu carro na verdade era uma banheira gigante.
– Você quer sair pra beber algo? Tem um bar muito bom aqui por perto – ofereci, olhando o prédio se distanciar pelo retrovisor.
– Não... Nós temos que falar sobre isso, Mello. Vai realmente recusar a oferta?
– Eu não sei. Mas a minha vontade de trabalhar na Sublime é tão pequena como é a vontade de parar de comer chocolate. Ou seja, é nula – eu ri, esperando uma reação mais calorosa do garoto, que não veio.
– O tom dele foi de ameaça Mihael! Não brinque. Temos que descobrir o que vamos fazer. Acho que policia está fora de cogitação... É bom conversar com um advogado para descobrir o que podemos fazer nesse caso.
– Acha que foi tão sério a ponto de procurarmos advogado já?
– Ele é um homem rico. Seu nome vive no noticiário e nunca é necessariamente para algo bom. Se você também notou o tom na voz dele, não é coisa da minha cabeça. “Não o quero na concorrência e se recusar minha proposta, terei de tomar providencias” o que você acha que é essa providencia? É claro que temos que deixar alguém a par do caso.
– Tá bom, então...
Eu não sabia se ficava puto comigo mesmo de ter ido a festa, se ficava feliz por ver Nate se preocupando comigo ou com medo.
O resto da corrida foi silenciosa. Quando chegamos, eram quase onze horas. O céu rugia, trovões e relâmpagos brilhavam no céu.
– Finalmente em casa – sorri. Tirei o blazer, gravata, sapatos; soltei meus cabelos e peguei uma toalha limpa.
Na secretária eletrônica tinham duas novas mensagens. Apertei Play, enquanto terminava de me despir.
– Você tem... Duas novas mensagens.
“Er... Olá Mihael. Sou o irmão mais velho de Nate, Lawliet. Por favor, peça que Nate me retorne esta chamada o mais rápido possível. Nossos pais chegaram hoje e querem explicações”;
“Quem diabos é você? Atropelou meu filho e ainda o carregou para fazer o que? Molestar? Impedir que ele preste queixa? Se Nate não me retornar essa ligação em 24hrs, vou procurar a polícia!”.
E Tocata e Fuga em Ré Menor parecia ainda soar ao fundo.
13 de julho de 2015.
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