Desconhecido
7 O falso jogo teatral
Notas iniciais
– Você tem... Duas novas mensagens.
“Er... Olá Mihael. Sou o irmão mais velho de Nate, Lawliet. Por favor, peça que Nate me retorne esta chamada o mais rápido possível. Nossos pais chegaram hoje e querem explicações”;
“Quem diabos é você? Atropelou meu filho e ainda o carregou para fazer o que? Molestar? Impedir que ele preste queixa? Se Nate não me retornar essa ligação em 24hrs, vou procurar a polícia!”.
E Tocata e Fuga em Ré Menor parecia ainda soar ao fundo.
Desconhecido
Capitulo 07
O falso jogo teatral
– E depois?
– Nate pediu para eu deixar ele duas casas antes da dele. Insisti que iria falar com o pai dele numa boa, mas ele não deixou. Disse que estava me poupando uma dor de cabeça.
– Que cuzão.
– Como é? – me virei para o ruivo. Era cedo e frio. Os carros faziam fila na pista larga.
– O pai dele. Não ele...
– Ah tá... – peguei meia barra de chocolate do bolso da jaqueta jeans. Era um chocolate suíço meio amargo com avelãs, a grande aposta da temporada.
– E mesmo se eu estivesse chamando o Nate de cuzão. E daí? Nunca ligou pra isso. Se alguém me chamasse de cuzão, você concordaria.
– Ele não fez nada pra ser “enrotulado” assim.
– Essa palavra nem existe, Mell. Você está claramente tentando defender seu pequeno garotinho e...
“Pequeno garotinho”... Gostei disso.
Porra Mello.
Bufei. A conversa com Matarazzo na noite passada ainda me deixava aflito, fora, claro, a expressão de “estou cansado disso” de Nate quando soube da mensagem amorosa de seu pai na minha secretária eletrônica.
Quando a escutei, soltou um suspiro e depois um bocejo. Arrumou suas coisas e me pediu para levá-lo de volta. Perguntei se tinha certeza disso e acenou com a cabeça. Chegamos a sua rua e ele me olhou nos olhos, como se quisesse dizer algo, mas não tivesse coragem. Queria falar a língua das expressões faciais. Ele tinha meu telefone, quem sabe não ligaria?
– Quer que eu dirija, Mello? – Matt perguntou.
– Hã?
– Se não sairmos do lugar hoje, seremos linchados pela galera atrás da gente.
Olhei o retrovisor e a pista à frente. Os carros na minha frente já tinham partido e agora os carros das outras pistas estavam entrando na minha frente e indo embora. Acelerei.
– Onde disse que vai ficar mesmo?
– Logo ali. Vou consertar um Atari, você acredita? Acharam lá perto da empresa, em Sunnyvale. Estou realmente animado! É um dos primeiros!
– Mas Atari é no Basco, não na Califórnia! Né?
– Lá é Ataria, não Atari. Atari é um videogame antigo, de década de setenta pra ser mais preciso. O que a galera achou lá em Santa Clara é um Atari 2600. Deve ser maravilhoso...
– Se você diz. É aqui né?
– Uhum. Mais tarde passo por lá com meu novo filho – disse saindo do carro – e Mihael; cuidado com esse tal de Matazzo. Ele é fruta podre.
– Pode deixar – sorri.
Havia também contado para Mail sobre a conversa estranha com Lorenzo Matarazzo. Ele parece ter ficado tão alerta quanto Nate havia ficado. Disse que devia mesmo seguir o conselho de River e procurar um advogado, pois “todo cuidado é pouco”.
Peguei outro trânsito pesado até a Sede da Cocoa Empire. Passei reto todos que me desejaram bom-dia e me joguei na cadeira da minha sala. Olhei a papelada em cima da minha mesa e o lembrete de uma reunião marcada para as três da tarde com alguns sócios. Deveria ainda repassar com o presidente o que iríamos falar.
Acessei o site da CNN, a fim de procurar novidades no mercado. No foco principal, em letras garrafais: BEYOND BIRTHDAY e uma foto de fundo preto com uma interrogação. O cara estava sendo procurado aqui mesmo na Califórnia por três assassinatos.
– Mihael! – chamou o secretário do presidente, Halle Lidner – problemas!
– O que houve? – perguntei torcendo para não ser nada sério. Só um ataque de histeria ou algo do gênero.
– Acabou de passar no jornal sobre barras infectadas com “algo” – ela disse – várias pessoas foram parar no hospital ontem e hoje. Dizem que tentaram contato com a empresa, mas nenhum telefonema foi recebido. Foram as cargas de chocolates com amêndoas. Mas todos os nossos produtos da última semana foram retirados das prateleiras dos estabelecimentos e tem um grupo de pessoas falando em processo!
– E o que é esse “algo”? – me levantei. Provavelmente o presidente não tinha escutado essa noticia ainda – não fui relatado sobre nada diferente nas fábricas.
– Parece que jogaram algum produto nocivo... Não sei direito. Algo como ácido bórico ou chumbo. Talvez algo mais pesado.
Sentei novamente e apertei minhas pálpebras.
– Em qual região foi relatado esses problemas?
– Quase todas daqui do estado. Somente a fábrica central e a do sul se livraram.
– Tivemos uma grave falha de segurança... Não é possível que em todas as fábricas tenham “encostado” e derramado no mesmo chocolate. Ok, Halle, faça o seguinte: uma amostra de cada um dos ingredientes, de todas as fábricas; mande-as para examinar. Tenho que falar com o chefe. Alguém tem que ir a público.
– Certo – e escutei o barulho do salto se distanciando.
É, acho que a reunião estava cancelada.
Liguei para o laboratório filial e confirmei que logo diversas amostras estariam chegando por lá, em nome da empresa.
Meu celular apitou. Um SMS de um número desconhecido: “Vi no noticiário o que aconteceu. Tome cuidado Mello. Essa história está muito mal contada e depois da conversa de ontem com Matarazzo, não duvide de nada. Retorne-me nesse mesmo número caso queira conversar depois. Nate.”.
Matarazzo. Ele seria tão descarado assim? Era óbvio! Quais as chances dele me procurar num dia e no outro as ações da Cocoa Empire caírem?
Revirei minha gaveta atrás de uma caixa de bombons que tinha guardado. Comi nervoso três doces, pensando seriamente no que iria fazer agora. Caso falasse com o presidente sobre minha conversa ontem com Matarazzo, ele ficaria puto; claro, até porque o que diabos eu queria aceitando o convite de Lorenzo? Mas era preciso.
Liguei para Halle e a mandei entrar em contato com todos os sócios que viriam hoje. Descobri que vários carros e repórteres estavam do lado de fora do prédio e que os seguranças estavam trabalhando muito para mantê-los fora.
– Caralho... – suspirei – será que foi tão sério assim?
Acessei novamente o site da CNN. Agora a logo da Cocoa Empire dividia aba com Beyond Birthday e Ataques na Síria. Tudo era totalmente revoltante.
“PRODUTOS ADULTERADOS DA COCOA EMPIRE LTDA. TRAZ RISCOS FATAIS A SAÚDE.
Nesta manhã de segunda-feira (08/12) diversas pessoas deram entrada nos hospitais públicos e particulares da Califórnia, devido uma grave infecção. Com exames mais apurados, foi-se descoberto que substâncias químicas, ainda não divulgadas, estavam presentes em barras de Chocolate com Amêndoas, com datas de produção 06/12, da empresa Cocoa Empire.
Nenhum representante da empresa até o presente momento veio a público. O presidente, Anthony Carter, cujo herdou a empresa de seu falecido pai, Orlando Carter, não atende ligações e não se pronunciou por redes sociais.
Mihael Keehl, vice-presidente, foi fotografado ontem (07/12) numa festa particular e exclusiva da Sublime Ltda., empresa concorrente.”
Bando de filho da puta!
Caralho!
Liguei novamente para Halle, que atendeu rapidamente. Sentia meu estômago revirar.
– Tu viu o que esses filhos da puta escreveram sobre mim?!
– E é verdade? Anthony está nervoso também. Quer falar contigo.
Engoli seco. Merda.
– Recebi uma ligação da secretária de Matarazzo ontem. Fui para a tal da reunião mais por curiosidade.
– Mello, isso você vai ter que explicar para o presidente, antes que ele te esfole. Eu acredito em você, sei que não é má pessoa.
– Ok... Já estou indo.
Dei-me conta então que era tudo armação e eu tinha caído feito um patinho. Com um simples gesto meu, eu coloquei a imprensa contra mim, além da empresa. E eles tinham razão em questionar. Era tão simples e tão perfeito... Como eu sou estúpido!
Saquei o telefone e telefonei para Nate. Ele logo atendeu.
– Estou ouvindo – sua voz veio do outro lado da linha. Trouxe-me conforto, mas então percebi: por que eu tinha ligado? Para falar o que?
Fiquei quieto, só ouvindo a respiração de Nate do outro lado.
– Não vai acontecer, ok? Só mantenha a calma. Conte sua versão e como eu falei ontem, procure um advogado. Você não vai perder seu cargo.
– Obrigado... – falei finalmente – está tudo bem na sua casa?
– Não se preocupe. Meus pais estavam mais preocupados porque acharam que eu tinha fugido para não cursar a faculdade – ele soltou um risinho – depois marcamos para tomar um chocolate quente, Mello. Se você se dar bem na missão de hoje.
– Tudo bem... – aquele garoto parecia me abraçar via-telefone. Senti meu estômago aquietar um pouco e minha mente clarear vagamente – eu não tenho medo de perder a guerra, pois no fim da guerra todos perdem.
– Er... Mais ou menos por aí. Me ligue depois. Quero saber se está tudo bem.
– Claro... Tenho que ir agora. Obrigada Nate.
Tomei postura e sai da minha sala. Recebi vários olhares tortos; eu podia sentir os olhares pesados nas minhas costas e as pessoas cochichando “e ainda tem coragem de voltar para cá”.
Sai do elevador e avistei Halle, que me chamou com a mão.
– Ele está, literalmente falando, puto. Tome cuidado com o que fala, Mell.
– Tudo bem.
Abri a porta da sala e Anthony Carter, estava sentando em sua cadeira chefe, com os olhos fechados e as mãos cruzadas. Ele era branco e loiro, com cabelo e porte militar. Tinha um olhar sério demais para um cara de trinta e dois anos, mas era gente boa. Só um pouco reservado.
– Mihael. Sente-se – ele abriu os olhos azuis e me encarou – agora me explica, que merda é essa – e virou o notebook com a mesma reportagem que eu havia lido.
– Ontem recebi uma ligação da secretária de Matarazzo. Disse que ele queria falar comigo e que esse comitê seria a oportunidade perfeita. Eu sabia que seria uma proposta – o olhei cuidadosamente – só queria sentir o gostinho de falar um “não” na cara dele, então fui.
– Prossiga.
– Recebi a proposta de presidente, mas recusei. Então fui embora – é, eu pulei a parte em que recebi uma ameaça super amigável de Matarazzo.
– Presidente? – franziu o cenho. Levantou e se serviu conhaque – e foi só isso? E o que me diz sobre esses produtos nocivos em nossos produtos. Não acha coincidência demais?
– Eu... — olhei para a janela – eu recebi uma ameaça de Matarazzo. Disse que se eu não aceitasse sua proposta, teria de tomar providencias. Acredito que essa é uma delas.
– E por que diabos Lorenzo Matarazzo lutaria tanto para te ter na presidência da Sublime?
– Aí que está o “porém”. Não é exatamente presidente. É tipo... Uma marionete dele. Ele controlaria tudo em meu nome.
Anthony ficou quieto e parece ter acreditado. Ou quase isso...
– Vá para a casa Mihael. Tire o dia amanhã de folga. E eu não quero questionamentos. Vá pelos fundos, onde não há reportes. Eu vou me pronunciar hoje à tarde.
– Mas senhor...
– Agora!
Levantei e sai da sala. Ignorei as perguntas da secretária loira e desci pelas escadas. Liguei para um táxi e fui pra casa, deixando meu carro no estacionamento da empresa. Eu recusei a proposta de Matarazzo de ser sua marionete e mesmo assim fui! As ações da empresa estavam caindo agora e nossos produtos fora de circulação.
Em casa, me joguei no sofá e liguei a televisão.
“O assassino conhecido como Rue Ryuzaki, "B" e "BB", Beyond Birthday foi preso agora à noite, acusado de matar três pessoas.
Sua primeira vitima, Believe Bridesmaid, foi morto em 31 de julho de 2002. Foi drogado e em seguida sufocado por uma corda. Na cena do crime, quatro bonecos de palha foram encontrados.
Sua segunda vítima, Quarter Queen, foi morta quatro dias depois. Também foi drogada antes de sua morte por traumatismo craniano. Foram encontrados três bonecos de palha na cena do crime.
Sua terceira vitima, Backyard Bottomslash, foi morto nove dias depois de Queen. Teve seu braço e perna decepados e morreu devida perda de sangue. Foram encontrados dois bonecos.
E por último, o que fez Beyond Birthday cair, foi seu último assassinado: o próprio. Ele pretendia cometer suicídio e um último boneco de palha foi encontrado consigo antes de praticar o ato de suicídio.
Birthday foi preso e recebeu a sentença de prisão perpétua. Sua última frase foi: "Se eu pudesse ver a morte do mundo.”.
Levantei, fui até a cozinha e peguei uma lata de cerveja. O noticiário já tinha mudado:
“três pessoas estão internadas em estado grave devido a infecção causada pelo chocolate da empresa Cocoa Empire.
Outras doze, dos quais, quatros são crianças, foram medicadas e mandadas para casa.
Outras informações a qualqu... Espere! O presidente da Cocoa Empire, Anthony Carter está saindo! Por favor, senhor, algo a dizer sobre seu vice-presidente, Keehl?
– Sim. Ouvi sua versão de fatos e acredito que isso tudo não passa de um mal entendido. Ele sempre foi um bom empregado e não acredito que tenha algo a ver com o presente acontecimento. Amostras dos ingredientes foram enviados para análise. Iremos ressarcir todas as empresas que adquiriram nossos produtos nos dois últimos dias. Por hoje, é só”.
Os animais, chamados repórteres continuaram questionando um monte de coisa em cima de Anthony, que conseguiu entrar no carro.
Mandei uma mensagem para Nate: “Pode parecer estranho... Sou um estranho e um estranho mal visto nacionalmente de momento. Mas quero te ver. Quer sair pra algum lugar?”.
21 de julho de 2015.
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