Mandei uma mensagem para Nate: “Pode parecer estranho... Sou um estranho e um estranho mal visto nacionalmente de momento. Mas quero te ver. Quer sair pra algum lugar?”.

Desconhecido

Capitulo 08

Blue Moon

Era dia de lua azul¹, portanto a lua estava gigantesca e amarelada desde cedo. Um dia perfeito para pactos de sangue e também para os lobisomens, que tinham a luz perfeita para uma dança e um banquete sangrento no meio da floresta escura. Podia ser o dia perfeito para um casal tirar foto em cima de algum prédio, talvez até mesmo de cima da Torre Eiffel.

Era uma noite de lua azul.

Uma noite bonita demais para o dia que eu havia vivido. Acreditava ainda de que algo melhoraria, mas não era nada concreto, era só um fio de esperança mesmo. Afinal, “a esperança é a última que morre”; isso era um ditado popular de algum país, mas não me recordo qual.

“Gostaria de sair sim, mas não posso te dar uma resposta agora, tá bom? Tenho que resolver umas coisas”.

“Sem problemas ;)” Foi o que respondi. Eu fiquei magoado sim, mas entendia. Ontem mesmo seus pais haviam chegado de viagem e encontrado seu filho na casa de um completo desconhecido. Nate era um garoto novo, com a papelada pronta para entrar na faculdade. Era um garoto esperto, portanto não ia foder com a própria vida só pra sair comigo.

O relógio bateu sete horas, o céu escuro e o vento gélido. Meu celular vibrou. Àquela altura do campeonato acreditei que era um SMS do tipo “seu filho da puta traidor”; o que me incomodaria bastante, pois essa mensagem foi a que a mãe de um garoto de 10 anos enviou para seu ex-companheiro antes deste matar seu filho; ao menos foi o que li na primeira página do jornal da última quarta-feira. Claro que eu não estou me comparado à um assassino, mas a frase tinha tantos significados...

Mas era River: “estou livre, Mell. Pra onde vamos?”.

“ainda não pensei nisso... alguma ideia?”

Ele demorou um pouco para responder e eu constatei que ele estava repensando em aceitar. Talvez pensando em uma desculpa. Talvez pensando em como dizer “não” sem me magoar muito.

“hm... só vamos sair. decidimos o que fazer juntos. Pode me pegar daqui meia hora?”

“claro. em meia hora passo aí”.

Queria mandar um “obrigado” no final da mensagem, mas travei. Era bobagem. Não era? Talvez me fizesse parecer desesperado.

Entrei no banheiro por cinco minutos, talvez oito. O que vestir? Por mais que ainda iríamos decidir o que faríamos, eu não acredito que nosso destino seria um restaurante chique, que exigisse um terno ou calças de brim cáqui. Meu guarda-roupas era velho, segundo Matt. Eu gostava muito de couro, jeans e algodão. Ainda podia escutar o ruivo gritando “você parece que nunca conseguiu largar o meninão que você era quando escutava Guns e Bon Jovi, né?”, enquanto tirava minhas roupas das caixas, durante uma das minhas mudanças constantes de casa. Os anos oitenta não saíam de mim e eu não saía dos anos oitenta.

Jeans azul básico e minha camisa de algodão branca, já surrada até. Fiz uma trança frouxa no meu cabelo ainda úmido e coloquei uma bota baixa, preta e confortável. Se Matt me visse agora, soltaria um “está tentando roubar o papel do Tom Cruise em Top Gun 2², Mello?”. Talvez o do Johnny Depp em Cry Baby³. Só me falta o gel.

Sai de casa e dirigi um bom tempo distraído. Cheguei à casa dos River’s acredito que atrasado já. O garoto me esperava do lado de fora, com um sorriso divertido. Trajava uma calça leve e escura, como se fosse fazer caminhada logo de manhã cedo e um blusão cinza realmente largo, com as mangas puxadas. Ele estava lindo sim... Nada ali combinava exatamente, mas ele era lindo.

— Me atrasei muito?

— Na verdade não muito. Eu me vesti assim porque acredito que não vamos para nenhum lugar muito importante. Quer que eu vá me trocar?

— Eu pensei a mesma coisa – sorri para River, enquanto ele entrava no carro – dezenove anos, é?

— Dezenove.

— Não que eu seja um cara que ignora completamente leis, mas...

— Beber? – riu — se for conhaque eu aceito – olhou pelo vidro do carro – mas não quero ir para um bar.

— Posso comprar algo e nós... Vamos lá pra casa?

— Acho que tenho uma ideia... Mas primeiro vamos comprar o que quer comprar.

Dirigi para o mercado 24hrs mais próximo. Comprei duas barras de chocolate, uma garrafa de conhaque – a mais cara que achei – e algumas latas de cerveja barata e uma carteira de cigarros Marlboro azul – havia anos que eu não fumava um cigarro, mas depois do estrago de hoje, a vontade bateu de volta. Não fumaria estando junto de Nate e quem sabe, quando a vontade passasse, eu desse a carteira para Mail.

— Okay, qual é plano?

— Irmos para o parque aqui perto. Em dias da semana assim está completamente vazio. Será bom para você esfriar a cabeça, sabe? Podemos conversar, encarar a lua...

— Qual parque?

— O Sand cove park beach; é só pegarmos a rota 99 e dobrar na 50. É perto de Beatrice. Lá é quase deserto e o lago corta o parque.

— Você não tem horário pra chegar?

— Digamos que eu não estou me importante muito Mihael...

— Não traga confusão para nós. Dá mesmo pra ir sem teus pais cacarejarem?

O garoto riu um pouco alto e depois acenou com a cabeça, confirmado que não tinha problemas. Mentiroso...

Foi uma viagem de mais ou menos uma hora e meia. Ouvimos músicas variadas que passavam na rádio, mas ninguém ousava dizer uma palavra e interromper o silêncio. O vidro meio aberto da porta de trás nos trazia uma rasa ideia de como o frio do lado de fora estava cortante. Era uma ideia estranha...

Era uma ideia de adolescentes dos anos oitenta.

Chegamos ao parque. Era escuro e me dava calafrios. Parecia que qualquer tipo de monstro, assombração ou doente mental pularia da escuridão e nos agarraria o pescoço.

— Olhe ali. Vê as marcas de pneu? São de uma vã que sempre pára na margem do lago. Vamos por ali.

— Tá bom... – concordei e segui a pequena trilha de terra. Chegamos à beira do lago e eu estacionei o carro de lado. Travei as portas e subi os vidros, dando um sorriso amarelo pro garoto do meu lado.

— Não se sinta mal, Mell.

— E-eu... Estou ótimo – corei. Eu quando garoto de oito anos, não conseguia dormir a noite depois de assistir os filmes de terror da meia noite. Isso me trouxe um trauma que eu carreguei até os dezessete.

O garoto sorriu e ajustou o banco, deixando-o o mais curvado que conseguiu. Tateou o banco de trás, em procura das bebidas e abriu o conhaque. Derrubou uma porção generosa no copo que vinha junto da bebida e tomou um longe e demorado gole. Eu observava o garoto e sentia meu peito mais quente.

— Olhe a lua... É uma lua azul, sabia?

Pisquei, acho que rápido demais, zonzo. Peguei uma das barras de chocolate e dei uma mordida.

— Lua azul? – me fingi de desentendido. Gostava de ouvi-lo explicando as coisas.

— Sim. É a segunda lua cheia de um mesmo mês. Por isso está tão grande e brilhante – explicou, puxando as mangas da camisa para o devido lugar – quer um gole?

— Eu aceito – tomei o copo da mão do garoto e bebi devagar, sentindo a garganta e todo o corpo esquentar gradativamente. Fechei os olhos e apreciei a sensação.

— O que pretende fazer com Matarazzo?

— Eu ainda não pensei sobre isso Nate... Na verdade, nem quero.

— Já procurou seu advogado, Mihael? – ele me olhou com o olhar rígido, servindo-se novamente.

— Não... – abaixei a cabeça, como uma criança que estava sendo repreendida por não ter feito a lição de casa – não está com frio? Matt saiu com o carro um dia desses, dormir na casa de alguém e deixou alguns cobertores e travesseiros no porta-malas.

— Eu estou bem, mas... E você com essa camisa fina? – ele levantou as sobrancelhas e levou uma das mãos aos cabelos, enrolando os fios grisalhos, assim como no dia que lhe conheci – acho que deve ir pegar sim.

Animado me ajeitei para sair do carro, mas parei logo que olhei para as árvores escuras ao meu redor. O brilho fantasmagórico da lua refletido nas águas calmas do rio e o som do vento uivando na lataria do Ford. Suspirei fundo e destravei a portas, sai. Estava frio. Todos os meus pelos se eriçaram, desde as pernas até a nuca. Corri e abri o porta-malas. Peguei dois travesseiros gordos e brancos e um edredom azul. Corri de volta e travei as portas. Eu estava a salvo.

Porra Mello.

Suspirei alto e comi mais da metade da barra amarga em uma só mordida.

— Posso sugerir algo estranho? – o garoto perguntou. Suas bochechas estavam vermelhas e um sorriso bobo dançava em seu rosto. Não, ele não estava bêbado ainda. Ainda. Estava só alegre.

— Diga.

— Apoia a cabeça no meu colo.

Minha cabeça girou, meu coração acelerou. Era ridículo tudo aquilo, todo aquele showzinho do meu corpo me dizendo “ei! daqui a pouco você vai ter um ataque cardíaco, okay? só vai doer Mihael!”. Óbvio que Nate estava falando na maior inocência, pois ele parecia um anjinho com aquele suéter grosso que era maior que ele.

Coloquei um dos travesseiros no vão entre os dois bancos e me deitei. Ele puxou o outro travesseiro e colocou entre mim e suas pernas. “olha que bonitinho! os pombinhos vão começar a namorar agora ou você vai chamá-lo de mamãe?” eu não sabia se era a minha consciência falando, se era Matt falando ou se era uma árvore ou arbustos rindo da minha falta de jeito com a situação.

— Já reparei que você tem uma cicatriz extensa no ombro. Como a conseguiu? – ele sorriu, passando os dedos nos meus fios. O pedaço de carne em meu peito batia forte; eu o escutava ligeiro nas minhas orelhas e o sentia nos meus pulsos.

— Não foi numa festa de Halloween – ri nervoso. Eu acho que o ataque cardíaco tinha começado e eu senti falta de ar. O cheiro de conhaque e de perfume noturno que emanava do garoto era aconchegante e acolhedor. Era impactante e quente com notas de madeira e couro. Era estranho. Estranho... – foi na faculdade. Eu... Tava dando uma de cuspidor de fogo com álcool e dancei.

Ele riu e afundou os dedos cálidos no meu couro cabeludo. Fechei os olhos lentamente, sentindo o carinho. Isso era extramente gay. Isso era um sinal?

— A noite está realmente gostosa e quente, não acha? – River me olhou nos olhos. Os olhos dele agora me lembravam do dourado do conhaque morno. Ele abaixou o rosto com um tanto de dificuldade e me deu leve beijo na maçã do rosto. Senti meu estômago formigar — vous êtez beau. Une des plus belles âmes que je ai jamais rencontrés. Ne dort pas Mell.

Não importa o que foi dito. Eu sonhei com Nate River aquela noite.

30 de julho de 2015

Notas finais
Lua Azul¹ é a segunda lua cheia de um mesmo mês. Ocorrerá amanhã (31/07). Top Gun² é um filme norte-americano de 1986, do gênero ação, dirigido por Tony Scott. Cry-Baby³ é um filme estadunidense de 1990, uma comédia dirigida por John Waters. Marlboro é uma marca de cigarros do grupo Altria.