Desconhecido
9 River
– A noite está realmente gostosa e quente, não acha? – River me olhou nos olhos. Os olhos dele agora me lembravam do dourado do conhaque morno. Ele abaixou o rosto com um tanto de dificuldade e me deu leve beijo na maçã do rosto. Senti meu estômago formigar — Tu es belle. Une des plus belles âmes que je ai jamais rencontrés. Ne dort pas Mell.
Não importa o que foi dito. Eu sonhei com Nate River aquela noite.
Desconhecido
Capitulo 09
River
– Sr. Keehl, entende a gravidade do que está me dizendo?
– Entendo sim.
– O está acusando de Ameaça, contra a liberdade individual, o St. Matarazzo. Diz que tem testemunha correto? River?
– Sim, sim. É um amigo que me acompanhava na ocasião.
– E acredita que ele irá depor a favor do senhor?
– Acredito que sim.
– Bom... – ele encostou as costas na cadeira de couro e cruzou as pernas e os braços – o senhor não é bobo. Sabe quem é Matarazzo e sabe também que por mais encrencado que esteja ele irá se livrar. Seja subornando o juiz, seja ameaçando o juiz. Tem certeza que deseja entrar contra ele? O senhor tem uma testemunha, que sabe cada palavra dita por ele. Mas não acha que é muitíssimo fácil para Matarazzo te acusar de injúria contra sua pessoa?
– Como assim?
– Um caso como esse já está nos jornais. Você o estaria acusando de fraudar a empresa Cocoa Empire; de invadir e trocar produtos, causando assim, a internação de várias pessoas e a queda das ações da empresa. Um caso como este apareceria na primeira página dos jornais, no mínimo a segunda. Caso consiga subornar o juiz novamente, você pode ser preso por injúria e difamação. Se confirmado, você pegaria pena de três a seis anos de prisão, além de multa, por que... Digamos que seria o “dobro”, uma vez que você estaria abrindo processo contra Matarazzo e contra sua empresa, no caso a Sublime.
– Entendo... – respondi abatido. Observei um pombo que me encarava do parapeito da janela de vidro reluzente e apertei os olhos. Eu odeio pombos – vou pensar, certo? Até amanhã trago-lhe uma resposta.
– Claro, Sr. Keehl – ele se levantou e eu acompanhei o gesto.
– Obrigada por seu tempo, Weatherly – lhe apertei a mão.
Bufei quando sai da sala apertada e encarei o longo corredor que acabava num ameaçador elevador. E cá estávamos, eu e meu medo de ambientes fechados, no quadragésimo terceiro andar. Capturei meu telefone do bolso da calça e mandei um SMS para Mail.
“onde vc está?”
Aguardei alguns minutos, na esperança de ser respondido, mas nada aconteceu. Quais as chances de eu sobreviver descendo nas escadas?
– O senhor vai entrar? – uma moça estava com pé segurando a porta do elevador para mim.
– Hã... – nos segundos seguintes minha mente viajou em milhares de tipos de acidentes que ocorriam em um elevador e em como Nora Carpenter perdeu a cabeça para um deles emPremonição 2 – claro... Claro que eu vou.
Entrei no ambiente, suguei o máximo de ar que conseguia e fechei os olhos, ignorando aquele baque inicial que a Gigante Caixa de Metal dá quando inicia o processo de funcionamento.
– Qual andar? – a voz da moça simpática agora parecia distante.
– Térreo. Por favor.
– Ah, também vou pra lá! – ela respondeu e eu abri os olhos para encarar a moça. Tinha a pele em um bonito tom de café e o cabelo era bem encaracolado e alto, como um Black Power, só que bem mais feminino. Vestia uma saia preta e justa que ia até seus joelhos e uma camisa social, que eu acho que combinava com seu sapato de salto alto. Mantinha uma pasta azul junto ao peito. Era uma moça simpática e bonita. Em outras circunstâncias eu perguntaria seu nome.
– Chegamos! – ela sorriu e saiu andando do elevador. Já eu, sai voando. Parecendo um gato até, só faltei me agarrar em alguém e largar dali algum par de horas.
Meu celular vibrou, e energético o agarrei rapidamente.
“estou no metro. Indo consertar umas paradas mó caras. Tenho hora marcada. Tá ocupado? pd me pegar na estação?”
“posso sim.” Respondi.
“okay. te espero lá”.
Eu já tinha voltado para o serviço e não via Nate tinha uma semana ou mais. As pessoas já tinham voltado a consumir nossos produtos, mesmo que com um pouco de desconfiança e os mercados já haviam sido ressarcidos. Vários seguranças novos foram contratados para todas as fábricas e toda essa brincadeira tinha trago um bom prejuízo para empresa.
Disquei o número de Nate enquanto procurava meu carro pelo estacionamento. Um rapaz me entregou um panfleto de vendas de carros seminovos. Não era má ideia trocar de banheira.
– Mell – ouvi do outro lado da linha – pensei que nunca mais ia me ligar.
– Bobagem. Só estou muito ocupado, sabe? Acabei de sair do escritório do advogado que a empresa me pagou.
– Sério? E o que ele disse?
– Disse que eu tenho que ser um puta homem de coragem pra jogar Matarazzo na justiça – ri – e que possivelmente, no fim das contas, eu vá preso e com uma multa nas costas.
– Não queria discordar dele, mas... Devido as circunstâncias... – Nate suspirou do outro lado da linha – terminei com as papeladas da universidade. Estava pensando em ir visitar o local. As aulas começam em setembro ou agosto, mas não acho que eu deva esperar tanto.
– Não sei nem o que te digo... Você está quatro meses pra trás né? Aliás, em qual faculdade pretende estudar?
– Stanford – ele respondeu rapidamente. Meu celular vibrou, mas resolvi ignorar.
– Wow... – eu fiquei meio que sem palavras. Era mais difícil entrar em Stanford do que emPomona ou Harvard – e que curso?
– Medicina. Na verdade Mell, eu tinha muitos cursos em mente. Até mesmo Advocacia, mas por enquanto... Medicina.
– Que bom! Olha... – eu já tinha achado meu carro e estava procurando alguma barra de chocolate agora – meus parabéns! Eu ralei pra caralho lá na Universidade de Minnesota, imagina então Stanford! – eu ri um pouco quando achei o chocolate e faltei cantar a canção da Vitória.
– É... – mas Nate não parecia muito feliz com a ideia. Meu celular vibrou novamente e eu resolvi ver o que era. Era uma mensagem de Mail.
“ONDE PORRA VC TÁ SEU FILHODAPUTA”
Oh meu Deus, Jeevas!
Porraaaa Mello!
– Nate! Eu acabei me esquecendo que ia pegar o ruivo lá na estação e, e... – liguei o motor do carro e dei ré, com o celular sendo segurado pelo meu ombro – te mando uma mensagem mais tarde, pode ser?
– Claro. Mande um “olá” pro Mail por mim.
Dirigi durante alguns minutos até chegar à estação e ver um tomate gigante discutindo com um segurança.
– Matt! – buzinei pra ele do outro lado da rua – MATT!
– QUIÉ! – ele virou batendo o pé. Olhou pra mim durante um momento, acredito que tentando lembrar quem eu era.
– Vamos?
Ele atravessou a rua dando dedo para o segurança e entrou no carro.
– O que aconteceu? – perguntei ajustando o retrovisor.
– É tudo sua culpa! Aquele merda procurou encrenca comigo achando que só porque eu tava há quase uma hora lá, parado, estava procurando alguém pra sequestrar, assaltar, comer, sei lá! Filho da puta! Você é tão filho da puta quanto ele! Onde você estava?!
– No transito ué...
– E por que não respondeu minhas mensagens? – questionou. Poxa. Ele pendurou no pescoço os óculos Goggles que usava na cabeça feito tiara.
– Tinham policiais na via. E eu não queria uma multa, sabe?
– Me dá seu celular Mello – o ruivo enfiou a mão no bolso da minha calça e eu o encarei de cara feia.
– Vai se foder Matt!
– Me dá – ele se levantou do banco do passageiro e tampou minha visão da estrada. Começou a revirar o outro bolso da minha calça com fervor.
– Qual é, Matt, você é retardado é?! Sai, eu vou acabar batendo!
Dito e feito.
O sinal da frente fechou rapidamente e eu bati não com muita força no carro da frente, mas com força o suficiente para os Airbarg's abrirem. Minha cabeça ficou prensada na barriga do ruivo enquanto o airbarg o prensava contra minha cara. Foi uma desgraça completa. Ouvi alguns gritinhos do lado de fora, um grito furioso vindo da frente e alguém tentando abrir a porta do lado do motorista.
– Seufilhodaputacuzãodocaralho – amaldiçoei o ruivo.
E tudo piorou quando as pessoas viram a posição em que nos encontrávamos.
– Eu não acredito que bateram no meu carro novo porque... porque... Estavam fazendo essa falta de vergonha! Enquanto dirigia! Meu Cristo, o que será do mundo? Pai!
Mail saiu primeiro do carro, massageando a barriga e eu logo em seguida, massageando o pescoço. Eu é que não acredito nisso tudo.
– Precisam de ambulância? – perguntou uma mulher com o celular em mãos.
– Não senhora, obrigada – Matt respondeu. Olhei para o carro com a traseira recém batida; era um Sedã Fusion da Ford, prata.
– Eles precisam é de vergonha na cara! Eu vou chamar a policia! – isso era tão familiar... – vocês terão que pagar pelo prejuízo no meu carro, bando de mariquinhas!
– Ow, ow, ow – franzi o cenho e balancei as mãos em sinal de pare – em nenhum momento o ofendemos, nunca dissemos que não iríamos pagar o prejuízo e só mais uma coisa, você não sabe nem o que tava acontecendo ali dentro pra vir falar merda pra cima da gente.
– Bando de marginaizinhos. O mundo de hoje está perdido Senhor.
Olhei para Matt que estava mais vermelho que mais cedo. Estava claramente envergonhado e seus olhos pediam desculpas mudas. Àquela altura um engarrafamento maroto já havia se formado, as pessoas buzinavam (como se buzinando magicamente os carros da frente vão desaparecer e abrir caminho) e quando passavam por nós, nos xingavam.
Logo a policia chegou e nós fomos encaminhados para a delegacia. O camarada arrogante foi em seu carro e nós no da policia, enquanto nosso Ford era rebocado.
Na delegacia o homem estúpido contou o que acha que aconteceu a sós e depois eu fui chamado. Expliquei para o mesmo policial, era estava com uma cara de tédio misturado com deboche; seu nome era Henry e ele era gordo, aquele típico agente que ficava dentro do carro comendo rosquinha e tomando café preto.
Mail entrou e contou o mesmo que eu. Sabia que iria levar algumas multas e pagar pelo prejuízo do cara, mas pelo menos não iria levar mais pontos do que merecia.
Observei o homem no qual tinha batido. Era alto, de barba por fazer e cabelos cinzas. Tinha uma expressão rígida e mal-humorada. Mantinha sempre o queixo erguido.
– Certo rapazes... Acho que está claro o que aconteceu aqui e eu não quero prolongar a história. Eles pagarão o conserto do seu carro, senhor...?
– River. Anthony River.
09 de agosto de 2015
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