Desconhecido

10 Outra novidade, velha novidade


Observei o homem no qual tinha batido. Era alto, de barba por fazer e cabelos cinzas. Tinha uma expressão rígida e mal-humorada. Mantinha sempre o queixo erguido.

– Certo rapazes... Acho que está claro o que aconteceu aqui e eu não quero prolongar a história. Eles pagarão o conserto do seu carro, senhor...?

– River. Anthony River.

Desconhecido

Capitulo 10

Outra novidade, velha novidade

– VAI ROCKY! DÁ-LHE NA ORELHA!

– Cala boca...

– PORRA BALBOA, DÁ UM GANCHO!

– Quieto...

– PORRA ROCKY!

– PORRA MATT, CALA A BOCA!

Eu estava enrolado com uma papelada na mesa do quarto enquanto ouvia os gritos histéricos do ruivo que assistir Rocky III na sala. Já era tarde da noite, quase madrugada acredito. Queria somente tomar um banho quente e demorado e dormir durante dois dias inteiros.

Bocejei e deitei sob a mesa, cogitando a ideia de me levantar e preparar uma caneca de café forte. Precisava terminar aqueles relatórios para amanhã, mas minhas costas doíam e minha mente estava tão longe quanto Plutão está longe do Sol; pensava no cheque de mil e cem dólares que havia feito para Anthony River para o concerto do carro, nos jornais que ainda não tinham esquecido completamente a história em cima da falha de segurança da Cocoa Empire e pior ainda, no meu tempo que estava se esgotando: Matarazzo havia me dado duas semanas para lhe dar uma resposta concreta. E essas duas semanas acabariam amanhã.

– Eu poderia estar assistindo NCIS... Eu poderia estar dormindo – gemi pro meu quarto solitário. O advogado havia me dito para procurar a polícia e deixar aberto uma possível ocorrência, pois assim, se algo me acontecesse depois de amanhã, teriam um possível suspeito. Pensei em fazer exatamente isso, mas me faltara tempo. Quem sabe amanhã se eu não saísse de casa...

– Mello! Vou dormir aqui hoje, okay? – Mail gritou abafado do outro cômodo. Parecia estar mastigando algo.

– Tá, tá...

Observei um dos papéis que devia assinar, confirmando sua veracidade: Demissão de Operário. Um homem de quarenta e sete anos que trabalhava na empresa há três anos, mas que recentemente estava causando problemas, como discussões frequentes com superiores e até tentativa de agressão a um colega de trabalho. Problemas com álcool também eram comuns, mas em geral sempre um bom funcionário. Deveria possuir uma família e precisava desse emprego...

Pena.

Depois de assinar mais meia dúzia de páginas, desisti e me levantei. A ducha foi rápida e morna. Quando me encaminhei para a cama, Mail estava vendo Rocky IV, mas parecia mais calmo e menos ansioso, portanto não soltava gritos agitados. Eram duas horas da madrugada.

Abri meus olhos e demorei me acostumar com a escuridão do quarto. Matt estava agachado do lado da cama, me cutucando e sussurrando baixo.

– O que é... Me deixa dormir, Mail...

– Alguém jogou uma pedra na janela lá da sala Mello. Quebrou tudo. Quando fui ver o que era, eram dois homens. Sorrindo, sabe? Segurando pistolas com silenciador no bolso do sobretudo. Eles me apontaram, fingiram que iam disparar e depois foram embora.

Levantei alerta. Pisquei confuso e olhei para meu amigo assustado do lado. Ele me preocupava; Matt era daquele tipo estúpido de gente que vai olhar pra cara do ladrão ou do assassino e contar uma piada.

– Acha que...

– Matarazzo? – completei seu pensamento – talvez sim. Acredita em coincidências? – disse eu, me levantando por completo e colocando uma camiseta. Fui até a cozinha e peguei uma faca grande no faqueiro.

– Mas hoje é o dia de dar a resposta Mello... Eu não acho que...

– É pra assustar. Assim minha resposta fica mais certa.

– Isso é ridículo Mello! Pra que diabos ele quer você na empresa dele? A esse ponto?

– Eu também não sei Matt.

Olhei para a pedra grande que havia acertado minha janela. Estava marcada com um grande M e todo o chão da sala coberto de cacos de vidro escuro. Saquei meu celular de cima da estante da sala e disquei 911.

– 911, qual sua emergência? – uma voz feminina respondeu do outro lado da linha.

– Dois homens armados apedrejaram minha casa e foram embora. Poderia enviar uma viatura para vasculhar o local?

– Sim senhor. Já rastreei a ligação e vejo seu endereço. Uma viatura deve chegar a no máximo 15 minutos. Fique atento. Sabe o motivo do ataque?

– Ameaça, creio eu.

– Certo... Uma viatura logo estará no local. Posso ajudar em algo mais?

– Não.

– Qualquer nova informação ou se a viatura demorar chegar ao seu endereço, pode retornar a ligação para o 911.

– Certo – e então desliguei – as outras portas estão todas trancadas, Mail?

– Aham. Eu sou meio paranoico, tranquei tudo antes de ir me deitar – ele tirou a carteira do bolso do roupão listrado – posso fumar?

– Pode sim.

Sentamos no sofá enquanto esperávamos a viatura policial chegar; Matt fumava já seu segundo cigarro e eu só olhava o enorme rombo exposto na minha parede. Matarazzo era esperto... O “M” gravado na pedra poderia ser tanto de Matarazzo, Mihael ou Mail. Que policial acreditaria em mim sem testemunha? Eu só tinha Nate pra me ajudar.

Observei as luzes azuis e vermelhas se aproximando silenciosamente da minha porta. Escutei o som das rodas chorando no asfalto e também as batidas de portas e policiais resmungando algo, talvez “vagabundos não conseguem resolver nada por si só”.

Um deles observou minha janela, enquanto o outro batia na porta. Abri a porta e ele me cumprimentou.

Os depoimentos foram tomados de forma rápida e nos disseram para abrir um boletim de ocorrência (nota: em inglês, é “police report”, mas não concordei com a tradução, então deixei como B.O mesmo) e saíram para revistar as quadras próximas. Eu duvidava muito que os encontrassem ou até mesmo encontrassem alguém que os tinham visto.

Não consegui dormir pelo resto da noite. Enviei uma mensagem para Nate, dizendo o que tinha acontecido e perguntando como ele estava. Não tinha contado para ele sobre como foi super divertido bater na traseira do carro de seu pai. Ainda.

Amanheceu eu estava um lixo humano e ambulante. Pedi para Matt ficar na minha casa enquanto eu trabalhava.

Dirigia para a empresa, com um grande browne de chocolate em mãos e um copo de chocolate quente com conhaque. E eu podia ver o ódio da atendente quando pedi esse chocolate quente mais que especial a essa hora da manhã. Meu celular tocou e era Nate.

– Bom dia – ele disse do outro lado da linha – como está, Mell?

– Com cara de um lixo que foi esquecido numa ruela qualquer.

– Você é só um pouco exagero né? – ele riu – faz uns dias que não nos falamos e quando nos falamos, olha que assunto bacana! Já mandou consertarem sua janela?

– Ainda não. Pedi para Mail ficar lá pra mim hoje. Não tenho tempo de ir a uma loja comprar uma janela nova e colocar.

– Compre uma mais clara.

– Mais clara? De vidro comum?

– É, sabe? Dá uma cara de casa nova. Um pouco de luz pra sua sala – e nesse momento eu me vi num Cartoon, enquanto uma luzinha descia do céu e iluminava minha cabeça.

– É isso, Nate!

– É isso o que?

– Vou me mudar! Tenho dinheiro o suficiente guardado pra comprar outra casa e... Talvez até trocar esse trambolho que chamo de carro!

– Wow... Você decide as coisas rápido né?

– Ah, vamos lá! Quem sabe isso não dá um up na minha vida? Quer me ajudar a procurar um lugar novo? Vou colocar a minha casa a venda amanhã mesmo.

– Você é doido – ele riu. Parecia ter se animado com a ideia. Só faltava eu convidar ele pra morar comigo, dormir comigo, banhar comigo, ir pra Lua comigo, e comigo, comigo...

Porra Mello.

– Doido por vo... – EPA.

– Que? – EPA.

CLICHÊCLICHÊ.

– Nada – limpei a garganta e tomei um gole do chocolate enquanto estacionava o carro – quer me ajudar a procurar ou não?

– Claro, Mell, será um prazer. Mas... Deixe-me te perguntar... E Matarazzo?

Só a menção desse nome maldito fez meu sorriso idiota murchar.

– Vou na delegacia na hora do meu almoço. E você sabe minha resposta para Matarazzo. Não vou trocar a Cocoa pela Sublime.

– Não tem medo que ele... Te faça algo? – seu tom de voz foi fraco e assombrado. Fiquei mudo e não respondi sua pergunta.

– Cheguei na empresa Nate. Vou ter que desligar agora, okay? Amanhã te mando uma mensagem pra acertar tudo. Mas é provável que eu te pegue às nove manhã.

– Okay. Tchau Mell... Se cuide.

– Você também.

Ele desligou antes de mim.

O dia inteiro na empresa foi um saco total. Eu tinha que concluir os relatórios não terminados da noite passada, responder perguntas inúteis e tive outras duas reuniões ao longo do dia. Na hora do almoço passei na delegacia mais próxima e conversei com o delegado que não me deu muita atenção. Almocei no Taco Bell e liguei para Matt perguntar como estavam as coisas.

Quando cheguei a casa, mandei outro SMS para Nate confirmando que horas iríamos nos encontrar no dia seguinte. Eu estava disposto a tentar algo mais com o garoto no dia de amanhã.

– Disposto – sussurrei para as paredes quando me joguei na cama – eu estou disposto, Nate. A tudo e mais um pouco.

20 de agosto de 2015

Notas finais
Rocky III - O desafio supremo é um filme estadunidense de 1982. NCIS é uma série de televisão norte-americana sobre a agência federal Serviço de Investigação Criminal Naval que investiga todos os tipos de crimes que envolvem a Marinha dos Estados Unidos e o Corpo de Fuzileiros Navais e as suas famílias. Rocky IV é um filme americano de 1985. Eu sei que demorei bastante postar esse capítulo (que por acaso não tem muito coisa revelante) mas é que a vida tá bem corrida. Pelo menos vocês podem saber que de duas semanas sem cap. a história não passa. Os comentários vem baixando de número e isso me desanima também haha Qualquer hora dessas eu vou pegar o e-mail das pessoas que deixam comentário e enviar o cap. pra elas awhaidenhwuwfef