Desconhecido

11 Wake Me Up


Quando cheguei a casa, mandei outro SMS para Nate confirmando que horas iríamos nos encontrar no dia seguinte. Eu estava disposto a tentar algo mais com o garoto no dia de amanhã.

– Disposto – sussurrei para as paredes quando me joguei na cama – eu estou disposto, Nate. A tudo e mais um pouco.

Desconhecido

Capitulo 11

Wake Me Up

– E meu pai chegou furioso em casa, nunca o vi tão irritado.

– Er... Acontece né? Digo, pessoas batem o carro... Se distraem e... É comum...

– Na verdade, acho que pessoas distraídas a esse ponto não deveriam dirigir.

– Acha que é pra tanto?

– Talvez. Meu pai disse que ele pagou mil pratas pelo conserto. Então acho que está tudo certo.

– É... Ainda bem que ele pagou né.

Nate me olhou pelo canto do olho e se manteve me encarando por um bom tempo. Acho que notou meu óbvio desconforto e desgosto pela vida. Eu tinha batido no carro do pai dele e ele ainda não sabia da história toda. Limpei a garganta e pensei no que dizer, para mudar de assunto, não de modo drástico, mas sutil.

– Quantos apartamentos você circulou?

– Hm... Três. Quase todos no centro. Quer dar uma olhada? – olhei para River; havia fechado os olhos e enrolava o dedo naqueles caracóis grisalhos que eu tanto acho lindos.

– Não. Confio no seu julgamento. Qual o primeiro?

– Deveríamos visitar o único apartamento que achei. Dois quartos, um deles suíte, sala de jantar, sala, cozinha e varanda. Condomínio fechado e com vista para o American River. Garagem para dois carros.

– Parece muito bom. Qual o endereço?

– 9806 Mira Del Rio Dr. É só pegar a Folsom Blvd.

– Tá certo.

Liguei o carro e logo estávamos na estrada. Nate ligava para o proprietário, pedindo uma visita e logo desligou o telefone e me sorriu, dizendo que estavam nos aguardando. Sintonizei numa rádio qualquer, onde falava de um novo filme de Sexta-feira 13; o 1324343452 remake de um mesmo filme. Hollywood me dava vergonha às vezes.

Quando o anúncio acabou, começou a tocar “Wake Me Up” do Avicii. Admito que não era meu tipo de música preferida, mas aumentei um pouco o volume e comecei a acompanhar o cantor.

– “I can't tell where the journey will end, but I know where to start…”.

“Não sei dizer onde a jornada vai acabar
mas sei onde começar”.

Olhei para o garoto do meu lado do carro por um instante. Esperava vê-lo rir, mas ele me encarava sério, quase sem piscar.

– “Well life will pass me by if I don't open up my eyes, well, that's fine by me”.

“Bem, a vida vai passar por mim se eu não abrir meus olhos
Bem, tudo bem por mim”.

– “So wake me up when it's all over, when I'm wiser and I'm older, all this time I was finding myself, and I didn't know I was lost”.

“Então acorde-me quando tudo estiver acabado
Quando eu for mais sábio e mais velho
Todo este tempo eu estava procurando por mim mesmo
E não sabia que eu estava perdido”.

Parei por um instante e concentrei no retorno logo à frente. Observei o retrovisor, observei o céu cinza.

– “I tried carrying the weight of the world, but I only have two hands, i hope I get the chance to travel the world, but I don't have any plans”.

“Tentei carregar o peso do mundo
Mas só tenho duas mãos
Espero ter a chance de viajar o mundo
Mas não tenho nenhum plano”

Era Nate que cantava agora, com um sorriso amargo nos lábios. Assim como eu há pouco, ele encarava o horizonte; os olhos opacos. Senti uma grande dor em sua voz, uma grande veracidade, uma grande verdade por detrás dos versos cantados pelo garoto.

– “I wish that I could stay forever this young, not afraid to close my eyes, life's a game made for everyone – ele continuou. E então virou pra mim e me encarou; olhos tão calmos como tempestade– and love is the prize”.

“Gostaria de poder permanecer jovem assim para sempre
Sem medo de fechar os meus olhos
A vida é um jogo feito para todos
E o amor é o prêmio”

Sorri para o garoto e voltei a cantar o refrão junto dele.

Logo chegamos ao apartamento. A entrada era linda, arborizada e com um portão gay. O condomínio fechado me agradou bastante e um homem veio nos encontrar na entrada.

– Bom dia! Sou Michael Gymor e sou proprietário do apartamento.

– Pensei que estivesse falando com alguma imobiliária quando liguei – River comentou.

– Não, não. Sou eu o dono mesmo. E quem está interessado na compra?

– Eu – dei um passo à frente – sou Mihael Keehl e este é Nate River. É um prazer conhecê-lo.

– Igualmente – balançou a cabeça – vamos indo?

– O condomínio é fechado, há garagem para dois veículos e a cobertura é de acesso de todos os morados, onde uma churrasqueira e uma piscina estão à disposição 24hrs. O apartamento possui dois quartos, um deles suíte, sala de jantar, banheiro, sala principal e uma varanda enorme, que possui vista para o American River. É no décimo sexto andar – ele parou na frente de um elevador. DE UM ELEVADOR. OH GOSH.

– Tem escadas? – cocei minha nuca e sorri amarelo. Tanto Nate quanto o outro homem franziram as sobrancelhas pra mim.

– Para emergências, sim. É logo ali – apontou para uma porta velha e vermelha.

Escutei uma risadinha um pouco longe e vi que era o porteiro rindo da situação; sério, se ele estiver mesmo rindo de mim, vou descobrir o pior medo dele e coloca-lo lá. Se ele tiver medo de cobras, vou colocá-lo num quartinho fechado cheio de cascavel, corais e jiboias e anacondas; se tiver medo de lugares fechados, vou enterra-lo vivo e se tiver medo de árvores vou jogá-lo da Amazônia e...

– Mello?

– Que?

– Vamos? – o garoto me olhava divertido, sorrindo.

– Hã... Claro, c-claro. Vamos lá!

Entrei naquela caixa maldita, feita por malditos, para malditos, malditos, malditos. Eu odiava aquele bagulho. Me girava o estomago. Suspirei fundo e fechei os olhos, enquanto Michael tagarelava alguma coisa, que Nate respondia.

A caixa parou e eu logo fui apressando o passo para me ver livre, mas senti um aperto forte no meu pulso.

– Estamos no décimo primeiro Mell.

Abri os olhos e a pessoa que tinha acabado de entrar me olhava de lado, escondendo o filho atrás de si.

– Eu sabia... – e voltei pro meu lugar.

Quando finalmente chegamos ao décimo sexto andar, literalmente voei para fora. Senti o ar chegar aos meus pulmões novamente. Inspirei fundo.

– São três apartamentos por andar e vinte andares no total. E meu é número 48.

Michael sacou a chave do bolso e abriu a porta. Logo de cara tínhamos a sala, pintada na cor creme e com a porta da varanda; carpete cinza, televisão grande, teto baixo e um ventilador de teto. A porta da varanda era tão grande, que a mesa de jantar encaixava perfeitamente junto a ela. Sofá de couro verde escuro. O homem encaminhou-se até a varanda e abriu as cortinas, revelando o American River, que brilhava a luz do sol.

Passamos pela sala e na porta da esquerda, a cozinha. Piso de madeira em carvalho enegrecido, balcão de mármore, fogão seis bocas inox e geladeira igualmente inox. Ah, havia um armário de louças de madeira muito engraçado também.

O quarto principal foi o que mais me agradou. Uma linda cama Box king-size no centro, ventilador no teto, uma persiana enorme na parede, um sofá fofo marrom. Dois criados mudos moderninhos e armários embutidos no lugar do guarda-roupa. O carpete era igual ao da sala, cinza. O banheiro era um pouco menor que o meu atual, com um boxe transparente e um balcão espaçoso.

Já o banheiro principal era maravilhoso, com uma banheira larga e funda, com opção de água quente, mais quente e fria. Chuveiro, boxe e uma persiana grande. O quarto secundário possuía também uma cama de casal, um armário embutido, carpete e televisão. Mas a janela era virada para o outro prédio logo ao lado.

– E por último, a sala de jantar. Ótimo lugar para reunir os amigos. Espaçoso e ventilado. A varanda chega aqui também.

– Muito bom – certo, eu estava encantado com o lugar – quanto?

– 268 mil – era até menos do que eu achei que seria.

Puxei Nate pelo ombro até a varanda.

– O que acha?

– Um tanto caro... – ele segurou na grade de proteção.

– Mas é um ótimo lugar! Não tanto na localização... Mas podemos barganhar! Acho que consigo uns 250. Que tu acha?

– Acho que se conseguir por 250, é um bom lugar. É ventilado. Gosto disso.

– Certo.

– Sr., estávamos conversando e acredito que com o preço atual... Esteja um tanto “salgado”, entende? Devido à localização e tudo mais... Que tal 230 mil? Posso lhe entregar um cheque agora mesmo.

– Lamento Sr. Keehl. Já está muito abaixo do preço de comércio... Faço 260.

– 240?

– 255.

– 250! E não se fala mais no assunto! Ambos saímos ganhando e felizes – sorri confiante.

– Hm... 250? Me entregaria quanto em cheque agora?

– Metade. Posso fazer um cheque de 125 mil agora e próximo mês mais 125.

– Fechado então.

– Fechado – lhe apertei a mão e saquei minha carteira.

Ele se sentou à mesa e pegou um contrato e toda aquela baboseira de venda de propriedades. Assinamos muita coisa e quando bateu 12h, eu tinha um novo apartamento e Michael já havia ido embora.

– Onde aprendeu a ser tão chato pra barganhar? – Nate questionou sorrindo.

– No Trato Feito, do History – eu ri um pouco e comecei a rodar a casa. Já estava com a chave do imóvel

Ambos paramos na varanda da sala principal, encarando o rio calmo. O cheiro de mato molhado. O garoto parou do meu lado e observou o dia comigo.

– Foi uma boa compra? – ele sorriu – sequer ligou para o Mail perguntar o que ele achava.

– Foi uma ótima compra – eu o abracei – obrigada por me ajudar com isso. Ficamos um bom tempo naquela posição. Eu sentia seu coração bater calmo, enquanto o meu sambava no meu peito. Senti seus pelos da nuca eriçados e sua pele gélida da mão.

Quando finalmente me afastei, fiquei a milímetros do seu rosto. Podia ver cada traço do rosto do garoto e sua pupila dilatada. Sua respiração controlada. Ele sorriu e voltou a por a cabeça no meu ombro, rindo. Eu também ri. Feito idiota.

Porra Mello.

31 de agosto de 2015

Notas finais
Opa! Voltei com mais um capítulo, que eu prometi que sairia até dia 31 desse agosto eterno. Espero que tenham gostado. E que tenham gostado do apê novo do Mell :3 Avicii - Wake Me Up - 2013.