Desconhecido

4 Primeiro dia - O sabão e o tapete


Minha cozinha era branca e tinha um balcão de tijolos no lugar da tradicional mesa de jantar. O banheiro era espaçoso e tinha cerâmica preta, um Box com diversas toalhas úmidas penduradas. Eu não tenho uma banheira...

– Sinta-se em casa?

Desconhecido

Capitulo 04.

Primeiro dia — O sabão e o tapete

Resolvi tomar um banho enquanto o rapaz se instalava no quarto de hóspedes. Pensava em tudo que tinha acontecido no dia anterior, desde o funcionário que eu tive que demitir, até o acidente que me deixou com um prejuízo no capô do carro e em um dos faróis; claro, fora Nate, que estava mais roxo do que branco.

Esfreguei meu ombro, sentindo a textura diferenciada. Era uma cicatriz escura de uma antiga queimadura da época da faculdade. A consegui durante uma festa, enquanto, bêbado e banhado em álcool – literalmente minha camisa embebedada em álcool que eu derramava quando ia tomar – fui desafiado a cuspir fogo. É, igual aqueles caras do circo ou mesmo do semáforo. Daí então já viu tudo, né? Sorte a minha que só queimou meu ombro e chamuscou um pouco meu cabelo, nada mais sério. Imagina se o fogo tivesse alcançado meu lindo rostinho?

Fechei a ducha e puxei a porta do Box, não enxergando nada. O vapor tinha tomado conta do pequeno banheiro e eu me sentia num tipo de sauna. Alcancei a toalha mais próxima e me enxuguei. Pendurei a toalha no Box. Então me dei conta que não havia trago nenhuma roupa comigo e teria de sair de toalha até meu quarto. Nate era só mais um homem e homens não tem essa frescura toda, então... Por que o pensamento de sair só de toalha me incomoda?

Suspirei ao destrancar a porta e sentir o vento gélido bater contra meu rosto, de forma tão violenta que me fez estremecer. Era dezembro, e aqui na Califórnia isso queria dizer frio e chuvas fortes. O inverno é uma estação engraçada aqui, onde a mínima fica em torno dos 5°C e as máximas em 13°C. Mas ultimamente era comum 20°C durante as tardes. Era novidade até.

Acredito que Nate ouviu a porta do banheiro abrir, pois saiu do quarto e eu pude notar um leve rubor em seu rosto quando deparou comigo. Sua camisa estava com uma mancha marrom, ainda do atropelamento. A questão era descobrir se a mancha era do asfalto/terra ou do meu carro nunca antes lavado.

– Não quer banhar? – perguntei. Óbvio que ele queria, seu estúpido – trouxe roupa, certo? Posso te emprestar uma toalha.

– Quero sim – ele sorriu, olhando para um canto qualquer entre o chão e a parede. Acredito que era hora d’eu parar de exibir meu corpo esbelto e ir me vestir. O garoto parecia acanhado – eu vou... Ir separar uma roupa. Pode deixar a toalha no banheiro, por favor?

– Claro – respondi e o garoto sumiu da minha frente.

Comecei a procurar uma regata e uma calça de moletom no meu guarda-roupa – carinhosamente apelidado de “Último local onde o Furacão Katrina passou” – e uma toalha limpa e não úmida para o garoto. Vesti uma calça de moletom escura e uma regata branca. O relógio marcava agora quase nove horas da manhã e eu estava tonto de sono.

– Nate – bati na porta do banheiro – eu vou deixar a toalha pendurada aqui na maçaneta, ok? Vou ir dormir um pouco. Pode ficar a vontade, tem umas paradas na geladeira e a TV da sala é a cabo.

– Certo, obrigado Mihael – ecoou no banheiro.

Literalmente falando, me arrastei para cama e desabei na mesma. Soltei um longo suspiro e me ajeitei debaixo dos cobertores pesados.

Uma puta luz batia contra meu rosto e isso me fez abrir os olhos. Sentia minha cara amassada, minha vida amassada, meu cabelo arrepiado. Remexi-me um pouco e abri os olhos. Caralho de luz! Alguém apaga essa merda e... Caralho, é o sol!

Dei um pulo na cama. Que horas eram?! Eu tinha mesmo perdido o dia de trabalho, eu...

Ah, tá...

Soltei um grunhido estranho e me levantei, limpando a baba que escorria da minha boca. Abri a porta de modo vagaroso e coloquei só a cabeça para fora, a fim de notar se havia alguém no corredor. Tudo limpo, você pode sair, Keehl.

Corri para o banheiro lavar meu rosto e logo em seguida fui até a cozinha. Em cima do balcão tinha duas caixas de papelão com o logo de uma restaurante ali perto. Senti meu estomago roncar e olhei com um biquinho para a comida. Caminhei até a porta do quarto e hóspedes e espiei lá dentro. O garoto dormia virado para a parede... Que pena, eu ia comer mesmo sem perguntar se podia ou não.

Eram costelas de porco com molho barbecue e batatas fritas. Meu Deus!

Depois de comer e assistir um episódio qualquer de Supernatural na televisão. Avistei que horas eram: quatro e meia da tarde. Eu tinha alguns relatórios para terminar... Mas tinha que lavar aquele tapete e arrumar a casa também.

Na minha cabeça, fiz a seguinte lista: 1° — lavar o tapete e arrumar a casa; 2° — terminar meus relatórios; 3° — contratar uma empregada para fazer a tarefa n°1.

Arrastei o tapete para a área dos fundos e olhei triste para a peça. Eu odeio o Matt. Aquilo estava realmente medonho. Com alguns tocos de cigarros e formigas mortas, além de meio ensebado.

Agora... Quem disse que Mihael Keehl sabe lavar tapetes? Quem disse que Mihael Keehl sabe lidar com uma mangueira? QUEM DISSE? A mangueira meio que me deu um banho e eu coloquei sabão demais. Depois que de esfregar eu não sabia como tirar aquela espuma inteira. Estava ficando verdadeiramente frustrado com a situação.

Mas tudo pode piorar.

– Mello? – a voz veio da porta.

– Na... – senti a perda de aderência, a perde amor entre eu e o chão e escorreguei, batendo minha cabeça contra o chão. Cacete...

Abri meus olhos e só pude observar um ser branco na minha frente. Era um anjo? Mas gente, eu jurava que ia pro inferno...

– Tudo bem? – disse o ser divino.

– Eu vou pro céu? – perguntei, sentindo a minha cabeça latejar.

– Vamos Mello, eu te ajudo a levantar – ele pegou minha mão e me puxou para cima – vamos lá Mello. Eu não consigo te levantar sozinho.

Senti minhas pernas e tentei levantar, mas novamente senti a falta de aderência e cai para trás, trazendo o ser divino junto comigo.

Ok, eu derrubei um anjo, agora eu vou para inferno mesmo.

Fiquei um tempo no chão, agarrado ao ser divino. Ele permanecia quieto.

Ok, eu matei um anjo, agora eu vou para o último círculo do inferno.

– Mihael... Você está me deixando sem ar – senti o hálito quente contra meu pescoço.

– Ah... Nate – eu o soltei do abraço apertado – desculpa.

Eu não vou para o inferno. Wee.

– Deus Mihael... Você encheu o tapete de sabão – ele reclamou se levantando e esfregando o cotovelo vermelho. Estava todo molhado e com espuma no cabelo, testa e queixo. Ele estava lindo...

Porra Mello.

Tentei me levantar pela vigésima oitava vez e consegui. Minhas costas estavam com uma textura estranha devido o sabão e a regata colando. Minhas calças na mesma situação. Acho que eu devia ter pesquisado na internet como se lavar um tapete, antes de arriscar minha vida, como tinha feito.

– Tudo bem? – perguntei, tirando minha regata e vendo o garoto ruborizar novamente.

– Tudo, tudo... Só senti uma pontada dos machucados de mais cedo. Nada demais.

Sorri aliviado. Acho que era hora de terminar aquela guerra, na qual o tapete estava ganhando. Liguei a água novamente e comecei a enxaguar a peça, enquanto River se mantinha longe (numa distância considerada segura).

– Vem cá... Você é albino?

– Albino? – ele perguntou, parecendo um pouco incrédulo. Não acredito que era a primeira vez que ele ouvia aquela pergunta. Sério, eu não acredito.

– É... Sabe... Seu cabelo, seu tom de pele... – senti o sangue pulsar forte em meu rosto. Mihael, seu idiota.

– Ah – ele riu, parecendo meio sem graça – bom... Geralmente somente pessoas mais velhas têm cabelos grisalhos, né? Mas no meu caso é tipo... Origem genética. Já nasci com isso, mas não é albinismo nem vitiligo. Se eu fosse albino teria as pupilas claras também, o que não é bem o caso.

– Hm... Desculpe se te ofendi de algum modo – voltei a prestar atenção na minha guerra contra o tapete.

– Não, não... Eu acho que as pessoas tem medo de me perguntar isso. Só por isso me assustei um pouco quando perguntou. Aliás, acho que já está bom. É só colocar ele pra escorrer e secar.

– Certo.

Quando entramos eu me entreguei e contei que havia comido as costeletas que estavam em cima do balcão. Ele me disse que eram pra minhas mesmo e isso me tirou um peso da consciência. Tomei uma ducha rápida e troquei de roupa de novo. Era noite já e eu tinha que terminar meus relatórios.

Reuni os papéis da sala e algumas pastas. Sentei-me junto à mesa no meu quarto e comecei a folhear e assinar alguns documentos. Eu era vice-presidente da empresa na qual eu trabalhava, a Cocoa Empire. De vez em quando – lê-se: de vez sem sempre – eu ia até uma das fábricas e me acabava, comia de tudo e mais um pouco.

Daí me pergunta: porra, você é vice-presidente de uma empresa e mora numa casa assim? Vive assim?

Eu não ligava muito para mordomias ou casarões. Sempre achei estúpido dos norte-americanos ter que viver em mansões imensas ou ter carros extravagantes. Eu fui criado de modo simples, nunca visitei meu país de origem por exemplo. Acredito que a época que mais gastei dinheiro na minha vida, foi ano retrasado, no qual namorava uma garota chamada Misa Amane. E credo em cruz, eu nunca gastei tanto dinheiro em presentes e viagens. Hoje, eu me pergunto que tipo de retardado eu era pra namorar uma pessoa feito ela.

Passei os olhos sobre uma página em branco, que só tinha um número de telefone riscado às pressas e a seguinte frase: ligou quarta-feira. Pediu retorno. Era a letra da secretária do presidente.

Meu telefone fixo era sem fio e estava ali comigo. Disquei o número e caiu na caixa de mensagens.

– Sou Mihael Keehl, vice-presidente da Cocoa Empire. Retorne neste mesmo número se possível – e desliguei. Não tinha a mínima ideia de quem podia ser.

Esfreguei minhas têmporas com força e soltei um suspiro longo. Eu devia ter uma secretária. Por que eu não tinha?

– Mello – o garoto estava parado na minha porta – Mail passou aí e disse que vai pegar um filme e depois volta pra nós assistirmos – ele parou – tudo bem contigo?

O olhei. Eu tinha conhecido ele hoje né? A vida é uma caixinha de surpresas cara... Ele estava com uma camisa branca e uma calça de moletom vermelho vinho. E estava enrolando um cachinho do próprio cabelo grisalho.

– Mihael?

12/Dezembro/2011

Notas finais
Hora da propaganda: OneShot. Matt X Near. Universo Alternativo. https://www.fanfiction.com.br/historia/186535/Unterschied