Desconhecido
5 Segundo dia - Your Song
– Mello – o garoto estava parado na minha porta – Mail passou aí e disse que vai pegar um filme e depois volta pra nós assistirmos – ele parou – tudo bem contigo?
O olhei. Eu tinha conhecido ele hoje né? A vida é uma caixinha de surpresas cara... Ele estava com uma camisa branca e uma calça de moletom vermelho vinho. E estava enrolando um cachinho do próprio cabelo grisalho.
– Mihael?
Desconhecido
Capitulo 05.
Segundo dia – Your Song
Senti a cama dura e pouco confortável sob meu corpo; uma puta duma dor em todos os músculos do meu corpo esbelto e frio.
Mirei o teto durante alguns instantes e concluí que eu não me encontrava no meu quarto e sim na minha sala, deitado no sofá. Algumas garrafas de cerveja e pratos sujos enfeitavam minha mesinha de centro. Meu corpo jovem de vinte anos chorou de desgosto quando levantei e me estiquei. Cada músculo estalando.
Agora me lembro... Ontem eu, Mail e Nate assistimos A Noite dos Mortos-Vivos¹ e jantamos um macarrão estranho preparado pelo ruivo. O por quê d’eu estar dormindo no sofá é uma completo mistério. Devo ter apagado depois de tudo.
Lavei meu rosto e abri discretamente a porta do quarto de Nate, mas não o achei. Será que ele saiu com o ruivo?
Um tremor desconhecido rondou meu corpo e suspirei. Prendi meu cabelo com uma caneta e parti em busca do meu celular; queria mandar um SMS para o ruivo, em busca de noticiais. Mas na sala meu celular não estava.
Ao abrir a porta do meu quarto, me deparei com a cama inteiramente bagunçada e um ser branco esparramado pela mesma. Minha primeira reação foi quase gritar, porém não gritei. Então pulei pra segunda reação que foi me aproximar calmamente e raciocinar: ser branco, minha casa, minha cama... River! E me acalmei. Tá vendo gente, como é fácil se acalmar? (não).
– ll est laid espion – o garoto soltou. Será que estava sonhando? E quem diabos sonha falando outra língua? Caralho — Arrêter de me regarder Mello.
– Hein? – senhor, ele está sonhando comigo!
– “pare de me encarar” foi o que eu disse – e abriu os olhos sonolentos.
Ah...
– Perdão, eu... Eu pensei que estava dormindo, eu... – eu era um idiota. Idiota. Idiota – eu só estou atrás do meu celular...
– Você está vermelho Sr. Keehl – o albino sorriu e se sentou na cama.
Um toque soou debaixo do garoto e ele deu um salto da cama. Não pude evitar rir da cara dele. Recuperei meu telefone em meio às cobertas – sentindo o quão quente elas estavam... – e observei o visor: Chamada perdida de Número Desconhecido.
Ao me virar novamente, River não estava mais no quarto.
– Eu vou ir tomar café numa cafeteria da esquina! Quer ir? – gritei para o corredor.
– Claro! – foi-me respondido.
Tentei retornar a ligação, mas caía na Caixa de Mensagem. Então resolvi tentar novamente só depois do café.
– Que horas Mail foi embora? – perguntei para o rapaz ao meu lado, enquanto trancava a casa. River estava com uma calça cinza escura e uma regata marrom clara, meio desbotada. Ele era extremamente pálido! Quase que eu solto um “opa, eu vou ali pôr um óculos de sol, tranquilo? Se eu sair contigo no sol, vou voltar cego.”.
– Acredito que eram quase duas da madrugada. Quando tu dormiu, não tinha nem trinta minutos de filme – ele riu – acho que não é bem teu tipo de filme, né?
– Era preto e branco... Gosto do gênero, mas sei lá... – dobramos a esquina. O sol estava fraco e um vento gélido uivava — Olhe, é logo ali! – apontei para a cafeteria “Providence”, com o subtítulo “coffee, tea and pastries”.
Era um lugar bastante agradável e que eu costumava frequentar. De certa forma, tinha um “quê” das cafeterias parisiense que eu tinha visto em filmes e seriados: mesas, cadeiras e guarda-sóis do lado de fora. Do lado de dentro, o tom rústico madeira, o aroma de cafeína pura e açúcar dominavam. Fora que a garçonete que dava em cima de mim e sempre me atendia super bem.
– Bom dia – sorri para Talley, a dona do estabelecimento. Uma mulher com seus cinquenta anos, de pele e cabelos escuros – bom dia, Susannah – e a garçonete que dá em cima de mim.
– Muito bom dia Mihael! E quem é seu amigo? – Susannah perguntou – café?
– É o River – por que eu só dei o sobrenome dele? Porque eu não quero que ela saia por aí gritando o primeiro nome do garoto, assim como fez com o do Matt – e esta é Susannah. Desde que frequento o lugar ela está aqui – o garoto acenou com a cabeça.
– O de sempre, Mihael? – confirmei. Nate pediu um Cappuccino e pães doces.
– Sabe... Estou arrependido de ter vindo só de regata. Estou com frio – o rapaz comentou esfregando os braços. Seus pelinhos estavam eriçados...
– Tome o meu moletom. Estou com ele mais por costume – era mentira. River aceitou e o vestiu; ficou um pouco folgado nele, mas... Ficou lindo.
Porra Mello.
A garçonete chegou então com os pães, meu chocolate quente e o cappuccino de Nate. E caralho, chocolate é algo divino.
– Eu queria te perguntar... Você fala francês?
– Falo sim. Fui criado falando francês e inglês como língua materna. Minha mãe é francesa e meu pai inglês.
– Hm... Já visitou a França?
– Algumas vezes. Quando meus pais acreditavam na vida, íamos visitar a família em Estrasburgo. Junto da divisa com a Alemanha.
– E é bonito por lá?
– Bastante Mell... Há um rio, o Rio Ill que corta o centro de Estrasburgo. Lembra um pouco de Veneza e...
E meu celular tocou. Pedi desculpas e atendi a ligação que era do mesmo número que havia me ligado mais cedo.
– Sr. Keehl? – uma voz feminina do outro lado da linha.
– Sou eu.
– Prazer, sou Halle, secretária do Sr. Lorenzo Matarazzo, da empresa Sublime Ltda – e essa a secretária do presidente da maior empresa concorrente. O que diabos ela queria comigo? Levantei e disse para o garoto que logo estaria de volta.
– E o que deseja? – meu tom foi seco. E eu tinha motivos para isso: a Sublime era uma das mais trapaceiras do ramo; com vários processos judiciais, ela só não havia falido ainda porque seu dono, Matarazzo, era um homem podre de rico. Era o tipo de empresa que pagava para hipermercados “sumir” com todos os produtos da concorrente e deixar somente o deles. E eles pouco se importavam se essa noticia vinha à público.
– Sr. Matarazzo pediu para lhe fazer um convite: esta noite haverá um comitê, juntamente com um baile, realizado pela Sublime no centro. O presidente gostaria conversar com o senhor e viu este comitê como oportunidade perfeita. Estarão reservados a sua entrada e de um acompanhante caso desejar. Contamos com sua presença.
Mas o que diabos foi isso? O que Matarazzo queria comigo?
Quando voltei para dentro do café, Susanaah estava com os cotovelos na mesa e encarando Nate de forma assustadora. O garoto estava claramente constrangido com a situação.
Limpei a garganta e pedi a conta para a moça, que saiu sorrindo abertamente. Algo dentro de mim formigava.
Saímos da cafeteria e agora o tempo estava um pouco mais escuro. River se ajeitou no casacão que eu havia lhe emprestado e continuamos o caminho até minha casa. Pensei em comentar com o garoto sobre a ligação, a fim de uma opinião a mais, se eu deveria ir ou não. Mas resolvi ficar quieto por enquanto.
Já em casa, ele avistou algumas letras musicais espalhadas na gaveta do criado mudo do seu quarto. Questionou-me sobre as músicas e conseguiu arrancar de mim o seguinte: eu cantava.
– Então você já fez parte de uma banda? – ele levantou as sobrancelhas, feito uma criança curiosa.
– Já sim... Eu era o vocalista e arranhava um pouco no baixo e guitarra. Matt era o guitarrista oficial.
– E poderia cantar um pouco para mim? – sorriu tímido – qualquer letra. Só quero ouvi-lo.
– Hm... – pensei um pouco. Não era má ideia. Eu não era o pior cantor do mundo mesmo – certo então. Me dê aqui os papéis, vou escolher uma.
E eu tinha achado a perfeita.
– It's a little bit funny this feeling inside
I'm not one of those who can easily hide
I don't have much money, but, boy, if I did
I'd buy a big house where we both could live…
“É um tanto engraçado esse sentimento aqui dentro
Não sou daqueles que conseguem esconder facilmente
Não tenho muito dinheiro, mas, garoto, se eu tivesse
Compraria uma casa grande onde nós dois pudéssemos morar”.
River sorriu de modo maravilhoso. De um jeito tão gostoso que senti meu peito derreter e se derramar em êxtase. Continuei cantando, sentindo cada verso ressoar minha garganta. Observei como um sorriso se formava sozinho no meu rosto. Observei o quanto eu estava fodido e apaixonado.
– I sat on the roof and kicked off the moss
Well, a few of the verses, well, they've got me quite cross
But the sun's been quite kind while I wrote this song
It's for people like you that keep it turned on…
“Eu sentei no telhado e tirei os musgos
Alguns desses versos, me deixaram embaraçado
Mas o sol foi um tanto gentil enquanto eu escrevia esta canção
É por pessoas como você que ele continua a brilhar”.
– I hope you don't mind
I hope you don't mind that I put down in words
How wonderful life is while you're in the world.
“Eu espero que você não se importe
Espero que não se importe que eu expresse em palavras
Como a vida é maravilhosa enquanto você está no mundo”.
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