Desconhecido

14 Nepente Londrino


Notas iniciais
Leiam as notas finais, pois vou fazer uma votação com vocês~

O primeiro dia do ano fora do hospital estava sendo ótimo.

Ótimo, graças a você, Mello.

Porra, Mello.

Desconhecido

NEPENTE (s.f); do grego: lit. “que faz desaparecer a dor.” Algo que ajuda a esquecer a tristeza e o sofrimento.

Capitulo 14

Nepente Londrino

– O processo foi aberto, então tome cuidado, não sabemos o que mais Matarazzo tem nas mangas.

– Irei tomar. Mas como vai ficar tudo isso? Terei que depor contra ele, é?

– Isso, Mihael. Inclusive seu amigo, River, que estava junto no dia da festa. Como o nome dele já é constante em arquivos e sempre provoca alvoroço, eles devem agilizar o processo. Em até três dias lhe direi quando será a audiência e trabalharemos o que você deverá falar.

– E não é só dizer que ele me ameaçou e quando não dei a resposta, sofri um atentado?

– Não é tão simples para o júri e o juiz. Nunca é. Temos que trabalhar para o advogado dele não achar nenhuma brecha e se aproveitar. Certo?

– Claro...

Estávamos eu e Weatherly numa cafeteria luxuosa no centro, perto da sede da Cocoa Empire. Me explicava que o processo contra a Sublime já estava aberta e logo deveríamos resolver tudo.

Lorenzo Matarazzo queria meu sangue e as recomendações eram: evitar locais isolados, não sair sozinho – especialmente à noite – e andar armado; claro que a última sugestão era ideia de Mail e que Nate a havia reprovado de todas as formas possíveis, mas eu não achava má ideia.

– Bom, Mihael, acho que vou indo. Irei ligar quando tiver novidades — ele apertou minha mão e desapareceu na multidão demasiada de Sacramento.

Terminei meu expresso com chocolate amargo e paguei a conta. Deveria voltar para empresa, mas antes ligaria para Near, que estava na faculdade e para Matt, que passara três dias fora do estado. Disquei o número do ruivo; três longos toques soaram do aparelho e logo ouvi sua voz arrastada.

– Alôô...

– Matt?

– Hm...

– Você está bem?

– Hm...?

– Você está bêbado? Chapado?

– Mello?

– Ué. Eu...

– Melloooo! Finalmente você me ligou! Estava com saudades? – mas a ligação cortava. A interferência do aparelho era grande, o que me fez sair da cafeteria e procurar sinal mais adequado.

– Tudo bem, Matt? – questionei. Ele parecia chapado sim.

– Tudo, tudo certo. Mas Nova York é muito fria, cara!

– Fria? Tipo... gelada?

– Não, fria tipo, todos são cuzões e não dão sequer bom dia. Sabe os filmes? Que todo mundo anda apressado, atrasado, sem olhar na sua cara? É exatamente isso!

– Ah... É, realmen...

“volta pra cama, Mail”. – ouvi uma voz feminina e manhosa no fundo.

– Ah... Estou te atrapalhando, Matt? – perguntei rindo.

– Larga de ser idiota. É uma amiga minha — o ruivo riu. Eu podia imaginar a cena perfeitamente: ele levantando, botando a meia e procurando a cueca perdida.

– Hm... Transas casuais? Amizade colorida? Você resolveu fazer faculdade é?

– Nem todo mundo tem um Nate na vida, né? – o ruivo se defendeu – aliás, é coisa de faculdade, é? E onde ele está? Num convento? – meu sorriso murchou.

– Ele é diferente de nós – limpei a garganta — enfim... Quando você volta?

– Hoje é... dia... trinta? Minha passagem é para amanhã.

– Quer que eu te busque no aeroporto?

Ele ficou mudo no telefone. Depois cochichou alguma com a garota e depois voltou.

– Claro, claro. Eu te mando uma mensagem falando que horas eu chego– nos despedimos e eu encerrei a ligação. Tentei discar o número de Nate, mas caía direto na caixa postal, o que me fez desistir.

Depois de amanhã seria aniversário do ruivo, que estaria fazendo 25 anos. Aquele aquariano sem vergonha... Então decidi passar numa loja de games e comprar um jogo de aniversário para ele; sabia de alguns consoles que ele tinha, acabei comprando um jogo de PS4, que o vendedor disse que era ótimo. Voltei para meu carro, que não era mais a banheira; há duas semanas tinha saído e comprado um Sandero Stepway 2014 branco, da Renault e passado o Ford para o Matt. Consegui vender minha antiga casa por um preço bacana, então tudo estava correndo bem.

Tudo estava.

Meu aparelho celular alertava quatro chamadas perdidas de um número que eu não conhecia, de um DDD diferente. Retornei a ligação.

– Sim? – um homem atendeu.

– Hã... Eu recebi algumas ligações e...

– Mihael?

– Quem é? – eu apertei as sobrancelhas, olhando para o visor do aparelho de novo, tentando reconhecer o número.

– Seu tio, Petrus.

Petrus Keehl era aquele tipo de tio escroto que só visitava sua família para pedir dinheiro, soltava umas piadinhas toscas e sem sentindo algum. Era irmão mais novo da minha mãe, um cara gordo e nada pontual – na Alemanha, a pontualidade é questão de respeito e é seguida devotamente. Petrus era gordo e branco com as bochechas rosadas – até lembrava os russos – e entradas tão grandes que lhe faltavam chegar à nuca, no cabelo loiro. Provavelmente foi um dos alemães que berrou e gritou, quando a Alemanha ganhou a Copa do Mundo, enquanto bebia cerveja quente.

– Ah... Diga – quis ser direto, mas acabei sendo ignorante.

– Venha para casa de sua mãe – disse autoritário, como se eu tivesse dezesseis anos. Suspirei.

– Eu estou trabalhando, Petrus. Do que você precisa?

– Sua mãe precisa de você. É seu pai.

– O que tem ele?

– Ele teve um ataque cardíaco esta manhã, Mihael. Só venha. Sua mãe quer enterrá-lo em Düsseldorf.

Minha boca secou e minha garganta fechou. Passei a admirar um ponto fixo no painel do carro, enquanto Petrus dizia mais alguma coisa no telefone. Queria gritar com ele, xingá-lo e dizer que ele tinha bebido demais e estava falando merda, que estava errado.

Mas as coisas não eram bem assim.

– Certo. Apareço aí até o anoitecer – e desliguei.

Senti meu rosto esquentar e meus olhos lacrimejarem, mas não conseguia chorar. Era um sentimento estranho e desconhecido para mim. Limpei a garganta e liguei o carro. No caminho até meu apartamento, fiquei mirabolando o que deveria fazer, com quem deveria falar, se deveria falar.

Nate.

Disquei seu número mais uma vez, enquanto passava um sinal vermelho. Agora só chamava e não atendia. Soquei o volante e tentei me acalmar. Como estaria minha mãe? Como estariam todos? Eu não via meu pai tinha quase quatro anos... Desde que me mudei para a Califórnia estava ocupado com o serviço que só parecia aumentar. Nosso relacionamento não era o pior do mundo, mas nem de longe o que pais e filhos deveriam ter. Tentei mais uma vez e finalmente consegui.

– Nate.

– Lamento, Mello. Meu celular ficou no dormitório e...

– Arrume uma mala pequena, Nate. Roupa para uns quatro dias, por favor.

– Mas... Eu tenho aula. Pra onde vamos? – suspirei e apertei a mandíbula.

– Você pode... Me acompanhar no... – tossi um pouco e abri a janela do carro, agradecendo o vento frio – no enterro do meu pai?

– Eu... – ele pareceu surpreso – Claro. Quando?

– Vamos para Minnesota agora a noite e amanhã para Alemanha. Minha mãe quer enterrá-lo lá, sabe? – ri um pouco. Mas foi uma risada amargada. Eu só havia visitado meu país natal quatro vezes na vida; sempre para visitar minha avó paterna.

– Tudo bem, eu só... Vou ligar para meus pais e avisar e... arrumar uma mochila, certo? Você pode passar aqui na ida para o aeroporto?

– Acho mais rápido você pedir um táxi e me esperar lá. Leve um casaco grosso. Essa época do ano é muito frio por lá.

– Okay... Até logo, Mell.

– Hey Nate – interrompi – Obrigada.

Já em casa, arrumei uma pequena mala de viagem, com poucas peças de roupa e minha carteira com documentos, cartão e dinheiro. Liguei para o aeroporto e reservei duas passagens para Minnesota às 17:30h, com previsão de chegada às 19:40h. Também peguei um táxi até o Aeroporto Internacional de Sacramento. Sentia-me tonto e enjoado, e o machucado ainda não-completamente-curado na minha cabeça latejava.

Nate me esperava na entrada principal. O abracei forte e recebi um beijo do garoto. Ele carregava só uma mochila e vestia moletom vinho, que não seria o suficiente para os graus negativos de Düsseldorf.

O embarque não demorou e logo estávamos dentro da aeronave, o que era, de certa forma, aterrorizante. Se elevadores eram um terror e ainda assim eram suportados por cabos grossos, imagina os aviões? Da mesma forma que um elevador, eu não podia sair dali no momento em que eu quisesse, pois estávamos há oito mil pés de altura. Me mexi desconfortável por um bom tempo e depois cochilei. Acordei quando o alerta para apertar o cinto acendeu. Pousamos no O Aeroporto Internacional de Minneapolis-Saint Paul, por volta das 20h. Pegamos um táxi para a casa de meus pais e chegamos era quase 21:30h.

E agora eu começava a raciocinar direito: eu estava de volta a Minnesota; eu estava de volta para enterrar meu velho, não para visitá-lo; eu estava de volta com meu namorado; eu estava de volta depois de quatro anos.

Eu estava de volta.

Em frente à casa onde cresci, quatro carros parados. Acertei a gola da minha jaqueta jeans e sai do táxi, junto com Nate. Prendi meu cabelo em um coque e molhei meus lábios.

– Bom... Eu cresci aqui, Nate.

Ele me lançou um sorriso morno e apertou meu ombro, indicando para continuarmos. Bati na porta e uma mulher alta e negra, até então desconhecida para mim atendeu e me abraçou. Mamãe apareceu no corredor, com os olhos vermelhos e inchados e um lencinho encharcado na mão.

Evelise Leona Keehl era uma mulher magra, com o rosto um tanto esquelético e olhos tão azuis quanto os meus, tão loira quanto seu irmão Petrus. Sua aparência não simpatizava com sua idade: aparentava ter cinquenta, mas só tinha quarenta e um. Um sotaque alemão forte.

Ela correu e me abraçou com força, chorando em meu ombro. Senti o aperto na garganta de novo, mas me mantive forte. Joguei minha bolsa no chão e cumprimentei todos os presentes no ambiente, apresentando “meu melhor amigo”. Era realmente tosca a situação e como eu me apresentava a ela. Sentia mais tristeza pela reação de minha mãe, do que pela morte de meu pai.

Na verdade, fora a minha conversa com minha mãe, tudo foi bastante superficial. O enterro estava marcado às 10h do dia seguinte na nossa cidade natal, Düsseldorf no estado de Renânia do Norte-Vestfália. O voo sairia às 23h e chegaríamos lá as 7:30h AM. As passagens já estavam compradas, portanto eu deveria comprar mais uma para Nate.

– E como ele estava? Antes de tudo isso...?

– Ah, querido... Klaus estava estranho nos últimos dias. Parecia mais cansado que o normal. Tinha bolsas enormes debaixo dos olhos.

– E por que não me ligaram? – perguntei.

“Por que você não os procurou, Mihael?”.

– Você andava sempre tão ocupado, querido... Depois que terminou a faculdade, sempre tão atarefado – ela limpava as lágrimas nos olhos e mantinha um sorriso triste nos lábios.

Engoli um tijolo, que desceu rasgando, cortando e ardendo a garganta.

A pior parte de tudo, é que eu me sentia triste e um tanto solitário, mas não tanto. Não era aquilo tudo que diziam, a tristeza de “Oh Cristo, o mundo acabou”. Era só algo incomodo no peito, um vazio, algo que eu não queria sentir, mas pouco me importava. Eu deveria me sentir horrível, não?

– Mello. O voo é longo. Vamos comer algo – era Nate, segurando a ponta da manga da minha camisa.

River... Sempre tão ali. Aqueles olhos tão amarelos quanto o chá que minha mãe havia me oferecido. Ele devia estar sem comer nada há tempos também. Disse para todos que iria na frente, com a bagagem. Voltamos ao aeroporto, onde eu e Nate comemos qualquer besteira que custou o dobro de uma padaria normal. Eu estava sem fome, só tinha sono.

Logo Evelise, Petrus e a mulher negra – que eu ainda não sabia quem era – chegaram e embarcamos. Minha mãe ficou na janela do avião, Nate na poltrona do corredor e eu no meio de ambos. Queria muito encostar no ombro do garoto do meu lado e tentar dormir, mas tinha que dar atenção para minha mãe. Depois de uma e meia da manhã, as luzes ficaram fracas e ela dormiu. Near se mantinha acordado ao meu lado; conversamos um pouco e logo eu dormi também.

Meus olhos custaram a abrir e notar que havíamos pousado e todos já estavam acordados e recuperando suas malas. Nós cinco fomos para a casa da minha avó por parte de pai, Magda, que pouco dominava o inglês, então sempre foi difícil a comunicação com ela. Quando chegamos à casa de dois andares, marrom e bem típica alemã, ela me recebeu com um abraço caloroso, inclusive à minha mãe e à mulher negra, que ela chamou de Paige e então finalmente caiu a ficha: era a minha tia, irmã mais velha de Klaus.

Café forte, queijo alemão e pão fresco. Depois do café da manhã, tomei um banho longo. Nos vestimos para o ocasião. Roupas pretas e pesadas; sobretudos e luvas, para suportar os -7°C.

O corpo de Klaus Keehl era grande e forte. Era um homem de pele oliva ou até mesmo caucasiano médio. Tinha cabelos escuros, olhos um tanto castanhos. Era descendente distante de algum desses países da Ásia. Só de pensar que agora era só um corpo, sem sangue pulsante ou pensamentos e sensações rondado, era... Estranho. E triste. Foi transportado ontem, antes de nós e já se encontrava no cemitério, onde o túmulo da família Keehl estava.

Devo descrever tudo?

Céu negro, chuva forte e ventos cortantes.

Foi tudo horrível. O choro, as lamentações e o coração apertado. Já tinha presenciado alguns enterros na minha vida, mas nunca me atingiram diretamente como este. Me sentia horrível, me sentia um monstro por não chorar feito todos os presentes. Chorar.

“Pelo menos chore, Mihael”.

Era tudo tão confuso...

“This is not how I am, i have become comfortably numb”.

“Não é assim que eu sou, eu me sinto confortavelmente entorpecido”.

O padre dizia algumas palavras na língua nativa e eu entendia poucas coisas como “ele está com o Pai Celestial, doador da vida.” e “vá em paz, irmão.” O que me deixava confuso., pois não sabia a diferença de religiões. Enquanto a religião oficial no sul era o catolicismo, e aqui no norte era o protestantismo. Não sabia a diferença de nada na verdade. Olhei o rosto de meu pai pela janela de vidro do caixão. Estava pálido e maquiado. Dava um treco em mim ver aquela cena. A pior parte foi a hora de abaixar o caixão. Era um adeus definitivo. Era um “só em fotos agora”. Que fotos? A vida era um fio, a vida era frágil.

A vida é curta.

Curta.

Voltamos para a casa da Magda. Todos em silêncio. Era o primeiro filho que ela perdia.

Nate e eu estávamos no mesmo quarto. Da minha cama, observei o garoto que estava ainda sem camisa, procurando algo quente para vestir. O aquecedor do quarto ligado. Tive tempo suficiente para analisar cada pedaço do corpo que estava exposto: cada músculo, cada contorno, cada cicatriz, cada pinta e marca de nascença, os ossos do quadril...

Não queria que as coisas fossem assim. Queria trazê-lo aqui para conhecer os lugares, pontos turísticos, Berlim e seus afins. Seria muito insensível fazer isso? O importante não era aproveitar a vida?

– Sabe algo de alemão, Nate? – ele sorriu.

– Eu falo francês, Mello. Me leve pra França e eu te guiarei.

O garoto sentou-se ao meu lado e levou os dedos a minha cabeça, acariciando calmamente.

A vida é curta...

– Bien, tout est fini, mon amour.

Curta.

Dei-lhe um beijo forte e tenho a impressão que quase tirei sangue do dos lábios do meu garoto. Olhei em seus olhos e senti meu coração um tanto menos pesado. Minha vida estava errada, de ponta cabeça. Eu estava sendo caçado por um homem, meu nome ainda estava na mídia, estava namorando outro homem e agora meu pai havia nos deixado. Me deixado.

Não era difícil saber o que vinha em seguida: só lembre-se dos poucos momentos bons com ele.

“Só isso, Mihael”.

A vida é curta e errada e Nate era Nepente.

Meu Nepente londrino.

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NEPENTE (s.f); do grego: lit. bebida mágica, remédio contra a tristeza, de que se falava na antiguidade.

23 de setembro de 2015

Notas finais
Bom, aqui fechamos o “conhecer Mihael”. Já sabemos de sua vida, família e sentimentos em todos os ocasiões. Devo focar agora em seu romance com Nate (algo mais quente, a partir de agora :3) e no desenrolar da trama com Matarazzo. Continuo achando que deveria ganhar um bj por cada pesquisa que faço pra essa história u-u No próximo capítulo sairemos da bad! Até dia 04/10, estarei postando~ P.S: ESQUECI DE PERGUNTAR PRA VCS, ENTÃO: O MELLO DEVE CORTAR O CABELO? Vocês vão decidir. Cada um escolhe entre os cortes: curto, channel e manter o cabelão de agora. Vou contar quantos querem o que e no próximo capítulo Mihael aparecerá com o cabelin curto ou não~ Até o próximo e continuem comigo!