Desconhecido
15 Lingerie
Notas iniciais
Não era difícil saber o que vinha em seguida: só lembre-se dos poucos momentos bons com ele.
“Só isso, Mihael”.
A vida é curta e errada e Nate era Nepente.
Meu Nepente londrino.
Desconhecido
Capitulo 15
Lingerie
— Esse comprimento está bom?
— Está sim.
— Moço... você gosta de Jump?
— Se eu gosto de pular?
— Não, aquela música da Madonna.
— Hm... Não... Não conheço. Por quê?
— Pensei que seu cabelo fosse inspirado no videoclipe.
Lembrei então do Mail falando algo parecido. Eu tinha que ver esse vídeo e tirar conclusões próprias!
Já no carro, observei melhor meu channel novo; fiz uma trança frouxa e observei um pacote que havia recebido no serviço. Não havia remetente. Qualquer pessoa, de cara, descartaria a ideia de abrir e jogaria fora o embrulho, mas Weatherly havia pedido para inspecionar o objeto. Sei lá, acho que se fosse uma bomba não teria muita diferença, eu ou ele abrir, já que alguém explodiria de qualquer jeito.
Meu celular vibrou e eu atendi; estava esperando uma SMS ou ligação com o local que ia me encontrar com ele – que estava sendo muito cuidadoso, desde a tentativa de homicídio mal planejada e executada.
— Les hommes ont oublié cette vérité, dit le renard. Mais tu ne dois pas l’oublier. Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé. Tu es responsable de ta rose… “Je suis responsable de ma rose…” répéta le petit prince, afin de se souvenir.” Le Petit Prince.
A voz ligeiramente rouca e o sotaque presente no outro lado da linha eram de Nate. Meus ombros relaxaram rapidamente e eu comecei a brincar com a textura do volante, feito uma garotinha brincando com as chaves enquanto conversa com o garoto que gosta.
Porra Mello.
— E se eu te disser que nunca li O Pequeno Príncipe?
— Eu vou dizer que você faz parte da massa americana que não sabe o que é bom – ele tossiu. Havia voltado da Alemanha resfriado.
— Hm... – ergui as sobrancelhas – e o que significa esse trecho?
— Leia o livro e descobrirá. Nós nos veremos essa semana?
— Eu estou livre todo dia depois das seis. Você que anda muito ocupado, Near. Tem aula de que agora?
— Anatomia Geral e Aparelho Locomotor. Coisa básica – o imaginei dando de ombros e olhando pra uma pilha de livros duas vezes maior que ele próprio – se quiser passe aqui umas nove, podemos comer algo.
— Ok, combinado então, doutor.
Desliguei e dei partida no carro. Eram quase dez horas da manhã e depois de me encontrar com Weatherly, o escritório me esperava. Anthony já estava puto com toda essa situação e não era de se esperar menos. Como vice-presidente, eu respondia quando ele não estava presente, participava de reuniões importantes ao seu lado, mas era eu também o encarregado de serviços ruins, como despedir pessoas e assinar papéis para dispensar cargas. Com as minhas constantes faltas, devido o processo, o patrão estava se virando sozinho.
Enquanto dirigia, recebi um SMS do ruivo: “caralho, vc acertou na escolha do jogo!”. Abri o porta-luvas e tateei, até localizar uma trufa de chocolate com licor de cereja. Recebi outra mensagem, dessa vez do advogado: “Estou esperando no subsolo nível três do seu serviço. Não demore.”.
— Bom dia, senhor Keehl – cumprimentou Paco, um mexicano de 20 anos, cego de um olho, que conseguiu atravessar a fronteira. O rapaz foi contratado debaixo dos panos por mim, pois ele não tinha autorização para permanecer nos EUA. Paco era o vigia do estacionamento.
— Bom dia – respondi e entrei no prédio. Continuei descendo até o terceiro subsolo, iluminado e abafado. Weatherly estava escorado em uma Mercedes Benz preta, com um terno cinza e o cabelo lambido para trás.
— Mihael – ele balançou a cabeça e veio em minha direção, que descia do carro com o embrulho debaixo do braço. Era uma caixa do tamanho de um livro e com a altura de um copo de vidro; estava embrulhado com papel pardo e só com o nome e endereço do destinatário.
— Nós não devíamos levar... para uma delegacia, algo assim? – perguntei, entregando o objeto.
— É muita complicação. Se levarmos a polícia e não for nada de ameaçador, vão nos levar na brincadeira. Por enquanto vamos ficar assim — encostei-me ao capô do Sandero e cruzei os braços. Ele puxou o papel, que rasgou fácil e desembrulhou o que faltava. Era uma caixa branca. Meu coração batia rápido, senti o suor na minha testa. Franzi o cenho, para enxergar bem e não perder nenhum lance. Ele tirou a tampa e eu lambi os lábios, ansioso e com medo.
Eram duas lingeries, uma vermelha e outra roxa.
Weatherly me olhou com uma cara de “você tá de sacanagem comigo?”.
— Eu... – na verdade, eu queria rir muito. Muito mesmo. Daqueles ataques de riso que doíam a barriga e te faziam lacrimejar. Meu coração tinha parado um pouco (acho que pra rir também) eu fiquei muito feliz de não ser uma bomba. Mas a cara de Weatherly era a de muito poucos amigos, e ele não parecia ter nem um tico de vontade de rir – eu não pedi isso.
— Mihael, deixe eu te explicar: meu tempo é precioso. Não tenho tempo para brincadeiras. Sua sorte é que eu não tenho costume de largar casos e a empresa está me pagando direito.
Ele me empurrou a caixa de volta para mim e sacou a chaves da Mercedes.
— Não venha falar comigo como se eu fosse moleque, Weatherly! Eu não encomendei nada. Acha que eu vou brincar com esse assunto? Eu quase fui morto!
— Amanhã vamos nos encontrar para combinar o que você dirá na audiência. Dia 13 agora, sexta-feira.
Ele entrou no carro e partiu, com o pneu cantando.
— Babaca.
Meu advogado estava puto comigo, eu não sabia quem tinha me mandado aquelas peças íntimas e a minha primeira audiência era numa sexta-feira 13. Dava pra ser melhor? Suspirei e entrei no carro. Subi as rampas e estacionei na vaga de vice-presidente.
Halle acenou. Trajava uma saia cor de vinho, um colete preto e salto alto.
— Você tem... – ela parou e observou o relógio de pulso, por de trás dos óculos de leitura — três minutos e meio para limpar o chocolate do canto da boca e colocar uma gravata, bonitinho – riu – só falta você e um sócio de Washington.
— Droga – limpei o canto da minha boca e peguei uma gravata vermelha na gaveta da minha mesa. Pedia ajuda de Halle – você quer uma lingerie?
A loira parou. Parecia chocada.
— Er... Não, eu... – olhei para meu relógio no pulso – eu vou subir. Te explico quando voltar. Não fique pensando que...!
— Okay, vai! – ela me empurrou.
Entrei no elevador – droga – e subi até o antepenúltimo andar, onde ficava a sala de reuniões, com uma vista privilegiada da movimentada e atual Califórnia. Suspirei antes de entrar na sala e abri a porta. Todos viraram o olhar para mim e eu sorri. De cinco reuniões com os sócios, essa era a última. E era a primeira em que eu aparecia.
— Bom dia a todos – falei. Carter me olhou feliz, como se pensasse “finalmente!”. A reunião passou tranquila. Tratamos de assuntos chatos e monótonos, até chegar ao ponto chave: Sublime. Foi dito de tudo um pouco e eu quase vi alguns descerem do salto para xingar Matarazzo, Yagami ou até mesmo eu. A reunião acabou eram quase 13:30h e eu estava querendo morrer de tédio. Tossi um pouco, saindo da sala. Quando perdi de vista todos os homens, afrouxei a gravata. Halle me esperava na minha sala com uma xícara de café fria.
— Como foi? – a loira perguntou.
— Chato como sempre – tirei o nó vermelho do meu pescoço e a guardei na mesma gaveta – vou sair almoçar. Tá afim?
— Hm... – ela colocou a mão no queixo, fazendo bico – tudo bem. Vamos lá.
Fomos até uma pizzaria que eu costumava frequentar, ali perto. Entramos em acordo com massa fina, molho, queijo prato e pepperoni, além de duas garrafas de cerveja preta.
— Ok, pode me explicar agora a história da lingerie? — perguntou, tirando o colete e pendurando na cadeira. Guardou os óculos e deixou o celular em cima da mesa.
— Eu recebi uma caixa. Fiz maior reboliço, achando que era uma bomba e no fim eram duas lingeries – tomei um gole da cerveja, rindo – uma vermelha e uma roxa. Eu não sei quem enviou, mas... Eu que não vou usar, né?
— E como sabe que é do meu tamanho? – ela me olhou, com as sobrancelhas levantadas.
— Eu não sei – mexi os ombros, mordendo um pedaço da pizza – se não for do seu tamanho, dê para alguém que use.
— Por que você não veste? Vai ficar linda – sorriu maldosa – mas falando sério, Mihael. Como está o caso do Matarazzo?
— Essa sexta será a primeira audiência. Agora que meu advogado está puto comigo, por causa das lingeries, estou com medo dele me entregar de mão beijada para o Matarazzo.
— Não vai acontecer – sorriu. Sorri de volta.
Voltamos para o serviço e o resto da tarde passou quente e úmida. Assinei vários documentos e dei férias para três operários, que haviam pedido e Tony negado. Às seis, me despedi de Halle e lhe entreguei o pacote com as peças íntimas. Antes de passar no campus da Stanford, parei em um restaurante japonês para comprar arroz, sushi e salmão com molho agridoce — que eu adorava — e parei também em um mercado, para comprar um vinho tinto.
Quando estacionei em frente ao campus, telefonei para Nate, que logo apareceu de camisa azul e jeans preto. Estava com algumas olheiras.
— Olá... – falei com tom de galanteador e lhe dei um beijo, enquanto ele apertava o cinto contra o peito.
— Boa noite, Mello – ele sorriu – aonde vamos?
— Pra minha casa! Eu comprei comida japonesa e vinho.
Ele concordou, balançando a cabeça e eu acelerei. Estava parecendo um adolescente ansioso pra passar a tarde pela primeira vez com a namorada. E não era isso? Contou-me como estavam sendo as aulas – inclusive comentou sobre o serzinho do Gevanni — e eu lhe contei sobre as misteriosas lingeries que eu havia ganhado de presente mais cedo e em como me livrei delas.
Quando chegamos ao meu apartamento, abri a porta da varanda e liguei o ventilador do teto. Desabotoei os primeiros botões da minha camisa social e tirei os sapatos. Nate colocou o vinho no gelo e abriu a caixa de papelão com a comida japonesa. Liguei a televisão em um canal qualquer, que passava um filme de suspense em nome de Stephen King.
Recebi uma ligação de Matt, que Near atendeu.
— Ah... Ok. Eu digo pra ele. Bye Mail.
— O que ele disse? – gritei da cozinha, onde eu colocava a comida em um prato de porcelana, que tinha ganhado da mamãe.
— Ele perguntou se chegou à sua casa – ele começou a gargalhar — as lingeries que ele encomendou para a namorada.
— Sério?! Mail, que filho da puta! Essa merda me deu tanta dor de cabeça!
O garoto continuava a rir. Enquanto comíamos e bebíamos, conversamos sobre o resto do mês e em como a Sra. River estava preocupada com o filho sozinho no campus. Me disse que seus pais iriam esperar suas férias para visitar a família em Estrasburgo.
— Vai me levar de volta para o campus? – perguntou Nate, que me seguia para o quarto.
— Acho que não hoje – me joguei na cama, sentindo minhas costas doerem. Puxei uma das almofadas e coloquei contra o meu pescoço.
— E aonde vou dormir? – ele perguntou, ainda de pé e braços cruzados.
— Com o lobo mau, bem aqui – eu puxei o garoto, que caiu, junto a mim.
Tasquei-lhe um beijo demorado e lento, minhas mãos na sua nuca e a outra em sua cintura. Senti a pele macia e quente, quando passeei por debaixo da camisa, arranhando levemente. Devagar, desci os beijos até o pescoço alvo, mordendo de leve. Depois subi novamente e chupei o lóbulo da orelha. O garoto se encolheu e fugiu um pouco de mim. Sentia meu rosto quente e fiquei envergonhado, ao ver que estava ficando excitado.
Suspirei e me levantei, arrancando a camisa e desabotoando a calça. Avisei que ia banhar e logo estaria de volta. Quando retornei, Nate estava deitado, com a cabeça apoiada, as pernas cobertas e um livro fino e branco nas mãos. Dei um pulo e pousei do seu lado.
— Que isso?
— Le Petit Prince— ele respondeu me beijando a bochecha – aliás. Olha aqui o trecho de hoje cedo – me mostrou uma página, completamente em francês e de letras miúdas – “os homens esqueceram essa verdade – disse ainda a raposa. – mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela tua rosa… – eu sou responsável pela minha rosa… – repetiu o principezinho, para não se esquecer.”.
Ele leu mais algumas páginas e logo estávamos bocejando. Apaguei ambos os abajures e fiquei só de shortinho de algodão. Nate estava havia banhado e usava cueca preta e uma regata.
— Boa noite, Mell.
— Boa noite, amor.
“tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.
Antoine de Saint-Exupéry
07 de outubro de 2015
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