Desconhecido
23 Mama, just killed a man
Notas iniciais
Talvez eu realmente não precisasse da polícia.
Se eu ia perder minha vida em uma cela de prisão, por que não perdê-la agora? Eu tinha muito mais a ganhar salvando Nate e mantendo Matarazzo na prisão. Era só o que me interessava. Que Near estivesse seguro e Lorenzo apodrecesse em sua cela chique.
E era isso que eu ia fazer.
Desconhecido
Capitulo 23
“Mama, just killed a man”
Detroit está parada no tempo, dentro de um vórtice temporal. Talvez seja um enorme buraco de minhoca no meio da América do Norte — como se tudo já não acontecesse aqui. A desigualdade social é gritante, Detroit está largada à própria sorte. Estagnada no ano entre os anos 60 e 2000.
Caminho junto de Mail na calçada, mas o ar é de pura insegurança. Abandonados por Deus e pelo seu governo que jurou auxilio, o povo encontrou segurança em seus amigos de gangue e uma renda de sobrevivência. Eu e Mail somos dois estranhos, riquinhos californianos. Olham-nos torto a cada esquina. Chegamos a uma cafeteria de esquina e nos sentamos nos balcão de dentro. Do lado de fora, um grupo joga basquete e seu som portátil toca Stan, do Eminem. Uma junção de rap com Thank You da britânica Dido, que escutei bastante na minha adolescência. É uma letra triste, sobre um fã obsecado que vive uma vida de merda e se encontra nas letras de seu ídolo. O fã escreve cartas que não são respondidas e assim, com uma raiva e ódio interno crescentes, ele tranca a namorada grávida no porta-malas e atira o carro de uma ponta. Todos morrem.
Lembro-me do porque então de nunca ouvir rap.
Costumam ser um soco no estomago, por mais que não faça parte da sua realidade.
— Dois expressos – peço pra atendente.
— Pesquisei, mas não achei nada de relevante sobre uma cobra e cartas de baralho, Mello – o ruivo sussurra pra mim, apontando seu celular. Ele está com algumas olheiras e o cabelo mal penteado.
— Matarazzo não me estipulou prazos. Temos que descobrir e agir ainda essa madrugada – olho meu celular, que marca 23h43min – pelo menos descobrir quem são eles e amanhã cedo agir.
— Você tem certeza que não quer chamar os tiras, Mello? Isso é bem sério...
— Ele já tentou me matar, só contratou o cara errado. E como ele disse, se Nate morrer não terei como indicá-lo novamente. Esses caras são ameaçados de perder toda a família se abrirem a boca e falarem que os contratou. Pesquise então por SMA Detroit.
— Ok... – ele suspirou, digitando – segundo o Google, SMA Detroit é uma rede de quatro lojas de roupas e artigos para música. Estão espalhadas por toda a cidade. Olha a logotipo – Matt me mostrou a imagem, que batia exatamente com a tatuagem do garoto que havíamos encontrado há um par de horas.
— Quatro lojas, certo? – senti uma ponta de esperança – já é um começo. Pegue todos os endereços delas e o horário de funcionamento. Descubra também onde podemos alugar um carro e dormir essa noite.
— Ok.
Terminamos nosso expresso e pegamos mais um táxi até um hotel barato perto do Wayne State University que tocava uma música alta, provavelmente de uma república masculina, regada a cerveja.
Eu e Matt pagamos pelo único quarto disponível, partilhado e com uma cama de casal.
— No frigobar só tem suco de maçã – ele choramingou e caminhou até a janela pra acender um cigarro.
— Há duas lojas em Detroit e outras duas em Windsor e Warren no Michigan. Pelo o que conheço da periferia, nenhuma casa é segura. A polícia é corrupta e invade qualquer casa a qualquer hora só por diversão. Eles não deixariam um refém no porão nem sótão de casa. Quer apostar comigo que ele está em alguma dessas lojas, injetado e apagado?
— A questão é qual. Olhe para nós, Mell, não podemos visitar todas essas lojas e nos fazer de turistas idiotas e sair investigando a parada. Sou fã de Arquivo-X, mas não agente especial do FBI.
— Não, mas eu posso tentar. Descobriu onde podemos alugar um carro?
— Do lado do aeroporto.
— Certo.
— Você tem um plano? E se Matarazzo ligar amanhã pela manhã e mandar você falar com a mídia?
— Eu tenho alguma coisa, não vamos chamar de plano.
Levantamos-nos cedo e dessa vez fomos de Uber até o aeroporto. Alugamos um econômico cinza. A primeira loja abriria às nove horas e logo a localizamos. Pedi para Mail ficar no carro e entrei. Observei bem o local, com grafites na parede e dois atendentes com cara de sono. Comecei a passar a arara de camisas de basquete e logo depois a de algodão. Logo algo me chamou a atenção. Uma camisa larga e verde, com uma cobra e três cartas de baralho.
Como dito, me fingi de otário.
— Hey cara! – chamei – me amarrei nesse modelo aqui. É de um time do bairro?
— Hã... – ele semicerrou os olhos, olhando para o companheiro – é sim. Mas tome cuidado por onde anda com ela. Tu não quer tomar um tiro de graça, né?
— Tô ligado... E onde eu não posso andar com ela?
— De onde você é? – perguntou, suspeitando de algo.
— Sou do subúrbio de São Francisco. Vivo lá no meio daqueles mimadinhos universitários. Tudo um bando de otário.
— Ah, agora saquei esse teu sotaque. Tenho alguns amigos por lá. Chega mais aqui, camarada, vou te mostrar onde pode andar ou não com tua camisa.
Ele apontou diversos pontos no mapa e concluiu com a magnífica frase: — evite esses aqui. Ou virará queijo suíço, falou?
— Na Califórnia não achamos muitas lojas dessa. Pode me ajudar a escolher algumas lojas pra eu parar de parecer um otário?
— Claro!
Depois de quase uma hora, eu estava com um jeans preto e folgado, um Adidas branco e uma regata preta dos Boston. Uma bandana branca cobria toda minha cabeça e um boné de New York Yankees. Enquanto ainda estava no provador, vi outros clientes entrando e adquirindo a atenção de ambos atendentes. Aproveitei e fui até a parte de trás da loja e olhei o estoque. Revirei alguns armários e achei um canivete tático. A coloquei no bolso do jeans. Eu talvez precisasse. Cheguei até o fim da loja e não achei ninguém e nenhuma porta trancada.
1/4.
Paguei tudo em dólar vivo. Não queria correr o risco de ter meu cartão de crédito rastreado.
Ao voltar no carro, Mail estava com o vidro abaixado pela metade. Tinha largado PSP e ria feito retardado.
— Posso fazer um beat box e você manda a rima!
— Vai se foder, Jeevas – entrei – essa aqui tá limpa. Me dá a coordenadas das próximas – afirmei enquanto examinava a lâmina do canivete que tinha achado.
Quase cinquenta minutos depois estávamos estacionando na entrada da segunda loja.
— Dessa vez quem vai sou eu! – ele sorriu, tirando o goggles da cabeça e jogando no banco traseiro – libera a grana aí! – o ruivo estendeu a palma da mão.
— Eu te odeio, sabe disso né? – resmunguei entregando cem dólares.
— Mas eu te amo, me dá um beijinho – brincou, tentando alcançar meu rosto – quando acharmos o Nate vou conversar com ele sobre como é maravilhoso dormir abraçadinho contigo — logo o ruivo saiu, olhou pra ambos os lados da rua e atravessou.
Meu celular vibrou e era um SMS de número desconhecido.
“DESCONHECIDO: 10h21min.
Mihael, sou eu Gevanni. Estou tentando falar com Nate tem dois dias e não consigo. Achei seu número em um caderno que ele deixou comigo. Sabe como posso entrar em contato com ele?”.
Desliguei o telefone e suspirei. Não conseguia conectar em nenhuma rádio que eu gostava e o carro não possuía entrada USB. Reencostei no banco e fechei os olhos, pensando em Nate. Se estava machucado, com fome ou frio. Em como Matarazzo conseguia ser tão babaca em um período de tempo tão curto. Continuei tentando sintonizar em algo, até que ouvi a voz de Freddie Mercury e emblemáticas frases prum possível futuro próximo.
— “Mama, just killed a man”
Mamãe, acabei de matar um homem.
— “Put a gun against his head”
Coloquei uma arma contra sua cabeça.
— “Pulled my trigger, now he's dead”
Puxei o gatilho, agora ele está morto.
— “Mama, life had just begun”
Mamãe, a vida acabou de começar.
E então, novamente eu estava me jogando em um dilema que não deveria ser pensando: eu mataria pra salvar Nate? Se chegasse a esse ponto, eu usaria aquela lâmina contra o pescoço de alguém que o ameaçasse? Quando criança, criado nos EUA e possuindo sangue alemão, sempre ouvi falar do quanto ambos os lados haviam perdido durante a Segunda Guerra Mundial. Diversos membros da minha família mataram pessoas com sangue americano e nos almoços de domingo, falavam disso com um sorriso estampado na cara. Diziam “nossa causa era justa. A Alemanha estava indo de mal a pior. Claro que foi errado tudo que fizemos, mas defendemos nosso país!”. E isso era nojento.
Que a adrenalina estivesse comigo se eu precisasse chegar a tal ponto.
— “Mama!”
— “Anyway the wind blows”
(De qualquer jeito o vento sopra).
— “I don't wanna die”.
Eu não quero morrer.
— “I sometimes wish I'd never been born at all”.
Às vezes eu desejo nunca ter nascido!
Matt voltou com apenas uma camiseta e boné, entrou no carro e tomou um pouco de fôlego.
— Essa loja tem um porão escondido. Quando peguei a roupa para experimentar, fui até o provador. De frente pro provador tinham duas portas e uma delas estava trancada. Eu consegui abrir com um grampo e de baixo do tapete tinha um porta com um cadeado, que só abre com a chave ou arrebentado.
— Mas pode muito bem ser o lugar que eles escondem maconha ou...
— Aí é que tá. A outra porta tinha alguns pés e paradas lá dentro. Não tem porque guardar no porão algo tão exposto, Mello.
— E se só foi construído por acaso? Toda casa dos Estados Unidos tem um lugar pra estocar comida e... Matt, nós não podemos errar, entende? Se não for esse, vão nos descobrir e então estamos ferrados. Não conseguiremos chegar à outras lojas.
Vi o ruivo fechar os olhos devagar e tirar algo do bolso um papel amassado.
“20h 2ª aven. 4336.”.
— O cadeado é novo. Foi colocado muito recentemente.
O ar me faltou nos pulmões e senti minha boca seca.
— Ok. Quantas pessoas têm lá dentro?
— É uma loja bastante movimentada. Tinha uns quatro atendentes, mas bastante cliente também. Só temos que tomar cuidado se for alguém tentando nos despistar.
— Algum plano? – questionei, sentindo o corte fino da lâmina no bolso.
14 de janeiro de 2017
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