Desconhecido

24 - Eu te amo, Mihael


Notas iniciais
Genteeeee, voltei! *fogos de artifício*

— É uma loja bastante movimentada. Tinha uns quatro atendentes, mas bastante cliente também. Só temos que tomar cuidado se for alguém tentando nos despistar.

— Algum plano? – questionei, sentindo o corte fino da lâmina no bolso.

Desconhecido

Capitulo 24

“Eu te amo, Mihael”

A adrenalina de fato pode ser viciante. Muitos curtem a sensação de andar de skate numa pista movimentada, assistir um filme de terror, pular de paraquedas, fumar cigarro num corredor da escola, transar numa local público.

Atirar em alguém.

É o hormônio responsável pelo aumento da pressão sanguínea.

Atire e viva. Desvie. Pule. Corra.

Não olhe para trás.

Mail talvez encarasse como um jogo de videogame, mas a tremedeira que tomava conta do meu braço parecia bastante real. Estávamos do lado de trás do pequeno prédio pintado de verde, com pichações sobrepostas. Tínhamos a impressão que alguém nos tinha visto, mas passados um par de minutos nada aconteceu. Talvez ninguém se importasse.

Cogitamos ligar para a polícia, mas o pensamento que alguém poderia estar naquele porão com Nate era perturbadora demais pra isso. Os tiras batendo e arrebentando o vidro da entrada principal da loja, o capanga escutando e deslizando a faca na garganta do garoto.

Devemos esperar tudo vindo de Matarazzo.

O canivete no meu bolso tintilava de forma febril e o aparelho celular no bolso do jeans estava no silencioso, com os números 911 discados.

— Vamos – chamou Mail que havia conseguido destravar a porta. O corredor era razoavelmente longo, com dois provadores do lado esquerdo e duas portas do lado direito. A última porta era a que o ruivo havia aberto. Ao passo de malandro, entramos e trancamos a porta. Colocamos ainda algumas tranqueiras pesadas, com todo o cuidado para não fazer barulho com os pés e alertar quem estivesse no porão.

Evitando qualquer tipo de contato verbal, fiz sinal para abrisse o cadeado. Havíamos trago um pé de cabra, que não foi necessário. Os dons furtivos que Mail aprendera na adolescência eram úteis ainda. Preparamos-nos psicologicamente para levantar o pesado pedaço de ferro e descer. Se houvesse alguém lá, deveríamos mobilizá-lo.

Contei.

2. 1.

Abrimos e eu me joguei no buraco, batendo meus pés violentamente contra o concreto escuro. Apertei meus olhos para o cômodo escuro e gelado. A única iluminação vinha da pequena entrada no teto e uma vela pela metade num dos cantos da sala.

Uma pressão contra meu pescoço. Dolorosamente, eu havia sido lento e agora alguém me dava um mata leão. Meus pés perdendo o chão. Fazia força para tirar os braços do meu redor, mas estes pareciam ter o dobro do tamanho e da força que os meus. Progressivamente meu corpo entrou em desespero, meu cérebro implorando por oxigênio, minha língua embolando e meus músculos fraquejando.

Cai tossindo de quatro tossindo no chão. As palmas da mão contra o concreto frio e áspero. Algo acontecia atrás de mim. Virei devagar quando escutei Matt gritar algo que eu não pude compreender.

Só pude ver a silhueta do homem, que deveria ter mais de dois metros de altura e músculos de fisiculturista. Uma expressão de ódio vacilava em seu rosto, quando Jeevas lhe deu uma joelhada no estomago. Antes de levantar e tomar uma atitude vi Nate desacordado num canto do quarto. Alguns arranhões superficiais no rosto, mas felizmente parecia só dormir.

A adrenalina pulsava minha garganta como uma bomba prestes a explodir de tensão. Tirei minha regata e enrolei no meu punho. Sem planos ou ideias, Matt correu pela esquerda, desferindo um belo soco no rosto do sujeito, tomando sua atenção. Pela direita, chutei seu joelho que estalou. Ele caiu e eu comecei a socá-lo. Afinal, nossa vida dependia daquilo. Segurei seu queixo e continuei esmurrando, mesmo depois da regata ensanguentada ter caído do meu punho. Sentia os nós da minha mão chorarem contra o rosto ossudo do homem, mas continuei. Ele então desviou e eu acertei a parede, cortando minha mão.

Por alguns segundos, a dor me mobilizou. Ele me acertou um soco no estomago e me senti mais uma vez no ensino médio. A ferrugem de sangue dançando e subindo a garganta rapidamente, cai para trás. Mail, com o pé de cabra acertou a perna do homem, fazendo-o gemer de dor. Ele então desmaiou, quando o ruivo acertou sua orelha com violência.

— Finalmente.

Todos nós nos sentíamos da mesma forma com atitudes estúpidas. Quando assistimos a um filme de terror a atitude do mocinho idiota sempre era a mais absurda possível, como ir procurar sinal de telefone numa floresta densa e esquecer-se de trancar a porta. Outra dessas atitudes estúpidas era ir verificar o amor de sua vida sem antes saber se o assassino estava de fato morto ou bem amarrado. Agora eu estava naquela situação e eu não queria saber se o homem de dois metros estava vivo. Só queria ver e sentir Nate.

Com o semblante sereno, tinha alguns cortes em ambas as maçãs do rosto, assim como um olho roxo. Os nós de suas mãos dolorosamente oscilavam entre um roxo e verde. Os botões da camisa arrebentados e o cabelo grisalho com sangue seco, cristalizado.

— Nate – chamei, gentilmente apertando seus ombros – Nate, meu amor... Me responde, por favor – meu ar faltou. Meu estomago doía um pouco e eu tinha um corte no lábio inferior. Chamei mais uma vez, até que ele finalmente apertou as sobrancelhas e abriu os olhos. A cor do mel se misturou ao calor da vela acesa e eu nunca me senti tão grato de ver aqueles olhos como agora.

Ele se apoiou nos cotovelos e levantou devagar. Sorriu vagamente e deixou o peso do próprio corpo cair sobre mim. O envolvi até onde pude. Nunca mais o deixaria ir embora novamente, cuidaria dele. Todas as dores do meu corpo e da minha alma pareciam mais intensas então, mais reais e resolvidas. Eu estava vivo mais uma vez, eu e meu corpo moído de surra. Ele apertou minhas costas com suas mãos geladas. Aproveitei seu cheiro e afaguei o cabelo grosso.

Do outro lado do cômodo Matt sorriu pra mim, com o polegar para cima. Tinha sangue sexo em seu rosto e um corte na sobrancelha, que de longe não pude descobrir se era fundo ou não. Veio até nós e abraçou Nate, falando baixinho “você ficará bem, Near. Mello é um super-herói e tanto”. Capturou o tornozelo do garoto e tentou o máximo fazer sua mágica com um grampo torto.

Um gemido pôde ser ouvido e o cara tinha voltado a se mexer. Caminhei até ele com a intenção de bota-lo para dormir mais um pouco, mas o capanga foi mais rápido, puxando meu pé e me fazendo bater a cabeça contra o chão. Minhas costas nuas arranhando contra o concreto bruto.

— Mello! – Mail gritou.

— Matarazzo disse que talvez vocês viessem, moleques! – o homem resolveu se pronunciar pela primeira vez – E ele me autorizou a matar e sumir com seus corpos! Será um problema a menos para ele.

Então o filho da puta sacou uma pistola automática da cintura.

— Ela tem silenciador, não se preocupem – comentou – vocês três irão morrer e ninguém ficará sabendo por pelo menos dois meses.

Minha mão se mantinha febril sobre o canivete. Havia levantado, mas estava travado no mesmo lugar. O breu do quarto havia me dado uma oportunidade, mas somente uma.

— Agora quero saber – o homem tossiu um pouco – quem quer morrer primeiro. Acho que será você, loiro. Quebrou meu nariz.

Senti minha saliva se misturar com o sangue fresco e a vela vacilando, deixando o ar do ambiente mais sinistro ainda. Ele tirou a trava de segurança da arma e apontou para mim.

Senti minha saliva lentamente se misturar contra o sangue fresco. A vela vacilou, apagando e eu ouvi ele tirando a trava de segurança da arma.

— Não se mexa, gracinha...

Escutamos o som da pólvora ecoar pelo pequeno cômodo, acertando em cheio meu ombro esquerdo. O sangue quente escorrendo. De fato a dor foi vacilante e me fez fechar os olhos. Escutei também Matt agarrando o canivete que eu tinha jogado para ele e o barulho do grito do homem, quando o ruivo possivelmente o esfaqueou em algum lugar.

O som de um soco.

Ou seria eu caindo?

Abri os olhos e Nate segurava minha nuca.

— Está tudo bem – ele sussurrou pra mim – vai ficar tudo bem, ok?

Sorri de volta. Ah é, ele estava se formando para ser médico.

— Vai ficar tudo bem... – repetiu, com algumas lágrimas teimosas nos olhos. Abaixou-se devagar e me deu um beijo – eu te amo, Mihael.

Talvez fosse o momento ideal para desmaiar e começar a falar com plantas em meus sonhos, então acordando feliz e enfaixado em um hospital. Eu poderia até estar flutuando por aí, assombrando alguém. Nate me amava e isso na minha vida bastava. O calor que ele emanava era de longe a coisa mais confortável daquele porão. O líquido viscoso e quente escorria meu braço e qualquer movimento faziam meus nervos protestarem. Tínhamos que sair dali.

— Mantenha seu braço parado e junto ao torço. Sentirá menos dor.

— Ok.

Matt e Nate me ajudaram a levantar, com meu corpo protestando cada vez mais. Gemi de dor quando o ruivo segurou minha costela e me puxou para cima. O cara estava caído no chão, com o canivete cravado na costela segundo o ruivo.

— Vamos sair, rápido.

Subiram as escadas na minha frente e eu fui mais devagar logo atrás. Em determinada parte da escada de ferro, encostei minha testa contra o metal frio. Eu queria simplesmente dormir e não pensar se a bala tinha atravessado meu ombro e estourado minha carne. Minhas costas doíam e minha cabeça girava. Eu tinha sido jogado contra a parede? Havíamos matado aquele homem? Éramos assassinos ou aquilo tudo foi legítima defesa? Terminei de subir as escadas. Deixei um rastro de sangue por todo lugar que eu passava com a visão turva.

— No três – disse o ruivo – iremos pela porta dos fundos. O carro está no fim do beco, com as portas destravadas. Mello vá primeiro. Deite no banco traseiro. Vamos te tirar daqui o quanto antes.

Concordei e sai arrastando meus pés.

Abri meus olhos devagar. O som do motor e o impacto da borracha contra o asfalto. O couro quente do banco contra minha nuca. Alguma música tocava no fundo e Matt e Near conversavam sobre algo, mas ambas as vozes pareciam mais distante do que de fato estavam. Eu estava com frio, mas também estava com a garganta seca para pedir que ligassem o ar. Finalmente consegui abrir meus olhos, mas a claridade excessiva me fez fechá-los novamente.

Havíamos conseguido.

— Nate – molhei meus lábios – como vocês estão?

— Comparados a você, somos recém-nascidos de tão novos – Matt respondeu – estamos quase no hospital, aguente mais um pouco.

— Não recebemos nenhuma ligação do Matarazzo?

— Não. Liguei para o Weatherly e ele vai nos encontrar no hospital. Chamamos a polícia também, para averiguar sobre o caso. Estamos juntos de novo, Mell. Só precisamos nos proteger.

— Queria te agradecer, Mello – Nate comentou – eu não tinha certeza se viria atrás de mim e claro que sabia que Matarazzo iria te chantagear. Você é tão teimoso... – o garoto olhou com ternura para mim – e também a você, Mail. Não teríamos conseguido se Mello estivesse sozinho. Obrigada.

— Que isso, pedaço de lã – o ruivo riu – não é a primeira vez que essa loira safada aí tá jogada no meu banco traseiro. Nos conhecemos há muito tempo e eu não deixaria ele na mão. Esquenta com isso não.

— E se não fosse eu, você não teria passado por isso – comentei.

— Eu passaria por isso mais uma vez e outra vez. Se isso significa que estaríamos juntos, Mello – respondeu sério.

Sorri confortável com o momento. Não me importava meu ombro em carne viva, eu teria uma cicatriz legal. Nate estava bem e Mail também viveria pra fumar outro cigarro. Eu só queria ir pra casa e mergulhar numa piscina de chocolate com avelã, como se não houvesse amanhã.

Algum dos dois aumentou o volume do rádio e ligou o ar quente.

— “Hey, brother, there’s na endless ky to re-discover”
Ei, irmão, há uma estrada sem fim para redescobrir.

Oh sim, eu estava voltando da guerra.

— “Oh, k the ky comes falling down, for you, there’s nothing in this world I wouldn’t do”
Oh, se o céu estiver caindo, por você, não há nada neste mundo que eu não faria.

Mas essa guerra havíamos ganhado.

05 de março de 2017.

Notas finais
O próximo infelizmente será o último :( Mas queria dizer que vocês são lindos e maravilhosos. Provavelmente estarei postando ainda essa semana! E essa música do Avicci é muito boa, socorroo Mandem comentários, seu fofos ♥