Notas iniciais
Gente, estou chorosa. Boa leitura.

Desconhecido

Capitulo 25

“Não negue, apareça. Seja forte. Porque é preciso coragem para se arriscar num futuro incerto. Não posso esperar. Tenho tudo pronto dentro de mim e uma alma que só sabe viver presentes. Sem esperas, sem amarras, sem receios, sem cobertas, sem sentido, sem passados.”

Caio Fernando Abreu

Epílogo

Old Fashioned era a bebida que eu deveria ter chutado há algum tempo, sob o gosto duvidoso de xarope, laranja e cereja e um esquema estranho chamado Angostura – o qual chefes culinários flambavam comidas chiques. O drinque tinha uma cor que lembrava um suco de laranja fraco e muito gelo. Nate parecia gostar.

As paredes do estabelecimento ainda eram verdes e eu tinha a expressão que elas estavam mais desbotadas que há um par de anos passados. As persianas estavam abertas e um trovão fazia-se ser ouvido do lado de fora. A TV estava sem sinal e um homem de chapéu de cowboy cantava alguma música desconhecida por mim, em um palco de madeira recém-instalado.

A mesa servia perfeitamente seis ou sete pessoas, mas eu e Nate, Mail e Aléxis sentávamos da forma mais confortável possível. Alguns copos vazios, umas latas de Bud Light amassadas e só o vestígio de alguns anéis de cebola fritas.

— Mas Millennium é um ótimo filme! – a garota respondeu olhando descrente o ruivo. Ela arrumou o lenço vermelho que prendiam seu cabelo e continuou – inclusive os livros originais do Stieg Larsson são envolventes demais. A trilogia tirou todo o preconceito que eu tinha com os suecos.

— Sim! – bati a cerveja na mesa – o filme sueco superou a atuação do Daniel Craig, apesar de boa.

— Sei lá... O gênero do filme não é bem tipo – Mail respondeu.

— Você deveria dar uma chance – Nate comentou ao meu lado, enquanto brincava com um baralho de cartas amassadas – apesar de sim, ser um filme pesado, a história é boa.

— Você já viu Millennium? – perguntei meio que perplexo. Meu ombro doía me incomodava um pouco e eu o massageei por debaixo da jaqueta de couro artificial, tomando cuidado com a cicatriz sensível.

— Um dia acordei no meio da madrugada, sem muito sono. Liguei e estava passando.

— Hey – Mail chamou a atenção do grupo – Matarazzo foi encontrado morto na cela da prisão. Parece que ele se enforcou com o próprio lençol...

Ficamos em silêncio por alguns minutos. O cara havia contratado outro para me matar, quase matou clientes da minha empresa, quase matou Nate, fora a vida de dezenas outras pessoas que ele deveria ter infernizado conforme seus anos de vida. Porém, eu jamais desejaria a morte de alguém. Quando mais novo, eu e colegas de escritório íamos a bares conversar e beber e acabava que tocávamos no assunto e eu era chamado de politicamente correto. Mas de fato eu não tinha porque comemorar a morte de ninguém, algum coitado em algum lugar do mundo poderia estar sofrendo. Ou não.

— Eu não acho que foi suicídio – Nate suspirou – ele tinha tudo e mais um pouco. Mesmo preso tinha a mordomia de um milionário. Ele poderia ter segredos de algum outro chefão do crime que não podiam ser revelados.

— Talvez...

— Yagami assumiu a empresa e disse pra imprensa que foi um grande infortúnio. Matarazzo era um italiano sem família pelo visto.

Um clima desconfortável se pôs entre nós.

Mail se levantou e anunciou que iria para o lado de fora fumar um cigarro. Aléxis disse que iria junto.

Ainda chovia forte lá fora e como já dito, era um bar afastado da cidade. O comércio local estava fechado e era relativamente tarde. Acenei para o garçom que me trouxesse chocolate quente com licor. O ar condicionado estava desligado e minha impressão era que o aquecimento do local estava quebrado. Subi a gola da jaqueta e soltei minha trança, a fim de cobrir o pescoço.

— Você está bem? – Nate perguntou. Observei seu rosto angelical, com duas pequenas cicatrizes rosadas na maçã do rosto. O cabelo bagunçado e a gola da blusa jeans amarrotada. As bochechas estavam vermelhas também, ou por conta do frio, ou por conta do seu Old Fashioned.

Respondi com um selinho rápido em sua boca. Ele sorriu de lado.

— Estou ótimo.

O garoto então se levantou e caminhou lentamente até o balcão de bebidas. Perguntou algo para o barman e depois caminhou até o pequeno palco de madeira que estava vazio. A música de fundo foi interrompida e eu olhei ao redor. O bar estava praticamente vazio, contando só comigo, River, o barman, um garçom e uma mulher mexicana bebendo vodka sozinha junto ao balcão.

Sentou-se num banquinho surrado de madeira escura e ajustou o microfone à altura da boca.

— Quand on n'a que l'amour, pour meubler de merveilles, et couvrir de soleil, la laideur des faubourgs, quand on n'a que l'amour, pour unique raison, pour unique chanson, et unique secours.

“Quando só se tem o amor para enfeitar com maravilhas e cobrir com sol a feiura da miséria, quando só se tem o amor como única razão, como única canção e único socorro.”

Eu não entendia uma palavra, mas aí estava a universalidade do tom. Era sereno, sem música de fundo. Leve e devagar, parecia sentir cada sílaba das palavras que proferia. Segurava o microfone, mas não parecia apertar, sequer parecia nervoso.

Naquele momento eu me perguntava como alguém como Nate River me namoraria ou porque eu não tinha prestado atenção nas aulas de francês.

Minha pequena dúvida era sobre o que aquecia meu corpo. Se a voz suave tomando conta do ambiente ou o chocolate quente esquecido em minhas mãos, queimando lentamente minha pele com sua porcelana marrom.

— Alors, sans avoir rien, que la force d'aimer, nous aurons dans nos mains, amis, le monde entier.

“Então, quando não tivermos mais nada, a não ser a força do amor, teremos na palma de nossas mãos, meu amigo, o mundo inteiro”.

O estranho garoto que um dia eu quase tirei a vida, levantou, encaixou o microfone novamente na base e caminhou em minha direção. Senti o vento da porta, quando Mail e Aléxis entraram sorrindo e de braços dados.

Jamais imaginei que o Eighth Legend pudesse me proporcionar tamanha felicidade e o mundo parecia continuar seu percurso sem destino.

Nate River não me era mais estranho, um desconhecido. O futuro não mais parecia tão incerto e o desconhecido dito por Charles Bukowski havia caído por terra. Tudo parecia distante e eu deveria viver o presente. O sentimento de futuro era certo, porém.

E para nós, somente o coração envolvido.

Para nós, o universo é Desconhecido.

12 de março de 2017.

Notas finais
Eu só queria falar que eu escrevo tem quase oito anos e em toda essa trajetória, Desconhecido foi minha única long-fic séria e que a cada capítulo eu morria um pouquinho, por estar chegando ao final. Quando comecei a escrever ela em 2011, era uma espécie de brincadeira. Conforme o tempo, ela se tornou um pedacinho querido para mim. É uma felicidade dar fim a trajetória, mas também uma tristeza. Muita gente bonita comentou, alguns leitores viraram meus amigos. Vocês são maravilhosos ♥ Em especial, queria deixar um abraço e um beijo para ~Imymemine que foi a primeira pessoa a comentar essa história depois que voltei a escrevê-la em 2015. Você me deu uma FORÇA enorme e espero que volte pra ler o final, sdds. Também à Tathe, com todos os seus comentários maravilhosooos, obrigada ♥ Tem muitos outros leitores que eu queria homenagear, mas meu texto já tá muito grande  Então, se você me acompanhou e sofreu junto cmg, um beijo e um abraço pra vocês. Só pra finalizar, sim, pretendo voltar com Desconhecido em uma two-fic, talvez ainda esse ano. Vocês podem deixar um comentário aqui, que eu aviso quando postar! Pretendo também escrever outra longfic de Death Note, mas mais pra frente. Enfimmmm gente, muito obrigada! Amo vocês.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!