Desconhecido

13 'Eu te amo, Nate'


Escutei a gritaria na televisão, a gritaria vinda dos outros quartos e da rua, o estouro da garrafa, mas, apesar de todo o barulho, ouvia meu coração batendo rápido nos meus pulsos. Senti a língua de Nate e sorri entre o beijo.

– Heureuse Année Nouvelle, mon ange.

Desconhecido

Capitulo 13

‘Eu te amo, Nate’

Quando caímos da bicicleta ou escorregamos nos piso liso, é comum se ouvir dizendo “está tudo bem!”, para os estranhos que costumam – ou costumavam. Depois de velho, ninguém mais de te ajuda – correr ajudar. Claro que não vamos gritar e espernear, “não estou bem não, seu cuzão, eu estou sangrando!”. Não queríamos incomodar ninguém, mas no meu caso, eu não queria a ajuda de ninguém. Sempre fui alto-suficiente. Mas agora, estava tentando imaginar os rostos das pessoas, a reação delas a me ver apanhando de dois homens armados.

Matt havia contado que recebera uma ligação pouco depois das 22 horas. Era do hospital UC Davis Medical Center, onde eu estava internado e sendo operado. Aparentemente, uma tentativa de homicídio mal executada e falha.

Segundo os policiais, eu estava no elevador de um dos prédios do centro – o ruivo me disse que era o do meu advogado – quando dois homens, um de boné e jaqueta e o outro de touca e moletom, armados, me abordaram no elevador. Aparentemente lutei e desarmei um dos caras; houve um disparo acidental contra a parede metálica do elevador e isso alertou as pessoas, que chamaram o 911. O elevador se abriu e nós três saímos para fora, onde, na frente de todos, levei uma coronhada violenta na cabeça e desmaiei – batendo forte a cabeça no chão – e ainda levei um tiro na costela. Ainda bem que eu estava desacordado... Puta cuzões.

Bom, a cirurgia foi graças ao tiro e ao traumatismo craniano que ganhei. E por isso ainda que Mail e Nate não queriam me contar nada, no momento que acordei. Os médicos temiam que eu adquirisse perda de memória momentânea, tipo um lapso de memória ou perda da coordenação motora.

– Eu queria tanto um chocolate...

Eu estava no hospital há uma semana e meia. Uma semana e meia comendo comida empapada e assistindo Full House (Três é demais). Era terça-feira, 13 de janeiro, o que me fazia pensar que o aniversário do ruivo estava perto e eu não tinha a mínima ideia do que ia fazer por ele. Recebi alta hoje e Nate havia dito que me buscaria junto do ruivo, às 17h.

Minhas coisas já estavam prontas e eu finalmente tinha tirado aquele lençol azul horroroso que chamavam de roupa hospitalar. Uma gases exagerada debaixo da atadura, rodeava minha cabeça e minhas costelas. Os ferimentos já haviam se fechado, mas a enfermeira insistia em me manter feito múmia.

Meu cabelo não estava mais reto e divoso como sempre; agora ele estava desfiado e não-reto, além de um pouco maior do que eu lembrava. Passava-me a impressão que estava muito parecido com Jason Momoa, quando tinha o cabelo longo. Tinha passado uma semana inteira pensando se deveria deixá-lo assim, cortá-lo curto ou cortar como sempre. Era uma puta decisão de vida!

Passei a mão no meu rosto, sentindo a barba rala, pois há dois dias eu não passava a gilete. Ouvi uma batida na porta e logo Nate entrou. Estava com a minha jaqueta jeans – que era grande demais para ele – e um sorriso lindo. Pus-me de pé e recebi um calmo beijo do garoto, que segurava minha cintura. Ele pegou minha mochila e colocou no ombro. Talvez eu devesse pedi-lo em casamento.

– Nós vamos de elevador. Se importa, Mell?

– Hm... – mesmo eu tendo claustrofobia e depois de quase morrer dentro de um? É, talvez eu me importe sim – não, tudo bem. Vamos lá.

Roubei ainda um selinho do garoto na porta, antes de sair. Assinamos uma papelada e entramos no elevador. Eu odiava aquilo.

Quando saímos para o estacionamento, minha costela repuxava um pouco. Senti o ar fresco depois de quase um mês naquele quarto de cheiro horrível. Eu poderia comer chocolate, hambúrguer, milkshake, tomar cerveja e de quebra, comida sólida todo dia... Como é bom sair daquele lugar! Contudo, agora fora do hospital, deveria decidir o que iria fazer em relação a Matarazzo. Quem sabe eu não contratasse alguém pra deixar o Yagami paraplégico?

– Matt veio no nosso carro? – quis saber. Nate só me olhou com o canto dos olhos e ignorou a pergunta. Pôs a mão no bolso da jaqueta e continuou caminhando.

– O carro está logo ali – ele apontou para um Volkswagen Jetta azul, que buzinou de volta. Várias possibilidades se passaram pela minha cabeça; poderia ser a mãe dele, o irmão ou um tio próximo. Mas seja lá quem for, eu estava horrível para ser apresentado para alguém.

– E quem é? – questionei, fechando as sobrancelhas. O garoto só abriu a porta de trás do carro e colocou minha mochila.

– Vamos, Mell – ele me ajudou a entrar e imediatamente lancei o olhar para o motorista, que me olhava de volta: homem, cabelo escuro e curto, pele clara e olhos azuis. Vestia uma camisa preta e blazer bege.

Quem diabos é ele?

– Stephen Gevanni – Nate acertou o cinto e olhou para mim – Mihael Keehl – terminou apontando para mim – Gevanni é um amigo meu, Mell.

– Bom te conhecer, Mello – o rapaz me cumprimentou. Eu o ignorei e olhei o prédio do hospital pela janela do carro, enquanto o carro dava partida. Aquilo tudo meu pegou de surpresa. Desde quando Nate tinha amigos? Claro, ele deveria ter uns colegas por aí, outros ali, mas amigos? A ponto de trazê-lo para me buscar no hospital? Eu não precisava de favores dele, caso Matt não pudesse me buscar, eu chamaria um táxi.

– Keehl. E Nate, onde está Mail? – eu queria pegar minha mochila, o Nate, sair e disparar um tiro certeiro no galão de combustível do carro.

– Mail está em um serviço, não muito longe daqui. Me deu as chaves do carro para vir te pegar, mas eu não tive tempo. Gevanni me ajudou.

– Hm.

O restante da viagem foi um desgosto total. Nunca tinha ouvido falar naquele tal de Gevanni que parecia excessivamente íntimo de Nate. Eles conversavam sobre assuntos pessoais com uma leveza incrível. O cara perguntou como estavam os pais do garoto, como estava indo nos primeiros dias da faculdade e se ainda tinha vícios por quebra-cabeças e puzzles. Observei bem o tipozinho daquele cara e ele parecia aquele cara perfeito dos filmes, mas que na verdade era um assassino frio e cruel.

Chegamos ao meu apartamento e eu nem esperei o carro parar direito; peguei minha mochila, pus no ombro e sai do automóvel, sem olhar na cara de nenhum dos dois. Minha cabeça estava doendo e eu queria tomar um banho e tirar aquela barba que estava me incomodando muito e queria enterrar vivo um tal de Stephen também.

Ignorei o cumprimento do porteiro e observei o elevador com as portas abertas, pronto pra me devorar. Empurrei com força a porta vermelha que dava nas escadas e comecei a subir, correndo. Contundo, no quarto andar, minha cabeça latejava forte, meu pulso estava acelerado. Tive a impressão que o ferimento feito à bala tinha se aberto até.

– Mihael! – escutei o eco. Senti duas mãos sobre meus ombros, a fim de me amparar e o garoto se ajoelhando ao meu lado. Eu apertava minhas têmporas e sentia meus tímpanos fecharem. Inspirei fundo. Pouco passou e meus sentidos voltaram. Ouvi Nate falando algo do meu lado e observei o lance de escadas logo abaixo. Me levantei e voltei a subir os degraus.

– O que aconteceu, Mello?

– E não é óbvio? – aumentei meu tom de voz. Ele estava no pé da escada e eu já no topo, pronto para abrir a porta e começar a subir o quinto andar.

– O que não é óbvio? – ele respondeu de volta, mantendo a voz passiva. Aquilo era irritante.

– Seja franco, Nate – parei e voltei o olhar para ele – nós já nos beijamos. Digo, isso é algo íntimo, mas aquele cara no carro tem mais intimidade com você do que eu. O que ele é seu? Ex-namorado? Ou namorado e não sabe de nós?

– Como é? – ele arregalou os olhos. Tentou balbuciar algo, mas desistiu no meio do caminho. Parecia chocado com as acusações – Isso é ridículo, Mihael! Somos amigos!

– Amigos, claro. Nós somos amigos. Você e Matt são amigos e nem por isso nós sabemos por que você saiu de Londres e veio pros Estados Unidos, né? Nem por isso sabemos tudo sobre você e vise-versa. Alguma vez já pensou que amigos fazem isso?

– Você e eu nos conhecemos há pouquíssimo tempo, Mihael. Gevanni e eu somos amigos de infância. O conheci na pré-escola! Custa perguntar as coisas, antes de sair acusando?

– Custa, custa sim, River! — abri a porta e vi no corredor três portas abertas e diversas pessoas de cara amarrada para mim. Continuei subindo.

– Isso tudo é ridículo – a voz ecoou atrás de mim novamente — nós ainda...

– Nem namoramos? – completei sua frase com um grito, parando – não temos nada, certo? – sorri para ele. Nate olhou nos meus olhos, firme. Ele ainda não tinha descido do salto e eu via o autocontrole em seus olhos; passou a línguas nos lábios.

– Mello, nós...

– Nós? E existe um nós? Aliás, “Near”, me conte. Se estamos brigando assim e nem namoramos, imagina se namorarmos, né? Acho que seria uma péssima ideia. Nós não vamos namorar – eu conclui – eu não sou trouxa.

– Tem que ser o remédio... – ele cochichou para si mesmo, enquanto massageava as têmporas – quais as chances de ser um efeito colateral?

– Vá se foder, River. Eu sou assim, não é o remédio que estou tomando ou problema mental. Eu não bati a cabeça.

– Na verdade bateu sim – idiota — e sim, existe remédio pra tudo e efeito colateral pra tudo. E se você for mesmo assim, Mello...

– E daí? Eu sou mesmo assim. Algum problema?

Pude ver sua mandíbula se contrair. Ele suspirou e passou as mãos no cabelo.

– Não. Não tem problema, Mell – o garoto retomou sua subida pelas escadas. Eu queria sair e deixá-lo sozinho ali, mas queria ouvir o que ele tinha a dizer — Mello... Você é a primeira pessoa da minha vida. Você é a maldita primeira pessoa que despertou minha atenção – estava próximo. Eu mastigava a minha bochecha por dentro e não tirava os olhos dele – nunca tive interesse em ninguém, homens, mulheres. Nunca. Foi você, Mihael. Você acha que foi fácil?

Me mantive mudo e parado. Eu gostava muito do garoto, mas não queria aceitar a ideia que ele tivesse outros. Outros amigos, outras pessoas. É normal, mas... Nate parecia uma pessoa extremamente frágil de lidar e de cuidar. Não que ele já tivesse chorado na minha frente e contado como sua vida fora ruim ou boa, se sentia saudades de algo ou não. Era só uma impressão que eu tinha.

– Pensa comigo, Mell... Você e Matt são amigos e nem por isso eu quero tacar fogo nele – riu – pense assim... Gevanni me ajudou em momentos difíceis da minha vida e ele já sabe que estou em uma relação contigo.

– Relação, é? – sorri, amargo.

– É, relação. Se quiser que se chame namoro, casamento, vínculo, convívio ou intimidade... Tanto faz, para mim está ótimo. Mas nós temos algo, Mihael.

O garoto de mechas grisalhas me abraçou, colocando o nariz gelado contra a curva do meu pescoço. Meu rosto estava quente e eu queria continuar a discussão, mas retribui o abraço. Talvez eu estivesse sendo realmente alguém chato, mas... Não me parecia tão errado assim.

Não tão errado assim.

– Eu te amo, Nate.

Subimos devagar até chegar ao meu apartamento, onde tomei banho – lavei o cabelo e raspei a barba -. Vesti uma samba canção e uma camiseta branca com o desenho do Frajola no centro. Nate estava sentando no sofá, lendo a bula dos remédios que eu estava tomando.

Resolvi então ligar para o ruivo, falar que eu já estava em casa, mas não achei minha mochila, até que me dei conta: havíamos deixado ela na escada.

– Mas que droga, velho... – gemi.

O primeiro dia do ano fora do hospital estava sendo ótimo.

Ótimo, graças a você, Mello.

Porra, Mello.

12 de setembro de 2015

Notas finais
Tipo assim... Tô postando pra ver se sobe meu ânimo; desde o último capítulo só aconteceu merda na minha vida: um dos meus cachorros morreu, rolou mó putaria com a minha inscrição na faculdade e acho que deu tudo errado e agora há pouco eu queimei a minha impressora de 700 conto. Acho que vou ali me jogar da passarela, porque se a queda não matar, o carro passa por cima e mata -.-