Desconhecido
2 Cada um com seus problemas
– É sério! – ele se remexeu no banco rindo – cara, esse cinto incomoda! – ele começou a mexer no cinto que cruzava o peito dele.
– Se atreva a tira-lo e eu o jogo para fora do carro – brinquei. Quando finalmente saímos daquela parte da cidade o olhei por um breve momento, como se falasse “Enfim livres para abrir a janela”.
– Mihael! – o ruivo do meu lado gritou apontado para frente. Meu sorriso sumiu no momento em que senti o baque no capô do carro e me dei conta que havia atropelado alguém.
Desconhecido?
Capitulo 02
Cada um com seus problemas;
Hospital. Eu detestava aquele lugar. Tinha cheiro esquisito, gritos e crianças chorando. Nem mesmo a água tinha gosto normal, e aquele horário não havia mercado aberto para eu comprar algum chocolate. E com toda certeza lojas conveniências 24h não tinham ali por perto para meu desanimo. Por que eu fui escutar o Matt? Por que joguei meu chocolate pela janela? Por que olhei para Matt e atropelei o garoto? Mas que demônios! Depois de sair daqui vou a algum centro de espíritas ou mesmo para uma igreja.
– Mell. Você tá legal? – o ruivo perguntou sentando do meu lado com um copo de água em mãos.
– Eu acabei de atropelar um garoto de dezenove anos Mail. Como você acha que eu estou? – coloquei minhas mãos no meu cabelo e peguei um elástico prendendo-o para trás. Eu estava com calor e preocupado com o garoto. Minha nuca ardia.
– Por que a gente não deixou ele lá e fomos embora mesmo? – ele riu me encarando, e dessa vez quem o olhou com arrogância fui eu.
– Não sou esse tipo de pessoa Jeevas. Se você faria isso realmente você não tem coração – levantei, deixando-o só. Caminhei até o balcão de atendimento perguntando para a atendente como estava o garoto. Ela afirmou que ele estava bem, somente com alguns cortes e arranhões para meu alivio. Sei como uma escoriação podia doer, mas ele não tinha quebrado um braço nem nada do tipo.
– Ele somente estava com uma carteira. Sem números de telefone ou endereço. O senhor é alguma coisa dele? – se sou alguma coisa dele? Sou o cara que atropelou ele, serve?
– Sou um amigo. Eu estava indo encontrar com ele e... acabou nisso. Pode me dar a carteira dele – a mulher então me entregou a carteira preta e voltou a conversar com um rapaz no outro balcão.
Abri a carteira. Havia somente a identidade do garoto e alguns dólares amassados.
Nate River. Nasceu em Londres, dezenove anos. Nasceu dia 24 de agosto. Ótimo, sempre consegui lidar com virginianos. Olhei a foto do garoto. Ele era branquelo com os olhos sem brilho. Parecia que as íris eram totalmente pretas. E o que me chamou mais a atenção foi o cabelo dele. Era branco! Ou prateado... Não sei ao certo. E pela foto ele não era muito amigável não.
– Se você quiser pode vê-lo senhor. Não irei mais repetir – O que?
– O que? – meu pensamento saiu da minha boca sem minha autorização.
– Novamente, pela quarta vez: — a atendente fez uma cara de impaciência – se o senhor desejar, poderá vê-lo. – ela só faltou soletrar. Porra, eu só estava distraído!
– Sim, por favor – pedi. Ao menos minha educação continua impecável.
– Certo... – ela então ligou para alguém, e me indicou a porta a direita.
Explico que ele estava em repouso no segundo andar, na ala onde feridos com ferimentos leves ficavam. Um enfermeiro me guiou até o elevador. Olhei o elevador com certo desgosto. De jeito algum que eu iria entrar naquele caixote para subir no segundo andar. Sempre fui guiado pelo pensamento “a caixa de sapatos é movida por cabos. Pode arrebentar e cair. E se acabar a energia você fica ali, travado!” E olha! Eu ainda estou vivo!
– Tem escadas aqui? – pergunto, vendo o enfermeiro me olhar com curiosidade. Ele que ouse zombar de mim.
– Como senhor? – pergunta. Sei que ele entendeu. É assim tão raro ver alguém que não gosta de elevadores?
– Há escadas aqui. Certo? – Reformo minha pergunta para o homem de Deus entender.
– Sim, há escadas para os funcionários. Algum problema com o elevador? – ele está segurando a porta do elevador com o pé, enquanto começa a observar a caixa de metal. Não querido, não há nenhum demônio ou corpo colado nas paredes do elevador.
– Poderia me mostrar às escadas? – pelo rosto dele, ele não havia sido treinado para isso. Ele aparentemente ficou completamente confuso, sem palavras.
– Mas... – ele iria questionar minha decisão, mas eu praguejei um “porra, mas que...” o que o fez ficar quieto – as escadas são por ali, senhor. – ele apontou para uma porta de madeira velha, que se destacava na parede branca do edifício. Até que enfim.
Subi até o segundo andar em menos de dez segundos, mas o homem que parecia estar bem fora de forma demorou em torno de um minuto pra me alcançar. E demorou mais meio minuto para recuperar o fôlego perdido nos poucos oito degraus.
– Por aqui – o segui até uma porta branca que estava grafada os numerais “508”. – caso precise de algo pode chamar. Há um botão que aciona a enfermeira. – e ele saiu, aparentemente irritado por eu tê-lo feito subir as escadas. Idiota.
Toquei a maçaneta fria e abri a porta devagar. O quarto se resumia em uma cama simples, que fazia conjunto com a janela bege e o criado mudo marrom. Ah, e sem me esquecer de uma cadeira de madeira quebrada no quanto esquerdo da sala. É... Hospital público é isso.
– Ah... – eu não sabia se o garoto estava acordado ou não. Então por precaução fiquei em silêncio. Admito que desde os meus quinze anos tenho queda por garotos e esse parecia ser mais bonito pessoalmente que na foto. Dã. Muito possível que ele tenha tirado essa foto com seus doze anos, quando seu cabelo branco estava mais encaracolado, o que o fazia parecer mais infantil.
Agora, olheiras rodeavam as pálpebras fechadas e o cabelo estava mais ondulado e cheio. Ele era realmente adorável. Não aparentava ser uma criança, mas também não aparentava ser um homem barbudo enjoado. Era... Um rapaz de dezenove anos lindo.
Porra Mihael.
– O senhor foi o abençoado que me atropelou? – pelei no mesmo lugar de tamanho fora o susto que levei. Ele estava acordado?
– Eh... – ri coçando minha nuca, perdido e até mesmo incomodado com o tom de voz dele – o meu amigo ruivo me distraiu por alguns segundos e você meio cego também... – talvez ele não fosse tão sério quanto aparentava ser.
– Talvez – abriu os olhos mostrando o dourado forte ao redor da pupila preta.
Por um momento me perdi naquela situação. Curiosidade. Nunca havia visto tal cor em alguém. Isso confirmava que eu não conhecia muita gente, ou que aquele dourado ouro era muito raro em um ser humano.
– Pelo visto você já está com minha carteira – ele falou baixo com a voz rouca, provavelmente pelos remédios. Olhei o bolso da minha calça a carteira preta com detalhes prateados quase caindo do couro.
– Pois é – ri, tentando amenizar a situação. Mas eu estava sem graça. – me falaram que não acharam nenhum número de telefone ou endereço – como ainda existem dinossauros que não conhecem um aparelho chamado celular?
– Não. – falou e eu estranhei. Não. Não o que?
– Não o que? – Mihael 0, mente desobediente 2. Ótimo.
– Não gosto de usar aparelhos celulares. Isso deve ter lhe passado pela cabeça, afinal, todo mundo hoje em dia usa um – ajeitou-se na cama – você já sabe meu nome. Qual é o seu? – ele pareceu mais interessado na conversa. Ao menos isso.
– Mihael Keehl. Prazer River – sorri apertando-lhe a mão.
– Nate. – corrigiu no momento que levou a mão ao cabelo e começou a enrola-lo. Se aquilo fosse um tique eu entenderia, mas caso não fosse eu certamente achei estranho.
– Mello – igualmente.
– O que? – ele pareceu não entender que aquele era meu apelido. Lógico, com tanto nome e apelido para ganhar... Mas não. Mello.
– Me chame de Mello. Esse é o meu apelido desde os quinze anos – expliquei.
– Certo. E falando em idade, quantos anos você tem para dirigir? Você não parece ter mais de dezoito – elogios me deixavam tão feliz – acabou de tirar a carteira? Por isso conseguiu me atropelar? — Ele estava falando que eu tinha dezoito anos. Que gracinha. E que filho da puta também.
– Nossa. Obrigada – cocei minha cabeça, envergonhado de falar minha idade – eu tenho 24 – o vi com uma cara estilo “sei que você está mentindo” então resolvi reforçar a verdade – E já estou velho. Se você me visse com meus dezoito então... — ele sorriu fraco, demonstrando que tinha acreditado enfim.
– Acredito... – resmungou rindo. Senti algo no meu estomago e sorri de volta. Nossa, aquele garoto era tão... Tão... Atraentemente estranho.
Porra Mello.
10/Dezembro/2011
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