Desconhecido

3 Bem vindo ao meu mundo


– Acredito... – resmungou rindo. Senti algo no meu estomago e sorri de volta. Nossa, aquele garoto era tão... Tão... Atraentemente estranho.

Porra Mello.

Desconhecido.

Capitulo 03

Bem vindo ao meu mundo

Seria muito estranho eu falar que me dei bem com o garoto? Ele gostava de ler bons livros, escutava boa música e gostava de filmes clássicos! Realmente tinha me surpreendido.

– “Eles podem tirar nossas vidas, mas nunca poderão tirar nossa liberdade”.

– Rapaz... – parei para recordar. Era muito fácil — De William Wallace, Coração Valente – sorri para o garoto. Estávamos esperando a enfermeira voltar; havia nos dito que Nate já estava liberado, mas tínhamos que assinar uma ficha para ficar no arquivo do hospital, então tivemos que esperar um pouco mais.

– “Devenir immortel et puis mourir”¹ – ele lançou do nada — si étrange tout ça... Mais assez pour être drôle.

– Que? – parei com um sorriso meio torto e vi o garoto levantar as sobrancelhas, como se tivesse acabado de acordar, depois de horas e horas divagando. Ele sorriu de volta e franziu a testa, como se estivesse se reprendendo.

– Lamento. Fiquei tentando lembrar-me de uma frase e só essa me veio em mente – o rapaz se explicou, enquanto ajeitava o travesseiro atrás de si – sabe de que filme é?

– Jovem, sei nem que língua é – eu ia chutar francês, já que havia tido poucas aulas no meu ensino médio (mas devo acrescentar que cabulei todas), então resolvi me fazer de bobo. Então ele explicaria que língua era e de que filme a frase pertencia.

– Norueguês que não é – ele riu. Quando me preparei para protestar, a enfermeira entrou no quarto com a prancheta na mão e as roupas normais de Nate. Assinamos tudo e então estávamos liberados.

No caminho para fora do hospital, queria lhe perguntar sobre a frase, mas o ruivo pareceu simpatizar com o garoto, pois ele não calava a boca. Meu Deus. Nate tinha um grande conhecimento de tecnologia e isso aparentava alegrar o técnico. “Tenho alguém para conversar agora”, Mail sussurrou para mim, mostrando a língua.

Depois ficamos em torno de meia hora procurando nosso lindo Ford Taurus 2006 preto no estacionamento do edifício. Por que não compramos um verde fluorescente? Pelo menos assim não iríamos perdê-lo toda vez que o estacionamos.

River disse que morava em Elk Grove, então tratei de pegar o caminho mais rápido para o local.

– É perto do Elk Grove Park. Conhece? – perguntou.

– Conheço sim. Eu tinha uns tios que moravam por lá e às vezes eu passava as férias com eles. Me pergunto até hoje porque eles não moravam em São Francisco... Acho que minhas férias seriam mais divertidas.

– Então você não nasceu aqui?

– Essa loira aqui é alemã – Mail riu, batendo a mão no meu peito – só nasceu lá mesmo. Foi criado aqui nos EUA, aonde mesmo, Mello?

– Minnesota. E, falando a verdade, eu não me considero alemão... Eu sequer tenho domínio da língua. Meus pais não tiveram tempo de me acostumar com a cultura e tudo mais.

Nate riu e se reencostou no banco. Pensei que fosse comentar o fato de ser inglês e não norte-americano, mas ficou quieto.

Pedi para Mail olhar as horas e ele retirou do porta-luvas um relógio de bolso esquisito e que eu jamais tinha visto; era verde e o desenho de fundo era um gordo bigodudo, com roupa estranha e um dinossauro verde. O braço do gordo marcava as horas e a língua do dinossauro marcava os minutos.

– Wow... Cinco e vinte.

Era extremamente cedo e eu não havia dormido nada. E quer saber de outra coisa? Eu não pirei pela falta de chocolate. Isso era inédito. Apesar de todas as novidades do dia, eu ia perder meu sábado de trabalho na fábrica. Encarei o trânsito à frente, me sentindo cansado de modo repentino. Que dia!

– Tudo bem, Mello? – o ruivo tagarela chamou minha atenção.

– Estou sim. E você Nate? Eu nem cheguei a te perguntar sobre os ferimentos.

– Eu est...

– Nate? Teu nome é Nate? Caramba! Você precisa de um apelido!

Olhei puto para Mail, que se acomodou melhor, fechando os olhos e me ignorando. Que diabos ele tinha na cabeça? River apenas riu do comentário do ruivo.

– Então me dê um apelido, Matt – ele comentou, olhando para o ruivo de modo desafiador – só vou aceitar se for algo com algum sentido.

– Ok então – Jeevas abriu um sorriso largo, aceitando o desafio.

Depois disso seguimos a viagem em silêncio. Passamos por alguns becos escuros e paramos em uma padaria. Comprei chocolate quente para mim, um capuchino para Nate e um refrigerante para Matt. E Cristo! Como chocolate era bom... Acalmava-me todos os nervos e músculos.

Paramos em frente à casa do garoto, era quase seis em ponto. Falou que ia entrar pegar uma caneta para anotar meu número de telefone e logo voltaria. Aproveitei para ser enxerido perguntar se morava sozinho e me respondeu que morava com os pais e o irmão mais velho.

Quando voltou, com caderno e caneta em mãos, comentou que seus pais haviam viajado e ele não sabia quando voltariam. Achei aquela história um tanto quanto absurda e Mail soltou uma piadinha qualquer.

– Quer passar uns dias lá em casa? – a frase saltou minha garganta. Mihael 0, mente 3.

Tanto River quanto Mail pareceram ficar surpresos. E vocês acham mesmo que eu também não estava? Tinha atropelado um cara e agora estava o chamando para ficar na minha casa!

– Quer dizer – limpei minha garganta, pensando no quer falar – se você não tiver outras coisas a fazer... Não sei se você faz faculdade ou, eu...

Porra Mello.

O ruivo me cutucou as costelas e me olhou com cara de “você está agindo feito uma garota de 15 anos”. Como se eu não soubesse!

– Você não é nenhum mafioso ou... Exportador de órgãos no mercado negro, certo? – ele sorriu, fechando o caderno.

– E se eu for?

– Hm... – ele mordeu a ponta da caneta – lamento, mas depois da batida que recebi hoje, não tenho mais órgãos inteiros para serem vendidos. Eu estou arrumando os documentos para dar entrada na faculdade. Por enquanto estou livre. Não irei te atrapalhar?

– Não, não. Eu já não vou mais trabalhar hoje. Só segunda cedo.

– Então aceito seu convite – ele levantou as sobrancelhas e olhou para Mail, que estava um tanto quanto vermelho do meu lado.

Óbvio que essa não era o modo mais comum de evitar uma indenização que eu podia receber, caso River decidisse ir a delegacia, porém eu não estava pensando exatamente nisso. O garoto parecia ser uma ótima companhia e eu não tinha motivos para não tê-lo por perto, por agora.

– Está decidido então – me alonguei, sentindo cada pedaço do meu corpo estalar, chorando por uma cama.

Mail que conduz o carro agora. Nós moramos em condomínios próximos. No banco do passageiro, eu acabo cochilando. Quando chegamos me alongo por minutos e estaciono o carro na garagem. O ruivo desejava melhoras para Nate, se despede e diz que talvez mais tarde passe nos ver.

– Pretendo me mudar para um apartamento – comentei com Nate, que observava minha casa.

Tinha um tom engraçado de carvalho escuro e o telhado vinho. Na fachada, uma janela de correr enorme, que eu abria em raras ocasiões (como, por exemplo, quando Matt fumava lá dentro). A entrada, praticamente lado a lado com a porta da garagem. Era uma casa típica de “olha, acabei de sair da casa dos meus pais!”. Não era muito grande, tampouco luxuosa, mas confortável e agradável.

– Não repare... Muito, na bagunça – lhe joguei um sorriso quando abri a porta. Era impossível não reparar. Até um cego repararia, pois não conseguiria andar.

Na entrada, o local que era para ser a sala tinha roupas jogadas no sofá, na mesinha de centro, no chão, em cima da televisão. Algumas canecas sujas ao pé do sofá e em cima do aparelho de som. Cômico mesmo era meu tapete felpudo e preto amassado em um canto, isso porque Mail quase colocou fogo nele com uma bituca de cigarro e minha primeira reação foi jogar refrigerante para salvar. Tinha também muitos livros, DVDs, CDs e papéis aleatórios jogados pela sala. Ah, não vamos esquecer as embalagens de chocolate que se perderam no caminho para a lixeira.

– Tá bom – ele riu ao olhar a sala – a cor da parede é muito bonita. Você que escolheu?

Observei a cor da parede. Era pastel.

– Não... Já veio pintada. Na verdade eu nunca parei pra olhar pra cor das paredes. Só me chamou a atenção o piso de madeira.

– É uma ótima cor – concluiu, me seguindo pelo corredor.

Meu quarto até que era organizado. Tinha pesadas cortinas escuras na janela, que era quase tão grande quanto a da sala. Uma cama de casal box king size no centro, com dois criados mudos, um de cada lado da mesma. Um guarda roupa grande e uma mesa de escritório num canto, com todo o tipo de coisas em cima. E por último, um home-theater, que eu havia trago para o quarto porque o ruivo não largava a televisão da sala, com seus diversos tipos de videogame.

Tinha um quarto de hospedes, que só possuía cama porque de vez em quando Mail resolvia dormir por ali mesmo. Era bem menor que eu o meu, tinha uma pintura de verde-água e uma cama de casal tradicional; um criado mudo e um armário branco.

Minha cozinha era branca e tinha um balcão de tijolos no lugar da tradicional mesa de jantar. O banheiro era espaçoso e tinha cerâmica preta, um Box com diversas toalhas úmidas penduradas. Eu não tenho uma banheira...

– Sinta-se em casa?

11/Dezembro/2011

Notas finais
¹ “Devenir immortel et puis mourir” ou “Tornar-se imortal e depois morrer” do filme Acossado (À bout de souffle) da década de 1960 dirigido por Jean-Luc Godard.