Descobrindo o que é Amar
28 Silêncio em Meio aos Sons – Capítulo 28
Eu arregalei meus olhos, fiquei totalmente surpreso, até me engasguei um pouco.
— Hã? Como assim? Namorar? A gente?! – eu falei meio em choque. Não que eu não tivesse gostado do pedido, o problema foi que na hora a ficha não caiu, fiquei em choque.
— Então Daniel, você pode pensar um pouco se você quiser... É namoro sério, do tipo fidelidade, conversar sempre, essas coisas. – ele explicou.
As palavras SIM e NÃO apareceram centenas de vezes na minha cabeça. E sim, eu queria ficar junto do Gabriel, mas a palavra namoro me traz outras lembranças: alianças, andar de mãos dadas, ficar sempre juntinho, entre outras coisas.
Entendam-me, eu quero isso, mas é possível? Poxa, somos um casal de dois guris, a gente pode namorar também? Essas coisas que casais de namorados fazem, a gente num vai poder fazer em público como todo mundo.
Percebi que o Gabriel ficou meio surpreso pelo fato deu não ter respondido. Eu percebo nele um “perfeccionismo” do tipo: ele só faz as coisas quando tem um pouco mais de certeza. Colocando esse perfeccionismo dele na prática: ele pensou muito antes de me fazer a proposta de namoro, e o fato deu não da uma resposta de imediato, quando ele tinha altas convicções que eu ia aceitar, o deixou meio frustrado.
Mesmo eu percebendo a confusão misturada com tristeza e ansiedade em seu olhar, ele foi paciente e mudou de assunto:
— Então, você pode me responder depois. Vamos tomar um sorvete ali na cozinha. – ele falou com um sorriso meio forçado.
— Vamos. – eu respondi.
Ficamos alguns segundos ali calados. Eu ouvia o som do vento, o som da colher atritando o pote de sorvete, e mesmo com esses sons, parecia que estávamos em um silêncio mortal.
Até que ele quebrou esse “silêncio em meio aos sons”:
— Não é querendo colocar pressão, nem nada assim, mas eu pensei que você ia querer namorar comigo... – o Gabriel falou.
— E eu quero, mas... – eu não soube completar a frase.
— Mas o que? Você tem dúvidas se gosta de mim? Tem alguma outra pessoa que você esteja interessada? – ele tentou nervosamente completar minha frase.
— Não Gabriel, nada disso.
— Então, qual empecilho?! – ele já estava agoniado.
— Como é possível a gente namorar? Nunca vamos poder andar abraçados no colégio, ou de mãos dadas no shopping, essas coisas simples! – eu expliquei a ele.
— Como não?! A gente já fez isso tudo! – ele argumentou e eu não entendi nada.
— Hã? Eu penso nisso desde aquele dia no cinema e não me lembro da gente ter feito nada disso. Pelo contrário, andamos pelo shopping e vimos vários casais sentados juntos, andando de mãos dadas, e a gente não pode fazer isso!
— Você não lembra porque você só quer ver do seu jeito! Porque eu me lembro de todos esses momentos com você e foram maravilhosos. E para serem inesquecíveis, como foram para mim, não precisaram ocorrer dessa maneira que você está falando.
— Ainda não estou te entendendo Gabriel! – eu já respondi meio alterado. Estava confuso, frustrado, nervoso.
— Você está falando que não se lembra de a gente andar de mãos dadas pelo shopping, já eu, me lembro de ficarmos de mãos dadas dentro do cinema. Você falou que não poderemos andar abraçados pelo colégio, já eu te digo que o início de nossas descobertas foi lá.
— Ah, mas você está falando de outra coisa. Na realidade eu até estou falando disso, precisamos sempre ficar meio escondidos, namorados não ficam assim. – eu disse a ele.
— Namorados se amam! E eu te amo! Meu sentimento de amor por você não tem culpa se o nosso redor tem um muro de hipocrisia. Prefiro olhar do meu jeito, olhar que sim, é possível a gente namorar e ter esses momentos, mesmo a sociedade, muitas vezes, nos impedindo de realizá-los da maneira que você vê. Eu prefiro olhar por essa perspectiva porque o tempo voa, e não volta. Eu não posso esperar 30 anos até a sociedade mudar, eu tenho de estar nessa mudança, mesmo que seja gradativa. Então vamos nos permitir ser felizes. – o Gabriel desabafou em meio a lágrimas.
Fiquei mais em choque ainda. Pelo visto não sou só eu que ando pensando muito nessas coisas, ele deve ter pensado muito também. E o que ele me falou fez todo o sentido, foi se encaixando em minha cabeça.
Essa foi a primeira vez que alguém me falou: “Eu te amo”. Não foi como eu imaginava que seria. Depois do discurso do Gabriel ele expôs tantas ideias que eu nem senti o impacto dessas três palavras.
— Repita o que você falou no início. – eu pedi a ele, já em meio a lágrimas também.
— O que? – ele dessa vez falou mais baixinho, em meio ao rosto vermelho e molhado.
— Sobre o que você sente por mim... – eu tentei fazê-lo entender.
— Que eu amo você? – ele perguntou meio desconfiado.
— Isso! – respondi quase gritando.
— Pois, eu posso falar mil vezes, até realmente entrar nos seus ouvidos. Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te am... – cada vez que ele repetia essas três palavras a sua voz aumentava e seu olhar ficava mais penetrante. Infelizmente eu não pude deixá-lo terminar de repetir. Eu o interrompi, quase pulando em cima dele, e o calando com um beijo, junto de um forte abraço apertado, ou melhor, vários beijos, vários selinhos.
— Sim, sim, sim, sim! Eu quero ser seu namorado Gabriel!
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