Descobrindo O Verdadeiro Amor.
3 Capítulo 3 - Como a vida é injusta.
Notas iniciais
Três pessoas deram reviews no meu segundo capítulo... Espero receber mais ^ ^.
Agradeço à:
> Anachan
> Allison
> Juliabertelli
E um agradecimento mais do que especial à Sweet Potter, que provavelmente não tem "sweet" no nick à toa. Você é uma grande amiga, viu? ^ ^
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Esse capítulo ficou enorme, desculpem, eu me extrapolei xD.
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Beijos,
EUQOPÉ-ELLE3
Capítulo Três – Como a vida é injusta
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Quando Isabelle acordou, estava quase amanhecendo.
As lágrimas em seu rosto haviam secado e, agora, estava grudento e salgado; a garganta estava em um nó e, os olhos, pesados. Ela não se lembrava de ter ido dormir, mas se lembrava do que aquele homem havia feito a ela. Aquele mesmo que estava com a cabeça sobre seus seios.
Ela não hesitou quando o empurrou para longe dela – o acordando – e se deitou de bruços – pois era mais cômodo – com as mãos embaixo do travesseiro. Ela quis chorar de novo, mas se conteve.
Ouviu o Lorde Perverso ao seu lado se mexer na cama sob os lençóis e arfar.
- O que foi isso em suas costas?! – ele perguntou assustado.
Isabelle não respondeu. Recusar-se-ia a dirigir uma palavra àquele homem. Mas então, ela sentiu que um daqueles dedos percorrer por uma das marcas e ela estremeceu de leve, com dor. Esquivou-se bruscamente, buscando ficar bem longe dele.
- Se ainda dói, deve ser porque são recentes...
Ela resmungou alguma coisa que saiu abafada pelo travesseiro.
- O quê disse? – perguntou chegando mais perto.
Ela respirou profundamente e cerrou as mãos em punhos.
- Je vous déteste – repetiu alto e com rancor. Virou-se para ele. – Je vous déteste! Eu te odeio! E sei que, só pelo o que eu passei hoje, deves me odiar também! Então não finja que se preocupa comigo, quando é óbvio que para você eu sou só mais uma prostituta!
Ela voltou a se deitar, com raiva, e ele ficou sem ação. Era isso o que ela pensava? Bem, mas não estava muito longe da verdade.
Ela soltou um soluço e tentou segurar os outros.
Alexander sentiu pena dela quando olhou para aquelas costas. Todas marcadas com linhas vermelhas em várias direções, e várias vezes. Não estavam sangrando, mas poderiam infeccionar se não fossem bem tratadas.
Ele se perguntou quem teria feito aquilo com ela. A dona do bordel? Ele duvidava. Jamais ela a marcaria daquele jeito. Arruinar um corpo era como arruinar o negócio. O pai? Provavelmente. Será que ela havia fugido de casa, assim, ido parar naquele antro de perdição?
- Você deve passar algo aí antes que infeccione – sugeriu.
Ela chorou com mais intensidade.
Por que ele a estava tratando assim se minutos antes não tivera piedade em lhe tirar a castidade? Isso doía. Ele fazia isso de propósito? Sabia que a magoava com aquela gentileza? Sim, ele era – mesmo – um Duque Perverso e cruel.
Ficou em silêncio.
Devagar, talvez para não assustá-la, ele espalmou vagarosamente as mãos na cintura dela e levou os lábios às costas machucadas. Com cautela, depositou um beijo terno e delicado que lhe arrancou um gemido.
Ela agarrou o travesseiro com força, prometendo não soltar aquele som de novo. E tentar não sentir o que realmente sentiu quando ele a beijou ali.
- Pare com isso – ela pediu quando o sentiu encostar os lábios novamente.
Ele ficou com raiva, e por algum motivo, lembrou-lhe das regras do jogo.
- E por que eu deveria? – ele murmurou, dando mais um beijo ali. – Eu te comprei. Eu paguei por você. Você é minha, não é?
Ela se perguntou o que havia de errado com ele.
Qual era o problema mental daquele homem? Ora era delicado, parecendo que realmente se preocupava com ela, e ora era grosso. Parecendo querer pôr cada um em seu lugar. Ele só podia ser um homem louco.
Ele a puxou pelo braço e a virou para ele. Viu uma centelha de raiva faiscar em seus olhos e ele começou a beijar o seu pescoço. Ela relutou, com nojo, e o empurrou sem grandes sucessos.
- Para! Para! – ela mandou lutando contra ele.
- Volto a repetir: por que eu deveria? – disse apoiando-se sobre os braços formidáveis e fortes. – O que uma mulher como você seria capaz de fazer contra mim?
Ela não pode deixar de perceber o modo enojado com que ele falou “mulher”. E voltou a beijar seu corpo, trilhando caminhos com beijos entre os seios. Isabelle pensou ter visto algo brilhante no criado mudo ao lado da cama. Pegou sem muito ver o que era e percebeu que era um abridor de cartas.
Sem muito que pensar, levou a lâmina trêmula até a altura do seu pescoço. Por ser um objeto muito utilizado para se cortar papéis, era, com certeza, muito amolado e afiado.
- Solte-me, agora, monsieur, ou furarei sua garganta – mandou compassadamente, assustada.
O homem ergueu o olhar e viu aquele afiado objeto apontado para o seu pescoço. Vagarosamente para não assustá-la mais do que ela já estava, se afastou. Ele via medo nos olhos dela. Sim, ela estava apavorada. Que outro motivo ela teria para lhe apontar aquilo?
- A senhorita realmente teria coragem de cumprir sua ameaça? – perguntou vagarosamente.
Ela pensou por um tempo, até respirar fundo e soltar a pequena faca em suas mãos.
- Mon dieu... Claro que não. Nunca matei ninguém e nem nada – respondeu a moça, acumulando lágrimas em seus olhos. – Mas na hora do medo, pensamos em qualquer coisa...
Ele voltou a se aproximar e com uma rapidez impressionante que a faria parecer uma exímia assassina, ela voltou a empunhar a pequena faquinha.
- Mas ouvi dizerem que sempre há uma primeira vez para tudo – acrescentou com rapidez.
- Estou começando a acreditar, senhorita, que há algo faltando em sua cabeça – ele comentou engolindo em seco.
- Sabe, esta é uma conclusão um tanto cômica, pois eu estava começando a achar o mesmo ao seu respeito – ela respondeu com sarcasmo.
Ele franziu o nariz. Em geral, sarcasmo não ficava bem em mulheres, mas ela soara provocante ao dizê-lo.
- Do que é que você tem tanto medo? – perguntou ele. – Fiz algo a você?
Isabelle quis rir com escárnio.
- Se você fez algo para mim? E ainda tem a coragem de me perguntar tal coisa? Por onde devo começar? Do momento em que você me comprou? Do momento em que você roubou o meu primeiro beijo? Do momento em que não quis ouvir-me falar nem acreditar em minhas desventuras da vida e roubou a coisa que eu mais prezava?! – perguntou chorando. E a faca tremulou em sua mão. – Talvez eu esteja louca sim e vou te matar agora!
Em um golpe rápido, Alexander segurou seu pulso, ergueu-o para cima e jogou seu peso sobre ela. Caindo com o seu corpo alto e forte sobre o corpo pequeno e frágil; deitando-se sobre ela, que se debateu.
- Faça algo agora, dócil prostituta – provocou-lhe.
- Merde! – exclamou revoltada consigo mesma.
- Bem, se lhe interessa saber, você ganhou meu respeito. Gosto de mulheres imprevisíveis – ele disse sorrindo. – Vamos fazer assim: você larga essa faca e então conversamos como boas pessoas civilizadas que somos.
- Agora você quer conversar? Cretin! Ontem, quando tentei conversar, e supliquei para que o senhor parasse, nem me ouviu! – ela acusou com lágrimas transbordando em seus olhos. – O que me levaria a crer que me escutarás desta vez?!
Ele respirou fundo.
Realmente, ela tinha todo o direito de estar como estava. Mas nunca antes, em toda a sua existência, Alexander tivera tanta vergonha e raiva do modo grosseiro com que a tratara ontem. Ele deveria ter parado quando pensou em fazê-lo. Ele deveria ter acreditado nela. Algo do que ela lhe disse poderia ser verdade.
- Acreditarias se eu dissesse que estou tremendamente arrependido pelo modo com qual a tratei ontem? – perguntou olhando nos fundos daqueles olhos azuis.
- Estais se aproveitando da posição nenhum pouco favorável em que estamos para fazer as pazes, tentando que, assim, eu seja mais dócil na hora de me entregar a você? – perguntou de volta.
- Você é uma garota muito desconfiada – ele respondeu.
- Você e todos os outros homens me fizeram assim – ela respondeu com amargura. – Sabe... Meu tio, você e os homens que me raptaram não são muito diferentes. Todos não levam em consideração os sentimentos alheios, e, para vocês, nós, mulheres, tornamo-nos apenas objetos de adorno. Seja para lucrar e vender, seja em um baile como um belo troféu... Mas no fundo, nunca estão satisfeitos.
As palavras dela soaram sem sentimento nenhum. Eram mais uma constatação do que uma teoria. Sua voz era calma, e ele percebeu a quão adulta e sábia ela soava. Ela tinha razão, ele sabia.
Antes que ele encontrasse fôlego ou palavras para dizer alguma coisa, alguém bateu na porta e Bobley entrou no cômodo como se encontrar o seu patrão jogado em cima de uma mulher com um abridor de cartas na mão, fosse a coisa mais simples do mundo.
- Escutei sua voz e cogitei que estivesse acordado, vossa alteza – disse o empregado, arrumando algumas coisas por lá. – Oh, milady, vejo que estás acordada também.
- Muito bem acordada – respondeu o duque com amargura. – Prepare um banho para ela, Bobley. Água fria seria uma ótima escolha. Ouvi dizer que cura a loucura.
Ele viu que seu empregado ergueu uma sobrancelha e estendeu um penhoar de seda para a mulher e ela se perguntou, pela primeira vez, se aquele homem era casado.
- Sim, senhor... Milady.
Sem lhe soltar a mão com o abridor, o homem se sentou na cama.
- Vá com ele, sem medo.
Isabelle relutou, não queria acreditar na palavra dele, e acabou ficando indecisa sobre ficar com o abridor de cartas ou ir com aquele homem sem senso de humor. Acabou que o duque fez algo com seus dedos, exerceu uma pressão em certo lugar, que doeu e a fez largar o objeto cortante de modo brusco.
Ele o pegou.
- Acho que vou ficar com isso, obrigado – ele disse com sarcasmo. Abriu uma gaveta em sua mesa de cabeceira e o trancou lá dentro à chave. — Agora, vá com ele. Não se preocupe, ele não lhe fará mal algum... Ao menos que eu ordene.
Sem muita opção, Isabelle pegou o penhoar da mão do homem e se cobriu. Um pouco agradecida por enfim tê-lo feito, mas envergonhada por ter sido vista nua por dois homens. Se ela fosse Ártemis, teria transformado os dois em animais que seriam caçados e mortos. Mas, se ela fosse a Deusa da Pureza, teria matado e aleijado o Duque só com o modo com que ele a pegara.
A ideia lhe soou convidativa.
...
- Você deveria vestir algo mais apropriado para um café da manhã – o homem quebrou o silêncio enquanto ele e sua prostituta (o que ele estava começando a duvidar se realmente era) desjejuavam em sua grande e solitária sala para este fim.
A mulher se sentia, sim, envergonhada pela roupa que vestia ali. Bem, mas ela não tinha roupas e muito menos ele teria algo para lhe emprestar. Ela percebeu que ele era solteiro, e que havia sido apenas um golpe de sorte Bobley encontrar aquele penhoar.
Então, ela apenas o vestia junto com um robe.
- Bem, se minhas roupas inadequadas lhe incomodam ou lhe desconsertam, monsieur, deveria ter pensado nisso antes de ter rasgado meu único vestido com tamanha brutalidade – ela respondeu desafiadoramente, altiva. – Realmente me pergunto se aquela era a única solução.
- Deverias me agradecer – disse ele com arrogância. – Aquele vestido era de um gosto duvidoso. Terrível.
A mulher olhou para ele com agressividade.
- Bem, tanto faz. Ele não era meu de qualquer forma. Jamais me atreveria a vestir aquilo em qualquer que fosse a ocasião, nem com o meu marido – ela respondeu brincando com a comida. – Oh, esqueci-me. Minhas chances de me casar são quase nulas, já que ninguém se casa com uma “prostituta”.
- Podes fingir ser outra coisa como parente do Luís XVI e fingir ser virgem. Há muitas mulheres que fazem isso – ele comentou com amargura.
- Eu nunca fingi nem menti na minha vida – ela disse com frieza, como se a simples ideia a repudiasse. E largou os talheres como se houvesse perdido totalmente a fome. – E o senhor bem sabe que eu nunca fingi ser virgem. Eu realmente era.
O duque a olhou por um tempo até que abaixou o olhar.
- Este não é o momento para falarmos sobre isso – disse.
- Sabe. Tens o quê? Trinta anos? Vinte e sete? Bem, tanto faz, mas agora, nesses dois dias que eu passei com você, imagino o motivo pelo qual ainda esteja solteiro com tanto dinheiro acumulado: sua sensibilidade é menor do que a de um cavalo – ela alfinetou.
Ele ficou com raiva e também acabou soltando os talheres.
- Estou solteiro por opção minha – ele disse com raiva.
- Bem, já parastes para pensar em como farás quando morreres e não tiver nenhum herdeiro para ganhar sua valorosa fortuna, monsieur? – perguntou a prostituta. – Se você quer saber, você tem razão: este não é o momento de falarmos sobre isso. Seu rosto, sua voz, seu corpo me dão ânsia... Vou me retirar.
Ela se levantou do lugar, mas ele segurou o seu pulso.
- Você é minha e só vai se retirar quando eu mandar – ele disse com grosseria.
Ela pegou a faca com um movimento rápido e apontou para ele. Fazendo com que os empregados ficassem surpresos com tal atitude.
- Pensei que você já houvesse aprendido a não me desafiar quando estou com um objeto cortante – ela disse compassadamente.
Ele trincou o maxilar e a soltou de leve.
- Por que será que quando o seu inimigo empunha um objeto capaz de lhe tirar a vida, até os homens mais agressivos ficam mansos? — questionou-se.
No tempo em que passara no banho, ele chegou à conclusão que tinha que fazer de tudo para que aquela garota se sentisse bem com ele. Ela não parecia bater bem da cabeça. Era como se, de uma hora para a outra, ela mudasse de uma menina frágil, assustada e indefesa para uma assassina, sangue frio e forte.
Algo de muito ruim envolvia o passado dela, e ele sentia que precisava saber. Talvez ela realmente não fosse uma prostituta. Prostitutas tinham um andar rebolado, ela tinha um andar elegante que a fazia parecer flutuar. Prostitutas seguravam um garfo ou uma faca de qualquer jeito, ela segurava com classe e seu porte era dentro das normas da etiqueta.
Talvez, ela realmente fosse filha de um marquês, como lhe dissera no início.
- Espere – ele pediu respirando fundo. – Por favor, sente-se. Prometo não mais alfinetá-la com comentários maldosos. Você tem razão, sou insuportável. Por favor, faça-me companhia neste café da manhã, pois há tempos não tenho.
Isabelle hesitou. Ela viu que ele não mentia e estava bem calmo. Sua voz era branda. Depois de um tempo, ela depositou a faca sobre a mesa e voltou a se sentar.
- Você não é tão... Insuportável assim – ela disse. – Certamente, se houvessemos nos conhecido em outra ocasião, tudo seria diferente.
Ele concordou com a cabeça. E quase se admirou ao perceber que o único conselho que o seu pai lhe deu estava correto: “Não importa se a mulher tem razão ou não. Assuma a culpa. Hora ou outra ela acaba aceitando que a culpa não foi só sua ou admite a sua parcela por si só”.
- Como foi que você foi parar naquele lugar? – ele perguntou depois de um minuto para aliviar o ar tenso que pairava sobre a sala.
Ela ficou vermelha e ele percebeu que ela havia voltado a ser aquela mesma garota assustada e com medo que ele vira encolhida no canto de sua carruagem.
- Oh, monsieur... Eu estava fugindo de casa...
- Tem algo haver com as marcas em suas costas? – ele perguntou.
Ficando desconfortável, ela concordou com a cabeça.
- Bem, a história é um pouco longa...
- Tudo bem, eu acho que teremos muito tempo para isso. Afinal, acredito que você não tenha para onde e ir... – ele disse e deu um meio sorriso. — E você ainda me pertence.
Ela ergueu o olhar e olhou.
- Até quando eu pertencerei ao senhor? – perguntou.
- Até me pagar a quantia de Cinquenta mil libras que investi em você – ele respondeu com um sorriso.
Ela se levantou da cadeira. Não para ir embora, mas por susto.
- Esperas então que eu durma com o senhor? – perguntou ultrajada. – Depois de tudo o que me fizestes, realmente espera isso de mim?
Ele sorriu, admirado por aquela figura mansa.
- Bem... Não necessariamente. Se você realmente tem algum grau parentesco com Luís XVI, peça dinheiro emprestado a ele – ele comentou maldosamente.
Ela pensou em mandar tanto ele e seu dinheiro para os infernos, mas antes que a morena conseguisse abrir a boca para sugerir tal, um empregado adentrou seguido por uma moça muito bonita.
- Vossa alteza, Lady Aloysia Walt está aqui – disse o homem fazendo uma mesura a elegante mulher.
Isabelle se sentiu inferior.
Ela se vestia esplendidamente e era exoticamente bela. Havia um ar de mistério nela que era capaz de atrair qualquer homem com o seu olhar de orbes negros e brilhantes. Ela tinha um olhar profundo e envolvente, enquanto os olhos de Isabelle eram tão rasos que não impressionavam.
- Ora, que cena estranha nós temos aqui... – a mulher disse.
Isabelle se encolheu e cruzou os braços, como se isso fosse esconder sua quase nudez perante aquela mulher deslumbrantemente vestida. O que era estranho, pois Isabelle Marie Rêveur nunca deveria se encolher perante outra mulher, mas era isso o que ela andara fazendo com frequencia.
- Oi, Aloysia – ele disse sem dar muita importância a presença de sua amiga.
- Bom dia, Alex e... Urgh, quem é ela? – perguntou.
Isabelle mordeu os lábios.
- Meu nome é Isabelle Marie Rêveur, mademoiselle... Enchanté – apresentou-se com uma vênia elegante, mesmo com a pouca roupa.
- Oh, francesa – ela comentou e olhou para o seu amigo. – Por que não me surpreendo? Russas, Austríacas... Agora uma francesa. Você realmente é um homem que gosta de provar de todos os sabores, não é mesmo?
- Vou fingir que não ouvi este comentário infeliz – ele disse calmamente. – Oh, é um momento muito oportuno que você tenha aparecido, Aloysia, preciso de alguém para comprar alguns vestidos com Isabelle. Poderia levá-la com você para fazer compras?
A mulher olhou para a jovem de penhoar e depois olhou para o duque.
- Vestida assim? – perguntou incrédula.
- Claro que não. Peça algum vestido emprestado para uma empregada e a leve. Compre belos vestidos que eu pago – ele disse com um sorriso. E Isabelle olhou para ele com desconfiança.
- Vais cobrar por isso,eu creio – comentou amargurada.
- Colocarei em sua conta – disse com um sorriso sarcástico. – Você é a prostituta que tem que me pagar, e eu sou a cafetina que vai fazer com que tenhas tantas dívidas sobre sua cabeça que nem vai ter como saudá-las.
- Ai, que horror Alex! – exclamou Aloysia. – Seja mais delicado na frente de uma dama, por favor! Bem... Creio que eu possa dar um jeito em sua “amiguinha”. Vamos pedir um vestido para você, querida.
Sem mais terem o que falar, a mulher chamou Isabelle para pedir um vestido emprestado às empregadas. Quando ambas o encontraram, foram fazer as esperadas compras. E, mesmo que Aloysia parecesse não gostar, ajudou Isabelle a escolher belíssimos modelos e tecidos. Alguns precisaram de ajustes, outros, puderam ser levados na hora.
- Você tem uma relação muito estranha com o Alex – ela comentou enquanto analisava um tecido azul turquesa. – Quer dizer... Você é, realmente, uma... Meretriz?
Isabelle corou e olhou para Aloysia.
- Não é bem assim. A história é longa... Alex? Como aquele duque se chama?
- O quê?! Você está morando com ele e nem ao menos sabe o como se chama?! – perguntou incrédula.
- Ontem à noite ele não parecia muito inclinado a apresentações – ela comentou vermelha de vergonha.
A verdade era que, noite passada, ele não estivera inclinado há muitas coisas. Nem apresentações, nem conversas... As coisas poderiam ter transcorrido de uma maneira diferente se ele a houvesse ouvido.
Aloysia mordeu os lábios.
- Alexander Charles Arthur Knight – ela respondeu. – É o nome dele.
E não disse mais nada. Arthur... Tinha que ter algo de ruim nele, ela cogitou. Talvez todas as pessoas que se chamassem Arthur hoje em dia não merecessem esse nome. Nem aquele homem e nem o seu tio mereciam o nome que levavam. No entanto, tudo naquele dia estava indo na medida do possível para as novas condições de Isabelle. Mas ele se tornou pior.
A pequena figura loira adentrou naquele atelier chamando as atenções de muitas mulheres. Inclusive de Isabelle, que engoliu em seco não acreditando no que seus olhos viam.
- Eu gosto deste lugar... A costureira tem um ótimo gosto – disse a irritante voz da mulher que acabara de entrar na loja.
Isabelle reconheceu a voz de Otella de imediato e se escondeu atrás de um modelo. Não queria que ela lhe visse. Não quando ela estava naquela forma. Vestida daquele jeito. Naquele estado.
- O que você está fazendo? – perguntou Aloysia.
- Shh – pediu Isabelle. – É a minha prima.
- Quem... ? – a mulher perdeu a voz ao ver a mulher. – Meu Deus... Aquela é a Otella Harry Webber?
- É o que parece...
Claro que ela era. Quem mais teria tão exuberante beleza? Aqueles belos cabelos loiros cacheados, aqueles olhinhos azuis e brilhantes e aquele rostinho delicado... Quem olhasse até acreditaria se tratar de um anjo. Mas Isabelle sabia da quão diabólica ela podia ser...
- Meu Deus... Alex precisa saber disso! – ela sussurrou para a garota. – Ele vai adorar saber que ela voltou à Londres...
- Ele é amigo dela? – Isabelle perguntou com raiva.
Se ele era amigo, admirador ou amante daquele demônio vestido de anjo, então não teria como ele lhe oferecer ajuda. E a vida de Isabelle, que estava começando a dar esperanças de melhorar, se transformaria naquele terrível inferno que ela tanto temia e fugia.
- Não... Eles se odeiam. Ele odeia tanto ela quanto o pai dela. Ambos não prestam – disse Aloysia em tom de confidência e Isabelle suspirou aliviada. – Você a conhece?
- Longa história – respondeu nostalgicamente.
- Oh, Lady Webber, ou devo dizer Lady Birdwell? – cumprimentou-lhe a costureira com um largo sorriso. – Ao que devo a honra de sua ilustre presença? A última notícia que eu tive com você foi a de que você se casou com o Duque de Bristol e partiram em lua-de-mel...
- Sim – ela concordou com um sorriso angelical. – Casamo-nos e fomos passar a lua-de-mel na Grécia... No entanto, meu marido teve um problema diplomático para resolver e tivemos que adiantar o fim.
Sim, Isabelle sabia. E se lembrava da quão revoltada ela ficara quando ele a largou com o pai e partiu em sua viagem diplomática. Como sempre, Isabelle foi o saco de pancadas, e ela teve quase certeza de que, se olhasse bem, ainda encontraria a marca dos sapatos finos dela em suas costelas.
- Veio encomendar vestidos? – perguntou a mulher.
- Sim – respondeu ela com um sorriso e, orgulhosamente levou a mão ao ventre. – E creio que terão que ser muitos. Pois logo já não caberei nos meus.
- Vadia – Aloysia soltou chocada.
- Vagabunda – Isabelle soltou chocada.
Ela estava grávida? Como assim? Outro monstrinho daquele? Seu tio e sua prima já não bastavam para atormentar-lhe a vida? Mas, espere um momento, há dois meses ela não estava grávida, disso Isabelle tinha a plena certeza. Vagabunda! Ela traiu o velho duque de Bristol.
Pobre velho senhor!
Morrerá do coração ao souber.
- Quero sair daqui – Isabelle choramingou. – Eu não suporto olhar para a cara dela...
Como era que alguém tão má poderia ter tudo e ela... Que passara a vida toda corretamente, não tinha nada? Seus pais de bons valores estavam em outro país no meio de toda aquela crise que poderia terminar em um desastre! E o tio Arthur inescrupuloso estava aí, usufruindo da riqueza dos antepassados.
Isabelle quase perdeu a cabeça ao pensar.
- Tudo bem, vamos – concordou Aloysia vendo a expressão de dor da francesa.
Mas, na carruagem, enquanto ia para a casa do duque, Isabelle só pensava em uma frase que poderia resumir a sua vida:
“A vida é injusta”.
...
- Bem vindas de volta, miladies – disse Bobley cem sua voz polida, enquanto pegava os embrulhos da carruagem.
- Obrigada, Bobley – agradeceu-lhe Aloysia, descendo da carruagem. – Onde o seu senhor está? Tenho fortes novidades para espalhar!
- No escritório, milady. Por favor, bata na porta antes de entrar. Vossa graça não gosta de ser interrompido quando ele está lá – respondeu-lhe o homem e seu olhar recaiu na silenciosa Isabelle. – Ele pediu-me para que lhe avisasse que, assim que chegasse, fosse ao seu encontro.
Isabelle olhou para o homem, mas verdadeiramente não deu importância aquele pedido. Seus sentimentos estavam confusos. Ela sentia a raiva borbulhar em seu sangue, ao mesmo tempo em que a mágoa esfriava o seu sangue. E tudo o que ela queria naquele instante, era dormir. Já que sua noite havia sido horrível.
- O que foi garota? Desde que saímos da loja, você não disse uma palavra – perguntou Aloysia com preocupação.
A francesa olhou para ela também, mas desviou o olhar. Fora um choque para a francesa rever Otella de novo – principalmente depois de todas as lembranças ruins que ficaram gravadas no corpo dela e em sua mente.
Ela era uma mulher muito bonita, mas muito cruel e malvada. Isabelle sabia o quão longe a inveja poderia levá-la. No fundo, a francesa sabia que a sua prima tinha inveja dela. Isabelle não era o ser mais bonito da face da Terra, e sabia disso. Mas era uma garota dócil, simpática e calma. Compreensiva.
Havia algo de bonito nela. Algo que já houvera pessoas que a viram e se encantaram. Havia um encanto, uma paixão, que ela despertava nas pessoas. Seja com um sorriso ou com um carinho.
No entanto, ela havia mudado muito desde como era antes de entrar naquela casa. Naquela casa, ela ficou tímida, retraída, amedrontada, assustada... Aquela casa lhe ensinara a temer tudo e a todos aqueles que se aproximavam.
- Isabelle? – chamou-lhe Aloysia, despertando-a dos seus devaneios. – Hm, Bobley, por que você não oferece um pouco de chá para ela enquanto eu converso primeiro com Alex? Ou melhor, Isabelle porque não veste um vestido novo para ele ver como ficou lindo em você?
A garota concordou com a cabeça e foi para o quarto de hóspedes.
- O que houve com Lady Rêveur? – perguntou Bobley.
- Não sei, mas está estranho. Vou falar com Alexander. Talvez ele consiga me fazer compreender o que está havendo – comentou a moça. – Sirva um pouco de chá para a moça. Ela me pareceu estar abalada com alguma coisa.
O homem concordou com a cabeça e se retirou com uma vênia respeitosa. Aloysia Walt suspirou e se dirigiu para o escritório do seu amigo. Não bateu na porta, pois sabia que ele não estava lá, e seguiu para o quarto anexo ao cômodo.
- Tenho boas notícias para você! – anunciou adentrando na segunda sala, mas logo fez uma careta com cheiro forte que estava trancado lá dentro. – Por Deus, Alex. Quer se asfixiar o com o cheiro forte desta sala?
O homem desviou o olhar da tela para a mulher que invadiu o seu “lugar sagrado”.
- Se tivesses ao menos se dado ao trabalho de bater na porta, eu poderia ter me preocupado em abrir uma janela – respondeu-lhe. – O que você quer aqui? Estou ocupado.
Ignorando-o, Aloysia sentou-se em um sofá desocupado e ficou o observando fazer uma comparação entre o seu quadro de treino e a natureza morta em uma cesta de cerâmica cheia de frutas.
- Trago uma boa e uma má notícia – disse-lhe a amiga.
O duque olhou ao redor e lhe deu as costas. Virando-se para a tela e dando mais algumas pinceladas.
- Onde está Isabelle? Pedi para que ela viesse me ver – disse com aspereza.
A dama bufou. Será que ele não a havia ouvido? Ou será que ele ouvira, mas só se importava com aquela garota, o seu novo “brinquedinho”?
- Isabelle subiu para descansar e por um dos vestidos novos – ela respondeu e acrescentou maldosamente: — Ela pareceu surpresa e nervosa ao ver Otella no atelier de madame Ashfort.
O pincel escorreu da mão dele e caiu no piso.
- Otella... Está de volta?
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