Notas iniciais
Esta história também está no Spirit, eu também sou Sennome, isso NÃO é plágio. Ainda não estou certa se haverá continuação, sintam-se livres para opinar! Grata pela atenção.

Eram duas da manhã e você sabe que em poucas quatro horas o alarme tocará avisando que é hora de correr para o trabalho e ser uma adulta responsável, você sabe que vai passar o dia todo de mau humor, sonolenta e com dor de cabeça por não ter dormindo uma única hora inteira, mas ainda assim você continua assistindo um concurso de piadas na TV sabendo que qualquer tentativa de voltar a dormir é inútil.

Não era sua culpa que o último relatório a fizera trabalhar direto o dia inteiro a base de café puro e quilos de açúcar e que parecia apenas agora fazer efeito tirando todo o sono que você sentira rastejando pelas suas costas o dia inteiro enquanto digitava e redigitava parágrafos inteiros daquele maldito relatório.

Por mais de uma vez você pensou em ligar para o trabalho alegando estar doente e não poder ir, mas aí você teria que conseguir um atestado médico para não perder o dia de trabalho, você também pensou em mandar uma mensagem sincera para seu chefe explicando a verdade de você está inútil hoje e manda-lo para os lugares mais coloridos que seu rico vocabulário de xingamentos e sua criatividade inventassem, mas aí você não teria um emprego.

Nem um salário, futuramente nem mesmo uma casa e teria que voltar a viver com sua mãe e, Deus, você pode amar aquela mulher com todas as suas forças, mas nunca mais voltaria a dividir o teto com ela por mais de dez dias. Quem quer que tenha dito que o amor aumenta com a distância estava certíssimo no fim das contas.

Então aqui estava você, esparramada no sofá em frente a Tv tentando se convencer que os trocadilhos do monstro esqueleto fariam essa madrugada em claro valer a pena. Você sentiu uma vontade enorme de chorar agora.

Ah! Claro, mostro esqueleto e monstros em geral agora eram comuns na sociedade, eram cidadãos e pessoas com direitos e deveres como você e qualquer outro humano no mundo, é óbvio que haviam aqueles que odiavam monstros e os culpavam pela falta de emprego para os humanos, a redução da população humana, pela humanidade estar depravada e imoral...

Você sempre os via como pais e mães incapazes que culpavam os monstros pelo fato de seus filhos serem roqueiros mimados, desempregados e sem namoradas (os), quase ninguém os levava a sério, ainda mais depois de todo o ouro e desenvolvimento tecnológico que os monstros trouxeram consigo do subterrâneo.

Os mais maliciosos diziam que os monstros compraram sua cidadania e seus direitos com minérios, uma usina termoelétrica capaz de alimentar um continente, plantas falantes e um robô com pernas magnificas. E talvez eles não estivessem errados, mas quem se importa?

Quantos humanos não passaram por essa vida sem uma única contribuição a humanidade e mesmo assim eram cidadãos com direitos e deveres da sociedade? Por muito tempo você se sentiu como esse tipo de humano então não se via no direito de falar qualquer coisa contra os monstros.

Batidas violentas na porta lhe tiraram de seu momento reflexivo e fizeram seus cabelos já bagunçados se arrepiarem, eram duas da manhã e você não conhecia ninguém insano o suficiente para bater a sua porta àquela hora. Muitos cenários passaram pela sua cabeça, poderia ser um assaltante estúpido, poderia ser um amigo estúpido, poderia ser um suicida tentando morrer de forma criativa... poderia ser sua mãe em uma visita surpresa.

Esse último pensamento lhe fez estremecer e rezar para estar errada, as batidas voltaram com ainda mais força e você pensou que talvez fosse uma questão de vida ou morte, isso a deixou alerta lembrando da vez em que lhe seguiram por mais de uma hora nas ruas e só pararam quando você abriu a porta da sua antiga casa e deixara o cão velho da família correr atrás do perseguidor, desde esse dia você começou a andar com um apito e um estilete sempre a mão para casos de emergência.

Decidida que ignorar não era mais uma opção você se levanta do sofá e pega a haste de ferro de um quilo e meio no caminho para a porta da frente e a abre com um solavanco pronta para acertar as partes baixas de qualquer assaltante estúpido que esteja do outro lado da porta.

Para sua surpresa não era um assaltante, nem um amigo, nem um suicida e nem sua mãe (Deus seja louvado!), na frente de sua casa estavam uma dupla de adolescentes claramente bêbados e que mal se aguentavam em pé, um deles tinha sardas muito destacadas na pele pálida e o outro lhe parecia levemente familiar apesar de seus olhos estarem fechados e ele parecesse estar dormindo.

“Graças a deus finalmente atenderam! Toma, esse peso leve caiu logo depois da terceira rodada! Foi uma luta descobrir onde o cara morava porque ele não fala coisa com coisa e não tinha nenhuma identificação! Bem agora é problema seu! Cuide bem do seu irmão ou irmã... esse cara é muito estranho”

E assim o adolescente de sardas literalmente lhe atirou o outro adolescente e saiu tropeçando nos próprios pés em direção ao muro onde bateu algumas vezes até encontrar o portão e sair por ele, você o observou por todo o trajeto e depois buscou pelo jardim a figura de seu velho cão o encontrando perto da porta da frente olhando penalizado para o portão e depois lhe encarar, inquisidor.

“Então você vai deixar adolescentes bêbados entrarem na minha casa agora ou esse foi um caso isolado? ”

Você não pode deixar de perguntar em voz alta e brincalhona e teve de conter uma gargalhada quando o cão bufou desgostoso e voltou a dormir como quem diz que aquilo nem mesmo poderia ser considerado uma ameaça e que, sinceramente, ainda está bravo pelo fato de você ter o castrado a cinco anos atrás.

Poderia ser um pensamento tolo seu, mas seu cão ainda parecia lembrar claramente da data em que você o levou ao veterinário e o trouxe de lá com umas partes a menos e todos os anos nesse mesmo dia ele lhe faz uma pequena vingança, seja sujando a varanda logo depois de você ter limpado ela, seja deixando “presentinhos” espalhados pelo tapete da sala.

O adolescente bêbado gemeu em seus braços e você se viu preocupada com seu estado, ele não poderá ter evoluído para um coma alcoólico depois de três doses poderia? Você esperava que não ou então talvez houvesse um atestado médico para apresentar ao seu chefe depois de algumas horas no fim das contas.

‘Deus, que seja um atestado médico e não um de óbito’ você acabou pensando nervosamente enquanto arrastava o corpo magro do adolescente pelo corredor fechando a porta com o pé, mas mantendo a barra de ferro consigo, afinal ainda poderia ser um assaltante estúpido.

Você pode ou não ter acidentalmente jogado o adolescente semiconsciente no sofá sem muito cuidado, talvez por seus braços serem fracos e não aguentarem o pouco peso do jovem ou talvez porque ele merecia alguns castigos por se embebedar antes da maioridade e dar tanto trabalhos a terceiros como você, na versão oficial da história ele foi delicadamente posto no sofá sem qualquer dano ou hematoma para o dia seguinte.

De uma forma ou de outra o movimento brusco (ou não) o despertou, não foi um despertar lento como os bêbados costumam ter, ele não gemeu com dor de cabeça nem ficou esverdeado e segurou o vomito, na verdade o jovem literalmente pulou uns bons dois pés do sofá se ajoelhando no mesmo enquanto gritava enfurecido apontando para o esqueleto comediante na Tv.

‘Ah, droga ele deve ser um maldito extremista revoltado com os novos direitos conquistados pelos monstros’ você pensou desanimada, claro que a possibilidade de ser apenas um adolescente apaixonado e descartado por sua idade também existia, mas as chances pareciam pequenas. O adolescente cambaleou algumas vezes antes de se firmar, o dedo agora apontava para um quadro acima da Tv, mas os olhos do jovem se mantinham no rosto sorridente do esqueleto encarando-o com uma raiva e uma tristeza estranha para alguém embriagado.

“Você! Seu maldito o que você está fazendo aqui! Eu sai de casa para você ficar lá idiota! Como... como você pode deixar a mamãe!? Depois de tudo que eu fiz você ainda vem me assombrar como um maldito fantasma! Seu desgraçado! Sempre sorrindo como um idiota! É isso o que você é ‘tá’ ouvindo?! Um idiota que não pode seguir em frente! Um estupido monstro esqueleto com complexo de irmão incapaz de se focar em algo! Um. Maldito. Filho da...! ”

O jovem continuou xingando o esqueleto sem perceber que discutia com a Tv, você estava ocupada demais para prestar muita atenção ao que ele falava pois estava procurando no google em que estado alcoólico a pessoas começava a ter alucinações e se você deveria se preocupar com algo. Sua pesquisa não deu muito resultado, aparentemente todos os sintomas levam a uma morte lenta e dolorosa então você voltou sua atenção ao adolescente que continuava xingando o esqueleto.

Para uma pessoa bêbada seu discurso estava estranhamente lúcido, as frases eram claras e a raiva e a angustia eram palpáveis mesmo para você que não tinha ideia do que estava acontecendo, em algum momento de seu discurso o jovem começou a chorar e a se levantar, agora ele estava em frente a Tv e você finalmente o reconheceu.

“Santa m0th6rf*ck! Você é Fisk, o embaixador humano dos monstros! Eu tenho um embaixador em casa... ai meu deus ele não é o filho adotado da rainha?! Eu tenho um f*** príncipe barra princesa em casa!?”

Aparentemente a boca suja do adolescente passou para você por osmose, não que você se importasse com isso ou que fosse verdade, você tinha seu próprio linguajar nada educado de se usar na frente de um adolescente da realeza monstro. O jovem ainda encarava a Tv com um ódio e uma tristeza mortal mas pareceu reconhecer sua presença e voltou a falar.

“Sim eu sou Frisk! A criança que caiu no subterrâneo e trouxe toda a comunidade monstro para a superfície, que morreu incontáveis vezes sem machucar qualquer monstro enquanto estava lá em baixo! Não que isso conte, seu maldito de ...! ”

“ Espera ai! O que? Você morreu? Como...? ”

Você não pode deixar de se perguntar se isso fazia parte da alucinação do jovem, mas algo em seu inconsciente gritou que o adolescente estava falando a verdade, até porque bêbados não costumam mentir. Frisk não pareceu perceber suas dúvidas, ainda focando na Tv continuou a falar.

“Eu morri tantas vezes que perdi a conta, é claro que eu podia voltar apenas com um apertar de botão, mas isso não diminuiu as dores, isso não tirou meus medos nem me deu alivio algum! Não era como se eu pudesse simplesmente continuar morto! Não era como se eu pudesse escolher! Tudo parecia um jogo doentio na época e agora... agora eu vejo toda a porcaria que eu passei sem poder falar nada a ninguém, por que é justamente isso que esperam não!? Que alguém dê um motivo para se odiar os monstros e tirar tudo que conquistamos! Você não é o único com pesadelos Sans! Você não é o único que... o único que lembra de coisas ruins você não...”

O jovem começou a engasgar com as lágrimas, seu corpo estava tremendo no ritmo dos soluços e você percebeu que o desabafo estava preso na garganta a muito tempo.

“Mas você era o único juiz naquele salão, não é? Então me explica: Por que eu fui a única a ser julgada!? Por que Undyne não foi julgada por empalar uma criança depois de eu ficar como um maldito queijo suíço!? Por que o Mettaton não foi julgado depois de me matar tantas vezes na frente das câmeras como um espetáculo grotesco!? Porque eu fui a única a ser julgada? Porque eu tive de sofrer tantas e tantas mortes horríveis e apenas você tem o direito de dizer que está ferido?!”

Você ficou calada e imóvel sem saber ao certo o que fazer, ele estava narrando suas lembranças ou suas alucinações? Seja o que for era real para o jovem, angustiada você decidiu pegar um pouco de agua e remédios para dores e enjoos.

“Aquilo não era nem de perto a justiça que você pregava seu maldito hipócrita! Assassinos deviam ser julgados adequadamente naquele hall, mas apenas uma criança foi julgada lá... então, quando Chara disse que não podíamos julgar mas podíamos vingar eu aceitei. Aceitei e não nego! Parecia tão certo naquela época, seria apenas uma parcela do que vocês me fizeram passar de qualquer jeito, uma morte para pagar várias. E ninguém se lembraria, ninguém deveria lembrar! ”

Você ainda podia ouvir o discurso da cozinha em alto e bom som, por mais claro que fossem as palavras e frases elas não faziam muito sentido, ainda assim você decidiu continuar ouvindo com atenção.

“Mas você lembra! Você lembra e me culpa e desconfia de mim e deixa tudo tão claro! Deixa claro que não pode me aceitar como seu filho e por isso não se casa com a mãe mesmo que vocês se amem! Deixa claro que não confia em mim perto do Papys e sempre arranja um jeito de me vigiar”

Você havia voltado para sala a esse ponto, a bandeja com agua, remédios e alguns alimentos leves na mão, algo lhe dizia que assim que o discurso acabasse o adolescente cairia e você queria estar lá para segura-lo tanto metafórica quanto literalmente.

“Deixa claro que eu sou a causa de seus terrores noturnos, mas não percebe que você é a causa dos meus... Eu... Deus, eu queria poder ter ido para aquela montanha do inferno agora que eu sou mais velha, agora que eu posso falar com clareza, agora que eu sei de tantas coisas, que sou mais forte e.… e não morreria tanto... eu era tão pequena... tão só...

“E você... você simplesmente diz que não pode olhar na cara de uma assassina então quer distância e eu sei que isso é ridículo por que você me matou mais que qualquer um deles, você me fez sofrer mais que qualquer um deles e mesmo assim... mesmo assim eu estou aqui, longe de casa, longe de todos que eu quero bem por que você não consegue me encarar... ha ... isso é alguma das suas piadas distorcidas Sans?

“Você lembra o que eu disse? Eu disse: Eu vou sair por três anos, para um curso de mediação fornecido pela ONU a todos os embaixadores do mundo no exterior, então por favor Sans por favor, siga em frente para que quando eu voltar tudo esteja bem. Eu disse isso não foi? Você prometeu que iria seguir em frente... então por que... por que eu sinto que foi uma promessa vazia e nada vai mudar? ”

Você estava errada, assim que parou de falar Frisk não caiu de exaustão apesar de parecer cansada demais, como uma pessoa idosa que realmente passou por tudo que falara para a Tv, lentamente seus passos vacilantes a levaram para frente do aparelho onde o esqueleto ainda falava trocadilhos e contava piadas, seus olhos estavam secos, sem lágrimas, sem ódio, sem brilho, apenas tristeza. Ela se abaixou e falou uma última frase antes de desligar o aparelho, você não conseguiu ouvir claramente mas soava como um adeus.

Depois de um minuto ajoelhada em frente da Tv Frisk se ergueu e com passos trôpegos conseguiu alcançar o sofá e sentar-se lá, pela primeira vez ela lhe olhara, os olhos estavam vermelhos e inchados por causa do choro mas ainda assim seu rosto transmitia uma paz e tranquilidade invejável, seus olhos lhe escanearam dos pés a cabeça por um longo e tenso minuto, onde você só podia pensar que queria ajudar essa pobre alma, até que ela suspirara e toda a tensão deixara seu corpo, aos poucos ela foi deitando no sofá.

Você rapidamente lhe deu o remédio e a agua, depois foi pegar um cobertor para cobri-la a casa não era fria mas era melhor prevenir que remediar, quando voltou Frisk parecia ter comido um pouco dos alimentos que você deixou lá anteriormente e já estava dormindo, ainda assim você a cobriu com o cobertor e pode ouvir um agradecimento e ser chamada de mãe o que apertou seu coração, pelo pouco que você entendia ela escolhera ficar longe das pessoas que mais amava para resolver os maus entendidos que tinha com o esqueleto comediante da Tv.

Balançando a cabeça você dispersou todos os pensamentos e opiniões que tinha sobre o caso, não era da sua conta, não era sua incumbência, você não se meteria nos assuntos particulares alheios, decidiu, no entanto, pensar em outra coisa que ouvira, então era nessa cidadezinha que estava acontecendo o tal curso secreto para os embaixadores é?

Interessante, sua cidade não tinha nada de muito extravagante ou valioso se comparada a outras cidades pelo mundo, mas era compreensível que escolhessem um lugar apagado para esconder tanta gente importante, embaixadores são a representação humana de um pais, de uma comunidade, um atentado aos embaixadores é um atentado a suas nações no fim das contas.

Olhando para o mais jovem embaixador da atualidade descansando tão pacificamente depois de vê-lo explodir violentamente contra a sua Tv lhe fez sentir uma onda de simpatia pelo adolescente, suspirando você começou a pensar que desculpa poderia dar a seu chefe para não aparecer no trabalho, de nenhuma forma você poderia deixar um desconhecido só em sua casa.

Desligando a Tv você foi para cama finalmente sentindo o sono rastejar pelas suas costas.

Notas finais
Bem, é isso gente, qualquer coisa fale nos comentários estou ansiosa para saber o que vocês pensam, inclusive com relação a continuação da história até a próxima!