Descobertas da madrugada
2 Capitulo 2
Notas iniciais
Frisk tinha uns bons hematomas ao amanhecer, o curioso é que eles não estavam relacionados a noite anterior, eles foram resultado do seu puro instinto de autopreservação.
Em sua defesa, você ainda estava sonolenta enquanto fazia o café da manhã e não percebeu que a sombra embaçada as suas costas era seu convidado real, o que resultou claro em um ataque de frigideira digno dos filmes da Disney. Isso não te fazia sentir melhor e você tinha certeza que não fazia Frisk se sentir bem também.
O adolescente não revidou, não reclamou e quase não choramingou, quando você perguntou sobre o ferimento e a ressaca ele apenas dera de ombros e dissera que ‘já estivera pior’ o que na sua opinião era ainda mais preocupante que chorar inconsolavelmente pelo roxo no rosto.
O café foi rápido e silencioso, você não tinha pressa para terminar. Ainda durante a madrugada você havia enviado uma foto de Frisk com um lençol sobre a cabeça ao seu chefe com a legenda de ‘estou cuidando de um enfermo, não irei’ e horas mais tarde a resposta do chefe fora algo como ‘ele parece morto pra mim, você está escondendo um cadáver?’ O que resultou em quase meia hora de discussão ilógica por mensagem na qual você saiu vitoriosa.
“Eu agradeço a sua hospitalidade, mas tenho que partir...” o adolescente se pronunciara em uma voz baixa e rouca, provavelmente pelo sono e cansaço, sem te encarar tendo quase acabado com sua parte da refeição.
Você sabia que essa hora chegaria, ele iria embora, seguiria seu caminho como se nada tivesse acontecido, talvez até voltasse para casa onde sorriria para seu padrasto como se não houvesse problema algum, onde teria uma vida miserável fingindo que tudo estava bem.
O adolescente já estava lavando a louça enquanto você refletia sobre a situação, não seria a primeira vez que você se meteria em assuntos alheios justamente por que sentia que o alheio em si precisava de ajuda.
“Eu posso ajudar sabe? Quero dizer... não nos conhecemos, eu não tenho ideia de quem é seu padrasto e tudo, posso ouvir você... não é muito mas pode ser o início de algo maior”
Frisk apenas encarou você com desconfiança, o que não te surpreendeu, por tudo que ele sabia você poderia ser uma repórter louca por um furo jornalístico, um lunática anti-monstro pronta para usar qualquer conhecimento contra a comunidade ou uma insana menor que gosta de bancar a psicóloga para desconhecidos que dormem no seu sofá.
“Olha... você está em uma situação difícil e nem mesmo pode recorrer a profissionais porque, depois de você falar um terço do que me falou ontem iria definitivamente ser internado, tachado de incapaz e teria sua história contada a sua família e o resto do mundo, o que estamos tentando evitar certo? ” Pela tensão nos ombros do mais jovem você sabia que tinha acertado.
“Eu posso lidar com isso... na maioria das vezes, ontem foi... um deslize, não irá acontecer de novo... não vai piorar também, não é como se eu pudesse morrer de qualquer jeito” ele falara com um certo amargor que te fez estremecer.
“Só por que você não pode morrer, não significa que está vivendo” você não queria ser ríspida, sua voz saiu mais cortante que o esperado, suspirando você pegou um pedaço de papel conveniente colocado no balcão da cozinha junto com uma caneta preta e anotou seu nome e número.
“Então... só pegue o meu número e me mande uma mensagem ou me ligue quando as coisas forem demais, não vou te curar nem nada do gênero, mas é sempre reconfortante saber que tem quem te ouça” você pôs o papel na mão do adolescente fechando-a entre as suas e empurrando-a contra o peito do outro.
Frisk não reclamou, não falou nada por um longo tempo... até acenar positivamente e anotar o número no próprio celular fazendo você soltar a respiração que nem sabia que estava prendendo. O adolescente partiu não muito tempo depois em silêncio deixando você refletindo sobre o que acontecera.
Frisk só deu sinal de vida uma semana depois, através de uma mensagem curta e simples onde perguntava se você estava em casa. Era sexta feira, normalmente você iria ao cinema ou a uma pizzaria, mas você percebera que quanto menos falava mais Frisk precisava de ajuda, então apenas comprou a pizza para viagem e avisou que estava chegando.
A adolescente estava na porta de sua casa acariciando seu cão como se ele não parecesse uma arma de guerra treinada para a chacina, você evitou um beicinho com sucesso, fazia tempo que seu cão não era tão fofo com você, provavelmente por causa da castração, ele ficava de mau humor por pelo menos um mês todo o ano por causa disso.
Ao ver você se aproximando Frisk se apresentou mais séria e resoluta, determinada, haviam olheiras sob os olhos e seu olhar era cansado, estava claro que a semana não fora gentil com ela.
“Você disse que poderia me ouvir...” apesar de toda a postura firme sua voz era baixa e insegura, você usou seu sorriso mais reconfortante
“Sim, vamos entrar, quer um chá? Um chocolate quente? Tenho pizza” a porta destrancou com facilidade e vocês seguiram para a cozinha, a conversa durante a refeição foi sobre o cotidiano, Frisk comentara um pouco sobre seu curso e você falara sobre seu trabalho, a adolescente decidiu lavar os partos enquanto você fazia um chá de várias ervas calmantes para ambas. Quando sentaram novamente na mesa da cozinha, uma de frente para outra, Frisk respirou fundo e começou sua história.
“ É curioso que ninguém tenha insistido muito no porque eu subi no monte Ebott, compreensível na verdade, havia toda uma comunidade de monstros recém descoberta para observar então a história de uma criança curiosa parecia desinteressante eu acho... ”
“ Ninguém sobe no monte sem um motivo triste para leva-lo até lá, Chara sofrera e se desiludira com a humanidade e de certa forma o mesmo aconteceu com os outros que foram para lá, eu inclusive... minha família humana não queria uma criança, eles não eram violentos comigo nem verbal nem fisicamente eles eram... apáticos a mim, agora eu sei que eles são... eram pais negligentes e que isso é crime, mas naquele tempo eu só queria saber qual era o meu problema, porque todos na escola elogiavam ou reclamavam de seus pais enquanto eu nem mesmo falava com eles... ”
“ Então houve aquela história, uma estúpida história infantil que falava de uma criança que não sabia o que era amor e decidiu sair em busca dele, na história quando ela partia todos de sua casa ficavam desesperados e iam procura-la, ela se metia em várias aventuras enquanto seus pais corriam para a polícia e vizinhos. No fim eles se encontravam e ela descobria que sempre teve amor e não percebera, obviamente havia um final feliz. ”
“ Eu pensei que era como aquela criança e fugi de casa na direção do monte esperando que eles me encontrassem... ”
“ Mas ninguém veio... e eu me perdi naquela mata, incapaz de encontrar o caminho para sair. Por três dias e três noites eu vaguei pelo monte atrás de qualquer coisa que pudesse comer e fontes de agua então eu achei algumas raízes que pareciam gostosas e ... eu cai. ”
“ No monte de flores eu encontrei Chara, ela me ajudou a continuar viva, de certa forma, sempre me enchendo de determinação quando eu queria simplesmente... deixar, desistir. Na primeira vez que eu fui para o monte fiz o que Chara e Flowey chamaram de ‘rota neutra’ onde eu não matei a todos, mas também não consegui salva-los. ”
“ Quando sai do monte naquela vez eu voltei para casa, onde nada de fato mudara, eles não perceberam minha falta até a escola perguntar o que houve comigo e quando isso aconteceu eles apenas disseram que eu estava com outro parente e me tiraram da escola. ”
“ Então eu fiz o reset completo, determinada a salvar a todos, consegui fazer a rota do ‘verdadeiro pacifista’ onde me tornei amiga de todos, nessa rota eu acabei sofrendo muitas dores e mortes, mas tudo pareceu valer a pena quando fomos para a superfície onde eu tive certeza que conhecia o amor de uma família de verdade. ”
“ Passaram muitos anos até eu começar a sentir os efeitos de minhas mortes, sonhos horríveis, ataques de pânico, medo constante... então um dia eu percebi que estava tremendo apenas porque minha mãe cabra estava na mesma sala que eu... foi quando eu percebi que não poderia ficar assim, todo meu esforço para uma vida de amor estava em risco... e se percebessem que a própria embaixadora temia os monstros o que fariam? Tinha de haver alguma coisa que eu pudesse fazer para impedir minha piora... ”
“ Foi quando Chara falou de um outro tipo de amor... um amor por acrônimo que me distanciaria desses sentimentos cruéis e, de quebra me permitiria acertar as contas com todos que me machucaram no passado. Nós pensamos que assim eu poderia voltar a dormir sem pesadelos, que poderíamos ficar em paz com nós mesmos... que tudo ficaria bem... ”
“ Então fizemos a ‘rota genocida’ e matamos cada um de nossos amigos, um a um expurgamos os maus sentimentos que guardávamos deles, Chara chorou muito quando matamos a mamãe, mas ainda assim seguimos em frente, o mais rápido possível para acabar logo com toda aquela dor. ”
“ E com o tempo percebemos que cada vez ficava mais fácil cortar e matar, nós ficamos mais rápidas, mais fortes, mais imbatíveis. Ao fim da cidade gelada nós quase não sentimos a dor de cortar um grande amigo, mas seria injusto com ele, mantê-lo vivo enquanto todos que amávamos virava pó, mesmo sabendo disso nossa intenção fraquejou e ele durou um pouco mais que os outros. ”
“ Seguir depois de Papys ficou ainda mais fácil, Undyne deu trabalho mais não me doeu tanto quanto mamãe e Papys, Mettaton nem me fez suar... nesse momento era simplesmente impossível sentir alguma coisa, eu já nem lembrava do porque eu os matava mas sabia que devia faze-lo rápido, tínhamos que acabar com isso o mais rápido possível. ”
“ Então veio Sans e o salão do julgamento, com as estatísticas mais baixas possíveis, quase uma chacota ‘o inimigo mais fácil, só pode dar um de dano’ era o que diziam as estatísticas... Mas ele desviava e nunca dava apenas um golpe, como juiz ele ainda tinha o poder do carma a seu favor, meu L.O.V.E. se virou contra mim e eu finalmente pude sentir meus pecados rastejando pelas minhas costas. ”
“ A dor e o arrependimento quebravam minha determinação e, ao fim, quando Sans estava cansado demais para lutar e dormiu eu quis voltar... mas Chara não deixou, ela sabia que voltar agora seria voltar ao pesadelos e ao pânico, sabia que sem L.O.V.E. eu não poderia viver com amor então ela me forçou a dar um golpe traiçoeiro e, quando mesmo assim Sans desviou, ela tomou posse de meus atos. ”
“ Em lágrimas nós seguimos agora em posições trocadas e eu a vi matar seu próprio pai e melhor amigo com lagrimas negras escorrendo pelos olhos vermelhos... quando saímos resetamos imediatamente. ”
“ Passei praticamente um mês nas ruinas, apenas para ficarmos com mamãe, como já não tínhamos pesadelos nossas noites eram calmas e tranquilas, as tortas eram deliciosas e o carinho era tão preciso e presente quanto o ar que respirávamos... mas tínhamos que seguir em frente, liberta-los, oferecer a única coisa que podíamos em troca de todo esse zelo e amor. ”
“ Dessa vez fomos mais devagar, tomando nosso tempo em cada cidade, curtindo seus habitantes, jogando seus jogos, tendo encontros... eu me enchi de memórias boas e de determinação, então quando chegamos a superfície pela quarta vez eu estava certa que, dessa vez, seria um final feliz. ”
“ Mas não há ‘felizes para sempre’ não é? ”
Pela primeira vez desde que começara a falar Frisk levantara seu olhar da xicara e olhava para você, seus olhos estavam inchados e vermelhos, havia um sorriso em seu rosto, que te lembrava os sorrisos daquelas mascaras de Pierrot, falsos e escondendo uma história triste por trás dessa curva. Você não estava chorando mas sentia os olhos arderem, sem coragem para encontrar aquele sorriso falso você desvia o olhar.
“Depois disso eu descobri que Sans lembrava de tudo... ele não me falou nada, mas como reagia a mim... a minha presença e tudo... ficou tão óbvio. Pensei que tudo ficaria bem se não ficássemos próximos, mas ele e mamãe começaram a sair e ela estava tão feliz que eu não pude fazer nada contra o arranjo, para mim tudo estava bem... até que Sans se mudou para casa e os meus pesadelos voltaram ainda piores que antes.
“ Agora nem eu nem Chara sabemos o que fazer... semana passada... me disseram que beber ajudava a esquecer então... eu estava tão desesperada que tentei, mas não ajudou... eu não sei mais o que fazer... a distância não ajuda, a bebida não ajuda... falar também não vai ajudar... ”
Frisk voltara a chorar com tremores e soluços e você não pode se conter, a abraçou com força e a manteve em seus braços até que seu corpo relaxasse e você soubesse que ela estava dormindo, novamente você a colocou no sofá o mais delicadamente possível, a cobriu e preparou um pouco mais de chá, suas mãos estavam tremendo, a história parecia tão irreal...
‘Mas é real’
Naquela noite você não dormiu se reversando entre vigiar Frisk e planejar algo para ajudar.
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