Dias atuais


SAMANTHA já tinha ouvido aquela história, ou talvez um ditado, que diz algo como: "Você só dá valor ao que tem quando perde".

Talvez esta frase fosse mesmo uma verdade.

Para Samantha, pelo menos, era. Ela só deu valor à sua antiga vida quando já não a tinha mais. Só percebeu que tudo costumava ser perfeito quando a mulher que a pôs no mundo, que a amou, que estava sempre ao seu lado, lhe deixou. Trocou seu abraço por um monte de ferragens, que atravessaram seu corpo enquanto ela ainda mantinha seus olhos abertos, mesmo que eles não pudessem ver mais nada.

Nem a própria Samantha conseguia definir o quanto queria sua vida de volta.

- A guarda é do pai, — a juíza disse, em tom definitivo e interrompendo os pensamentos da garota.

Quatro cadeiras se arrastaram ao seu redor. Seus ocupantes se levantaram, mas a menina continuou sentada ao lado da cadeira que antes sua avó ocupava, com os olhos pregados na bonita mesa de mogno.

- Sam. — Ouviu uma voz a chamando carinhosamente, apenas mais uma voz interrompendo seus pensamentos.

Levantou os olhos para sua avó, parada ao seu lado, a olhando daquele jeito que ela costumava olhar nas vezes que nem toda a sua experiência de vida poderiam ajudar a neta.

- Temos de ir, querida.

Samantha assentiu, mas continuou sentada em sua cadeira.

No fundo, ela sabia que aquilo aconteceria, a avó já havia conversado sobre isso com ela e, por mais que não quisesse, entendia a avó perfeitamente. Ela já era uma senhora, e sem a renda da filha que acabara de morrer, não conseguiria arcar com a responsabilidade de criar uma adolescente.

O olhar de Samantha correu para a única pessoa naquela sala que sorria. Ele estava apertando a mão de seu advogado e, assim que terminou, sorriu para Sam com o sorriso que ela costumava ver todos os dias no espelho. E essa era a única semelhança entre eles, além da cor dos cabelos.

Ele era Henry Oliveira, o pai de Samantha.

E, a partir de agora, o homem que tinha sua guarda.

Ali, olhando para ele, a única coisa que conseguia pensar era que aquele tanto indefinível que queria ter sua vida de volta cinco minutos antes, tinha acabado de aumentar.

- Vamos Sam, temos que fazer suas malas! — Henry disse, com seu costumeiro sorriso tranquilizador, se dirigindo a ela.

Pena que, dessa vez, aquele sorriso tranquilizador não a tranquilizou nem um pouco. Na verdade, deixou-a apavorada assim que conseguiu absorver o que ele havia dito.

Procurou por sua avó e a encontrou em um dos cantos da sala, conversando com o advogado que o governo designou para seu caso. Como uma criança, deu as costas aos outros e caminhou até ela, se agarrando à mão da avó com toda a força e a determinação que tinha.

Seus olhos arderam e pareceu impossível que Sam ainda tivesse forças para chorar, mas ela tinha e era isso o que estava fazendo, enquanto dizia, entre soluços "eu não quero ir, me deixe ficar com você!"

Mesmo sabendo que isso não era mais possível, ela ainda pedia.

Como eles esperavam que Sam fosse aceitar perder a mãe e a avó de uma vez só?

- Você vai adorar a cidade, Sam. Tenho certeza que vai!

Henry, empolgado como sempre, se remexia em seu assento de avião.

Um fato interessante sobre o pai de Samantha: ele era, além dela própria, a pessoa mais otimista que ela conhecia.

Antes, quando ainda eram uma família, isso costumava ser bom, era o que mantinha a harmonia em casa. Mas aquele dia, especialmente naquela situação, o otimismo dele só fazia com que Sam se sentisse pior.

Ela queria ir para casa. Para a casa dela, e não para casa de Henry.

- O seu irmão cresceu tanto desde a última vez que você o viu! — ele voltou a puxar assunto, mas Sam apenas assentia, sem a menor vontade de responder.

Sam não via o irmão mais velho há seis anos e meio. Às vezes trocavam algumas mensagens, normalmente no dia do aniversário dos dois, e era basicamente isso.

Quando os pais se separaram, em um acordo que fizeram, ela ficou com a mãe e o irmão ficou com Henry quando ele se mudou do interior do Rio Grande do Sul para o interior de São Paulo. Até alguns anos depois da separação deles, Sam ainda passava as férias de meio do ano na casa do pai e ele o Natal na casa da mãe.

Mas então as coisas mudaram. O irmão de Sam se recusava a ir ver a mãe e, sempre que ela aparecia para visitá-lo, ele a ignorava.

Com o passar dos anos, a mãe percebeu que ele não queria mais vê-la e falou com Henry sobre isso: não obrigaria mais o filho a ir até sua casa, em outro estado, se ele não quisesse ir.

Obviamente, o rapaz agarrou a oportunidade com unhas e dentes e nunca mais apareceu na casa da mãe e da irmã, mas a mãe continuava a ir visitá-lo quando podia, enquanto Sam, que até entendia o irmão — embora àquela altura fossem praticamente desconhecidos -, tentava achar desculpas para não ir junto com a mãe à casa do pai.

Então foi assim que ele e Samantha cresceram: separados por uma grande parte de suas vidas. Quando Henry queria vê-la, ia até sua cidade, quando a mãe queria vê-lo, ia visitar o filho. E ele e Sam continuavam confortáveis em suas respectivas casas.

- Ele tem uns amigos estranhos, mas tenho certeza que você vai se dar bem com todos eles.

Sam respirou fundo sem que Henry visse.

As coisas seriam piores do que pensava.

O voo demorou cerca de uma hora e meia e, assim que chegaram ao aeroporto, seguiram para a rodoviária e pegaram um ônibus para a cidade de Henry. O balanço do ônibus, o barulho do motor e o vidro gelado ao qual ela tinha encostado a testa trouxeram de volta a memória da guinada inesperada que sua vida deu no último mês.

O aniversário de 17 anos de Samantha foi o mais desastroso da face da terra, pois exatamente no dia 18 de outubro, quando ela completava 17 anos, foi também o dia em que brigou com a mãe por algo estúpido.

Sam nunca foi de fazer aquelas coisas, ela e a mãe eram como melhores amigas, mas por algum motivo aquele dia ela se sentia irritada. Talvez porque seu namoro com Flávio tinha terminado há poucos dias, talvez porque o pai dela prometeu que iria lhe visitar no dia do aniversário, mas não conseguiu comparecer. Talvez porque a avó, que complementava sua aposentadoria com o dinheiro que conseguia vendendo bolos de festa maravilhosos, estava se sentindo muito indisposta naquele dia e não fez o bolo que Samantha queria.

Coisas fúteis assim, e aquilo bastou. Gritou com a mãe sobre coisas desconexas, sobre aquele ser o pior aniversário da vida dela, sobre a mãe trabalhar demais e não ter tempo para vê-la como antes.

Coisas que Samantha remoía há alguns meses, mas que, em seu estado normal, jamais diria a alguém.

Para tentar acalmá-la, a mãe prometeu um final de dia divertido. Queria ir ao pequeno parque da cidade, onde agora um circo muito famoso se instalara, mas Sam não queria ir até lá.

Queria ir até o shopping da cidade vizinha, o maior da região, comprar um celular novo.

E ela sabia que a mãe odiava pegar os breves sete minutos de rodovia que separavam as cidades, principalmente à noite, mas Sam não ligou.

E enquanto as lágrimas escorriam e ela tentava a todo custo continuar a fingir que dormia no banco do ônibus, ela queria gritar consigo mesma, por ter feito a mãe fazer algo que não era necessário, contra a vontade dela, simplesmente para suprir desejos adolescentes fúteis como aquele.

Porque depois daquele dia, a mãe dela nunca mais voltou para casa.

Soube que não conseguiu esconder as lágrimas quando sentiu o braço de Henry passar por sobre seus ombros, enquanto ele cochichava palavras de consolo em seu ouvido como se ela fosse uma criança ainda.

E ela se sentiu um pouco melhor, um pouco mais esperançosa quando ele fez aquilo. Amava o pai, só não sentia algum tipo de conexão forte de carinho ou amizade, devido aos anos que passaram longe.

Mas ainda o amava muito.

E não conseguia tirar do peito a vontade que ela queria de continuar tendo Henry como o pai distante, que a visitava durante as férias por alguns dias, pois isso significaria que teria sua vida antiga de volta.

Ou, pelo menos, teria sua avó, que era sua segunda mãe apesar de ser um pouco mais rígida.

Agora ela só veria a senhora durante as férias de julho do outro ano, e Sam não sabia o que faria sem ela por tanto tempo.

Respirou fundo contra o peito de Henry quando ele a abraçou, e tentou não pensar em mais nada.

Metade dela era pesar, e a outra metade medo do que estava por vir.

Então não valia a pena perder as poucas horas que tinha antes de sua nova vida começar sofrendo por algo que ela não sabia como seria.