ANDRÉ andou toda a extensão do campo de futebol da escola, pensando.

Já eram quatro horas da tarde, o treino já havia terminado há uma hora, mesmo assim ele ainda estava lá.

Ele era agora o capitão do time principal. E apesar de estar preocupado com a remessa de responsabilidade que ele próprio colocaria em seus ombros por conta disso, foi a primeira vez em meses, talvez anos, em que se sentiu animado para alguma coisa.

Lembrou da conversa com o professor, quando ele lhe entregou a braçadeira alguns minutos atrás.

— Eu demorei muito tempo para decidir, se como nos times de campeonatos normais, nós devíamos voltar a ter um capitão ou não — ele falou, quando chamou André em um canto, ao final do treino.

André assentiu, pois entendia as motivações do professor. Apesar de sempre tentar não pensar nele, o último capitão daquele time tinha se formado anos atrás, e nenhum outro jogador parecia realmente merecer aquela posição. Até agora.

— Mas André — o professor continuou, e a semelhança do treinador com o padrasto dele, Derek, era tão grande que fazia com que aquele homem fosse um dos únicos com quem André se sentia à vontade para interagir —, eu sei que você quer uma chance, e eu sei que no ano que vem, diversos representantes de times estarão nos procurando, assistindo aos jogos, para escolher algumas pessoas para fazerem testes de admissão.

André assentiu de novo, e de repente sentiu o estômago embrulhar. Todas as vezes que pensava nisso, se sentia nervoso.

— Você vai me deixar ser capitão para que eu chame mais atenção — André adivinhou, e não conseguiu esconder a gratidão que sentia na voz.

— Para que você chame ainda mais atenção — o treinador corrigiu. — Eu também venho de uma família que não tinha tanto dinheiro assim, e eu sei que cada pequena oportunidade que pessoas como nós temos, são extremamente difíceis de conseguir. Então eu quero que você entenda — ele apoiou uma das mãos no ombro de André —, que apesar disso ser antiético, eu estou sim te dando isso por favoritismo. — Ele entregou a André uma braçadeira preta, que fez o coração do rapaz disparar. — Porque eu sei que dentre todos esses filhinhos de papai, você é o que mais merece, e o que mais vai ter que lutar por uma oportunidade.

André olhou nos olhos dele por um tempo, e então engoliu em seco.

— Obrigado — disse, simplesmente, porque sequer imaginava o que podia dizer a ele para demonstrar o quão grato estava. — Eu não sei nem como te agradecer.

— Continue merecendo isso aí — o professor apontou para a braçadeira —, e já é agradecimento suficiente.

E, ainda andando ao redor do campo, com aquele pedaço de pano nas mãos, André suspirou aliviado.

Era muito bom sentir algo que não fosse culpa. Ainda mais se o que sentia era uma coisa que poderia lhe garantir o futuro que tanto queria.


André chegou em casa depois do treino de futebol e largou a mochila no sofá quando ouviu o som dos passos da irmã descendo a escada para cumprimentá-lo.

— André — ela cantarolou, como fazia todos os dias, e André a pegou no colo e deu um beijo no rosto.

— Tudo bem, Vicky? — ele perguntou, e depois de colocá-la no chão e descrever o que fez no dia, como ela sempre pedia que ele fizesse, os dois foram para a cozinha almoçar.

Não importava quão tarde ele chegasse, Victória sempre o esperava para que comessem juntos.

Enquanto comiam, ele observou novamente o rostinho da irmã de nove anos.

Aquele olho de vidro lhe dava arrepios. Não porque ele estivesse com medo, nojo ou qualquer coisa do tipo, mas porque ele sabia que aquilo era culpa dele. Bem como as cicatrizes de queimadura que ela tinha em quase todo o corpo.

E se ele pudesse perder a própria visão e dar a ela, ele faria quantas vezes fossem necessárias.

Desviou o olhar rapidamente quando a mãe deles o observou de longe. André sabia que ela desconfiava dos pensamentos que tinha, e apesar de dizer todos os dias nos quais tinha a oportunidade que jamais o culparia pelo que aconteceu, ele imaginava que, lá no fundo, tanto ela quanto o padrasto deviam o culpar sim, pelo menos um pouco.

Porque se não fosse por ele, nada daquilo aconteceria com Victória.

Suspirou então, e continuou a comer, ouvindo Vicky contar a ele a história do audiobook que estava ouvindo, sobre fadas e elfos, e como ela queria poder viajar para um mundo distante assim.

E André, no fim das contas, também queria. Nem que fosse só por alguns dias, para que não precisasse lembrar o que ele tinha feito sempre que olhasse para ela.

Pelo menos era o capitão do time agora. Aquilo de

veria mudar alguma coisa.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.