Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas
1 O Festival Japonês
Sim, aquele era o grande dia. Nada igual fora feito antes naquele lugar que eu chamava de casa, que eu chamava de lar. Um festival sobre a cultura japonesa, sobre sua história e sua vida e moral seria realizado naquele fim de semana, dentro de duas horas.
Eu ainda estava jogado na minha cama, com os lençóis amarrados em meu corpo como serpentes famintas sufocando a presa indefesa. O despertador sufocado pela minha mão continuava a soar com intensa feracidade, na tentativa de eu sair da cama antes do festival começar. Sem muito sucesso, ele parou, mas porque meu dedo atingira o botão "PARE". Levantei-me, fui ao banheiro, tomei banho, escovei os dentes e me vesti.
Minha casa era grande, com três quartos com banheiros no andar de cima, e apenas uma sala-cozinha no andar de baixo. Descer aquelas escadas ao acordar era um sacrifício. Com o olhar semicerrado e a atenção baixa, não tinha dia em que eu não tropeçava e descia rolando as escadas. Meus pais não estavam em casa, então teria de ir a pé para o Festival Japonês.
Não era longe, mas o suor incomodaria muito, ainda mais com a cruel e forte luz solar que benzia o solo. Sem fome alguma, coloquei o pé na estrada e parti para o festival. Lá, encontraria meus amigos, que não confirmaram se iriam ou não. Lógico que a presença deles seria agradável, porém eu não tinha tempo para as reclamações. Eu iria me divertir, com eles ou não.
Chegando ao local, a estrutura que prepararam era inimaginável. Os antigos templos e castelos foram crucialmente montados, baseando-se nos arquitetos japoneses, que vieram ajudar na realização do evento. As árvores de cerejeiras decoravam as ruas com suas pétalas rosadas e cheirosas. Fiquei esperando algum amigo aparecer, no entanto, nenhum deles apareceu.
Assim que o portão abriu, entrei. Com um sorriso deslumbrante e com lágrimas de felicidade, andei cada centímetro daquele festival. Várias fotos e selfies enchiam a memória do meu celular, que até agora, apenas me atrapalhara. Fotos tortas e que não salvavam. Essa era a única coisa que me irritava, do resto, apenas alegria eu sentia.
O dia fora maravilhoso, intensas emoções nos teatros de sombras, nos torneiros de ninjitsu, até as aulas de história atraiam a atenção de qualquer espectador. Entretanto, o dia ia sumindo, dando lugar para a sombra da noite.
Para muitos que já foram embora, perderam mais um espetáculo. As lanternas japonesas foram acesas simultaneamente, colorindo ainda mais as ruas e as pétalas das cerejeiras.
Do nada, pude sentir um cheiro podre, que carregava a morte em seu aroma ácido. Bem na minha direção, quase um quarteirão à minha frente, uma estranha figura olhava para mim, com a face marcada e arranhada, além da enorme cicatriz que cortava desde o início de sua cabeça até o fim de sua garganta.
Em sua mão, um canivete começou a escorregar, tornando-se um enorme facão enferrujado. Era um ator de alguma peça de teatro, visto que ninguém se importava com a presença dele. Não me movi. Ainda em choque, no entanto, vi que ele começou a vir em minha direção. Virei e comecei a correr.
Um raio de nervosismo cortava meu corpo por dentro. Eu corria, escorregava nas pétalas, mas nada o fazia parar de me seguir. Entrei em um templo, de onde uma enorme quantidade de pessoas estava saindo. Momento perfeito para me esconder. Subi as escadas às pressas, escondendo-me em uma sala.
Lá havia um colchonete, tipo um colchão fino, que era o leito dos japoneses. Ficar em silêncio não era a minha principal função. Precisava ficar vivo. Por uma fresta, entre duas placas de papelão, pude ver o estranho me procurando, olhando para todos os lados. Seu cheiro me incomodava, fazia meu nariz escorrer, além dos meus olhos começarem a sangrar.
Não conseguia ver nada. O vermelho cobria cada milímetro de minha pupila. Sentia medo, temor, furor e mais vários sentimentos que não sei de onde apareceram e porque vieram. Antes de eu limpar meus olhos, eu vi a sombra do assassino no papelão. Ele iria entrar. Era meu fim... Só que... Ele sumiu. Recuou da porta e sumiu. Respirei aliviado.
Porém, uma mão segurou meu pescoço. Era ele. Seu olhar reptiliano me encarava.
—Você deve morrer! – E me arremessou pela sacada do quarto.
Não sei como, estava vivo. O impacto com o solo não me afetou, mas causou um enorme galo em minha testa e vários ralados em minhas mãos e pernas. Olhei para cima e o vi encarando minha pessoa mais uma vez. Seu sorriso cruel, assim que viu meu movimento de levantar e sair correndo, tornou-se fuzilador e sombrio.
Não olhei mais para trás e corri para a saída. Precisava chegar à minha casa e ficar seguro. Contudo, novamente, uma mão áspera e seca segurou meu pescoço.
—Vejo que não pode morrer! – A voz opaca e abafada do homem era perturbadora.
—O que quer de mim? – Eu chorava de terror. Não emitia ruído, apenas deixava as lágrimas escorrerem em meu rosto.
—Você deve impedir o pior. Não deixe que seus aliados morram. Reviva e sobreviva. – O homem começou a se desfazer em milhares de flores de cerejeira. A coloração era distinta, era azulada, bem clarinha, como um céu em um dia sem nuvens.
As palavras dele fixaram-se em minha mente, nada as fazia sumir. Previa que certos desafios me aguardavam, mas não sabia o que eram. E com essa minha dúvida, a noite prosseguia, diferente de minha visão, que além de vermelha, estava escura.
Fale com o autor