Eu não sentia mais nada. Não sentia meus olhos, não sentia minhas pernas, não sentia minha vida. Além do leve e fresco vento que batia em minha cara, sentia a lua me cobrindo, me protegendo da maldade criada pelas trevas.

Alguma coisa, áspera e longa, passava raspando em meu braço. Meus olhos, ainda manchados com meu sangue, não se moviam, nem enxergavam um palmo à minha frente.

Tentei levantar daquele solo fofo e gelado. Do nada, senti uma picada em minhas mãos, fazendo com que eu gritasse de dor. Meu grito ecoou por aquele lugar onde eu estava, porém não sabia onde era. O sangue começou a evaporar rapidamente, dando lugar a uma fraca luz do luar, que iluminava a grama com um olhar perolado.

Estava em um bosque e fora uma serpente que havia me picado. Ela estava parada do meu lado, me encarando com aquele olhar oblíquo e misterioso. Ela parecia querer sussurrar palavras, no entanto, ela falava por gestos de seu corpo cilíndrico e azulado.

Ela, percebendo minhas dúvidas sobre o que dizia, despediu-se com um curvar de cabeça, e se embrenhou mata adentro. Estava sozinho, novamente, sem amigos, sem companhia, apenas eu e a luz da Lua. O medo me perseguia e segurava minhas pernas. Eu queria sair daquele lugar, mas onde eu estava?

As árvores retorcidas e com folhas faltando largavam a visão macabra daquele lugar mais aterrorizante ainda. O vento fazia com que os galhos rangessem entre si, atordoando meus pensamentos, obrigando-me a me esconder do mundo, mais uma vez.

Ouvi passos atrás de mim. Achei que fosse um animal qualquer, ou mesmo o rastejar daquela cobra que me despertou do meu pesadelo. Entretanto, em um lugar aonde a Lua não chegava, em frente à abertura de uma caverna, vi uma sombra se levantando e ficando duas vezes maior que o meu tamanho.

Comecei a correr para o lado oposto da caverna, para o lado mais sinistro e afastado do arvoredo denso. A criatura começou a correr também, e bem em minha direção. Ela não era rápida, mas com os passos largos, a distância diminuía bruscamente.

Um estranho e desconhecido terror começou a subir pelo meu pé, passando pelas minhas pernas, até chegar ao meu coração, que disparava por causa das extremas emoções que eu estava passando. Será que correr era uma questão de sobrevivência? Ou não se passava apenas de uma tarefa que o Destino jogara sobre nós assim que nascemos?

Logo a minha frente, deparei-me com um profundo desfiladeiro, com um rio congelado bem ao fundo, quase vinte metros abaixo do nível de terra onde eu me encontrava. Eu conseguiria pular e fugir daquela criatura que me perseguia?

Não tinha muito tempo para pensar, ela se aproximava. Eu sentia o cheiro podre que ela exalava junto de seu bafo seco. Seu corpo esguio e braços longos acertavam as árvores, arrancando pedaços de seus troncos, seu olhar vermelho queimava o ódio e a fúria que ele queria extravasar pelas garras afiadas e negras como carvão, mas resistentes como o ouro. Ele se aproximava, junto de minha morte também.

Não tive escolha. Precisava pular. Recuei uns passos, para poder tomar impulso. Corri como um animal que fugia da morte. Eu era o animal e a criatura era a morte encapuzada, que segurava a foice estampada nas garras férreas. Depois disso, senti meus pés saindo do solo e fechei os olhos...

Senti a terra novamente, depois de um forte impacto, mas estava fora de perigo. Olhei para trás e não vi mais a criatura, estava fora de perigo. Sentei no chão macio e fofo devido às folhas pequenas que caíam das árvores e apenas pensava: "Estou fora de perigo".

Mas o Destino é cruel, ele não quer que o perigo falhe, ele quer vê-lo triunfante, segurando a medalha de ouro, o troféu de platina ou a alma do condenado em suas mãos. Levantei-me para correr em direção ao desconhecido, ou seja, adentrar-me novamente no Bosque dos Sussurros. Esse nome estampara em minha mente de repente, como um açoite que castiga o cavalo injustiçado.

Contudo, um grito agudo e desesperado chamou minha atenção. Precisei retornar o olhar para o outro lado do desfiladeiro e encarar o que me aguardava. A criatura estava lá, parada, segurando em suas garras afiadas, uma menina, de quinze a dezessete anos, aproximadamente. As garras perfuravam o pescoço da garota, que se debatia na chance de conseguir escapar da criatura.

Ela estava pendurada sobre o desfiladeiro, pronta para ser arremessada para o rio congelado. Novamente, senti uma pele áspera e longa subindo sobre meu corpo. Era a serpente azulada.

—Salve-a! Ela precisa de sua ajuda! Com ela, mais um aliado se juntará a sua luta contra o Destino! Você não pode morrer!

O sibilar de sua língua desapareceu, da mesma forma que o assassino no Festival sumira, em uma nuvem de flores de cerejeira, azuladas como a pele da serpente, flutuando na brisa fresca da noite. A voz mansa dela me acalmou, mas fora momentâneo.

O grito agudo ecoou pelo Bosque mais uma vez. Então, esses são os sussurros, são gritos de morte, de dor e de desespero. São pedidos de ajuda de vítimas da Morte. São as pessoas, as quais o Destino nunca simpatizou, e agora, estava tentando aniquilá-las.

Tomei impulso mais uma vez, precisava salvar aquela garota. Não a conhecia direito, nem sabia ao menos seu nome, entretanto, tinha o dever se salvá-la. Os Sussurros diziam isso para mim.

As garras da criatura começaram a se soltar uma por uma, e por fim, ela caiu desfiladeiro abaixo. Pulei na direção dela, torcendo para que eu conseguisse pegá-la antes de nós dois acertarmos o rio. O vento gélido cortava meu rosto como facas na carne de um boi.

Estiquei a mão e a segurei em um forte abraço. Meus curtos braços pareceram se alongar somente para salvar a menina. Todavia, era tarde demais, estávamos a um metro do rio.

Senti o impacto contra o gelo, a água congelada perfurando minha alma. Não tinha mais fôlego, não tinha mais vida. Não sabia se tinha salvado a menina, nem o que aconteceu com a criatura, simplesmente recordava-me daqueles olhos vermelhos da criatura, que carregavam a fúria do Inferno.

Meus gritos, que saiam em formas de bolhas dentro daquele rio, eram desperdícios.Ninguém os ouviria. Seriam apenas novos pedidos de socorro, que se misturariam com as raízes do Bosque dos Sussurros.