Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas
3 O Servo da Morte
Podia sentir, mais uma vez, a fúria do Destino sobre meus ombros. A água gélida perfurava minha cabeça como agulhas em um tecido. Não sabia se havia salvado aquela garota, se ao menos ela estava viva, apenas sentia esse meu medo subindo pelo meu corpo quase congelado.
A correnteza me carregava rio abaixo como se eu fosse um pedaço de madeira podre, largado depois de ter-se tornado inútil. Eu sentia que o rio estava me ajudando, diferente da vida. Ele estava tentando me arremessar para as margens, para que eu pudesse me salvar.
A margem, aonde eu cheguei, era cheia de pedregulhos pequenos e afiados, que cortavam minha pele congelada. Meu sangue estava estagnado em minhas veias, diferente de meus pensamentos, que lutavam entre si para ter minha atenção.
Tentei me levantar e seguir em frente, porém, alguém chamara minha atenção, de dentro do rio. Voltei o olhar e deparei-me com um peixe fora da água. Ele tinha o olhar obscuro, com as estrelas pintadas em sua pupila. Do nada, ele arreganhou os dentes e me mordeu.
Ele voltou para o rio, como se nada tivesse acontecido, diferente de mim, que fiquei no chão, sentindo a mordida queimar meu dedo.
Minha visão embaçava-se mais uma vez, sumindo em um breu denso e caótico. Meus pensamentos estavam fluindo mais rápidos ainda e uma única frase me incomodava: "Você não deve morrer!".
Quando acordei, não sentia meu corpo. Estava levitando no ar, como se minha alma tivesse sido mandada para o purgatório. Olhava em volta, não reconhecia o campo. O rio continuava atrás de mim, no entanto, eu não reconhecia o lugar onde estava.
O mais estranho foi uma sinistra sombra, encapuzada com um manto preto, sem nada nas mãos, seguindo para uma casa ao longe. Meus sentidos diziam para eu segui-la, mas o Destino estava por trás daquilo. Será que é seguro?
Coloquei-me no encalço da figura, que acelerava o andar, como se pressentisse minha presença. Desta vez, eu que me adiantei para analisar a casa que tanto atraía a atenção da sombra. A casa simples estava sozinha, no meio da imensa floresta que rodeava seus lados.
Lá estavam seis pessoas, seis adolescentes, aparentemente três casais. A troca de olhares entre as duplas demonstrava isso, fora a troca de carinhos e selinhos que eles davam.
Aquilo era um encontro de casais, muito propício para ocorrer um... Isso mesmo, um assassinato em série. Aquela estranha, sinistra e macabra figura, de rosto irreconhecível, era o assassino. Será que era o mesmo assassino que me perseguira no Festival Japonês?
O primeiro casal, que arrumava a mesa, era loiro platinado e de pele pálida como algodão. O segundo casal, que arrumava a cozinha, um aparentava ser de descendência indígena, outro de descendência japonesa. Já o terceiro casal, de cabelos negros como a noite e pele amorenada devido ao sol que possivelmente pegava, era magricela.
Por segundos de diferença, os casais se separaram. Um deles adentrou-se na casa, outro seguiu até o campinho de areia que tinha ao lado da casa, já o terceiro, sumiu. Não consegui ver para onde ele foi.
A estranha figura, discretamente, adentrou-se na casa. O casal não o viu. Eu corri... Digo, flutuei em direção à casa, para tentar evitar que ele fizesse algo de ruim. A menina levantou do sofá de couro, onde eles estavam deitados, e foi até a televisão para colocar um filme.
O assassino, pegando uma faca de carnes de dentro da gaveta do armário da cozinha, se aproximou do menino, que ainda estava sentado no sofá, e tapou-lhe a boca. Ele começou a se debater, mas seus gritos não saiam, eram opacos. Ele virou-se e encarou o assassino, ficando ainda mais em choque. Em segundos, ele perfurou o pescoço dele com a faca, arranhando de um lado para o outro a lâmina.
O sangue espirrou em sua cara. Largando o corpo no chão, ele desapareceu pela porta. A namorada perguntava inúmeras vezes qual filme eles iriam ver, no entanto, ele não respondia. Ela não sabia, mas estava solteira. Assim que virou o olhar, seu olhar de desespero e tristeza era indescritível. Suas lágrimas escorregam como uma cachoeira pelos seus olhos, o sofrimento era intenso e medonho, levemente exagerado.
Ela, ficando em pé, correu para fora, para pedir ajuda aos demais, entretanto, ao colocar os pés para fora, o assassino apareceu, cortando sua barriga de um lado para o outro, formando um sorriso sangrento e macabro. Ele a arremessou para dentro da casa, fechando a porta.
Eu precisava avisar os outros dois casais do que eles estariam enfrentando, contudo, assim como a voz do menino, minha voz sumira, estava opaca e sem vida. A única opção que restou, foi seguir o assassino e assistir o espetáculo sangrento de camarote.
Ele, cautelosamente, foi em direção ao campinho de areia, isso se não comentar que ele entrou em um quartinho escuro ao lado da casa, permanecendo lá dentro por uns minutos. Será que eu conseguiria trancá-lo lá dentro?
Ao me aproximar da porta, passei por ela como se não houvesse madeira. Eu era um fantasma, encarregado de testemunhar aquela atrocidade. O casal estava se beijando, ambos em cima de um banco fraco de madeira, que servia de assento aos espectadores dos jogos que ocorriam ali.
A madeira, inteiramente podre, trincou, fazendo com que o pé da menina fosse perfurado por uma quantidade absurda de madeira, fincando sobre seu pé, que jorrava sangue, grande quantidade de sangue. Seu grito agudo era doloroso e o namorado não sabia o que fazer.
—Vou buscar ajuda! – Ele cochichou à namorada. Ao virar, um machado perfurara sua cabeça.
Como eu não percebera? O assassino saíra do quartinho carregando um imenso machado. Havia outra ferramenta escondida sobre as roupas escuras, e apesar do tamanho, eu não conseguia reconhecer qual era a arma.
A namorada gritava ainda mais, de dor pelo ferimento horrível no pé e de tristeza pela morte do namorado. Ela encarava com fúria o assassino, que apenas a encarava. Poderia estar sorrindo, poderia estar fazendo cara de dó, ou apenas rindo internamente com aquela situação.
Ele, então, retirou da roupa, uma motosserra. Aquela era a arma que ele escondia embaixo da roupa. Não era muito grande, e aparentava não ser muito pesada. Ele a ligou, se aproximando da menina, que tentava se soltar para poder recuar.
Ele, querendo vê-la sofrer, começou a serrar, vagarosamente, a perna dela. O grito de dor era maior ainda, a vontade de morrer ultrapassava todos os limites que o mundo colocava sobre nós. Ela queria morrer, ela queria que aquele sofrimento parasse. No entanto, o assassino continuava cortando a perna dela.
Uma quantidade de gritos vinha atrás de mim e o assassino percebeu também. O terceiro casal surgia do nada, indo em direção ao campinho de areia, agora molhado com todo o sangue escorrido. A criatura parou de cortar a perna dela, que já estava quase inteiramente fora do corpo, e perfurou a barriga dela com a ferramenta, subindo pouco a pouco em direção a cabeça. No fim, ele dividiu o corpo da moça em duas partes.
Eu tentei avisar o terceiro casal do problema, mas era tarde demais. Eles já estavam sobre mim, encarando o segundo casal estraçalhado no chão. Ambos desesperados e apenas o namorado tendo um surto histérico, correram para dentro da casa, onde encontraram o outro casal esfaqueado até a morte.
—Precisamos correr! Avisar alguém! – A mulher gritava com o namorado.
Caso assassino estivesse espreitando, tomaram um caminho diferente. O namorado, por ser mais veloz, seguiu em frente, passando pela entrada da casa, que dava para um pasto esverdeado maior ainda. Porém, ele tropeçou em uma pedra e caiu dentro de um fosso. O assassino havia preparado, mas vai saber como.
Assim que eu me aproximei, dei de cara com muito sangue sendo espalhado para todos os lados. Enormes estacas de madeira cobriam o espaço, fazendo do corpo do namorado um queijo suíço, cheio de buracos. Além das pernas e da barriga, duas estacas atravessaram a cabeça, bem na posição dos olhos, que saltaram das órbitas, e uma que perfurou o pescoço, bem no pomo de Adão.
A namorada, que vinha logo atrás, ao ver a cena, desviou. Suas lágrimas estavam escorrendo pelo seu rosto. Estava sozinha no mundo, sem ninguém para lhe ajudar. Sem ver para onde ia, ela tropeçou, e caiu sobre uma armação de ferro, que se envergou toda e a prendeu, como se ela estivesse em um casulo.
Seu corpo estava completamente preso. O assassino vinha logo atrás, carregando um galão cheio de um líquido transparente, que logo foi derramado sobre o corpo da menina, que se debatia na chance de soltar. Ele acendeu um fósforo e jogou sobre o corpo da menina, que agora, estava em chamas.
Ela gritava de dor, estava morrendo, sendo torrada. O mecanismo de ferro dificultava ainda mais chance de escapar e piorava as queimaduras.
Aquele assassino precisava pagar por tudo o que aquelas pessoas passaram. Ele era um demônio. Eu o segui, flutuando junto da leve brisa que soprava naquela região.
Eu o segui até o fundo da casa, onde estava montado um pequeno altar com seis imagens pequenas em porta-retratos de madeira. Cada imagem estava acompanhada por uma vela de parafina preta e, diante do altar, estava o assassino.
Do nada, meu peso retornou ao meu corpo e eu caí. Agora, era a chance de matá-lo. Corri como um louco e pulei sobre seu pescoço, fazendo-o cair de costas. O capuz que cobria seu rosto caiu, revelando seu rosto.
Sim, aquilo era um choque de realidade. Sobre o capuz, eu via minha imagem, meu reflexo. O assassino era eu... Eu era o assassino. Ele aparentava ser mais velho, com cabelos brancos nas costeletas e com uma enorme cicatriz, do queixo até a sobrancelha, que estava quase desaparecendo.
Ele me empurrou para trás, fazendo com que eu caísse de costas no chão. Ele se levantou e ficou me encarando. Eu, por outro lado, levantei-me depressa, mas fiquei encarando-o também. O assassino, visto que eu não o considerava o meu "Eu" do futuro, estendeu a mão, como se me cumprimentasse.
—Hoje, você falhou! O Destino venceu essa luta! Você não deve morrer! – E assim, ele foi se dissolvendo no ar em formas de pétalas negras de cerejeira, sendo levado pela fraca brisa que soprava naquele fim de tarde
Eu ainda não acreditava. Era um assassino. O sangue escorrido estava sobre meus ombros, sobre minhas mãos.
Não conseguiria aguentar isso, precisava terminar com todo esse sofrimento, com toda essa loucura. A faca, que matara o casal que via televisão, estava próxima a mim, mas uma força me dizia para eu não pegá-la, para eu seguir em frente.
Saí daquela casa correndo, ainda com a faca em minhas mãos. Não sabia o que estaria me aguardando pela frente. Corri muito, como nunca havia corrido antes. Adentrei o matagal que havia logo atrás da casa, para fugir daquele mundo que eu estava vivendo e sobreviver aos desafios.
Mas,como eu conseguiria fazer isso, sabendo m que sou mais um mentiroso que distribui ódio falando que é amor, mais um causador de guerra, mais um Servo da Morte.
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