Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas
5 A Gaiola da Dor
A escuridão, mais uma vez, reinava sobre mim. Minha cabeça ainda latejava por causa da pancada que eu havia recebido daquele velho desgraçado.
"Você é o fruto podre das almas mortas"
O que isso queria dizer?
Meus olhos, novamente, estavam manchados de sangue, com meu sangue, por isso, não abriam direito, porém, ainda assim, pude ver as sombras das barras que cercavam minha volta.
Estava preso dentro de uma gaiola, como pássaros tristes e solitários. Quem havia feito isso?
Diversas perguntas pulavam em minha cabeça, aumentando ainda mais a dor latejante que me perturbava. O ar do local onde eu estava era denso, com diversos folículos de poeira navegando por ele.
Minha respiração estava pesada e ofegante, como se alguém segurasse minha garganta com garras enormes e afiadas.
Daí, um choque me fez recordar do Bosque dos Sussurros e daquela criatura magricela e alta. Onde ela estaria? Estaria viva?
No entanto, meus pensamentos foram cortados por um grito fino, mais um para me atormentar assim que eu saísse desse pesadelo. Assim que coloquei o rosto nas grades para ver melhor o que acontecia, meu rosto começou a queimar intensamente, como se jogassem ácido em minha face sem cessar. Afastei meu rosto rapidamente, mas colidi com as grades atrás de mim, onde encostei as mãos, que queimaram na mesma proporção que meu rosto.
Não queria ver como meu rosto ficara, nem queria saber quem estava me fazendo sofrer, apenas queria sair dali, vivo ou morto... Bem, vivo seria melhor.
Não sei explicar, além de a minha visão estar enevoando, meu corpo começou a formigar. Minha vontade de chacoalhar aquelas grades era grande, mas isso levaria a um sacrifício ainda maior: a minha vida.
De repente, alguma coisa começou a cair do teto, bem em cima da gaiola. Era uma espécie de pó, não era totalmente branco, mas bem acinzentado. Calmamente, passei o dedo entre as grades para que o pó caísse lá e eu pudesse sentir o que era.
Não pude identificar tão cedo o que era, visto que a quantidade era miserável se comparar com o que caía.
Aliás, onde eu estava?
Com a mesma delicadeza de antes, aproximei meu rosto da barra e vi uma enorme biblioteca abaixo de mim. Sim, eu estava preso em uma gaiola sobre uma biblioteca. Entretanto, não estava sozinho. Uma pessoa, sem senso algum de direção, vagava pelos corredores, trombando em todas as estantes, derrubando algumas, conforme aumentava a força das pancadas, formando uma nuvem no ar de poeira e barulhos.
Ela, sim, cheirava todo aquele pó que caía sobre seu corpo. Achei que apenas causaria uma crise de espirros, contudo, a dor de seu corpo começou a aumentar drasticamente. Pude perceber isso pelos gritos esganiçados que a pessoa dava. Eram berros fortes, agudos, que exalavam pura aflição. Seus gritos começaram a diminuir, como se seus pulmões estivessem desaparecendo.
A pessoa começou a se contorcer de dor. Aquilo era insano, era loucura. Queria sair dali ainda mais rápido do que eu queria.
Comecei a me mexer demais na gaiola, que me prendia como um pássaro solitário. Nada acontecia, apenas minha pele que sofria ainda mais com as queimaduras. De súbito, a gaiola caiu daquela altura em que me encontrava. A dor dilacerava meu corpo, além das grades me queimarem vigorosamente.
—Socorro! — E meu grito fora em vão, ninguém ouvia, ninguém viria me ajudar, nem mesmo aquela alma ali à frente, cuja ajuda seria mais a ela do que a mim.
—Salve-se. Ele quer a sua alma. — Pronto, agora ela falava, como se a angústia não existisse mais. Sua voz rouca desaparecia aos poucos. — Você não pode morrer. O Destino é cruel, por isso estude o quanto ele fora impiedoso com aqueles que o desafiaram. Reescreva a sua história.
E assim, um livro voou em minha direção, jogado pela pessoa. Assim que o agarrei e abri em seu primeiro capítulo, vi uma guerra. E logo, nessa guerra eu estava e uma bola de canhão raspou meu ouvido.
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