Desafios do Destino I - Pesadelos e Tormentas
6 A Guerra Imperial
A guerra sempre foi o reduto de ignorância e caos, pandemônio e insegurança. Apesar de milhares de páginas e fotografias representando esse contexto, o ser humano ainda persiste em querer guerrear para colocar-se acima dos outros, ainda pensa que é superior aos demais. A morte de um arquiduque, ou a ganância pelo poder, tudo isso começou a guerra, e nela eu estou vivendo.
A bola de canhão atravessou um enorme pilar de madeira, que sustentava uma torre com um imenso tanque de água, que despencou, banhando todos ao meu redor. A gigantesca onda formada carregava alguns corpos e ossos fracos. A terra vermelha e seca ficou úmida e viva por alguns segundos, contudo, faleceu novamente pelo pisotear pesado das botas dos guerreiros.
Eu apareci no meio daquele lugar após encarar a imagem de um livro, que me foi entregue pelas mãos de uma mulher magra e sofredora. Como um animal indefeso, corri para longe do centro do impacto entre forças adversárias. Mesmo com meu saber diverso de guerras, não consegui decifrar onde estava ou em que momento da linha histórica eu fui arremessado.
Eu encarava cada detalhe do lugar: o clima seco, com um vento úmido, resultado de maritimidade, ou da presença de um lago ou a chegada próxima do inverno gelado; o céu estava claro, mas com uma camada de poeira sobrevoando nossas cabeças, permitindo que a coloração avermelhada preenchesse as nuvens; sangue, inutilmente derramado, escorria dos corpos jazidos perto de mim; mais tiros de canhão, de revólveres, espadas cortando o ar e gritos de morte e medo nos poros das pessoas que passavam perto de mim; tudo isso era mesmo útil? Há necessidade disso para que o ser humano seja o "mais evoluído"?
Perto de mim, havia um revólver caído. Ele parecia intacto e com pouca munição. Não sabendo da reação daqueles que me enfrentariam, decidi carregá-lo comigo até eu estar em um local seguro, se ele existia.
Meus cabelos haviam crescido um pouco. De tão lisos que estavam, caíam sobre meus olhos, atrapalhando a visão do campo de guerra. Eu ouvia pessoas gritando, umas de raiva, outras de medo, na verdade, pareciam gemidos do que gritos.
Ao vasculhar os arredores, pude avistar uma mulher magra, com um rosto fino e cabelos cortados de qualquer jeito. Em seus braços, havia uma criança, um bebê de alguns meses, e ela corria para salvá-lo. Meu coração pesou toneladas em meu peito e minha consciência estava me fuzilando por dentro. Corri até ela para ajudá-la, mas o Destino consegue ser mais cruel que o próprio ser humano.
Um soldado, vestido com uma farda azul marinho, lotada de detalhes amarelos, verdes e vermelhos, pegou uma arma e apontou para a cabeça da mulher. Ela se espantou, mas não largou o filho de forma alguma. Ela gritava, pedindo misericórdia com ela e com o filho, mais com a criança do que ela.
O homem, com rosto cheio de cortes e cicatrizes, estava com a cara fechada, como uma carranca. Ele não fechou os olhos e os fixou ainda mais na mulher, que permitia que os seus olhos liberassem lágrimas dolorosas sobre o chão. Em um piscar de olhos, um tiro ecoou pelo lugar e a guerra silenciou repentinamente, fortificando o barulho do disparo. A guerra voltou a escandalizar e o corpo da mulher jazia no chão.
A criança chorava no colo da mãe. Corri para pegar a criança, mas era tarde demais. Uma tropa, de milhares de soldados, pisoteava a mulher, como se ela não passasse de um pedaço de piso que cobria o solo. O choro cessou e meu coração parou. Uma forte dor começou a esfaquear meu corpo. Lógico, isso é uma metáfora para a dor que eu sentia.
Mesmo que o resultado daquela marcha estivesse claro, eu levantei a mulher e vi um corpo de criança pisoteado, com a cabeça amassada, com os olhos saltados para fora das órbitas. Uma cena impiedosa colada em minha mente, que permitiu aos meus olhos expulsarem lágrimas e esse choro foi diferente daqueles que eu tive.
O ser humano é cruel. Além das imagens do livro, eu me lembro de palavras do livro. "Criança", "Destino", "Morte". Separadas não simbolizavam nada, porém juntas, demonstravam o que aquela mulher queria dizer para mim.
Eu, com a arma em mãos, mirei em diversos soldados, independente de que lado ele estivesse, a bala perfurava cada pescoço, cada perna, as costas, qualquer parte do corpo. Já que o Destino me nomeou o Servo da Morte, farei jus ao nome, entretanto, irei contra ele.
Muitos caíam por terra devido aos meus tiros. Conforme as balas se encerravam, eu pegava armas no chão e continuava o derramamento de sangue. Eu me aproximava de um lago, que parecia intocado da guerra. Ele parecia viver em um plano diferente, em um mundo distinto daquela guerra que eu me encontrava.
Um soldado, de armadura prata e uma enorme lança em mãos, apareceu diante de mim. Em segundos, ele lançou a arma em minha direção e ela perfurou meu peito. Não tive tempo de desviar nem de reagir. Pude sentir meu corpo empalidecendo e caindo sobre a água do lago, que me segurou, como um braço divino. Ao invés de me esconder, ela me fortificou e ressuscitou.
Ele esboçou um sorriso.
—Você acha mesmo que têm poderes contra o Destino? Contra o maior poder de todos?
—Eu não acho. Eu tenho certeza.
Mesmo fraco, apontei o revólver para ele e atirei. Sabia que as chances de acertar eram nulas, mas tentar não mudaria meu destino. Meus olhos escureceram e uma quantidade enorme de água sobrepôs o meu corpo. Eu estava morto, no fundo daquele lago.
Todavia, mesmo vencendo uma campanha, a batalha final estava diante de mim e o Destino queria a taça de vencedor, a medalha de ouro. Meu corpo começou a ser puxado do fundo do lago. A lança desaparecera e o ar voltara a preencher meus pulmões.
—Garoto,o que fazia brincando ao lado do navio? – Eram as únicas palavras que escutei.
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