Desafios
9 Decisões
Notas iniciais
Acomodando-se no banco, Isabella observa com os olhos cerrados a garçonete se insinuar para Edward.
Bufa, pondo os braços em cima da mesa. É como se ela nem estivesse ali, sentada de frente para o ruivo.
–Vou querer um chocolate quente, e você Bella? — o Cullen, parecendo alienado a mulher ao lado, encara a Swan que suspira.
–O mesmo. — repete ainda fulminando a garçonete com os olhos.
–E para comer, não vão querer nada? -
Passando as mãos nos cabelos Isabella se controla para não esbofeteá-la. Além de vulgar, oferecida, ainda tem a voz chata.
Típico de uma vadia. Empina o queixo, com o pensamento.
–Você quer amor, comer alguma coisa? — a mão de Edward se estica sob a mesa até capturar a de Bella, que sente o mundo dar voltas.
A palavra amor à deixa em êxtase, provocando a sensação de ter borboletas no estômago.
–Não, estou sem fome. — responde ainda abobalhada.
–Então vamos querer apenas as bebidas mesmo. — sem nem ao menos olhar para a atendente o ruivo responde.
Com satisfação Bella olha a moça se afastar frustrada.
–Vadia! — sussurra cruzando os braços.
–O que disse? — divertido ele a questiona, vendo o ciúme explícito nos olhos mognos.
–Nada Edward. — limpa a garganta com um pigarro. –Você quem veio aqui para falar, não eu. — rebate amargurada.
Com um suspiro, o Cullen diminui o sorriso nos lábios.
–Certo. — a voz sai baixa. –Em primeiro lugar, eu queria te pedir desculpas. — quieta a jovem permanece dura. –Não deveria ter te pressionado. — completa suavizando o olhar.
–Tudo bem. — Isabella responde abaixando a guarda. Não sabe o porquê, mais ser fria com ele a machuca.
–Estou desculpado? — indaga sorrindo.
–Sim, está. — concorda retirando a franja dos olhos.
–Agora eu quero te dizer umas coisas... — sibila mais baixo, se inclinando sob a mesa. Bella suspira sabendo exatamente sobre o que ele vai falar.
–Edward...- tenta impedi-lo.
–Não me escute. — capturado a mão da mulher novamente, a interrompe. Os olhos se conectam deixando ambos estremecidos. –Não conheço toda sua história, na verdade sabemos bem pouco um do outro. — ri, ainda sem achar muita graça. –Mas o que me disse hoje cedo ficou martelando na minha cabeça. — faz uma pausa infiltrando as mãos no cabelo acobreado. Bella sorri com o modo ainda mais desalinhado que ele deixa os fios. –Você não pode pensar assim Bella. -
–Assim como? — indaga mesmo sabendo do que ele se refere.
–Se excluir de todos por medo da perda. — contesta. –Eu sei que viveu um trauma, não sei quantos anos faz, nem como aconteceu, mas você tem que superar. — diz fazendo carinho na mão pequena da Swan. –Relembrar isso só vai te machucar mais, e Bella, ninguém é feliz sozinho. Você precisa de amigos, de pessoas que gostam de você... -
–Aqui estão as bebidas. — interrompendo a fala de Edward a garçonete oferecida coloca a bandeja sobre a mesa redonda.
Com desprezo a morena a vê praticamente esfregar o decote no rosto do ruivo, ao servi-lo.
Respira fundo tentando se acalmar para não deixa-la careca.
–Mulher estranha. — o Cullen comenta levando a caneca aos lábios.
–Estranha não, biscate. — rola os olhos bufando.
–Esquece ela. — pede com a voz calma. –Vamos continuar a conversar. -
–Edward, eu não gosto de falar sobre isso. — murmura demonstrando o quão desconfortável se encontra pelo assunto.
–Até quando você vai fugir Bella? Até quando você vai viver assim?-
–Já disse que eu não quero falar sobre isso. — repete sentindo os olhos se inundarem de lágrimas. Aperta a caneca quente entre as mãos, vã tentativa de reprimir a dor em seu peito.
–Então olhe para mim. — a voz de Edward sai firme. –Bella olhe para mim. — devido ao autoritarismo dele a moça o obedece. –Agora diz olhando nos meus olhos, que você é feliz assim. — os dois se encaram fixamente. –Diz. -
Um soluço escapa da garganta de Bella.
–Você não entende... — cobre o rosto com as mãos.
–É claro que eu entendo. — profere mansamente. –Já perdi pessoas que eu amava muito, sei como dói. — ouve as palavras dele chorando baixinho. –Mas é preciso seguir em frente Bella. -
–Eu não consigo. -
–Consegue sim Bella, claro que consegue. — ele se levanta indo se sentar ao lado da jovem. Com cuidado a envolve em um abraço. –Você só tem que querer princesa, e deixar com que ajudem você. Que as pessoas percebam quem você é de verdade. — sibila enquanto acaricia os cabelos macios de Isabella.
–Não Edward... Eu vou acabar as perdendo também... — soluça o olhando. –Vou ficar sozinha e não vou suportar. -
–Você não pode pensar assim. — a abraça ainda mais forte. –Não pode desistir tão fácil. -
–É que dói tanto. — as palavras saem entrecortadas pelo choro.
–Eu sei que dói. Mas olhe aqui. — com cautele segura o rosto delicado da fisioterapeuta entre as mãos, limpando as lágrimas com as pontas dos dedos. –Você precisa deixar essa ferida cicatrizar. Ficar mexendo nela, só vai fazê-la sangrar e se abrir mais. -
–Não é... — Bella soluça passando a pequena mão no rosto. –Não é tão fácil assim... Aconteceram tantas coisas. — se arrepia com as lembranças que invadem sua mente.
–Não Bella, não é fácil. Mas escute eu vou estar aqui com você, vou te ajudar a enfrentar isso. — sussurra para ela que ainda derruba lágrimas silenciosas. –E essas coisas que aconteceram também. Você vai superar, vai superar isso e tudo de ruim que te aconteceu. -
–Você é tão convicto no que diz. — a frase da moça o faz sorrir.
–É por que eu acredito em você, olho para você e vejo que é capaz de dar a volta por cima. — diz baixo. –Só precisa me deixar ajudar você, minha Zangadinha. — cola sua testa na dela alisando as bochechas húmidas. –Só me deixe te ajudar. -
[...]
–Você está melhor? — preocupado com o silêncio da Swan, Edward a questiona.
Meio perdida acena com a cabeça, limpando a face com as mãos.
–Sim eu... — limpa a voz, que falha. –Só estou pensando. — sussurra deixando mais lágrimas rolarem pela bochecha pálida.
–Em que? — fazendo leves carinhos nos cabelos da morena, o ruivo a olha carinhosamente.
–Em tudo que você me disse. -
–E então, chegou a alguma conclusão? -
Mordendo os lábios Bella levanta a cabeça deixando seus olhos se encontrarem com os de Edward. Suspira quando um arrepio doma seu corpo. Mentalmente se indaga se sempre seria assim, se toda vez que seus olhares se encontrassem, teria a mesma reação.
–Cheguei. — sibila chacoalhando a cabeça levemente. –Acho que você tem razão. — um sorriso brota nos lábios finos do Cullen. –Mas... Mas eu não consigo fazer o que disse. — funga baixinho. –Toda vez que eu tento toda vez que eu me aproximo de alguém, me vem a cabeça que... Que eu posso passar por tudo aquilo de novo e isso me destrói. -
–Já disse que não pode pensar assim Bella. — suavemente a abraça, ignorando os olhares curiosos dos outros clientes presentes na lanchonete.
–Eu sei que disse. — respira fundo inalando o perfume delicioso de Edward. –Mas dizer é mais fácil do que por em prática. — fecha os olhos se apertando mais contra ele. –Acho que eu não sou forte o bastante para enfrentar isso... -
–Hey. — a interrompe com a voz leve. –Olhe aqui Zangadinha. — se afasta dela o suficiente para poder ver a expressão sofrida no rosto nevado. –Depois que seus pais morreram você morou com algum parente?-
–Não, fui para o abrigo. — murmura sem entender a pergunta.
–Tinha que idade quando isso aconteceu? -
–Oito. — o ruivo solta um suspiro pesaroso imaginando o quanto a morena sofrera.
–E saiu de lá com quantos anos? -
–Dezoito. — expressa relembrando como fora difícil àqueles anos.
–E o que fez para se sustentar? — pergunta novamente vendo as sobrancelhas da jovem, se arquearem.
–Trabalhei, ué. — funga esfregando a mãos no rosto. –Aonde quer chegar Edward? -
–Quero que você perceba a bobagem que disse antes. — um sorriso torto aparece nos lábios dele.
–Que bobagem? -
–Que não é forte o suficiente. — retira a franja escura dos olhos de Isabella e se aproxima. –Bella quantas pessoas conseguem fazer o que você fez, hein?- ela bufa cruzando os braços.
–Não fiz nada de mais Edward. — os olhos verdes do Cullen giram veementes.
–Você ficou em um abrigo dez anos! — exclama aumentando a voz. –E mesmo sem ter ninguém para te ajudar, você foi capaz de sair de lá arrumar um emprego, fazer faculdade, se manter sozinha... Você tinha que ter orgulho de si mesma. -
Os olhos avelãs se fecham por alguns segundos, antes de se abaixarem. Desgostosa relembra das tantas vezes em que o pai expunha o sonho de manda-la para faculdade.
–Não fiz mais que a minha obrigação. — suspira. –Era o sonho de Charlie. — o nome sai engasgado de sua garganta. Novamente sente os olhos lacrimejarem. –Ele... — pigarra. –Ele vivia falando que queria que eu fizesse faculdade, me formasse. — soluça já abatida pelo choro. –Que fosse feliz. -
Edward a puxa para um abraço apertado, querendo retirar a dor dela.
–Então minha princesa, você conseguiu realizar o sonho do seu pai. — diz baixo, próximo ao ouvido da morena que sente sua nuca se arrepiar. –Em partes. -
–Hm? — sem entender ela o olha. Reparando na Swan, o ruivo consegue detectar aquela menininha de oito anos que perdera os pais.
–Ele queria que você fosse feliz Bella, e me responda, você está feliz? -
–Eu... — começa a falar antes de perceber que Edward tem razão. Solta um gemido de desgosto cobrindo o rosto com as mãos. O choro auto com soluços doloridos faz o corpo frágil de Bella chacoalhar.
–Não minha Zangadinha, não chore assim. — aperta seus braços ao redor dela. –Eu vou cuidar de você, eu prometo. -
[...]
Estacionando o carro em frente ao prédio de Isabella, Edward a olha sorrindo. A moça parece distante, já não chora, porém os olhos continuam brilhosos de lágrimas.
Solta o cinto e se virando para ela, captura as pequenas mãos.
–Hey linda... — a chama carinhosamente. –Como está se sentindo? — cautelosa ela o olha, um breve sorriso passa nos lábios carnudos.
–Mal. — faz um biquinho arrancando risos de Edward. –Mas de certo modo me sinto mais leve. — completa destravando o cinto de segurança.
–Acha isso bom ou ruim?-
–Sinceramente?- passa as mãos no cabelo, enquanto o ruivo assente com a cabeça. –Eu não sei Edward. — toma fôlego. –Nunca tinha me aberto tanto com alguém como fiz com você hoje. Isso foi bom, me aliviou sabe, você me fez enxergar muitas coisas. -
–Mas..? — indaga sem retirar os olhos das expressões dela.
–Isso me assusta. — murmura. –Me assusta e muito. -
–Por quê? — ela o encara por alguns segundos antes de abaixar o olhar.
–Por que eu sinto que se eu não me afastar de você, eu vou sentir toda aquela dor novamente. — confessa a ele ainda de cabeça baixa.
–Bella... — diz baixo levantando o rosto dela com cuidado. –Você não pode viver com medo princesa. — se aproxima mais da jovem que morde os lábios com força. –Você tem que dar uma chance, tem que se dar uma chance de recomeçar, de tentar de ser feliz. -
–Eu sei, mas é que... -
–Não, não. — a interrompe. –Nada de, mas. Se você sempre for olhar o lado negativo de tudo, sempre vai ter medo. Não pode ser assim, tem quer positiva. -
–Só que eu não sou positiva, Edward. Eu cresci sabendo que a vida não é um conto de fadas como a maioria das meninas acredita ser. É sempre melhor ser realista e esperar o pior. -
–Claro que não. Esperar o pior para que? Para você só ser mais infeliz? — suspira passando a mão no cabelo ruivo. –Bella só depende de você. Eu sei, sei que não é fácil para você superar esse trauma. Mas se você ficar ai, só olhando o lado negativo de tudo, você nunca vai ser feliz. — quieta a moça escuta palavra por palavra dita por Edward. –A vida passa num estalar de dedos, Zangadinha. E não adianta eu querer te ajudar, se você não quiser também. -
Longos minutos de silencio ocupa o automóvel luxuoso. Apenas o barulho da inconstante chuva preenche os ouvidos do casal.
A cabeça da Swan dá voltas. Sente-se tão perdida, tão dividida.
De um lado tudo aquilo que aconteceram vinte anos atrás nunca estiveram tão vividos, tão presentes em sua vida, como no momento atual.
Recorda-se de tudo, desde a ida ao parque até os últimos gritos de sua mãe. Arrepia-se com a lembrança, quando barulhos de disparos inundam seus ouvidos.
Estalas os olhos, ainda é tão real, que parece estar ocorrendo de novo.
Encolhe-se no banco.
Do lado oposto está Edward, lhe dando a maior oportunidade que já teve. A de se livrar daquele passado doloroso.
Contudo o medo à trava. Não pode ignorá-lo, não é apenas um temor bobo, ou uma birra infantil da moça.
É um medo profundo, um sentimento tão intenso que a deixa com falta de ar.
Esfrega as mãos no rosto, sem saber o que fazer.
–Eu preciso pensar. — diz após um bom tempo de mudez.
–Ok, eu entendo que precise de um tempo para por tudo em ordem. — ele sorri fraco, dando um beijo na testa da Swan.
–Obrigada por entender Edward. — agradece sentindo seu coração disparar. –E obrigada por me ouvir, e aconselhar. -
–Não foi nada Zangadinha. — a voz aveludada dele sai meio abafada. –Sabe, tenho grandes talentos, e um deles é saber incorporar um psicólogo quando preciso. — brinca arrancando risos de Isabella.
–Bobo! — exclama dando um leve tapinha no ombro dele. –Bom, eu já vou subir. — anuncia num suspiro.
–Vai ficar bem sozinha? -
Rindo sem humor, ela deixa seus olhos se encontrarem com aquelas esmeraldas reluzente.
–Estou acostumada a ficar sozinha, Edward. — responde com amargura. –Mas sim, acho que vou ficar bem. -
–Ok. — ele solta um risinho baixo. –Amanha não irei a fisioterapia, mas não se desespere tudo bem? Sexta eu irei, buscar minhas respostas. — lança uma piscadela a fisioterapeuta que sorri, recolhendo suas coisas do banco de trás.
–Ok. — suspira. –E sobre as sessões de fisioterapia, vou avisar seu pai que o senhor só compareceu a quatro de dez. — uma careta estampa a face do ruivo.
–Não faça isso Zangadinha, por favor. — pede. –Não terei paz, o resto da vida, se eles souberem disso. -
–Azar o seu. — dá de ombros rindo.
–Você é má. — brinca com a morena que prepara o guarda chuvas para ser aberto.
–É um dom. — replica ainda sorrindo.
–Sorte sua que eu gosto de pessoas más. — toma o objeto das mãos dela. –Já lhe disse que eu sempre preferi as vilãs? — sem esperar uma resposta dela, Edward sai do carro dando a volta no mesmo, até a porta do passageiro.
Bella abre a porta e segurando a bolsa sai do automóvel se escondendo de baixo do guarda chuva com Edward.
Em silencio os dois caminham até a portaria.
–Não quer subir? É bom que já devolvo sua blusa. — ela o convida, beliscando os lábios com as pontas dos dedos.
–Não, já está tarde e você precisa descansar. — responde acariciando a face da jovem. –Outro dia eu pego. — dá de ombros se aproximando mais dela.
–Ok. — sussurra afetada pelo brilho intenso nos olhos dele. Com o coração disparado ela recebe um casto beijo nos lábios.
Morde a boca, sentindo-a formigar. Suspira ainda o olhando.
–Eu já vou subindo então. — se afasta dele, que cobre a cabeça com a touca. –Boa noite, e até sexta. -
–Boa noite e... Bella! — chama a impedindo de passar pela porta envidraçada.
–Sim? -
–Vá se desacostumando a ficar sozinha, de agora em diante irei te fazer companhia. — pisca para ela, antes de correr até o carro.
Ainda absorvendo as palavras do ruivo, Isabella o olha desaparecer com o carro pela rua escura.
Chacoalha a cabeça sorrindo, aquele Cullen! Suspira profundamente, adentrando em seu prédio.
Precisa de um banho, um longo banho, antes de pensar e tomar suas decisões.
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