Desafios
15 A Briga
Notas iniciais
Deixando o jaleco pendurado no gancho da parede, pega a bolsa a pondo sobre o ombro. Virando a garrafinha de água nos lábios, abre a porta de sua sala, saindo para o corredor vazio.
Com poucos passos, alcança a sala de espera onde Ângela também se preparar para ir em bora.
—Até amanhã, Ângela! – se despede da secretária que timidamente sorri.
Balança a cabeça, caminhando lentamente até as poucas escadas. Volta a tomar a água de dentro da garrafinha, enquanto espera pacientemente o elevador chegar.
Retirando o celular do bolso, analisa o painel onde a notificação de chamadas perdidas está em evidencia.
A baixa campainha soa nos ouvidos da jovem, e com facilidade as portas se abrem.
Ergue os olhos, deparando-se com o já conhecido Dr. Black. Ele sorri a ela, exibindo perfeitos dentes.
Suspira retribuindo, se postando dentro do elevador.
—Boa tarde. – cumprimenta educado.
Colocando o celular no bolso da calça, Bella arruma o cabelo com os dedos.
—Boa tarde. – devolve cordialmente. Pelo espelho pode observar melhor o rosto de Jacob.
Ele é bonito, muito bonito na verdade.
—Já está bem quente, não é? – ouve a pergunta dele, beliscando os lábios com os dentes.
—Muito. – concorda, entrelaçando suas mãos na frente do corpo.
—Mas eu prefiro o calor que a falta dele. – brinca retirando um leve sorriso da Swan.
—Verdade. – concorda ao mesmo momento em que as portas de aço se abrem, revelando a grandiosa recepção do hospital. —Tenha uma boa tarde. – deseja ao moreno, antes de sair caminhando em direção a saída.
Pegando o celular, analisa todas as chamadas perdidas. Sorri ao ver o nome de Edward, em todas.
Com rapidez disca o número do rapaz no teclado.
—Hm, Isabella?! – antes de levar o aparelho ao ouvido ouve o doutor a chamar. Olhando por cima do ombro observa Jacob vir em sua direção apressadamente.
—O que? – retira a franja da testa beliscando o canto interno da bochecha.
—Estou indo visitar meu tio, o Harry sabe? E pensei... Que, talvez... Você quisesse uma carona. –
Meio desligada das palavras do homem, a fisioterapeuta o encara por segundos até entender a proposta.
—Ah, eu quero sim... Ia de ônibus mesmo, e nesse calor é meio ruim andar de transportes públicos. –
—Costumo vir a pé, moro aqui perto, mas hoje acordei atrasado. – explica a morena que ri arrumando a alça da bolsa no ombro. —Vou pegar o carro no estacionamento, se importa de me esperar aqui? –
—Claro que não, pode ir. -
—Ok, eu já volto. – avisa dando a volta no salão. Mordendo os lábios, Bella volta sua atenção para o celular, caminhando em direção as portas de vidro.
‘Heeey, você me ligou, mas não posso atender no momento. Deixe um recado que retornarei o mais breve possível. Tchau! ‘
Rola os olhos ao ouvir a mensagem gravada.
—Bella! – voltado o olhar para rua se depara com Jacob acenando de dentro do carro.
Fita impressionada o modelo conversível branco.
—Que carrão! – elogia entrando no veículo que exibe toda sua ‘simplicidade’.
—Gostou? Economizei a vida toda para compra-lo. – fala acelerando o carro. Com paciência a morena prende o cinto na volta de seu corpo.
—Não entendo muito de carros, mas aposto que não pagou barato nele. – sibila colocando o celular e a garrafa de água, quase vazia, dentro da bolsa.
—Não foi, mas vale apena. – faz uma pausa de olhos fixos nas ruas. —Sabe, é prazeroso comprar as coisas com nosso próprio dinheiro. –
Para por alguns segundos absorvendo as palavras do Black.
—A única coisa que comprei foi um gato. – diz ouvindo as gargalhadas do médico ao seu lado. É sério. – afirma rindo descontraída.
—Economiza bastante então. –
—Economizo... – murmura pensativa. —E o pior é que eu nem sei o porquê. –
—Não tem planos de comprar nada? Um carro, uma casa talvez? – olhando-a pelo retrovisor Jacob volta a questionar.
—Sabe que não. – sua voz sai baixa. —Bom, preciso rever isso... – completa rindo meio sem jeito.
Morde os lábios, pensando no quão boba é. Todo começo de mês compra alimentos e algumas roupas, nada que não seja extremamente necessário e o que lhe sobra de dinheiro volta para o banco.
Bufa, passando as mãos no cabelo começando a perceber o quão sem graça é sua vida.
[...]
Tamborilando os dedos na perna, Bella solta um suspiro observando o posto de gasolina.
—Vou abastecer, é rapidinho. – Jacob a informa descendo do carro.
Concordando com um aceno de cabeça, a morena vaga os olhos até a lanchonete atrás dos carros estacionados.
Instantaneamente sente seu estômago protestar. Não parara para almoçar e já sente a fome incomodar sua barriga.
Solta o cinto de segurança, e sai do carro atraindo a atenção do médico.
—Vou ali na lanchonete tomar uma café, se quiser ir... –
—Não, não. – a interrompendo o homem, passa o cartão na máquina. —Também estou com fome, vou aproveitar para comer também. – fala ativando o alarme do carro.
—Ok. – meio sem jeito confirma com um meio sorriso, seguindo na direção da lanchonete com o moreno. —É casado a quanto tempo? – meio gaga indaga ao Black que ri sem humor.
—Não sou casado. – sibila. —Não mais. – completa a olhando rapidamente.
—Oh, eu ah! Jacob me desculpe, é que eu vi a aliança em seu dedo e pensei que... Desculpe! – pede envergonhada.
—Não precisa se desculpar, já devia ter tirado essa aliança a muito tempo. – o timbre do médico sai calmo e paciente. —E respondendo a sua pergunta, fui casado durante cinco anos. –
—Ah, bom... Está se... – pigarra parando em frente a lanchonete. —Está se divorciando? –
—Estou. – confirma tristemente.
—Sinto muito, eu... Não deveria ter tocado no assunto. –
—Está tudo bem Bella, pessoas se divorciam todos os dias. – mordendo os lábios atravessa a porta giratória, sendo seguida pelo colega de trabalho.
—É verdade. – responde baixo.
—Além do mais estou conseguindo passar por isso bem. Eu e minha ex-mulher concordamos que seria melhor assim. –
—Foi uma decisão mutua? – indo até o balcão redondo, os dois se sentam nos bancos disponíveis.
—Foi sim. – apoiando os braços no mármore negro, Jacob a olha. —Nosso casamento estava desgastado, no começo brigávamos muito, e por fim nem isso fazíamos mais. – ri passando a mão no cabelo. —Um ignorava o outro. –
—Complicado isso. – solta sentindo-se penalizada.
—Você nem sabe o quanto. – tomando folego, Jacob faz uma pausa. —Ainda mais quando se tem filhos. –
—Ah, tiveram filhos? – surpresa indaga, puxando o cardápio ao lado.
—Sim, Ryan. – mesmo não olhando para o médico, pode sentir pelas palavras o orgulho extremo que tem do filho. —Ele ainda é pequeno, mas sei que já sofre com isso tudo. –
—Ele tem que idade? –
—Três anos e meio. – olha rapidamente para o médico. —Ele foi a melhor coisa que me aconteceu. –
—Que lindo! – exclama ao ouvir as palavras dele.
—Mas e você, é solteira, casada? –
—Estou namorando. – responde contente, chamando com um aceno a atendente.
—Ah sim, namora a muito tempo? –
Lubrificando os lábios com a ponta da língua, Bella se acomoda melhor no banco de madeira.
—Há quase uma semana. – fala vendo a surpresa passar pelos orbes escuros de Jacob.
—Posso ajudar? – voltando sua atenção para a atendente, Bella logo faz seu pedido, assim como o médico.
—E quem é o felizardo? –
—Não sei se você conhece. – apoia a cabeça na mão, olhando-o por debaixo dos cílios. —Edward Cullen. –
—Edward Cullen... O filho do Carlisle Cullen? – não deixa de corar com a pergunta do homem.
—Ele mesmo. – afirma mordendo os lábios.
—Ual, eu pensei que ele fosse.... Ah, deixa para lá! – chacoalha a cabeça de leve.
—Pensou que ele fosse o que? – curiosa o questiona.
—Nada. – murmura após um suspiro.
—Pensou que ele fosse o que, Jacob? – repete a pergunta já desconfiada.
—Casado. – diz de uma vez. —Há pouco mais de um ano ele estava noivo. –
As palavras do homem a pegam totalmente desprevenida. Esperava ouvir qualquer coisa, menos aquilo.
—Como... Como sabe disso? – perdida solta as palavras ainda se sentindo desconexa.
Edward. Casado. Edward. Casado.
As palavras repetem em sua cabeça freneticamente.
—A notícia se espalhou pelo hospital, ainda mais com a Tanya trabalhando lá. –
—Tanya, Tanya Denali? A oncologista? – sua fala demonstra o quão perplexa está.
—Ela mesma. – concorda com a cabeça. —Não ficou sabendo? Todos lá só falavam disso... –
—Não eu... Não sabia. – murmura infiltrando as mãos nos cabelos.
—Pensei que eles estivesse casados, fiquei um tempo atendendo na clínica que eles tem em Los Angeles, então estou desenformado. –
Sentindo o coração se apertar dentro de seu peito, puxa o ar com força. Isso só pode ser mais um de seus pesadelos, só pode.
[...]
A noite estrelada ilumina a curta rua onde o carro conversível dobra a esquina. São mais de oito horas. Conclui a morena vendo os números piscarem no painel digital do veículo, já estacionado em frente ao seu prédio.
—Obrigada pela carona, Jacob. – sorri soltando-se do cinto. —E pelo lanche também. – completa.
O moreno insistira tanto que acabara cedendo e deixando que ele pagasse a conta na lanchonete.
—Não precisa agradecer, foi um prazer. – ele responde também se soltando do cinto. —Tive uma tarde agradável ao seu lado, me fez esquecer dos problemas. –
Suspira dando um meio sorriso ao moço. Ele esquecera e ela ganhara.
—Para mim também foi muito agradável. – murmura pondo a bolsa no ombro.
Em sincronia os dois saem do carro, caminhando com lentidão até a porta.
Assim que adentram na entrada do velho prédio, os olhos da morena ficam surpresos ao caírem em Edward.
Com expressão fechada o ruivo a encara.
—Onde estava? – ele pergunta direto, caminhando em sua direção.
Cerra os olhos e cruza os braços. Mesmo com raiva não deixa de notar o quão lindo ele fica de boné.
—No fotógrafo que fez as fotos do seu noivado com a Tanya Denali, se lembra? Pretendo tirar umas fotos sensuais. – replica empinando o queixo. —Jacob, obrigada mais uma vez. – volta-se para o moreno que sem graça concorda com a cabeça. —Tenha uma boa noite, até amanhã. – acena se dirigindo para o elevador.
—Bella, espera! – segurando-a pelo braço, Edward a impede de adentrar no velho cubículo de ferro.
—É melhor você me soltar. – diz pontuando cada palavra.
—Quem te contou sobre Tanya? E o que você estava fazendo com esse cara até essas horas? –
—A pergunta não é quem me contou sobre Tanya, a pergunta Edward é: Quando você ia me contar sobre ela. – aumenta o tom da voz enraivecida. —Quanto a segunda pergunta a resposta é simples: Não é da sua conta! –
Sem esperar pela resposta do Cullen adentra no elevador, apertando freneticamente o número 7.
Cobre o rosto com as mãos se encostando na grade fria. Os olhos ardem e uma vontade de chorar a toma por completo.
No entanto não irá chorar. Não irá derramar nenhuma lágrima.
Sai no corredor de seu andar, procurando as chaves de seu apartamento na bolsa.
—Merda! – exclama retirando a garrafinha de água, para poder ver melhor os objetos dentro da sacola.
Bufa abrindo a tranca da porta de madeira, que range levemente ao ser aberta. Adentra no apartamento esfregando a mão na face.
—Bella nós precisamos conversar. – entrando sem bater o ruivo declara ofegante.
Jogando a bolsa no sofá, a Swan dá as costas a ele.
—Não tenho nada para falar com você Edward, some daqui. – exibe uma paciência inexistente na voz, caminhando até seu quarto.
—Pare de ser infantil, Bella. – novamente a puxando pelo braço Edward a faz parar com os passos.
—Infantil? Eu nem vou dizer para você o que é infantil. – se vira para ele, rangendo os dentes. —Eu quero que você desapareça da minha frente e se possível da minha vida! –
—Dá para você parar de falar besteiras e me ouvir? – retirando o boné, ele esfrega as mãos no cabelo.
—Ouvir o que? Você me contar sobre o seu noivado com a Tanya? Não Edward obrigada. – tenta sair de perto dele, contudo novamente é impossibilitada.
—Nós terminamos Bella, droga vai me falar que você não namorou ninguém antes de mim? – cruza os braços ouvindo as palavras do homem. —Eu só não te contei por que não é importante, nem foi! –
Bufa antes de rir ironicamente.
—Claro que não! Você fica noivo de uma pessoa durante o que mesmo? Ah, lembrei, dois anos e ela não é importante, nem foi... – bate as mãos no peito forte o empurrando. —O que mais você teve antes de mim que não foi importante, hein? Um filho será? –
—Bella o que aconteceu no passado não importa. Não importa se eu fui noivo, casado, para mim tanto faz! – olhando-a nos olhos o ruivo quase grita. —O que importa é você, só você me importa agora. –
—Para você pode não importar, mas para mim importa sim! – o peita firme. —Eu me abri com você, fui totalmente verdadeira enquanto você ficava ai escondendo um noivado quase que recente! –
—Recente? – pergunta cínico. —Nós terminamos a mais de nove meses. –
—Tanto faz, Edward! Tanto faz! Você não me contou. Enquanto eu fui sincera com você sobre o meu passado você ficou ai, ocultando um noivado! – respira profundamente infiltrado as mãos nos cabelos. —Você acha justo isso? Por que eu não. –
—Tudo bem, você tem razão Bella. – concorda após uns minutos em silêncio. —Eu deveria ter contado, eu ia te contar só que eu não esperava que... Droga! – bufa a olhando. —Eu não esperava me apaixonar por você tão rápido e... Você sabe como é o medo de perder alguém, e eu não te contei exatamente por isso. Eu não queria... – chacoalha a cabeça se aproximando dela. —Eu não quero, perder você. – completa com a voz mais calma.
—Isso não... Não justifica nada Edward. – sibila perdida no olhar dele.
—Você também não me contou que ia passear com seu “amiguinho”. – os dedos longos dele, deixam aspas no ar. —Eu quase fiquei maluco quando fui te buscar no hospital e me disseram que já tinha saído. –
—Você disse que não ia poder passar lá no hospital hoje! –acusa. —E eu tentei te ligar, você que não atendeu! –
—Ok, mas precisava parar para comer com ele? Bella fazem duas horas, duas horas que saiu daquele hospital! –
Gargalhando a morena o olha deixando evidente sua raiva.
—Em primeiro lugar, eu saio para comer com quem eu quiser. Em segundo, fico na rua quantas horas eu quiser, e terceiro, você está desviando o foco, tentando jogar a culpa em mim, quando o errado da situação é você! – aponta com o dedo.
—Não estou desviando nada! – se defende já aflito. —Eu só não gostei de saber que passou a tarde com ele. –
Novamente a morena ri alto.
—Ah coitado! Não gostou? Experimente ficar sabendo por outra pessoa que o seu namorado foi noivo de uma das suas colegas de trabalho, aposto que você irá ver que aquilo não foi nada! – bate o pé o empurrando, caminha até seu quarto soltando o cabelo.
—Bella já te falei que aquele noivado não significou nada! – seguindo-a até o cômodo o ruivo deixa as palavras claras.
—E eu já deixei bem exposto que eu não acredito! –
—Então me diz, o que você quer que eu faça para que você acredite em mim, hein? Me diz Bella, o que eu faço! – replica parando a frente dela.
—Eu quero que saia da minha casa, e me deixe em paz! Volte para a sua noivinha, ou ex-noivinha, só suma daqui! –
—Eu não vou fazer isso! – a voz rouca sai decidida. —Não vou deixar você me afastar, ou melhor não vou deixar que você se afaste de mim. – num gesto rápido ele a puxa pela cintura, deixando seu corpo colado no dela.
—Me solta! – esbraveja espalmando as mãos no peito dele.
—Não, eu não vou te soltar. Pelo menos não, até você dizer que vai acreditar em mim, e parar de bobagem! –
—Bobagem, você acha bobagem eu ficar com raiva de você por ter me escondido uma coisa tão séria como um noivado de dois anos, Edward? – perplexa a fisioterapeuta pergunta.
—Não Bella, você tem toda razão por estar com raiva de mim por isso. – verbaliza a apertando mais em seus braços. —Mas é bobagem você não ouvir quando eu falo que, a única mulher que eu quero, que não sai da minha cabeça e que realmente importa, é você. –
Mordendo os lábios, não deixa de se encantar com as palavras do ruivo.
—Você não me disse que eu te dou razão para sorrir todos os dias? Pois bem, você é motivo pelo qual eu quero viver. É com você que eu quero ficar, o que aconteceu antes... Já foi. Você é o meu presente, você vai ser o meu futuro. Então sim Bella, pare de bobagem! –
Sem dar tempo para a mulher responder, Edward leva uma das mãos até a nuca dela puxando-a para um beijo, dando um fim na primeira briga dos dois.
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