Desabrochar
2 Flores que ficam sozinhas
Já era início de fevereiro, fazia frio e a chuva que havia caído no dia anterior não ajudava em nada na sensação térmica, em meio a toda esta intempéries haviam quatro homens sentados em frente a uma lareira bebendo vinho e jogando uma boa conversa fora enquanto observavam algumas crianças brincando com um pouco de tinta e papel no chão da sala espaçosa, estes homens eram Shura, Mascará da morte, Kanon e Afrodite.
— Vamos Arthur, Serena! Já é noite e a mamãe vai nos matar se atrasarmos o jantar, ela deve estar voltando já e vocês precisam tomar um banho.- Shura chamava seus filhos enquanto apontava para os últimos raios de sol na janela, Serena veio até ele mas Arthur era um espírito livre que parecia não ter gastado todas as suas energias ainda, ser ignorado fez o pai suspirar em derrota e chamá-lo novamente.
Ele não era o único frustrado, Afrodite parecia igualmente descontente com o fato de seus amigos estarem se recolhendo e ainda tentava argumentar.
— Ainda é cedo, não são nem sete horas, da tempo de abrirmos mais um vinho ainda! — Afrodite dizia animado, levantando-se da cadeira e indo para dentro de sua casa. — Eu guardei o melhor para o final, tenho um Château que vocês morreriam para provar!
— Nem pensar! A Fatma vai me matar se eu beber mais. — Máscara da morte falava baixo para não acordar a pequena Luna que dormir nos seu colo já a algum tempo, a filha era muito ligada a ele e sempre que possível estava na companhia do pai — Fica para a próxima Afrodite, agora eu preciso levar estes pequenos pra casa.
O cavaleiro de câncer olhava com carinho pra filha enquanto levantava e sinalizava para Enrico e Nina que já vinham, um pouco sujos de tinta, prontamente ao encontro dele.
— As mulheres aproveitaram o dia para colocar a conversa em dia e nós também! Devem ter se esbanjado naqueles cafés chiques da cidade enquanto falavam mal da gente!- Kanon ria alto enquanto terminava sua taça e via o pequeno Jack correndo para ele junto de seu amigo Arthur, bem sujos de tinta.
— Por favor! Vamos ficar mais um pouco.- Afrodite ainda choramingava e tentava convencer os amigos.
— Não vai dar Afrodite, as mulheres já estão chegando e eu ainda tenho que preparar a janta e dar banho nas crianças. Sabe como é difícil fazer uma tortilla de batatas? — Shura dizia em um tom divertido que parecia nem pertencer ao homem sério que ele era a maior parte do tempo.
—Não é difícil!
— Tenta fazer isto com duas crianças junto e depois me diz como foi a experiência.
Todos riram, inclusive Afrodite, mas ele ainda estava chateado, já era tarde, os amigos se despediam e as crianças já se balançavam suas mãozinhas em um gesto de ‘até logo’, em um piscar de olhos todos já estavam em suas devidas casas.
“Você entra na sua casa e não há ninguém, apenas você e sua poltrona. Você decide se isto é solidão ou liberdade” esta era a frase que regia a vida de Afrodite e ele acreditava firmemente na parte da liberdade, porém não havia sido assim nos últimos tempos.
Fechou a porta se permitindo dar um longo suspiro, não iria admitir jamais mas sentia falta de sair com os seus amigos como antes, sentia falta das noites em claro bebendo com Shura ou tirando máscara da morte e Kanon de alguma briga de rua, sua casa sempre estava tão cheia, seja com seus amigos ou com algum amor passageiro mas agora parecia simplesmente...vazia.
Não é que Afrodite não estivesse feliz por seus amigos, ele estava, mas depois de 10 anos parecia que tudo havia caminhado, menos ele.
O cavaleiro de peixes ria baixo agora, era engraçado pensar nele cujo a beleza foge ao céu e a terra tendo uma “crise dos 30”, mas lá estava ele.
Se jogou no sofá e abriu seu Château, tomou alguns goles ouvindo suas músicas favoritas.
— São todos idiotas, quem precisa deles, não é? — Dizia isso olhando para a garrafa como se conversasse com o melhor e mais renomado dos psicólogos.
Ele tentava se enganar, e como tentava, mas ainda assim alguma coisa estava vazia dentro dele, algo não se encaixava e ele não sabia exatamente o que era.
Não muito mais tarde cansou-se de beber sozinho, a garrafa também acabou, decidiu se retirar para sua confortável e espaçosa cama, sozinho, para tentar dormir e esquecer, talvez quando acordasse já tivesse sem este sentimento que o pairava de tempos em tempos.
Não sabia mas com certeza não iria melhorar e aquela noite calma seria uma das últimas que ele teria.
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