Desabrochar
3 O destino vem ao socorro
Afrodite acordou mas definitivamente não era a melhor manhã da sua vida. Sentia a cabeça doer como nunca e o mundo rodava de uma maneira que jamais sentira, definitivamente não tinha mais idade para beber como havia bebido no dia anterior.
Tomou um banho gelado, bem gelado, e se arrumou para o longo dia que viria, assim que desceu as escadas apoiando-se fortemente ao corrimão amaldiçoou os raios de sol que o alcançaram os olhos naquele momento o fazendo gemer com a dor de cabeça, assim que chegou a cozinha agradeceu mentalmente quando o café que havia acabado de fazer em sua prensa francesa lhe alcançava os lábios.
— Merda, eu não tenho mais nada aqui.
Afrodite suspirava pesadamente com sua cabeça apoiada nas mãos quando se deu conta que não havia nada em seu armário fora o café e algumas fatias de pão integral, seria obrigado a sair de casa naquele estado deplorável em que se encontrava, era um fato, ou quase.
Tomou coragem, e mais café, só aí começou a se preparar decentemente para ir a Rodorio. Passou mais uma água gelada no rosto, penteou os cabelos, passou seus cremes e perfumes favoritos, vestiu sua camisa branca favorita acompanhado de uma calça jeans escura comum, seu casaco marrom e um cachecol já que fazia frio ainda, decidiu que iria a feira, normalmente ia a pé mas decidiu que iria de carro hoje, talvez pela ressaca que ainda estava presente.
O cavaleiro de peixes adorava ir a feira, todos o amavam e cumprimentavam, seja por respeito a sua força ou sua beleza e isto fazia bem para o ego de tamanho duvidoso que ele possuía, sempre saia feliz e satisfeito quando ia a feira.
— Oh! senhor Afrodite, é tão bom ver você aqui! Você veio buscar algumas uvas hoje?Estão doces como mel.-A senhora atrás da barraca o cumprimentava alegremente
— Com certeza! Quanto mais doce melhor, não é?- Afrodite respondia alegremente apesar da sobra de dor de cabeça que ainda o assolava.
— Sim, moços jovens como você precisam comer coisas saudáveis, principalmente cavaleiros. Aqui esta as uvas, leve estes morangos também, é uma cortesia desta velha senhora.
— Obrigada! Nossa, muito obrigada!
A pessoa que estava ali comprando frutas era completamente diferente da pessoa que acordou mal humorada descendo as escadas com uma ressaca monstruosa. Afrodite estava alegre, cumprimentando a todos, rodeado do pequeno fã clube que sempre se formava a sua volta quando saia para qualquer lugar, comprando suas frutas favoritas, nada poderia estragar aquele passeio matutino, não é?
Errado.
O cavaleiro respirou mais um pouco daquele ar alegre e estava pronto para ir embora até sentir um vulto pequeno passando por si e isto o chamou a atenção, não tanto quanto os gritos que ouviu vindo atrás dele que estava dissipando a multidão.
—Pega! Aquele ladrãosinho! Quando eu te pegar vou decepar suas duas mãos seu merdinha!
Era um homem velho e acima do peso, Afrodite o reconheceu, era o dono da barraca de maçãs balançando seu cutelo aos quatro ventos, passou com tanta pressa que esbarrou com certa força no cavaleiro.
Por alguns instantes Afrodite ficou ali parado, arregalou os grandes olhos azuis até ser tomado por uma força quase sobrenatural, saiu em disparada atrás do homem desviando da multidão a sua frente tentando a todo custo não perder o feirante de vista, por algum motivo ele sentia que precisava intervir, sentia isso vindo do fundo de sua alma mas já era tarde, não enxergava mais o homem e isto lhe trouxe uma agonia tremenda.
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Era um beco sem saída, escuro e sujo, ali estava um par de pequenos olhos acinzentados tomados pelo pânico e ofegante, apesar do movimento fora do beco, do som das conversas, risos e passos ele só conseguia ouvir o próprio coração, que agora parecia que iria sair pela sua boca. Estava de frente para o muro mas era pequeno demais para escalar e não havia como se esconder mas mesmo assim segurava aquela maçã como se a vida dele dependesse disso, e dependia, logo que viu uma sombra o encobrindo sabia que seu tempo tinha acabado e se virou para encarar o destino.
— Agora eu te peguei seu rato! Hoje você não me escapa! — O homem velho falava baixo e lento enquanto se aproximava.- Eu vou decepar suas duas mãos e dar aos cachorros, você nunca mais vai roubar nada!
Era isto, ia morrer ali, ninguém iria ao seu socorro, ninguém, não que não estivesse acostumado a ser invisível.
O homem ergueu seu cutelo o fazendo reluzir na pouca que havia ali, aqueles olhinhos acinzentados se fecharam com força e apertou a maçã entre os dedos esperando seu destino.
Ele não fazia ideia mas o destino viria ao seu socorro.
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