Desabafos De Uma Adolescente Francesa
1 Escola nova, vida nova...
Notas iniciais
"Eu odeio esse lugar, eu odeio essas pessoas, eu odeio essa escola. Eu quero voltar para Paris.". Essas foram as minhas primeiras palavras assim que cheguei a São Paulo. Eu estava muito decepcionada, deixar toda minha família, todos meus amigos não era fácil. Amigas de infância em quem eu confiava, minhas primas, meus primos, tios, avós, todos que eu amava, estava sendo obrigada a deixar tudo isso para trás e começar uma vida nova em um lugar que eu não conhecia, com pessoas que eu não conhecia. E o pior de tudo: Tinha acabado de perder a minha mãe, e era justamente por isso que iria morar em São Paulo, onde a minha irmã mais velha morava. Você deve estar sem entender nada, mas não se preocupe, eu vou explicar. Meu nome é Amelie, tenho 16 anos, sou loira, alta, cabelos longos, nem gorda nem magra, na medida, como diria meu avô Jerome. Eu moro com a minha irmã mais velha Arleth, de 24 anos. Não cheguei a conhecer o pai, ele foi assassinado um mês antes so meu nascimento, minha mãe entrou em depressão e acabou me rejeitando. Quem cuidou de mim foi a minha avó, Dona Paulette, que na época tinha 62 anos.
Eu chegei uma semana antes de começar as aulas. Mas essa semana passou muito rápido, quando eu pisquei os olhos já era o meu primeiro dia de aula. Estava bem claro, eu fez questão de deixar bem claro que não queria, de maneira alguma ir para escola nessa segunda feira chuvosa.
– Mas Letii, por favor, hoje vai ser só aquela coisa chata da apresentação, eu não preciso ir.
– Nos já conversamos sobre isso Amelie, você vai hoje e está decidido. Vá, troque logo de roupa, se não você vai se atrasar.
Completamente contrariada, eu fui obrigada a ir para escola. Chegando na escola, dei de cara com a Paula e suas amigas, Violeta e Nicolle. Elas passaram por mim me empurrando, de leve.
– Está cega garota? -disse com raiva-.
As garotas foram embora rindo, "Esse ano vai ser um inferno para mim" pensei. Continuei meu caminho até o mural onde tinham o horário de todas as turmas, para ver em que sala seria a primeira aula. Era aula de matemática, bloco C sala 5, "Eu não faço a mínima ideia de onde fica isso, tenho que ir procurar antes que dê a hora e eu fique perdida por essa escola. Ai como eu sinto falta da minha antiga escola.", pensei. Então eu fui andar pela escola tentando descobrir onde ficava o bloco C sala 5. Até que encontrei com uma garota no meu do caminho, seu nome era Luísa, era um pouco mais baixa que eu, tinha os cabelos vermelhos, na altura do ombro, magra, era uma garota muito bonita, e simpática.
– Olá, você sabe me dizer onde fica o bloco C? -perguntou Luísa, sem saber que eu tinha a mesma duvida-.
– E-Eu não sei, estou procurando esse bloco, minha primeira aula é lá.
– Sério? Que coincidência, a minha também. Qual sua turma?
– 2º ano C.
– Sério? Que legal, eu também sou do 2º ano C. Vamos procurar esse maldito bloco juntas? -diz a Luísa sorrindo-.
– Vamos sim.
"Pelo menos eu já encontrei alguém da minha turma, e ela é simpática, é um bom começo. Só espero que aquelas patricinhas que eu encontrei a entrada da escola não sejam da nossa turma" pensei. Depois de uns 10 minutos procurando, finalmente, conseguimos achar o tal bloco C. Quando chegamos lá, já estavam algumas pessoas da nossa turma reunidos, Luísa foi conversar e tentar fazer amigos logo, eu não. Sempre fui do tipo de garota "Anti-social", nunca tive muitas amigas, nunca tentei fazer amizades com ninguém, era muito tímida, além de gostar de ficar sozinha. Enquanto todos conversavam eu ficava um pouco afastada, sentada em um banco de madeira que ficava próximo a sala. Quando a professora chegou ela entrou, junto com a turma. Assim que entramos eu procurei um lugar do fundo para se sentar, eu odiava sentar na frente, ainda mais nas aulas de matemática. As mesas eram para duas pessoas, mas eu sentou sozinha, preferia assim. Começou a apresentação, a professora começou a perguntar os nomes, as idades e de onde eram.
– Você garotinha, como se chama?
– Me chamo Amelie, tenho 16 anos e sou de Paris.
– Ah, você é a menina francesa de quem a diretora tinha me falado. Seja bem vinda Amélia.
– Obrigada, mas a senhora errou meu nome, não é Amélia, é Amelie.
– Oh, desculpe.
A professora continuou a perguntar nomes de idades do resto da turma. Eu escutei algumas risadinhas e sussurros bem baixinhos, quando olhei ao redor eram Paula, Violeta e Nicole. "Ah não! Não acredito que essas garotas são da minha turma.", pensei. Assim que a aula de matemática terminou um garoto de aproximou da minha mesa.
– Olá.. Amelie. Certo?
– O-Olá, é Amelie sim, e você é o... ?
– Meu nome é Henrique. Você falou que é Francesa. Onde você morava lá?
– Em Paris, bem na capital mesmo.
– Sério? Que legal, podemos conversar um pouco? Queria saber mais sobre Paris, e sobre você.
– Ok, a gente aproveita e procura a sala da próxima aula.
Saímos juntos, fomos conversando no caminho sobre Paris, e sobre a torre Eiffel, e sobre como eu sentia saudades de lá. Rimos muito com as tentativas frustradas do Henrique aprender a falar francês. Enquanto riamos e falávamos achamos as pessoas da turma, por acaso. E fomos todos juntos conversando até chegar a sala de aula. Todos queriam saber como era lá em Paris, queriam me ouvir falando francês. Enquanto todos queriam conversar comigo, eu preferia ficar sozinha, nunca gostei de estar no meio de pessoas, sempre fui isolada, a vida me ensinou a ser assim. Cinco minutos depois que chegamos a sala a professora chegou. As mesas eram para duas pessoas nessa sala, todos queriam sentar comigo.
– Calmez-personnes! Eu quero sentar sozinha.
Eu fui para o fundo da sala, como de costume. Dessa vez a professora não perguntou o nome de ninguém, apenas fez a chamada. Eu era a numero dois da chamada.
– Ana Clara — disse a professora -.
– Presente! — respondeu a menina -.
– Amélia.
– Não é Amélia, é Amelie. — falei contrariada -.
– É quase a mesma coisa.
"Eu não acredito que todos os professores vão errar meu nome", pensei. A aula terminou, enquanto arrumava as minhas coisas escutei a voz do Henrique.
– Ainda estás disposta a tentar me ensinar a falar francês?.
– Évidemment oui — falei rindo -
Fomos juntos até o pátio, sentamos em uns degraus que lá estavam e comecei a ensinar o Henrique a falar francês. Era realmente muito engraçado, ele nunca sabia pronunciar as palavras da forma correta. Estávamos nos divertindo muito até que a Paula chegou. O Henrique ficou realmente desconfortável quando a Paula sentou entre a gente.
– Olá Henri, mais um ano juntos é?
– Pois é, mais um ano juntos. -disse o Henrique com uma voz impaciente, como se estivesse chateado com aquilo-
– Vocês já se conhecem? -perguntei, meio confusa-
– Sim, estudamos juntos ano passado, mas ai nossa escola fechou e tivemos que mudar de escola, mas estamos juntos na mesma escola de novo.
– Ah, entendi. -respondi-
– Paula se você ainda não percebeu, a Amelie estava me ensinado a falar francês e você chegou atrapalhando. Se importa de sair?
– Nossa, eu pensei que ela pudesse me ensinar também...
– NÃO, ELA NÃO PODE! -gritou o Henrique-
Ele pegou meu braço e me puxou, deixando a Paula sentada nos degraus sozinha. ele me levou pra perto do refeitório, sentamos em uma barra de ferro que separava a parte com grama da parte de cimento. Eu fiquei um pouco assustada pelo jeito que ele falou com a Paula, e pelo jeito que ele pegou no meu braço, ele parecia ser tão gentil, tão calmo, e agiu daquele forma.
– Desculpa por essa cena que você acabou de ver, eu sei o que você ta pensando, eu vou te explicar.
– Não, eu não estou pensando nada, só fiquei um pouco assustada.
– É que ela me irrita, ela me persegue desde a sétima série, as amigas dela dizem que ela gosta de mim, mas ela é muito chata, isso faz com que eu a odeie. E provavelmente ela estava com ciumes de mim, por isso se meteu no meio da gente. Ela vai implicar com você o ano todo, pode esperar. Eu não pude ter uma namorada por mais de 2 meses desde a sétima série. Toda vez que eu começava a namorar ela fazia alguma coisa pra acabar, era sempre assim. Ela é insuportável.
– Nossa! Ela acabava com seus namoros? Isso é horrível.
– Pois é. Mas eu não quero falar sobre ela, vamos continuar nossas aulas ok?
– Ah, ok. Se você prefere assim. -falei sorrindo-
Ficamos juntos o resto do dia, só nos separamos na hora da saída. Ele foi embora mais cedo, e eu ainda fiquei falando com a professora. Quando eu sai da sala a Paula e suas amigas estavam, me esperando do lado de fora. Assim que sai senti ela puxando meu braço e me levando para um lugar mais reservado.
– Se eu fosse você eu me afastaria do Henrique.. Se não...
– O quê? Isso é uma ameaça?
– Talvez...
– Mon Dieu! Que medo.
– Depois não diga que não foi avisada.
Ela foi embora, me empurrando de leve, fiquei pensando comigo mesma: "Será que ela seria capaz de fazer alguma coisa?". Fui embora, pensando nisso. "Não, acho que não, ela só falou isso para me assustar, até porque ela gosta do Henrique, deve estar se sentindo ameaçada."
Quando cheguei, minha irmã não estava em casa. Eu já sabia que ela não estaria, ela trabalha o dia todo, provavelmente, quando ela chegasse eu já estaria dormindo. Mas eu já estava acostumada a ficar sozinha, desde quando eu era pequena. Minha mãe vivia trancada no quarto, chorando. E minha avó tinha tudo para fazer, cuidar da casa, cuidar dos outros netos, não tinha tempo para me dar atenção.
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