Deriva

6 Universo em declínio


Disseram que eu não avisei.

Que não falei.

Mas eu sempre avisei, eu sempre aviso, mas me parece que sou um locutor que fala sozinho, como em um monólogo que nunca tem fim, não há remetente que receba, nem um enunciatário, nem um locatário, nem um tu.

Eu posso gritar, posso espalhar aos quatro ventos, mas ninguém me ouve. Cheguei a conclusão, que habito em uma esfera de vidro, de modo que falo sempre comigo mesma.

Tento ultimamente não me silenciar, mas tenho a sensação que nasci silenciada, porque minha fala é sempre um monólogo.

Minhas percepções não valem, minhas sensações não valem, minha visão não vale, meu sofrimento não existe. Pergunto se eu também existo. De certo não.

Meu universo está desabando. Vale gritar aqui, com essas letras, as letras parecem ser pessoalmente minha única companhia, a única esperança de que em algum momento por um acidente alguém ouça, alguém veja, alguém perceba.

Continuando, meu universo está em declínio, eu sinto minha gravidade mudar, aquilo que antes flutuava, agora está despencando, roxas e meteoros vem em alta velocidade em minha direção. A mesma gravidade que faz flutuar, também faz colidir velozmente. Eu sei, eu sinto, estão despencando e eu não sei o que será instinto, ou qual será o nível do impacto, onde se dará e como se dará. Eu sei só que está caindo.

Minha órbita se alterou, tenho medo que o sol me trucide ou que a distância me lance para um escuro sem fim; que o excesso me queime ou que o escuro me tome, fazendo com que nunca mais contemple o sol. Posso estar em uma ponta ou na outra, todos os dois irão me engolir de forma diferente. Querem que eu funcione, funcione como os outros planetas, mas eu sei que não funciono e não sei até onde posso sustentar essa façanha.

Meu planeta está prestes a colidir com outros planetas, minha rotação está danificada, já não sei mas para onde vou, porque vou, nada simplesmente faz sentido. Meu mundo roda em outro ritmo em outra direção e a qualquer hora pode haver uma grande colisão.

Meu ambiente interno está em declínio, tudo está desaparecendo, o oxigênio está escasso, a temperatura está descontrolada, as montanhas estão sendo engolidas pelo mar, os animais estão sumindo.

Estão falando que na verdade "Netuno" está se comportando de maneira drástica que isso está abalando todo o sistema planetário, que ele é um risco para si e para os outros planetas. Mas a verdade é que "Netuno" está em colapso e isso pode afetar a todos a qualquer momento.

Mas enquanto isso, todos vivem a rodar em torno de si como se nada acontecesse, ignoram os sinais, ignoram os gritos, a fala, o pedido de socorro.

Quando "Netuno" afetar a todos dirão: "o que aconteceu?, nada nós foi dito."

Restará o silêncio?

Não!

Restará o eco de uma voz que tentou ressoar, e as letras são prova disso.