Deriva

7 Nó górdio


Eu tenho um nó górdio.

Um cansaço constante gerado pela dor constante.

Tudo vira dor, todo o meu caminho é dor.

Dizem que quando os ossos estão sendo formados o bebê ou feto sente dor; que quando o bebê está vindo ao mundo, ser expelido pelo útero gera dor e grande pressão; a criança crescendo sente dor, os dentes crescendo causa dor e grande incômodo; aprender causa dor embora raramente as pessoas falem sobre isso; na adolescência entender o mundo ao redor e as constantes transformações no corpo causa dor e profundo desconforto.

Me parece que esse mundo é de dor.

Mas, tem uma dor específica raramente ou nunca notada ou documentada.

Sobre pertencer a uma galáxia diferente, oposta à que você órbita e pisa.

Minha cabeça gravita diferente na via láctea, e isso é um problema, pois eu choco constantemente com outras galáxias. A intersecção deixa rastros, alguém é engolido ou arremessado, provavelmente o de menor força e tamanho. Eu sou esmagada constantemente por outras galáxias, remodelada, alterada, recolocada. Isso acontece tantas vezes que, minha estrutura, minha essência é sequestrada, totalitariamente desfigurada; minha composição tornou-se altamente gasosa, volátil. Infelizmente tenho cedido à pressão, sou reprimida ou expandida tantas vezes quanto o ambiente age sobre mim.

Talvez esse movimento seja estranho, para os mais extremistas seja errado, talvez seja visto como altamente influenciável. Só se esquecem que sou de outra galáxia tendo que sobreviver em um lugar a qual não pertenço.

Aprendi a não ter forma nem volume definido.

O que é mais provável de sofrer um grande impacto, uma forte segmentação e atrito? Uma roxa, um galho, a argila ou o CO²?

Escolhi ser o elemento que dificilmente sofrerá atrito. Atrito é dor, dor do choque de colisão e dos pedaços de si que voam, que caem, que se desfazem.

Só que ser leve, maleável, alterável, translúcido e intocável também causa dor, por isso vivo dor constante. Sou perpassada, atravessada e tocada constantemente, meu mundo é invadido, saqueado, arrombado, invalidado.

Acham que porque minha essência é distante, invisível, quase intocável têm o direito de me carregar, me engolir, me isolar, me difundir.

Ser translúcido é uma forma de sobrevivência, uma bem dolorida, se é que dá para viver nesse mundo sem dor. Mas a dor de ter que encaixar em uma galáxia que não é sua não pode ser explicada, mas pode ser sentida, é um vazio constante que muitas vezes não pode ser nem compreendido, um vazio quase crônico, gritado no ensurdecedor silêncio de nunca encontrar um espaço que te comporte (como se você fosse um círculo em um mundo a qual a geometria é quadrada, somente quadrada).

Atrás dessa aparente volatilidade fui formada no extremo do calor e do frio, nada me assusta, nada me desfaz, nada de fato me altera, ou seja, não sou altamente influenciável. Quem em sua essência é atomizado, não pode ser manipulado.

Não se engane, não há confusão entre se moldar (ser translúcido para sobreviver) e ser moldável (um elemento manipulável).

Eu estou distante, aparentemente posso ser volátil, mas também faço muito barulho; coisas invisíveis podem ser assustadoras por serem imprevisíveis, por não poderem ser seguidas, contidas ou de fato observadas. Por isso são na maioria das vezes incompreendidas. Não compreender não significa necessariamente invalidar, ao menos não deveria.

Mesmo distante da luz, distante do calor, distante dos olhos, distância não significa ausência. Mesmo leve, invisível, intocável, me comportando como átomo, molécula ou partícula, não ser visto ou notado não significa não ocupar espaço. A natureza sempre dá uma forma de organizar sua matéria, nada fica solto, vago ou inacabado, às vezes a ordem surge do caos. É esse o nó de ser observado e não ser compreendido.

Um nó sórdido.