Deriva
8 EuNetuno

Me disseram que nasci de um jeito peculiar
Eu nasci fria demais
Não aquecia, não me envolvia, parecia sempre congelar.
Não sabia a hora de começar uma conversa, não me sentia abraçada como os outros se sentiam, muito menos compreendida, parece que eu tinha nascido de Netuno. Não gostava muito do sol, e evitava os outros planetas. Não que eu não gostasse de estar perto, de pertencer, mas porque era diferente e eu não entendia em que era diferente, como era diferente, eu só sabia que era fria.
De longe eu parecia calma, branda e congelada. Mas por dentro eu era ventania constante, não entendia o motivo de ser netuno. Era sempre uma ajustação, uma criticação sem fim. Eu tentava e retentava, mas quem nasceu netuno será sempre netuno.
Foram muitos giros até entender isso.
Os ventos logo dissipavam minha aparente calma e brandura, era pensamento demais, questionamento demais para ver se aparentava mais aquecida. Contraditoriamente era sentimento demais a ponto de me perder em mim mesma várias vezes, me perdia no amor e na falta de amor, na presença e na falta de presença, no calor e na falta de calor...
Tudo era uma ventania, se colocava algo na cabeça era uma ventania, se decidia algo era uma ventania, se queria algo era uma ventania, se achava algo injusto era uma ventania. Logo, quem se aproximava pela aparente calma e brandura se assustava com a constante tempestade de estar próximo.
Era de se esperar que eu aprenderia a ser minha própria energia, embora parecesse distante eu era vida e vida constante, aprendi a me aquecer, a me envolver.
Era só uma forma diferente de existência.
Aprendi que minha energia interna me aquecia, me motivava, eu tinha meu próprio sol. Minhas pérolas, raramente vistas ou reconhecidas eram meu combustível.
Essa aparente apatia e controversa atração e destruição acidental não me definiam, na verdade nada me definia, porque eu era mistério até para mim.
Eu nasci distante demais
Necessariamente eu me questiono, distante de que mesmo, baseado em que ponto, qual conceito de inércia ou de movimento?
Ouvia reclamações porque não me envolvia, parecia sempre estar nos extremos, nos cantos, sempre mais distante.
Ponderei ter algo de errado comigo, porque meu movimento se destoava dos demais, eu me movimentava netunamente, nunca no meio, sempre no extremo, eram distâncias contadas para passar somente próximo, com um tempo contado de contato, e lamentavelmente apesar de raramente ou nunca demonstrar eu atraia com força interna destrutiva coisas ou pessoas que considerava interessante, era calculadamente aproximado ou ferozmente atraído, ou estava distante e apática, ou perto, tempestuosa e surpreendentemente altamente viva, tão viva que era em alguns momentos perturbador.
Vivi muito tempo sem me entender, me questionando. Porque, porque, porque, porque tão netuno.
Eu tinha uma órbita, tinha meu próprio anel, meu próprio calor e consegui algo para chamar de lua, então eu entendi, entendi que netuno possui sua própria órbita, seu próprio lugar e essa era uma forma autêntica de existência. Os extremos são conflitantes mas, nenhuma delas definiam de fato Netuno, tudo dependia, podia ser um conceito para quem está longe e outro para quem está perto, e que apesar de pouco acessível cada um no fim do dia lhe via da forma que queria segundo informações que tinham.
Ser netuno não é problemático, ser netuno é diferente. É carregar um mundo interno rico demais, caótico demais, tempestuoso demais mas não conseguir externar ou externar de forma diferente, e ainda assim, netuno continua sendo um planeta, um dos muitos mundos particulares.
Ser Netuno é ser,
nuvem, não ser concreto e ser ao mesmo tempo, é ser um composto intocável, leve e tempestuoso.

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