Deriva

9 Um diálogo sobre o ser


Duas pessoas, em uma praça, em um lugar.


[...]


Seja.

Ser eu?

Seja,

Seja esperta, inteligente, atraente, destemida, determinada, resoluta, independente, sagaz, forte, sabia, ponderada, diligente, silenciosa, certeira, rápida, administrativa, consciente, concisa, agradável, reservada, companheira, pronta, honesta, sincera, verdadeira, bonita, arrumada, colocada, estabilizada, equilibrada, paciente, pontual...

Ser tudo isso? Alguém consegue ser tudo isso?

Também não sei, mas segue o prototípico.

Prototípico?

Sim. Um modelo ideal, uma forma perfeita, um padrão, bom para corrigir, validar e aperfeiçoar.

Isso não seria uma utopia?

Utopia?

Sim. Um ideal intangível, irreal, que não pode ser alcançado. Projeção, pensamento, modo, comportamento impossível de se realizar.

Então utopicamente seja.

Porque eu conseguiria ser algo utópico? Ou porque deveria tentar ser? Coisas utópicas existem para funcionarem só na mente, no máximo em um pedaço de papel. É legal mas funciona como um distrator.

Um silêncio, um silêncio horripilante sobre o pôr do sol...

Admiro seu silêncio, admiro de verdade porque marca uma mente que reflete. Fomos ensinados que "funcionar" é pertencer ou assemelhar o máximo possível com um mundo utópico, mas no fim do dia muitos não alcançam nem mesmo seis itens de uma lista enorme.

Somos errante. Admitir, compreender e modelar é parte de nossa trajetória, temos que nos esculpir não para alcançar um protótipo ou uma utopia, mas porque enquanto humanos aprendemos e ensinamos, e esse movimento cíclico nos afeta. Durante uma vida somos mil e uma versões de nós mesmos, nem uma se difere drasticamente da outra mas também não são iguais.

Conforme compreendemos, lemos, interpretamos e nos envolvemos no mundo algo vai se transformando, às vezes sabemos dizer quando isso aconteceu, as vezes só sabemos que algo se transformou sem saber ao certo quando, é isso que é belo. Mas esse movimento tem que ocorrer naturalmente, enquanto nos envolvemos com milhões de universos.

Então, tentar viver um protótipo é como querer que um leão se comporte como um urso, ou um gato como um elefante?

Risos.

Esse é um outro problema de protótipos ou de padrões, eles não abarcam toda à variedade, e sim, acabam por anular muitas características. Se bem que provavelmente algumas pessoas se veem obrigadas a fingir ser algo que nunca foram e a sustentar comportamentos que nunca lhe pertenceram.

Silêncio com a mão no queixo.

Eu sinto como se estivesse sempre sustentando um prato sobre minha cabeça. Nunca pode ser demais e nunca pode ser de menos, tenho que sempre tentar atender as expectativas, sabe, as vezes é bem sufocante.

Costuma sufocar mesmo, até o ponto que você não respira mais...

Uma reflexão sobre o pôr do sol,

entre duas pessoas qualquer, em uma praça qualquer, de um lugar qualquer.

En

tarde

cer...