Notas iniciais
https://youtu.be/njHCyqExjwM-Hope badass.

P.O.V. Lucrécia.

Ele trouxe a tal mulher que controla lobos. O tom do cabelo dela era único. Nem da cor do sol, nem da cor do fogo, mas algo entre os dois. Os olhos da cor do mar. Do céu.

Sua pele era branca, leitosa, estava usando um penteado digno da Rainha de Troia. Sua toga era de seda verde água com brocados dourados, em sua cabeça havia um diadema.

—Então, é a mulher que controla os lobos.

—O povo fala muita coisa.

—Isso é um não?

—Não é um sim e nem um não. É um mistério.

P.O.V. Hope.

A mulher era muito bonita. Tinha uns quarenta e tantos. O cabelo pintado de ruivo com hena, uma toga chique.

Um menino veio falar comigo.

—Você é a mulher que controla os lobos?

—Se dizem, quem sou eu pra contrariar. E quem é você?

—Numerius. Sou filho do senador.

—Então, é o aniversariante?

—Aniversariante?

—Hoje. É seu aniversário. Quantos anos você tem?

—Quatorze. O que é um aniversário?

—É a comemoração do dia em que nascemos. A cada ano, naquele dia se tiver sorte, completa outro ano de vida.

—Hoje eu me torno um homem.

—Bem, meus parabéns.

Como se esse menino pré-adolescente soubesse alguma coisa sobre ser um homem. Eu sou mais homem que ele e eu sou uma mulher! Os dois gladiadores começaram a lutar e o garoto abaixou o dedo.

—Deveria ser apenas uma exibição.

—Numerius já decidiu. Será reembolsado pelo valor do homem.

Eu vi nos olhos dele, do gladiador. Ele não queria matar o outro. Eram amigos.

—Spartacus, mate-o.

—Não! Ninguém vai morrer hoje. Se o garotinho quer sangue, vamos dar sangue pra ele.

—Como ousa....

—Silência!

Com um feitiço eu calei a boca do tal senador.

—Ein? Como? Eu não to te ouvindo.

Perguntei comicamente colocando a mão na orelha.

—Então, quer sangue menino? É o que quer?

—Eu sou um homem agora.

—Ah, veremos.

P.O.V. Batiatus.

Ela encarou Numerius encolerizada.

—Você acha engraçado ver as pessoas morrerem, pessoas inocentes. Sua vida toda se deleitou vendo o sangue inocente jorrar, então... porque não se afoga nele?

O sangue começou a verter e o menino começou a afogar-se em sangue. Ele caiu de joelhos, o sangue voltando pela garganta acima. Então, parou.

—Acha que é o suficiente? Ou o pequeno Dominus quer mais?

Depois de cuspir o que sobrou ele falou:

—Que os deuses te amaldiçoem.

Ela abaixou para ficar no nível do jovem Dominus.

—Menino, alguém que tem o poder de amaldiçoar outra pessoa, não fica delegando. A gente simplesmente... avita exari, defasmatro ademassero...

O Senador conseguiu a voz de volta apenas para começar a berrar.

—Sou um homem influente. Se me matar, virão por você.

—Eu não vou te matar. Ainda. Você é um idiota pomposo que se acha muito mais importante do que realmente é. Então vamos ver o quanto os Deuses te favorecem. Porque vou partir o seu coração.

Ela enfiou a mão dentro do peito do senador.

—Ou fazê-lo parar de funcionar. Assim o seu sangue não consegue circular, suas veias vão secar e você vai apodrecer de dentro pra fora e o mundo pode vê-lo exatamente por quem você é. Um monstro, frio, feio, odioso e cinza!

O homem ressecou e caiu duro.

—Então, como vê, criança... pessoas que tem o Poder real de amaldiçoar alguém... não fica falando. A gente simplesmente vai e amaldiçoa.

—Pai! Meu pai! Eu vou te matar!

—Você ainda não entendeu não é mesmo? Você não pode.

Vi quando o guarda enfiou a lâmina nela. Bem, ao menos ele tentou. A lâmina partiu-se contra a pele da menina.

—Vocês são todos tão cruéis. Talvez aqueles que precisem ser punidos!

Com um aceno de sua mão os guardas todos voaram longe. E ela transformou os miolos de Ilithya em uma pasta.

—É. Morreu no mesmo lugar no qual matou a amiga. Não que aquela amiga fosse diferente. Era uma serpente igual a ela. Uma vadia humana e descabeçada que se achava o centro do multi-verso.

P.O.V. Spartacus.

Ela havia matado o senador e Ilithya numa noite. Como se não fosse nada.

—O senador não está morto. Ainda está vivo dentro desta carcaça. Isso não é um feitiço de morte, é uma maldição. Mas, como sou uma boa devota do Senhor, acredito na misericórdia. Então... Ina pra co sant I pata se rassatam!

Ela trouxe o senador de volta.

—Melhor?

—O que pelos Deuses é você?

—Uma pessoa misericordiosa. Sabe, a vingança é uma faca de dois gumes, com um você esfaqueia o seu inimigo, mas com o outro você se esfaqueia. É um ciclo vicioso de ódio, sangue, morte e fúria. Quando se quer pensar em abrir a boca para desejar mal a alguém... lembre-se que o que você dá, você recebe. Todo o seu ódio um dia vai fazer o caminho de volta e te acertar como um murro na cara. E isso vale para todos. Até pra mim.

A mulher saiu do festejo e todos, absolutamente todos foram atrás dela para ver o que ia fazer. Acabamos na arena de treinamento.

—Quando somos jovens, nos ensinam a diferença entre um herói e um vilão, alguém que pode ser salvo, digno de redenção e uma causa perdida. Mas, e se a única diferença for só quem está contando a história? Não posso dizer meu nome, mas posso dizer que venho duma longa linhagem de vilões das suas histórias. Sou filha duma vampira e um lobisomem, neta duma bruxa malvada. Sou a primeira e única da minha espécie. Nasci do mal, lutando todo dia para ser boa. Ser gentil, misericordiosa. Heróis, vilões... tanto faz.

E ela abriu os braços atirando-se do penhasco. Mas, quando foram procurar o corpo não encontraram nada. Nem mesmo um pingo de sangue.

P.O.V. Doctore.

Spartacus tem febre.

—Vá ao boticário traga tudo o que ele precisar.

—O boticário não vai ajudar. Mas, eu vou.

—Você. Eu a vi pular do penhasco.

—E? Ele está com infecção. Preciso conter antes que chegue á corrente sanguínea. Vai buscar álcool.

—Álcool?

—Rum, gim, vinho. Bebida alcoólica.

Estendi para ela um jarro de vinho.

—Obrigado. Tem panos limpos ai?

Estendi uma tigela com panos.

—Isso tá imundo! Só vai deixar tudo pior! É a sujeira que causa a febre. A imundice causa isso!

Ela saiu correndo e voltou com panos molhados, brancos de tão limpos e sabão. Lavou todo o corpo do gladiador com água e sabão inclusive o ferimento. Depois pegou um objeto pontudo e espetou nele. Uma agulha.

—Prontinho. Ele vai sobreviver. Mantenha o ferimento limpo, a qualquer custo. Nada dele lutar até isso ai cicatrizar.

—Mas, os jogos de Pompeia...

—Pompeia?! Menino, aquela cidade vai pro buraco!

—O que quer dizer?

—Quero dizer que a Cidade de Pompeia vai ficar para a história como o maior massacre natural do mundo. A Cidade foi construída na base de um vulcão.

—E?

—E... que o vulcão vai entrar em erupção. Uma das maiores erupções vulcânicas que o mundo já viu! A cidade vai virar pó. A lava vai engolir tudo. Pessoas queimadas vivas, bolas de fogo voando, sendo cuspidas por um vulcão em fúria! Eu prometo que vai ser épico e você não vai querer estar lá para ver. Vai?

Spartacus recuperou-se, a febre cedeu mais rápido do que tudo o que já vi. Nunca ninguém recuperou-se tão depressa duma febre.

—Pelos Deuses!

—Como estou vivo?

—Chame de milagre.

—Você?

—Olá de novo. Soube do que houve com o seu amigo. Varro. Lamento.

Sim, Varro havia morrido na numa das festas do jovem Numerius.

—Obrigado.

—Disponha. E nada de vinho. Vai tomar água por enquanto. Eu te dei um remédio, se tomar vinho o remédio para de funcionar e você morre.

—E quanto tempo terei que me abster do vinho?

—Algumas semanas. Acho que é melhor do que morrer de febre.

Ela cuidou dele por duas quinzenas furando-o com a agulha e trocando os curativos. Até deu pontos no ferimento.

—Impressionante. Quase não se vê a cicatriz.

—Meu avô é médico.

—Seu avô? Conheceu seu avô?

—Eu nasci num mundo que você não entenderia. Ciência com magia, magia com ciência, ciência vs magia. Ciência com religião, religião com magia, magia vs religião. Não importa é tudo igual. Não nego a validade do conhecimento científico, a necessidade de que exista uma prova de uma teoria. Mas, também não nego a validade da religião ou da magia. A necessidade de se crer em algo. Só porque você não vê o sol á noite não significa que ele não esteja lá.

—Ciência?

—É. Por exemplo, porque o céu é azul?

P.O.V. Hope.

Ele me deu a explicação mais doida que eu já ouvi, era uma explicação baseada na fé.

—Certo. Agora prove.

—Provar?

—É. Prove que essa teoria é verdadeira.

—Porque?

—Porque o estudo científico exige. Isso é que e ciência é ter provas para crer. Se não tem prova que existe, então não existe. E é ai que dá enrosco.

—Está dizendo que sua ciência me salvou?

—Sim. Veja, a ciência levará a humanidade longe, longe... graças a ela coisas que ninguém nunca pensou serem possíveis... serão possíveis. Carruagens que andam sem cavalo, que voam e transportam pessoas e carga pelo ar. Daqui até a China leva de sete á quatorze horas pelo ar. Dependendo da velocidade, do tráfego aéreo, e uma série de fatores.

—China?

—Vocês não sabem onde fica a China. Certo. Ainda acreditam que o mundo tem beirada. Ops.

—E não tem?

—Não. O mundo é redondo. E gira.

Eles riram.

—O mundo é redondo e gira. Sandices.

—Quer apostar? Vamos testar uma teoria mais... fácil de provar.

—Que teoria?

—A teoria da Gravidade.

Disse com a bola na mão. Eu não devia fazer isso.

—Não. Não posso fazer isso. Se eu fizer, posso acabar nunca nascendo.

Então apaguei as memórias dele sobre gravidade e deixei eles debochando da ciência e do fato do mundo ser redondo.

—Realmente acredita que o mundo é redondo?

—Como eu disse, nasci num mundo que vocês não entenderiam. Mas, lhes asseguro que nascemos no mesmo planeta, no mesmo mundo, no mesmo quase tudo. Eu nasci neste continente. Perto de Roma. Numa cidadezinha que parece um ovo. O que muda é só... o tempo. Fiz dezesseis anos em dois mil e vinte. Depois de Cristo.

—Quem é Cristo?

—Um homem muito importante que ainda não nasceu.

P.O.V. Spartacus.

Um homem que não nasceu?

—Como assim não nasceu?

—Não nasceu, ainda. Mas, ele vai. Vai sim. O filho da virgem.

—Se a mulher é uma virgem, como pode ser mãe?

—É um milagre! Deus engravidou ela do seu filho. Para ele trazer luz, esperança e uma mensagem de perdão para este mundo miserável! Ai os romanos mataram ele. Romanos idiotas.

—Eu sou romano!

—Eu sabia! Sabia que era um idiota. Mas, são estágios diferentes de evolução. Bem, agora que está vivo e chutando... eu vou pra casa. Adeus.

E ela sumiu.

P.O.V. Batiatus.

Ela deixou vários avisos sobre Pompeia. Deixou para trás previsões de eventos. Dos mais banais até os mais... memoráveis. E todos aconteceram exatamente como ela disse que aconteceriam.

Mas, não acho que ela tenha falado de Pompeia para salvar a mim.