Depois do amanhecer
25 Pompeia
P.O.V. Hope.
Eu sabia que havia uma chance mesmo que mínima do Dominus idiota não me ouvir, então preparei dois planos de contingência.
P.O.V. Batiatus.
Ele não pode sair! Está preso! Literalmente preso na cela! Pode caminhar, se mover lá dentro, mas de lá não consegue sair!
—Como está fazendo isto?!
—Eu não sei, Dominus. Não estou fazendo isto.
A bruxa.
—Ah, eu mato aquela bruxa!
—Olá pra você também.
—Sua maldita bruxa!
Avancei e eu a atravessei.
—Que falta de educação. Eu sabia que havia uma chance mesmo que pequena de você fazer alguma burrice. Então eu te impedi.
—Que tipo de magia negra é essa?!
—Isso não é magia negra não. É só magia mesmo. Um feitiço que tem o incrível poder de selar alguém num cômodo.
Ela falava como se fosse uma apresentação para a plebe. Abria os braços como se aquilo fosse um show.
—Então estou preso na cela dos escravos?!
—Não. Você pode sair, mas ele não pode. Arruma outro gladiador e vai.
O que?!
—Mas, ele é o Grande Spartacus! É por ele que a plebe clama.
—Não é problema meu. Fala que ele ficou com dor de cabeça. Inventava isso direto quando era criança pra matar aula.
P.O.V. Hope.
O cara tava soltando fogo pelas ventas. E como previa partiu é claro para a violência.
—Espere. Tem mais uma coisa.
—O que?!
Me transportei de corpo para aquela cela e tirei o meu brinco.
—Por favor, Spartacus estenda a mão.
Ele obedeceu.
—Agora, Dominus veja, ou melhor... sinta.
Furei a palma da mão de Spartacus com a ponta do brinco.
—Ai! O que em nome dos Deuses é isso?!
—Plano de contingência para o plano de contingência. Um feitiço de ligação. Então, falando duma maneira que o Dominus vai entender... você e Spartacus estão agora ligados. Vocês são um. Portanto, mesmo se eu deixar ele sair, se eu botar a barreira abaixo e tu levar ele pra Pompeia, cada ferimento que ele sofrer, cada vez que a lâmina do adversário cortar a carne dele... um talho exatamente igual vai abrir-se em você no mesmo lugar e na mesma hora. Então, se ele morrer na arena... você morre com ele. Entendeu?
P.O.V. Batiatus.
Maldita bruxa!
—Sua maldita bruxa! Eu sou Quintus Lentulus Batiatus!
—Quem?
Desgraçada!
—Sou o dono do maior Ludus de Cápua!
P.O.V. Hope.
Ai, isso é patético. O cara tá esperneando, berrando e chutando areia. Como uma criança mimada fazendo pirraça.
Aquilo tava me dando dor de cabeça. Então...
—Somnia!
Botei ele pra dormir.
—Bem, isso foi irritante. Ops.
Graças ao feitiço de ligação, botei os dois pra dormir.
—O que fez?
—Só estão dormindo. Vou botar a barreira da cela abaixo, mas o feitiço de ligação continua. Avise o seu Dominus. Vissera portus!
A barreira já era. Então acordei os dois. Mas, eles não me viram.
P.O.V. Doctore.
É incrível. O que acontece com um, acontece com o outro. Exatamente ao mesmo tempo. Spartacus conseguiu sair da cela, porém ele e o Dominus ainda eram um.
P.O.V. Batiatus.
Vim á Pompeia ver a luta. Meu campeão venceu e ainda peguei Solonius pelo pescoço. Ele assassinou o senador. E agora está apodrecendo debaixo da arena. Acabou morto, executado na arena pela lâmina de Spartacus.
P.O.V. Narrador Onisciente.
O que Quintius Batiatus nem podia imaginar é que enquanto ele comemora sua vitória... uma bruxinha esperta está dizendo a verdade á um Campeão Poderoso.
—Está dizendo que o Dominus matou minha mulher?
—Sim. Mas, não com as próprias mãos. Assim como eu, Batiatus vê você. Ele sabe que não é um reles escravo, um simples gladiador. Ele sabe o quão perigoso Spartacus realmente é. Você era um General, é militar, um bom estrategista e agora você tem educação romana. Fala latim, sabe como os romanos lutam, as ferramentas que usam. Tem acesso aos Dominus. E você enquanto escravo... é um mero objeto para eles. Por tanto, você não importa para essa gente. Na cabeça deles, você é apenas um vaso e vasos não tem orelhas. Ouça. Fique de boca fechada, mas de ouvidos abertos. E use a informação.
—Ele matou minha esposa! Descumpriu sua palavra.
—Eu sei. Mas, não pode deixar o sangue ferver agora. Precisa respirar fundo e engolir essa. Por enquanto. A vingança é um prato que se come frio. Se não for inteligente vai acabar morto e sua esposa terá morrido á toa. Seu sacrifício terá sido em vão.
P.O.V. Spartacus.
Ela sabia. Sabia sobre Sura.
—Á quanto tempo você sabia?
—Não foi difícil descobrir. Conheci homens como Batiatus a minha vida toda. Eu aprendi a jogar o jogo dos Tronos desde bebê. É sempre igual. O individuo tem o mundo aos seus pés e isso infla o ego. Eles pensam que nunca serão derrotados que Os Deuses ou sei lá, o Poder Maior está sempre ao seu lado. E na minha crença estão certos. O Meu Deus não abandona ninguém, nunca, porém ele tudo e sabe e tudo vê. E encontra um jeito de trazer o que foi semeado de volta.
—O que foi semeado?
—Aqui é sangue por sangue. Ódio, vingança e violência. Isso é tudo o que Roma conhece. Este lugar vai afogar-se no próprio sangue. Desde o escravo mais pequeno até o mais nobre senhor. Este ciclo infinito de ódio, de violência e loucura vai começar a engolir a cidade. E você é o Princípio.
—O Princípio de que?
—Do fim.
Por isso ela me protegeu. Ela sabia de tudo.
—Você me defendeu para que eu pudesse destruir Roma?
—Você não vai destruir Roma. Vai destruir Quintos Batiatus e será o Princípio do fim.
Ela montou uma fileira de tijolinhos pretos.
—Isso são dominós. Agora... dê um peteleco neste aqui.
Dei um peteleco e toda a fileira caiu em sequência.
—Vê? O Início do fim de Roma. Spartacus. Eles te tiraram tudo. Batiatus te manteve refém, te obrigou a coisas terríveis, humilhantes, descumpriu sua palavra, matou sua esposa, e muitas outras esposas. Você e seus amigos... os outros gladiadores inclusive Varro não significam nada para eles. Para eles vocês são ouro em forma de carne e sangue. Animais que são mandados pra serem abatidos. Então, me diga... Spartacus... qual é o seu preço? Quanto você vale? Você é um animal ou um guerreiro?
P.O.V. Hope.
Vi as chamas do ódio no olhar dele. Que Deus me perdoe. Eu não desejo mal a ele, juro que não, mas Roma deve começar a cair.
E eu estava errada sobre os bruxos time-walkers. Fomos criados para interferir. Ás vezes salvar alguém, ás vezes condenar alguém. Somos o peteleco que derruba os impérios e a base sob o qual os novos são construídos. A chama que inflama e a água que iniciam e apagam os incêndios. Literalmente mantenedores do equilíbrio.
Não deixamos que os humanos fiquem muito tempo no Poder, que mudem coisas antes da hora e promovemos as mudanças quando necessário. Tudo isso das sombras da humanidade.
P.O.V. Spartacus.
Eu matei Solonius na arena e ele morreu sabendo que o seu amigo iria atrás dele. Decepei lhe a cabeça e coloquei sob a espada mostrando para o Dominus. É claro que ele não percebeu que estava basicamente dizendo... você é o próximo.
P.O.V. Hope.
Eu odeio ter que fazer isso. Mandar pessoas para a morte, ter esse poder de decidir quem vive e quem morre é... muito. Corrompe qualquer alma. Ninguém deveria ter este tipo de poder. Rezo á Deus todo dia para não me deixar sucumbir a escuridão, não deixar isso me subir á cabeça. Eu queria deixar um legado diferente do de Aro. Queria que o sobrenome Volturi deixasse de ser sinônimo de devastação e morte.
Ter que lidar com política e com a histeria humana é um pé no saco. Já melhorou bastante. A poeira dos humanos que morreram na lua cheia baixou. Mas, sinto que em algum lugar... as coisas estão esquentando.

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