Notas iniciais
Olá, pessoal *.* como vão? Tudo sucesso? Alguém mais ai surtando com a estréia fofíssima de Love Stage? *.* Mais uma vez, eu agradeço de coração todo mundo que comentou a fic e que a favoritou s2! Me deixa muito feliz saber que estão lendo! ^^ Enfim, sem delongas, vamos ao capítulo! Ele ficou um pouco menor do que os anteriores, mas, em minha defesa, digo que ele fez um montão de sensações diferentes passarem por mim e eu espero, sinceramente, que eu tenha conseguido passar um pouquinho disso para vocês aqui! Ahhh, to falando demais! Chega! Chega! Espero que gostem! *.* Beijo =*, Yuki

Ímã

“Eu não me importaria se você ficasse”

Essas palavras rodavam repetidamente em sua mente, impedindo-o, por mais que se esforçasse, de pensar em qualquer outra coisa.

“Eu não me importaria se você ficasse”

Era absurdo.

Era absurdo, apenas.

Era absurdo, sem mais.

Absolutamente absurdo que aquelas palavras ecoassem na sua cabeça com a voz grossa e limpa de Shizuo.

Elas não soavam como ordem, não eram um “Fique” ou “Eu quero que você fique”. Se assim fossem, seriam ruins, muito ruins. Mas, da maneira como Shizuo as proferiu, como uma constatação, como uma proposta aberta a Izaya, como se ele pudesse simplesmente aceitar ou recusar de acordo com sua vontade, era, definitivamente muito mais do que ruim: era inaceitável.

“Eu não me importaria se você ficasse”

Shizuo, definitivamente, não era humano. Nenhum humano faria esta proposta a Izaya.

Izaya amava a todos os humanos, achava-os extremamente interessantes. Mas, mesmo que os observasse insistentemente, nunca era olhado de volta, nunca se reconhecia neles. Por mais que se aproximasse deles e se relacionasse com eles, nunca sentia empatia nenhuma, e nenhum deles sentia empatia por ele. E este era um fato inegável.

Não que ele não se divertisse com esta relação. Os seus queridos humanos eram surpreendentemente divertidos. Ele não se importava, portanto, com a distante ligação entre eles. Na verdade, até a preferia. O olhar de fora permitia que ele os pudesse ver em sua plenitude, perceber fatos antes mesmo que eles se dessem conta e manipulá-los de acordo com sua vontade. Izaya estava plenamente satisfeito com essa relação.

Sentou-se num banco de uma praça próxima ao apartamento do loiro. Sentia-se incapaz de voltar para seu próprio apartamento, pelo menos, até colocar em ordem seus pensamentos.

Pôs-se a pensar nos seus relacionamentos com humanos, com os poucos que haviam se aproximado voluntariamente dele.

Seu primeiro choque foi ao conhecer Kishitani Shinra.

Shinra foi o primeiro humano que se aproximou dele, ainda no colégio. O então estudante era um pouco diferente dos outros, então, ver suas reações era ainda mais interessante. Ainda mais porque ele sabia que era uma relação de dois lados: Izaya e Shinra observavam-se mutuamente, interessadíssimos, como quem encontra um espécime raro. Mas, ainda assim. Shinra não era como ele. Shinra era estranho, mas, de toda forma, ele ainda era um humano comum, previsível como todos os outros.

Na mesma época, aproximou-se também de Kadota. Ele também era interessante. Tinha uma integridade que não era muito comum em humanos. Mas, mesmo que tenha se tornado um de seus humanos preferidos, a distância ainda permanecia.

Seus olhos brilharam, portanto, quando ouviu o primeiro boato sobre um rapaz altamente destrutivo a solta. Ele era diferente, aparentemente, dos outros humanos, ainda mais que o estranho Shinra ou o íntegro Kadota. Os próprios humanos não o pareciam reconhecer como parte deles, chamando-o “monstro”.

Quando finalmente o conheceu, sentiu-se feliz como nunca. Ele era selvagem e imprevisível, violento e fácil de provocar, mas que, contraditoriamente, parecia ser alguém legal, protetor e até meio inocente.

Shizuo era como ele: diferente. Inicialmente, foi isso que o aproximou dele.

Quando mais se aproximava dele, entretanto, mais interessante Shizuo ficava. Ele sentiu pela primeira vez como era lidar com alguém parecido com ele. A fixação foi imediata: ele não se cansava de ver como Shizuo era peculiar, humanos comuns não chegavam sequer perto de serem tão interessantes quanto o loiro. Izaya fazia de tudo de provoca-lo cada vez mais, ver cada vez mais de suas expressões e reações, manipulá-lo cada vez mais, leva-lo ao limite.

Isso porque, ao fazer isso, também provocava alguém que nunca antes tinha conseguido provocar: ele mesmo.

Izaya não saia intocado das provocações com Shizuo, Izaya não o manipulava a seu bel-prazer. Izaya também se forçava e se levava ao limite quando se tratava de Shizuo. Por isso nunca poderia deixar de provoca-lo, Shizuo era diferente dos outros. E sendo assim diferente, fazia-o sentir-se diferente também em comparação a quando lidava com outras pessoas.

Se antes suas relações não tinham empatia ou sentimento algum, agora ele tinha algo. Tinha um sentimento que passara pelos dois como uma corrente elétrica: ódio mútuo.

Com o tempo, porém, percebeu o quanto ele e Shizuo também eram diferentes entre si. Shizuo era extremamente simples: se tinha fome, comia; se sentia raiva, batia; se amava (como, por exemplo, com Kasuka), protegia desesperadamente. Shizuo não tinha filtros, tudo saia direto dos seus instintos pro seus nervos e então para seus punhos. Izaya, ao contrário, era complicado, nada era o que parecia quando se tratava dele. Sempre tinha algo por trás de suas ações. Izaya era opaco. Shizuo era transparente, tão transparente que ficava invisível. Izaya sentia que não podia tirar seus olhos dele, o que era uma tarefa difícil dada a transparência e imprevisibilidade de Shizuo. Mas, ainda que fosse difícil manter seus olhos nele, não podia perder nenhuma de suas ações interessantes, não podia perder nenhuma de suas sinceras expressões.

Exatamente por ser tão sincero, era fácil provoca-lo. Descobriu, observando Shizuo, que aquela era a forma mais efetiva de mantê-lo por perto. Shizuo, por mais contra que fosse, não era capaz de resistir à sua natureza violenta e deixava-se levar pelas provocações, em um ciclo que já durava anos.

Izaya afirmava convicto, entretanto, que a curiosidade de um e a natureza do outro eram o que os ligava. Ele sustentava com afinco que a única relação entre eles era a de ódio mútuo.

Qual não foi sua surpresa, portanto, ao ouvir aquelas palavras deixarem despreocupadamente os lábios de Shizuo, ressoando repetidamente pelo quarto.

De todas as reações de Shizuo, essa foi a mais inesperada. De todas as expressões de Shizuo, esta foi a mais chocante.

Shizuo sempre arrumava uma forma de surpreendê-lo e prendê-lo ainda mais.

Shizuo era, definitivamente, um monstro.

Mas, ainda que fosse imprevisível, Izaya tinha que reconhecer que alguns indícios, algumas pontas soltas, haviam sido, desde o começo, deixados. Ele devia ter imaginado que algo assim aconteceria. Ele já vira aquele padrão antes. E não poucas vezes.

Carinhos, abraços, beijos, risos, preocupações, pedidos... ele conhecia este padrão.

Mas, até o último instante, não pode perceber nada.

Até que aquelas palavras absurdas deixaram os lábios de Shizuo, ele não percebera nada.

Passou novamente a cena em sua mente.

Eles estavam transando, finalmente, depois de Shizuo tê-lo provocado até quase a loucura. Izaya estava excitado como nunca ficara antes. Mais uma vez, admirou-se perante Shizuo, nunca pensou que ele pudesse agir daquela forma e, por mais que não quisesse, admitia que ele estava terrivelmente sexy.

Ele lembrava-se como a raiva por estar sendo conduzido por Shizuo o tomava por completo, mas, ainda assim, ele sentia-se malditamente preso a cada uma das palavras autoritárias ditas, a cada um dos beijos e mordidas, a cada uma das investidas.

Apertou os punhos e remexeu-se dolorosamente no concreto do banco da praça.

Pela primeira vez, dentre todas as outras que eles tinham transado, ele sentira-se plenamente tomado por Shizuo.

A opinião dele sobre sexo sempre fora a de que quem sentisse mais prazer seria, irremediavelmente, o mais suscetível, o elo mais fraco.

E, portanto, sequer havia hesitado sobre as posições que cada um assumiria quando pensou em fazer sexo com Shizuo. Izaya, obviamente, seria aquele que “recebe”. Essa era a sua forma de permanecer no controle. Essa era sua forma de se manter sobre controle. Ele sabia que doeria, e, se doesse, ele poderia sustentar-se. A dor seria a sua ligação com sua sanidade.

Agora, perguntava-se porque diabos desde o início ele sentia medo de que Shizuo fosse tirar sua sanidade, tanto, que, desde o começo, precisou traçar medidas para se proteger disso.

Quase ria de sua própria inocência.

Sua medida fora completamente inútil. Dor não era nem de longe o que o tomava quando transava com Shizuo. Mesmo quando doía, mesmo com Shizuo apertando-o e enterrando-se com força dentro dele, mesmo com Shizuo mordendo-o, mesmo que ainda agora sentisse desconforto, sabia dolorosamente como a dor não era, nem de longe, o que mais sentia com Shizuo.

Cruzou as pernas e tamborilou os dedos da mão direita nos joelhos.

“Aquela merda”.

O último beijo invadiu sua já conturbada mente.

Ele irritava-se ao pensar como ele precisou daquele beijo. Precisou desesperadamente.Seu corpo gritava e sua língua formigava por ele.

Lembrava-se como ficara louco com a provocação de Shizuo, quando o loiro aproximou os lábios dele mas não o tocou. Lembrava-se da frustação. Do anseio desesperador por tocá-lo, por sentir novamente aqueles lábios nos seus, e da decepção abissal ao não senti-los.

“-Bem que você queria, certo?!”, repetiu mentalmente as palavras que lhe foram ditas, irritando-se ainda mais com o sarcasmo por trás delas.

Fora esta provocação que o levara a, no último instante, quando estava prestes a gozar, puxar Shizuo contra si e beijá-lo. Era sua vingança. Era sua reação de “eu posso te beijar quando e o quanto eu quiser”. Não esperava, entretanto, que aquele beijo seria o fim para Shizuo, fazendo-o gozar também.

“Era minha obrigação ter descoberto!”, pensou irado.

Recriminava-se. Gritava a si mesmo que deveria ter levantado no mesmo instante e ido para casa. Assim, quem sabe, não teria evitado ouvir aquelas palavras absurdas de Shizuo. Mas, ainda assim, deixou-se ser carregado por Shizuo até a cama, deixou-se ser pousado gentilmente nos lençóis.

Mas quem desconfiaria? Quem pensaria em algo tão absurdo como aquele? Quem pensaria que Shizuo diria algo como aquilo?

Preso em seus pensamentos, não percebeu uma figura pequena e magra se aproximando.

– Orihara Izaya! Há quanto tempo, né?!

Izaya virou seu rosto em direção à voz, encarando a garota parada em frente a si. Mesmo conturbado como estava, não precisou de muito esforço para lembrar-se daquele semblante perdido que o encarava com olhos curiosos. Afinal, foram aquele mesmo semblante perdido e olhos curiosos que o haviam feito aproximar-se dela naquele dia na estação de trem. Por um momento, pensou que era uma grande ironia — daquelas que só a vida é capaz — fazê-lo encontrar justamente com a garota que o ajudara a aproximar-se daquela forma de Shizuo.

– Yui-chan. Nem tanto tempo assim. – limpou seus pensamentos confusos e respondeu irônico – Resolveu que quer um segundo encontro?

Yui o ignorou e sentou-se ao seu lado.

– Yui-chan, ninguém disse que podia se sentar. – disse sem paciência. Não conseguia agir normalmente. Naquele momento, não era Saga Yukio, o paciente garoto do interior, mas também não era Orihara Izaya, o informante irônico. Ele não conseguia ser nada naquela hora, não conseguia manter postura nenhuma. Odiava admitir, mas estava totalmente desgovernado.

– Não preciso de sua permissão pra nada. Na verdade, se tem alguém aqui que deve algo à outra pessoa é você, Orihara.

– Suzuki-san, – disse com a voz cansada, exausto demais para manter seu papel e seu tom sarcasticamente simpático – apenas diga o que quer e vá embora.

– Explicação. Uma boa e agora. – disse a garota decidida. Ele não se lembrava de ver aquela expressão decidida no rosto dela naquele falso encontro que tiveram para provocar Shizuo. Se tivesse visto, talvez a tivesse observado mais atentamente naquela noite no Russia Sushi.

– Ok. – disse ele abrindo um sorriso malicioso. “Talvez jogar um pouco com ela me ajude a distrair um pouco”, pensou – Eu bolei um plano pra irritar Shizu-chan e pra isso precisava de alguma garota idiota e perdida. Achei a garota. Que a propósito era você. – piscou um olho pra ela. – Irritei Shizu-chan e descartei a garota. Pronto. Plano concluído. Sucesso.

Olhou para ela, que continua a olhá-lo atentamente.

– Só não contava que essa garota fosse tão idiota que viria atrás de mim novamente. – disse terminando sua narração. “E não contava que Shizu-chan fosse se declarar daquele jeito estranho.” – acrescentou em sua mente.

– Entendo... – suspirou Yui ao perceber que Izaya havia terminado de falar – Mas isso eu já sabia. – Izaya arregalou os olhos para a garota. Estava surpreso, ela não parecia brava como esperado, parecia, antes de tudo, curiosa. – Quero saber o resto da história.

Ele ainda a olhava chocado. Primeiro Shizuo, agora ela. Aquele era, definitivamente, um dia estranho.

Talvez sentindo que devia mais explicações a Izaya antes de ouvir dele o resto da história, Yui continuou:

– Eu fiquei brava. Realmente! Bastante brava! Você foi um imeeenso canalha! – ele riu desse início de explicação, mas não a interrompeu – No começo, pensei sinceramente em arranjar uns caras pra bater em você. Na verdade, até cheguei a tentar contratar alguém...

– Mas ninguém topou, certo? – ele perguntou malicioso. O relato de Yui estava sendo realmente efetivo em distraí-lo dos pensamentos sobre Shizuo que o atormentavam anteriormente.

– Cala a boca... – ela riu do tom orgulhoso dele – Não, ninguém topou. Todo mundo parecia realmente assustado com a ideia de ir contra você. Nunca pensei que você fosse tão influente por aqui, mas, definitivamente, ninguém queria se colocar no seu caminho. Até teve um cara que se mostrou particularmente interessado em te bater, mas mesmo ele não topou.

Ela entrelaçou os dedos das mãos no próprio colo, parecendo envergonhada.

– Mas eu estava realmente brava e não conseguia aceitar um “não” como resposta. Tinha que ter alguém em Ikebukuro capaz de ir contra você... Foi quando, após perguntar pra bastante gente, cheguei ao nome mais óbvio possível: Heiwajima Shizuo. Eu já tinha ouvido falar um monte sobre vocês dois... Mas eu realmente não tinha detalhes sobre nenhum de vocês. Mas da mesma forma que ninguém aceitava te bater, ninguém queria falar sobre Heiwajima-san também. Então demorei um pouco para descobrir informações sobre ele, além daquelas que todo mundo já sabe, sobre ele ser forte, perigoso e tal.

O ar envergonhado havia sumidos dos olhos dela, trazendo de volta o olhar curioso do início da conversa. Olhar curioso que sondava Izaya intensamente.

– Ele é um homem loiro, alto e que se veste de bartender. – descreveu ela, levantando os dedos das mãos enquanto enumerava as características — Depois de escutar a descrição dele, me lembrei perfeitamente que naquele dia você brigou com um homem assim no Russia Sushi, chamando-o de “Shizu-chan” e me dizendo algo sobre ele ser sua “companhia preferida”. – ela concluiu, sorrindo vitoriosa, antes de continuar — Heiwajima-san, pelo que escutei, é o único capaz bater de frente contigo e te machucar. Bom, como você mesmo disse, eu não sou muito esperta ou atenta, mas não sou uma idiota. Ao assumir que o único que é capaz de te machucar é Heiwajima, tive que considerar também o porquê de vocês nunca terem se matado e o porquê de você continuar a provoca-lo. E, segundo você mesmo, o encontro comigo era para irritá-lo. Então... Por que diabos, Orihara, você queria irritá-lo?

Izaya olhava-a incrédulo. Tinha em sua mente milhões de respostas para aquela pergunta: “Por que Shizu-chan é interessante!”, “Por que Shizu-chan tem as melhores reações possíveis!”, “Por que Shizu-chan é melhor quanto mais irritado estiver!”. Yui não esperava, porém, nenhuma resposta.

– Inicialmente, pensei que era só porque você é irritante e Heiwajima é facilmente irritável. Então ele era uma vítima perfeita. – Izaya riu da resposta simples dela – Mas depois percebi que a forma como você tinha resolvido irritá-lo era realmente estranha. Jogar facas em alguém para irritá-lo: ok! Culpar alguém por um crime que não cometeu para irritá-lo: meio doentio, mas ok! Sair em um encontro com uma garota para irritá-lo... – Yui fez uma expressão de repreensão – MUITO estranho.

– Eu sei aonde quer chegar com isso, Yui-chan... – Izaya deu de ombros e desfez sua expressão chocada – Mas...

– “mas” nada! Me deixa terminar, Orihara. Já disse que você me deve isso, então fica quieto e me escuta.

– Eu não devo absolutamente nada. Na verdade, não sou obrigado a escutar nada de você. Por que não vai ler um romancezinho mamão-com-açúcar e se apaixonar por desconhecidos e me deixa em paz. – Izaya fez menção de levantar-se, mas foi impedido pela mão de Yui, segurando-o pelo braço.

– Sim, eu leio romancezinhos mamão-com-açúcar... Você, aparentemente, deveria lê-los também e parar de ser tapado. – insultou, levantando a voz e apertando os dedos ao redor do pulso do informante.

– Suzuki Yui, não me lembrava de você ser tão burra – disse sorrindo e desvencilhando-se do aperto, para, posteriormente, pegar o canivete e girá-lo entre os dedos. – Você sabe o motivo pelo qual ninguém aceitou bater em mim, certo?

– Sim. Aparentemente, você pode acabar com minha vida e tudo mais, e provavelmente está me ameaçando agora. – ela respondeu baixando novamente a voz – Mas, eu não acabei ainda... de verdade! E cheguei numa conclusão que me faz não ter medo de você!

Izaya arregalou os olhos. “Oh, essa é uma informação nova!”, pensou divertido, voltando a sentar-se. “Uma conclusão que a faz não ter medo de mim... Parece interessante”.

– Conseguiu minha atenção, Yui-chan. – declarou.

– Ótimo. – concluiu com um sorriso orgulhoso – Como eu dizia, ler romances é uma coisa boa. Às vezes, de tanto ler, a gente percebe algumas coisas, alguns padrões... Enfim, eu pensei muito sobre aquele dia que você me deixou no Russia Sushi para correr atrás de Shizuo e teve uma coisa que nunca consegui digerir: por que Shizuo correu? – ela fez uma pausa, sondando o rosto de Izaya, que permaneceu impassível – Como eu disse, mesmo que eu não conhecesse nenhum de vocês pessoalmente, eu ouvia muito sobre os dois. Eu sei, por exemplo, que vocês estão sempre tentando matar um ao outro e destruindo Ikebukuro no processo. Então, por que Heiwajima Shizuo saiu do Russia Sushi ao invés de brigar contigo, Orihara Izaya?

Izaya permanecia quieto. Ele mesmo não sabia, até então, a resposta para esta pergunta. Agora, ele sabia o porquê.

Franziu o cenho.

Se, inicialmente, a conversa com Yui o ajudara a esquecer-se sobre os acontecimentos conturbados sobre Shizuo, agora, ela só o atrapalhava ainda mais, fazendo-o recordar-se mais uma vez.

– Yui-chan, – disse forçando um sorriso – me enganei. Na verdade, não estou nem um pouco interessado no que você pode querer dizer. Como disse, eu não te devo merda nenhuma. Como sou bonzinho... – disse alargando o sorriso, já não mais forçado – te aviso que estou te ameaçando e que você deveria, verdadeiramente, parar de me encher.

Yui o fitou longamente e suspirou, talvez se convencendo de que não poderia dizer mais nada sem correr algum perigo.

Izaya deu-se por satisfeito com esta reação, levantou-se e pôs a andar em busca de um taxi, intencionando voltar a seu apartamento. Quando estava já há alguns metros distante de Yui, porém, ouviu seu nome ser chamado.

– Izaya... – gritou a garota, levantando-se do banco -... você quer saber o motivo pelo qual eu não tenho medo?

Izaya ponderou sobre. Decidiu que se a garota se aproximasse novamente, iria embora, mas, se ela apenas quisesse dizer, ele poderia escutar esta última – e valiosa – informação, já que esta era justamente a razão que o fizera tentar ouvir a garota. Yui pareceu entender o recado e, sem se aproximar, disse elevando a voz apenas o bastante para que o informante a ouvisse:

– Se a pessoa para quem você mais fez coisas ruins, a pessoa a quem você mais prejudicou... — disse num só fôlego –... Se a pessoa que tem o pior de você te ama, eu acho que, provavelmente, você não é assim tão mau. Se Shizuo te ama, talvez você não seja tão ruim.

E era isso.

A conclusão que Izaya evitara... a palavra que Izaya evitara com todas as suas forças saiu sem sacrifício algum dos lábios de Yui e o atingiu diretamente: “Shizuo te ama”.

Virou-se e continuou seus passos em direção ao seu apartamento sem responder a Yui.

E era isso, então.

Sempre foi, desde o início.

Era isso. Só isso. Tudo isso.

Porque Shizuo era capaz disso e ele sempre soube. Sempre soube que Shizuo era capaz de amar, ao contrário do que pensavam todas as outras pessoas. Ao contrário dele, que não era capaz de amar alguém em particular daquela forma.

Sempre fora daquela forma.

Shizuo, mesmo que o negassem esse direito, era mais humano que muitos outros. Mais humano que Izaya.

Era isso o que irritava Izaya desde o início.

Shizuo, mesmo que lhe negassem veementemente, era humano.

Izaya, mesmo que parecesse perfeitamente normal, não se sentia assim.

E assim, Izaya, que era normal, não era capaz de sentir-se daquela forma. E Shizuo, que era diferente, agia humanamente.

Izaya, que amava os humanos, não era amado de volta e sequer era capaz de amar alguém em particular.

Shizuo, que era considerado um monstro, recebia o amor de diversos outros humanos. Mesmo sendo um monstro, era capaz de conseguir o reconhecimento que era negado a Izaya.

Foi isso que sempre odiou em Shizuo.

A incapacidade de Shizuo de se ressentir, a capacidade que ele tinha de passar por cima das coisas e conseguir o reconhecimento de Tom, de Kasuka, de Simon, de Kadota, de Shinra, de Celty. Capacidade de conseguir o amor deles. Capacidade de fazer com que relevassem sua força monstruosa e se aproximassem dele.

Shizuo era o seu contrário, pensava o informante entrando em um taxi e ditando ordens sobre as direções de seu apartamento.

Era isso o que o aproximava, curioso, de Shizuo e isso o que o afastava, sem qualquer afinidade, dele.

Eles eram como imã. Repelindo-se de um lado, atraindo-se de outro. Quando parecia impossível qualquer coisa que os deixasse perto, quando mal aproximavam-se sem serem imediatamente repelidos, algo acontecia e virava tudo de ponta-cabeça. Assim, de ponta-cabeça, olhando por outro lado e sob outra perspectiva, eles atraiam-se e pareciam inseparáveis.

Essa era a relação: repeliam-se como opostos, para depois atraírem-se, e depois repelirem-se novamente, num eterno retorno.

Um polo negativo, outro positivo.

Izaya até podia entender porque se atraiam tanto: eles eram o oposto um do outro.

Um podre por fora, outro podre por dentro; um lutando contra sua loucura, outro abraçando-a; um tentando esconder-se, outro tentando destacar-se. Yin e Yang. Dia e noite. Eram opostos. Eram o contrário. Mas, ainda assim, não podia deixar de pensar que, dois polos formam um imã, Yin e Yang unem-se em equilíbrio e dia e noite são dois lados de um mesmo fenômeno.

Desceu do taxi e dirigiu-se a seu apartamento, adentrando-o e jogando-se em sua poltrona.

Ser assim tão diferentes foi o que sempre os aproximou, desde o início.

Não é sempre que se encontra alguém que é seu avesso.

“Eu não me importaria se você ficasse.”, a frase ecoou novamente em sua cabeça.

Se ele ficasse eles seriam o que? Seriam um todo? Completariam-se mutuamente ou se repeliriam incessantemente?

“Se Shizuo te ama, talvez você não seja tão ruim.”

As palavras de Yui retorciam sua mente.

Pela primeira vez em sua vida, sentia-se incapaz de lidar com a quantidade de informação que recebera.

Ele, o informante de Ikebukuro, encontrava-se estático em sua poltrona, fitando as mãos apoiadas na mesa, incapaz de saber qual o próximo passo.

O que significaria reconhecer a confissão de Shizuo?

O que diabos vinha com a confissão?

Significaria que ele não é assim tão inumano? Significaria reconhecer a humanidade em Shizuo? Significaria que ele, afinal, sentia algo além de curiosidade e ódio por alguém? Significaria que finalmente teria ele encontrado empatia?

Mas, afinal, do que diabos Shizuo gostava nele?

Bateu com força as mãos outrora apoiadas na mesa.

Ele odiava a forma como estava agindo atipicamente. Odiava a forma como Shizuo achava que podia lhe dizer coisas despreocupadamente.

Pegou seu celular no bolso e o encarou firmemente antes de discar um número.

Ele conseguira aquele contato há algum tempo e sabia que talvez não fosse uma boa ideia ligar para aquela pessoa. Ela, dentre todos os humanos que conhecia, lhe parecia particularmente podre. Mas, naquele momento, “podre” era exatamente o que precisava. A voz atendeu do outro lado da linha, surpresa ao ouvir Izaya responder.

– Quero um serviço seu. – disse simplesmente e ouviu uma risada satisfeita do outro lado da linha, incentivando-o a prosseguir. – O ator Yuhei Hanejima. Acha que consegue passar pelos seguranças dele? – mais uma risada e então a confirmação de aceite do trabalho.

Desligou o telefone e o encarou em suas mãos.

Não era um direito de Shizuo virar seu mundo de ponta-cabeça.

Notas finais
Olá de novo, gente! Tudo bem ai? Muitos corações partidos? Muita gente querendo partir a cara da autora da fic? Mais uma vez, muito obrigada a todos os que leram até o fim! Beijos, Yuki