Depois de um sonho
16 Pontas soltas
Notas iniciais
Pontas soltas
– Não vale a pena. Você está tão fodido que nem vale a pena. Eu nem sinto vontade de te matar, na verdade. Olha pra você... dá pena... Acho que não preciso nem dizer, mas se vier atrás de mim de novo, eu te mato, Orihara Izaya.
Shizuo virou as costas para o homem caído no chão e dirigiu-se ao portão, sabendo que era seguido de perto por Kasuka.
– Shizuo... Eu não pude fazer nada porque estava assustado... mas... Izaya tinha um plano, eu percebi... ele...
– Eu sei, Kasuka.
Sem olhar para trás nem por um segundo, Heiwajima Shizuo deixou o galpão.
****
30 minutos antes
Shizuo
Após o esclarecimento do local e a determinação do horário para a entrega de Kasuka, Shizuo desligou o telefone e, num só salto, começou a caminhar até a porta.
– Espera ai, Shizuo... tem algo muito errado...
– Tem sim! Aquele desgraçado do Izaya sequestrou meu irmão. – rosnou para Shinra, fazendo o médico recuar pelo tom do guarda-costas — Eu o matarei.
Shizuo saiu porta afora.
Naquele momento, não havia em seu coração sequer resquícios da incerteza que sentira sobre seus sentimentos por Izaya... Agora tinha certeza: ele o odiava.
Por mais que se esforçasse, Shizuo não conseguia manter-se calmo. Enquanto dirigia-se ao galpão, sentia sua acelerada respiração vibrar violentamente seu peito como se, realmente, houvesse dentro dele um desesperado monstro: um monstro que não poderia ser contido de nenhuma forma e que não descansaria enquanto não provasse o sangue de Izaya.
O guarda-costas tentava manter-se focado em Kasuka e na necessidade de ajuda-lo, mas seus pensamentos deslocavam-se insistentemente a imaginar Izaya inerte no chão e seus punhos manchados de sangue. Raiva não era o suficiente para descrever o que sentia Shizuo: ele se sentia humilhado, ultrajado e estúpido. Estúpido: essa bruta palavra se encaixava perfeitamente na razão do descontrole de Shizuo. Estúpido. Havia sido ele a se declarar para Izaya, ele era o culpado por ousar apaixonar-se pelo ser-humano mais podre que conhecia, e agora sofria as consequências disso. E era exatamente por este motivo que Shizuo sentia uma raiva sem precedentes possuí-lo: a raiva não era só de Izaya, Shizuo não podia deixar de direcionar a si mesmo uma parte dela. Fora ele, também, quem colocara Kasuka em risco. Ele nunca imaginou, porém, que Izaya pudesse ir tão longe e envolver Kasuka. “Eu superestimei ele, é minha culpa também...”, era o pensamento que invadia dolorosamente sua mente. Mas atribuir a si mesmo uma parcela de culpa, longe de amenizar o ódio que sentia de Izaya, intensificava-o. A raiva que fazia todo o seu corpo tremer incontrolavelmente não poderia ser amenizada nem dividida: atribuir a ele e a Izaya a culpa não era dividi-la, mas somá-la.
“Você é um monstro, Izaya... Eu também sou um... Nada de bom poderia surgir disso”, pensava, “Mas Kasuka não é um monstro... ele não tinha nada com isso!”.
Ódio. Raiva. Decepção. Rejeição. Preocupação. Medo. Culpa.
E algum outro sentimento sem nome.
Tudo se misturava em Shizuo e o impulsionava a passos largos ao galpão informado por Izaya. O local não era longe, mas também não perto o suficiente para ser considerada uma caminhada leve, Shizuo, entretanto, sequer cogitara a possibilidade de subir em um taxi e percorrer o caminho de forma mais rápida e eficiente. Sua mente era incapaz de chegar a uma conclusão simples como “ir de taxi é mais rápido”. Mas, ainda que tivesse pensado em taxi, era inegável que o guarda-costas seria incapaz de manter-se quieto e sentado, aguardando: mover o corpo era a única forma que ele tinha de manter-se minimamente sobre controle, assim, ele colocou-se a caminho com passos fortes o suficiente para marcarem no chão. Cada passo que diminuía a distância entre ele e Kasuka, aumentava a estranha e dolorosa mistura de sentimentos que tomava seu peito, seus olhos nublavam-se e seus músculos tencionavam-se, fazendo-o sequer notar a distância percorrida.
Parou em frente ao galpão e apertou os olhos. Tentando controlar os sentimentos que tomavam seu peito e ignorando quaisquer sensações que insistissem em invadi-lo, deu o último decidido passo e abriu a porta do galpão, sentindo-a sair de seus trilhos devido à força empregada.
Olhou para dentro do galpão e seu coração bateu uma última forte vez antes de parar por completo. Shizuo estancou no lugar e encarou Kasuka amarrado a uma cadeira e Izaya ensanguentado no chão.
– Heiwajima? – o som de seu nome sendo chamado despertou-o de seu momentâneo transe, fazendo seu sangue voltar a correr por suas veias. A voz que o chamava não era, porém, de nenhum dos dois que havia notado antes. Seguindo a procedência da voz, encontrou um terceiro homem no galpão, alguém que até então não tinha percebido a presença. O homem estava parado, diante do ensanguentado Izaya.
– E você é? – rosnou para ele, fitando-o diretamente, mas, ainda assim, mantendo Kasuka e Izaya em sua visão periférica.
Mesmo sem entender direito a razão, Shizuo sentia seu corpo retrair-se em repulsa ao homem diante de si. O estranho sentimento sem nome que o perseguia enquanto se dirigia até o galpão atingia níveis elevadíssimos, sobrepondo-se a sua raiva e culpa, deixando-o apreensivo. O guarda-costas desviou seus olhos do homem e direcionou-os primeiro a Kasuka e depois a Izaya e então de volta a Kasuka. Algo nele gritava aflitivamente que havia um erro ali, mas, por mais que encarasse a situação diante de si, não podia encontrar o fator que tanto estranhava. Olhou novamente o homem, procurando nele o que estava deixando escapar e encontrando ali parte da resposta.
“Acalme-se, Shizuo...”, pedia a si mesmo, mesmo que soubesse que iria explodir a qualquer momento.
– Ah! Eu explico, Heiwajima-san. – o homem voltou a dirigir-se a ele, intimidado pela postura de Shizuo.
– Quem, caralho, é você? – Shizuo insistiu, nervoso pela falta de resposta do outro. Ele sabia que aquele homem era parte do problema, mas a angústia por sentir que não era a maior parte ou a mais significativa irritava-o.
– Ueno. – o homem respondeu a ele e Shizuo sondou sua mente em busca daquele nome, mas, tinha certeza, eles nunca haviam antes se encontrado. O homem continuou – Eu fui contratado por este cara – o homem pisou com força em Izaya, que não reagiu ao contato. Shizuo franziu o cenho e contraiu os dedos das mãos – para sequestrar seu irmão. Mas eu não apoiei a ideia e resolvi quebrar o contrato e devolver o garoto a você. Como você pode ver, o seu irmão não está machucado.
“Acalme-se, Shizuo. Acalme-se”, sua mente gritava a ele. Shizuo sentia uma desesperada urgência em afastar aquele homem, tirá-lo dali. Ao olhar aquele homem parado diante dele com Izaya a seus pés e Kasuka a alguns metros a sua direita, Shizuo não pode evitar fechar suas mãos em punhos.
– Te matar. – resmungou, incapaz de se conter.
Shizuo não se interessava por quaisquer explicações que o outro estivesse disposto a dar. A única explicação necessária estava bem diante de seus olhos: Ueno era o único de pé. Izaya estava no chão e Kasuka estava preso a uma cadeira, o único impune era o homem de pé em frente a ele.
Ueno olhava-o aflito. Preocupado com a postura que o guarda-costas mantinha e com a última declaração proferida.
O guarda-costas assistiu os olhos de Ueno desviarem-se dele para Izaya e então seus pés empurrarem fortemente a cabeça do informante. Os olhos castanho-avelã arregalaram-se.
– Acorda, informante. Merda! Isso é hora para desmaiar?! Não serve para nada mesmo, maldito! O Heiwajima está aqui, não vê? – Ueno gritou para o moreno no chão, sem que nenhuma reação, entretanto, resultasse. – Heiwajima, Orihara era...
O que quer que Ueno planejasse dizer, porém, ficou preso em sua garganta ao ver Shizuo arrancar uma barra de ferro de um contêiner há alguns metros de onde estavam e girá-lo em sua direção.
– Eu vou te matar. – declarou mais uma vez o guarda-costas e começou a se aproximar de Ueno.
Conforme se aproximava, Shizuo via desespero se espalhar pelo rosto de Ueno, que mantinha os olhos bem abertos fitando-o. Shizuo não conseguiria saber só de olhar, mas Ueno estava plenamente acuado. O torturador esperava muitas coisas do encontro com Shizuo. Ele bolara um plano perfeito em sua cabeça, que começaria com a explicação dos fatos de forma parcialmente adaptada, passando pela entrega de Kasuka e de Izaya ao guarda-costas e pela possível morte do informante, e terminaria com Shizuo indo para casa com o irmão e Ueno indo para casa com uma promessa de favor. Ueno, porém, definitivamente não esperava pela intensidade de Shizuo, que sequer esperava por suas explicações. Agora compreendia um pouco mais as insinuações de Izaya quanto a “lidar sozinho com Heiwajima Shizuo”. Mesmo que Ueno estivesse no controle até então, ele via-se recuando passo atrás de passo ao ver o guarda-costas aproximar-se dele com a barra de ferro na mão. O homem dos cabelos longos tentava, inutilmente, se convencer de que tinha todo o controle, que tinha o detonador, que tinha a bomba, que tinha o refém, que tinha dominado, lidado e manipulado o informante Orihara Izaya... mas nenhum destes fatos o deixava seguro o suficiente para encarar nos olhos o homem vestido de barman que se aproximava ameaçador.
O homem vestido de barman desconhecia os motivos que faziam o outro recuar, mas, ainda que soubesse, em nada mudaria suas atitudes. Heiwajima Shizuo não se preocupava com nada mais naquele instante, nem com o rapaz preso na cadeira com uma bomba presa junto às costelas – bomba que desconhecia a existência – nem com o homem coberto de sangue prostrado no chão. O loiro tinha a mente limpa, sentia instintivamente que não precisava saber nada, nada do que o outro pudesse falar ou explicar, nenhuma informação era válida ou bem-vinda, tudo o que precisava estava diante de seus olhos: o homem de pé com um rabo-de-cavalo era a única verdade, o peso da barra de ferro em suas mãos era a única prova que precisava para saber que era sua obrigação pôr aquele homem com o rabo-de-cavalo abaixo. Pôr abaixo o homem com o rabo-de-cavalo era a única verdade que, naquele momento, Shizuo conhecia e ele sentia pulsar em suas veias o desejo de fazer esta realidade acontecer.
O jovem amarrado à cadeira sumiu de sua visão periférica conforme avançava e o homem ensanguentado no chão já era passado na memória daquele que continuava a avançar impiedosamente sem tirar, nem que por um segundo, os olhos de sua presa. Shizuo era, naquele momento, todo instintos.
Seu avanço foi detido pela súbita parada de sua vítima que agora se encontrava acuada à parede do galpão, olhando-o confusa. Não pode evitar que um sorriso tomasse seu rosto antes de continuar o progresso da aproximação, antecipando qual seria a emoção que sentiria quando o acertasse com a barra de ferro que mantinha entre seus dedos e que já se moldava a eles tamanha a força empregada no aperto. Não pode evitar sentir-se frustrado, porém, ao ver que a vítima agora o encarava com mais segurança, como se percebesse um novo caminho que a levasse à liberdade.
– Pare! Escute. Eu tenho isso! Pare e me escute! – sua vítima, o homem com o rabo-de-cavalo o interpelava enérgico enquanto estendia a mão esquerda à frente, mostrando a Shizuo um pequeno objeto que segurava.
Oito segundos de confusão, apenas oito segundos de confusão antes de Shizuo perceber qual era o pequeno objeto que o homem diante de si segurava. Dois segundos, apenas dois segundos a contar a partir da percepção da natureza do objeto, foram necessários para que Shizuo retomasse a consciência, abandonando o transe anterior e a confusão subsequente, e fosse tomado por um novo sentimento de raiva. Uma raiva diferente, entretanto, da anterior originada em seus instintos e ignorante de seus sentimentos ou preocupações. Uma raiva que nascia desses mesmos sentimentos outrora esquecidos, uma raiva que olhava por e para os dois outros no galpão: o rapaz na cadeira e o homem ensanguentado no chão. Uma raiva que não era só dele, uma raiva que nada tinha a ver com a sua natureza violenta ou com seus ansiosos dedos que se forçavam brutalmente contra a barra de ferro. Aquela raiva parecia nascer diretamente em seu coração que pulsava dolorosamente bombeando sangue angustiado a todas as suas veias e preenchendo cada pedaço de si.
Fechou os punhos com força, sentindo a aflição correr até a ponta de seus dedos.
– Me ameaçando? – perguntou. Sua garganta engasgava-se, tornando difícil a saída de sua voz.
– Não ameaça, negociação! Deixe-me falar. – Ueno, ainda acuado, tentava fazer sua voz soar segura. – Solte isso! – afirmou apontando para a barra de ferro que Shizuo ainda segurava entre os dedos.
Shizuo o encarou de volta, em espera, expectante, mas não soltou a barra de ferro. Ueno o olhou por alguns segundos, mas, talvez sentindo que a espera de Shizuo era a melhor resposta que conseguiria, pensando-a positivamente em relação à ameaçadora aproximação anterior, continuou:
– O informante me contratou pra sequestrar seu irmão... – começou a narrativa que tinha sido interrompida minutos antes – Mas, como dito, eu não apreciei de todo a ideia. No início eu não sabia que o rapaz era seu irmão, mas, depois que descobri, cheguei à conclusão de que nada me prendia a este trabalho e que eu não tinha intenção alguma de fazer algo contra você. Não aceitaria o trabalho se soubesse que envolvia uma briga entre vocês dois. Assim, despois que percebi que este era o caso, pensei que se eu tivesse que escolher um lado, escolheria o seu. O informante é um desgraçado! Merece qualquer merda que venha a acontecer com ele... mas você... não tenho nada contra você. Nunca tive problemas com você e você nunca se meteu nos meus trabalhos. Assim, reverti a situação e peguei o informante. Pra isso, tive que usar isso... – Ueno pôs em evidência o detonador em sua mão e os olhos de Shizuo estreitaram-se um pouco ao fitá-lo – ... Mas nunca tive a intenção real de usá-lo. Orihara me disse que precisava do rapaz inteiro para negociar com você, para conseguir um favor... Então tive que usar isso para mantê-lo na linha. Mas, realmente, nunca intenção de usá-lo. – o torturador enfatizou a última frase de forma quase infantil e ridícula – Mas, sinceramente, se soubesse que o informante era tão fraco, eu sequer teria feito isso. Não precisei disso para colocar ele no lugar dele.
Shizuo mantinha os olhos presos no detonador na mão de Ueno e nada respondeu, mesmo que ouvisse atentamente cada uma das palavras ditas, sorvendo-as desesperadamente. Sua mente pulsava dolorosamente a tentar processar as palavras de Ueno e ele, aos poucos, ia peneirando estranhezas nelas.
Sem uma resposta do outro, o homem de rabo-de-cavalo continuou:
– Eu... eu sempre tive a intenção de te entregar isso tão logo o visse. E entregar o informante também. Acho justo que você o faça pagar por ter planejado contra seu irmão...
– Se...? – Shizuo o interrompeu, a voz raspando com esforço em sua garganta. Ele entendia o que aquelas palavras anteriores implicavam, ele sempre ouvia formulações como aquelas em seu trabalho, portanto, sua reação a elas foi imediata e impensada. “Eu sempre tive a intenção de te entregar...”, “Eu vou te entregar...”. Toda frase que começasse daquela forma implicava alguma condição ou justificativa e Shizuo sabia disso tão bem quanto sabia seu próprio nome.
– Não é um “se”, Heiwajima... – Ueno recuou com a tão assertiva pergunta do outro — ... Mas eu acredito que, como eu te apoiei nessa, você pode me apoiar também.
Ueno o encarava novamente, expectante.
Shizuo franziu o cenho e apertou novamente a barra de ferro entre os dedos.
“Acalme-se, Shizuo.”.
Shizuo queria impedir com todas as suas forças que sua mente vagasse para lugares complicados que o distrairiam de seu real objetivo: salvar Kasuka, mas não pode evitar que as dúvidas surgissem e que as complicações viessem, não pode evitar considerar o desconforto que sentia nas palavras de Ueno: Kasuka com a bomba sendo usado como meio de chantagem contra Izaya, Izaya machucado, sem revidar, Ueno dizendo que Izaya era fraco... Shizuo, mesmo que não se esforçasse nesse sentido, não podia deixar de notar a estranheza na narração de Ueno. Como alguém que perseguia e lutava contra Izaya há quase 10 anos, Shizuo sabia que Izaya era qualquer coisa, mas não era, definitivamente, fraco e fácil de lidar. Não podia evitar sentir-se incomodado, portanto, com a declaração: “Mas, sinceramente, se soubesse que o informante era tão fraco, eu sequer teria feito isso. Não precisei disso para colocar ele no lugar dele.”. Tudo o que fizera durante os últimos anos era lutar contra a impetuosidade de Izaya e colocá-lo em seu lugar, bem longe de Ikebukuro. Então, como um homem que recuava com a sua proximidade podia ter conseguido o que Shizuo tentara insistentemente durante anos? Como um homem que tremia ao dizer seu nome podia ter deixado Izaya naquele estado?
Shizuo desviou novamente os olhos para Izaya, procurando no corpo inerte no chão a justificativa para a aquela peça que não se encaixava.
E então, pela primeira vez desde que entrara naquele galpão, respirou fundo. Tão certeiro quanto o cheiro de Izaya invadiu suas narinas, a certeza sobre o que não se encaixava alcançou-o.
Aos poucos, tudo se encaixou, como se ao descobrir uma peça do quebra-cabeça, todas as outras se juntassem a primeiro como por um imã. Shizuo entendeu tudo: entendeu o que era o sentimento sem nome que o afligia durante todo o caminho, entendeu o que não se encaixava, entendeu porque odiava Ueno, entendeu porque não respirara fundo antes. E então, tão fácil quanto pôr a última peça no quebra-cabeça, Shizuo colocou em palavras tudo o que o afligia:
“Por que você não me deixou gostar de você?”
E pela primeira vez desde que tudo começara, desde que soubera do sequestro, desde que percebera que precisava ir atrás de Kasuka, percebeu o que realmente turvava seus sentidos e o fazia desesperado. Percebeu que, mesmo antes de pôr os olhos em Kasuka, Shizuo sabia que ele estava bem. Estranhamente, desde o início sentia que o irmão estava seguro, mesmo que, inicialmente, não compreendesse este contraditório sentimento e, exatamente por isso, não pudesse aceita-lo. Era estranho como ele, mesmo desesperado e bravo por causa da ligação de Izaya, em nenhum momento tivesse realmente pensado que Kasuka estivesse em real perigo, isso porque ele sabia que já teria enlouquecido se sentisse que algo aconteceria ao irmão. Mas, ainda assim, sentia um desespero e medo enormes, e, portanto, naturalmente atribuiu a existência deles ao sequestro de Kasuka e ignorou qualquer outro sentimento que o dissesse que não era esta a razão. Só agora, encarando a cena e sentindo como cheiro de Izaya se misturava ao cheiro de sangue, percebia que seu desespero nada tinha relação com a saúde física de Kasuka.
Shizuo sabia que agora, ainda mais do que antes, era necessário manter a calma. Em nada adiantaria pensar agora no porquê de Izaya estar machucado, ele sabia que se deixasse que naquele momento sua mente vagasse nessa direção, perderia o foco e perder o foco naquela situação seria imperdoável.
“Mantenha a calma, Shizuo”, ordenava a si mesmo.
Ao mesmo tempo em que lutava para impedir seus pensamentos de perderem-se, lutava também para evitar que seus instintos retomassem o controle, estimulados pelo cheiro de sangue que se misturava ao cheiro de Izaya.
Shizuo não era um homem de controle ou de planos, ele sabia que o melhor a ser feito era evitar pensar sobre as coisas. Assim, a única coisa que fez foi soltar a barra de ferro que segurava e estender a mão em direção a Ueno.
– Decidiu-se? – ouviu o outro perguntar, encarando sua mão estendida.
Mais uma vez, não respondeu a pergunta do outro, limitando-se a manter a mão estendida em sua direção. Ueno pareceu dar-se por satisfeito e, aproximando-se de Shizuo, pousou o detonador na palma da mão do loiro.
Shizuo encarou o detonador longamente antes de virar as costas a Ueno e caminhar até Kasuka. Pousou a mão livre na cabeça do irmão e, então, ajoelhou-se na frente dele, levantou sua camisa e tirou a bomba ali presa, tomando o máximo de cuidado possível para não ferir o irmão ao retirar as fitas adesivas. Após terminar com a bomba, lançou-a para longe de onde estavam, e, ainda de joelhos, deu a volta na cadeira e desfez os nós das cordas que mantinham as mãos de Kasuka presas às suas costas. Terminando com os nós, levantou-se e tirou a venda dos olhos de Kasuka, o pano da venda juntou-se a outro que já se encontrava no pescoço de Kasuka e que Shizuo considerou que fora, antes, uma mordaça.
Sentiu os olhos de Kasuka em si, assustados, paralisados e confusos.
– Você está bem? – perguntou baixinho ao irmão, mas não esperou qualquer resposta do jovem, sabia, pelo olhar dele, que Kasuka estava em choque.
Pousou mais uma vez a mão na cabeça de Kasuka e virou-se novamente para Ueno, para pôr-se a espera do próximo passo do torturador, ao colocar seus olhos sobre o outro, porém, arrependeu-se por ter soltado a barra de ferro: Ueno apoiava um dos pés em Izaya.
– Você se importaria que eu me divertisse um pouco mais? – perguntou com um sorriso sádico no rosto — Eu sei que você quer matá-lo com suas próprias mãos! Eu juro que não vou mata-lo... só quero mais um pouquinho dele... – tão logo terminou de dizer, começou a desferir chutes no informante.
Shizuo arregalou os olhos na direção de Ueno, sentindo cada um de seus músculos contrair-se de raiva. Quando ia correr até Ueno, sentiu um puxão de leve em sua camisa.
– Shizuo... Izaya... – um choque elétrico passou pelo corpo de Shizuo ao ouvir as palavras e olhar a o rosto de Kasuka. Shizuo estava acostumado a falta de expressões de seu irmão mais novo, portanto, a expressão que encontrou no rosto de Kasuka chocou-o completamente: Kasuka estava preocupado. Encarando aquela expressão, Shizuo teve certeza de suas suspeitas anteriores, aquelas que até então tinha evitado pensar mas que agora invadiam-no: Izaya estivera protegendo Kasuka, era este o motivo por trás de seus machucados e das palavras de Ueno. Izaya não era fraco ou fácil de lidar, não era burro ou manipulável, ele estivera, durante todo o tempo, protegendo seu irmão mais novo.
Shizuo deu um passo adiante, desvencilhando-se do toque de Kasuka, e, movendo-se rapidamente, eliminou a distância entre ele e Ueno e levantou-o pela gola da camisa, afastando-o de Izaya.
– Ok, ok... entendi, você quer ele só pra você! – Ueno respondeu, tentando soltar-se do aperto em seu colarinho. Shizuo, entretanto, não pretendia soltar Ueno, não até colocá-lo bem longe de Izaya e Kasuka. Assim, mantendo-o seguro pela camisa, o levou até o lado oposto do galpão e o prensou contra uma parede. Os olhos de Ueno mostravam desespero – Eu não vou mais... não vou mais mexer com ele. Eu já não estou perto, me solte!
– Falta outra parte, não é?! – Shizuo rosnou para ele.
– Heiwajima, me solte! – Ueno implorava, ignorando a última declaração de Shizuo.
– Sim... falta o seu favor... – Shizuo continuou apesar das palavras do outro. Viu como os olhos de Ueno acenderam-se brevemente.
– Sim... um favor. Já que eu salvei o ator e peguei o informante pra você... — começou a dizer, mas foi interrompido por Shizuo, que o afastou um pouco da parede para, em seguida, voltar a empurrá-lo com ainda mais força.
– Eu tenho uma sugestão... – Shizuo começou, soltando a gola do outro e deixando-o cair, agarrando-o, posteriormente, diretamente no pescoço – ... eu não te mato! É um grande favor, não é?! – Shizuo apertou ainda mais o pescoço de Ueno – Se não estiver satisfeito, é só falar.
Shizuo sondou os olhos de Ueno em busca de qualquer sinal de resistência, ao não encontrar nada ali, soltou-o o pescoço e deixou-o respirar adequadamente, sem aumentar, porém, a distância entre eles, mantendo-se, portanto, ameaçadoramente perto do torturador.
– Entendeu? – perguntou. Diante do silêncio do outro, chutou-o nos joelhos, obrigando-o a ajoelhar-se – Entendeu?
– Entendi. – respondeu Ueno, tremendo. Em sua mente, o homem de rabo-de-cavalo tentava encontrar qualquer saída, qualquer coisa que o impedisse de sair com o rabo entre as penas, mas, pela primeira vez, entendia perfeitamente como era lidar com Heiwajima Shizuo. Um simples pensamentos invadiu sua mente: na verdade, ele nunca vencera Izaya, o informante, provavelmente, sabia quais seriam as consequência que sofreria se ambos machucassem o Heiwajima mais novo, e, assim, deixou-se abater para evitar a ira do monstro do Ikebukuro. Agora que pensava assim, Ueno concluía que ele nunca deveria ter se metido com nenhum dos dois: nem com Orihara nem Heiwajima. Mesmo contrafeito, o torturador admitia que aqueles dois eram monstros e que ele não tinha nenhuma escolha a não ser evita-los. – Eu entendi...
Shizuo sentia seus pulsos pulsando com a vontade de acertar Ueno. Então, mais uma vez, como um mantra, repetiu em sua cabeça “Acalme-se! Acalme-se”. Ele sabia que não se satisfaria com aquela resposta de Ueno, não se satisfaria até que ele estivesse tão quebrado quanto Izaya, mas, ao mesmo tempo, entendia que tinha coisas mais sérias com as quais lidar. O guarda-costas admirava-se por ser capaz de fazer esta separação por pesos, afinal, ele quase nunca era capaz de conter a própria raiva, mas, daquela vez, ele realmente sentia que poderia parar por ali.
– Então, sai daqui. – anunciou segurando novamente Ueno pela camisa e arrastando-o para fora do galpão, para, então, empurrá-lo para uma distância que julgava segura.
Orgulhoso de seu próprio autocontrole, Shizuo voltou para dentro do galpão. Ele sabia que Ueno já não representaria problema, dessa forma, era hora de lidar com complicações muito mais preocupantes e intensas.
Kasuka ainda estava sentado a cadeira com um olhar vazio no rosto. Shizuo o observou detidamente, com atenção, procurando no irmão qualquer ferimento que lhe parecesse sério. Suspirou aliviado, o rapaz tinha um pouco de sangue na camisa — provavelmente devido a um ferimento no inchado lábio inferior –, alguns arranhões nos braços e luxações nos pulsos e tornozelos, além de estar consideravelmente sujo, mas parecia bem. Terminada a checagem de Kasuka, Shizuo voltou seus olhos para Izaya. Não pode evitar que parte da raiva que havia sido aliviada ao confirmar que Kasuka estava bem voltasse para ele: Izaya estava aos pedaços, Shizuo sequer podia reconhecer alguma parte do corpo dele que não estivesse lesionada.
Impensadamente, caminhou até Izaya, ajoelhou-se ao seu lado, afastou os cabelos negros grudados na testa do informante pelo sangue seco e depositou ali um breve beijo, apenas um roçar de lábios.
– Obrigado por cuidar dele por mim, pulga.
Afastou a mão de Izaya, demorando-se um pouco a acarinhar a bochecha direita do moreno e levantou-se.
“Desculpe-me por isso, sim?! Mas vai ter que ser assim!”.
Desvencilhou-se do informante e tirou o telefone celular do bolso, procurou em sua agenda um número e iniciou a chamada.
– Shinra?! Sim, está bem. Sim, eu também. Não, ninguém morreu... Escute-me, Shinra, você ouviu a localização, certo? Poderia vir até aqui? Trazer?... Acho que uma maca. Shinra... me escuta! Shinra... isso não importa, depois explico! Venha rápido!
Desligou o celular e caminhou até Kasuka.
– Kasuka, está bem para andar? – perguntou ao irmão, que só então desviou os olhos da porta do galpão por onde, instantes antes, Shizuo tinha lançado Ueno e respondeu com um simples aceno positivo de cabeça. Shizuo ofereceu sua mão para ajudar o irmão a levantar-se – Vamos para casa, ok?! – mais uma vez, apenas um aceno positivo como resposta. – Vamos passar em um hospital antes. Queria que Shinra desse uma olhada em você... mas... ele estará ocupado.
Com Kasuka atrás de si, Shizuo fez o caminho de volta para Izaya.
Ele sabia que precisaria ser convincente para que tudo desse certo.
Shizuo não era um homem das palavras, ele nunca conseguia disfarçar perfeitamente suas intenções ou conter suas verdadeiras vontades, mas, pela segunda vez naquele dia, teria que controlar-se. Respirou fundo e torceu para que ele provasse ter nele o mesmo sangue que corria em Kasuka. Shizuo sabia que precisaria conter-se, sabia que precisaria atuar.
Aproximou-se de Izaya e, com o pé direito empurrou-o, mas não recebeu nenhuma reação do outro.
“Desculpe-me, pulga...”, pensou ao voltar a empurrar Izaya com o pé, dessa vez continuamente e com mais força.
Seu coração deu um salto ao perceber Izaya entreabrindo os olhos, para posteriormente voltar a fechá-los.
“Acalme-se, Shizuo... agora, por favor, faça direito!”.
– Ah... está vivo. – sentiu que as palavras eram pequenas agulhas forçando-se contra sua garganta. – Já chamei Shinra. Estou indo.
“Chegue logo, Shinra...”, Shizuo desviou os olhos de Izaya, incapaz de continuar a fita-lo. Precisava sair do galpão naquele exato momento, tinha medo que não resistisse, como sempre, às suas vontades e tomasse Izaya em seus braços e corresse até Shinra. Um chamado fraco, porém, parou-o, deixando-o preso no lugar.
– Shizu-chan...
“ ‘Shizu-chan’... você me chamou de Shizuo da última vez que nos encontramos, lembra?! Por que você é sempre assim, seu idiota?! Por que você sempre tem que ficar com a última palavra e foder tudo?”, pensou, sem forças para responder.
Encarou Izaya de volta, vendo-o fitá-lo com os olhos semicerrados.
Dor.
Ouvindo a voz de Izaya soar e vendo-o encara-lo, Shizuo sentia-se tomado por todo desespero do mundo. Por um instante, pensou em fraquejar e mandar tudo à merda, mas, uma parte dele, uma bem pequena, mas forte o suficiente para se sobrepor as outras, o parou. “Isso na sua frente é a consequência da sua impulsividade!”, gritava a ele esta pequena parte e, por mais que quisesse, Shizuo não podia ignorá-la. Izaya se machucara fugindo dele e este era um fato que Shizuo não podia permitir-se ignorar. Apertou os olhos momentaneamente e depois voltou a abri-los, decidido.
– Não vale a pena. – “Você tem que ficar longe” — Você está tão fodido que nem vale a pena. Eu nem sinto vontade de te matar, na verdade. Olha pra você... dá pena... – “Se ficar perto, é isso o que vai acontecer... Você não precisa ficar, pulga. Não precisa mais fugir de mim, também... eu ficarei longe, também” — Acho que não preciso nem dizer, mas se vier atrás de mim de novo, eu te mato, Orihara Izaya.
Virou as costas e saiu do galpão, sabendo que era seguido de perto por Kasuka.
– Shizuo... – virou-se ao ouviu a voz baixa do irmão chamando-o – Eu não pude fazer nada porque estava assustado... mas... Izaya tinha um plano, eu percebi... ele...
– Eu sei, Kasuka. – declarou, aproximando-se de Kasuka e passando um dos braços dele ao por seu ombro, ajudando-o a caminhar. “Eu sei, Kasuka, eu sei que ele tinha um plano, eu sei que ele te poupou... Eu sei!”.
Shizuo saiu do galpão sem olhar para trás. Sabia que se o fizesse, talvez não conseguisse manter seus passos decididos.
– Kasuka... – chamou o irmão, já fora do galpão — ... você está bem o suficiente para aguentar um pouco mais? – o irmão o olhou confuso, mas acenou positivamente – Shinra chegará logo.
Por mais que soubesse que esta última ação poderia comprometer o sucesso de sua atuação até agora, Shizuo resolveu não abandonar Izaya sozinho no galpão até que ele estivesse sob os cuidados de Shinra. Sabia que de carro o médico clandestino não levaria mais de quinze minutos para chegar até o galpão, e considerava que já se se haviam passado cinco minutos, ao menos, desde sua ligação.
“Mais dez minutos! Aguente, pulga!”.
Shizuo percebia o olhar confuso de Kasuka em si, mas preferiu ignorá-lo pelos minutos de espera, permanecendo em silêncio até ver o carro de Shinra apontar na esquina que dava acesso ao galpão.
– Vamos, então. – disse segurando o irmão com força e pondo-se a andar na direção contrária a que o carro aproximava-se. Alguns metros adiante, subiu em um taxi e pediu para que fossem levados até o hospital mais próximo.
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Izaya
Três meses: esse era o tempo que Izaya estava preso em seu apartamento em constante repouso. Não que se importasse muito com o repouso, já que uma parte considerável de seu trabalho podia ser feita daquela forma. Mas sentia falta de sair coletando informações e já se sentia enfadado por seus movimentos serem limitados.
De qualquer forma, sabia que não poderia fazer muito além de aceitar o repouso prescrito por Shinra, mesmo que soubesse que seu corpo era resistente e que, possivelmente, ele já podia sair de casa e viver normalmente sua sempre agitada vida, sem se preocupar com as fraturas e os ferimentos recebidos.
Três meses: esse era o tempo que Izaya tivera para remoer incessantemente em sua mente toda a sua relação com Shizuo. Seria enganoso pensar, entretanto, que desde o início ele nomeasse seus pensamentos como “relação com Shizuo”. Apenas recentemente Izaya pensara naquela estranha proximidade que mantinha com Shizuo há quase dez anos com sintoma de algo maior.
Orihara Izaya podia ser muitas coisas, mas não era, definitivamente, estúpido. E, mais importante que isso, ele sabia não ser estúpido. Quando alguém assume que não é estúpido, precisa procurar, obstinadamente, pela razão por traz de suas ações estúpidas. Assim, procurar pelos motivos que o levaram a acordar na casa de Shinra com cinco diferentes fraturas e diversos machucados pelo corpo passou a ser o centro das preocupações do informante em seus três meses de repouso.
Por mais que se negasse a reconhecer, o tempo de sobra que tinha para reflexão o convenceu de que ele realmente tinha cometido um erro.
Um erro: era isso o que ele pensara no momento que vira Shizuo chegar ao galpão, era isso que o preocupara e o abatera quando acordou todo dolorido na casa de Shinra, e era contra isso que lutava nos últimos meses. Mas, mesmo com sua teimosia, Izaya tinha que reconhecer que estar dolorido e sentindo-se na merda não eram as principais características de um vencedor orgulhoso de seus feitos.
Izaya repassara insistentemente todos os fatos do galpão em sua mente e agora conseguia bolar trezentos outros planos para proteger a si mesmo e a Kasuka sem precisar colocar em risco a própria pele: ele era um informante, negociar não era um problema, negociar era sua especialidade... Como alguém especialista em negociar acaba desmaiado no chão de um galpão qualquer?
Como um mestre em achar e ligar pontas soltas, Izaya enxergava todas as suas.
Ele deixara pontas soltas e fora pego. A questão era: ele nunca deixara pontas soltas antes, então, por que elas existiam? Ele relutantemente aceitou a única resposta plausível: porque ele quis.
Izaya quis ser pego. Como um criminoso que deixa pistas em seus crimes na esperança de ser parado.
Aceitar isso era duro e dolorido, mas, no momento que o fez, todas as pontas soltas juntaram-se como mágica.
Ele deixara-se manipular por Ueno, ele resolvera que o plano para salvar Kasuka incluiria sua dor, mesmo que essa não fosse a única e nem a melhor alternativa. Izaya reconhecia que, no momento que decidiria sequestrar Kasuka para afastar Shizuo, começara um intenso processo para punir a si mesmo pela decisão. Cada golpe recebido era, então, ao mesmo tempo sua redenção e seu pedido silencioso por perdão.
Ele sabia, desde o começo, que era um erro fazer Shizuo odiá-lo, mas insistiu em levar-se até o limite. Precisou chegar até o fim para perceber que nunca queria que acabasse.
Como alguém que quer saber qual sabor a vida tem quando acaba.
Três meses: esse foi o tempo necessário para Izaya admitir que não só não se importaria de ficar, como queria ficar, que quis ficar desde o início, mesmo antes que a proposta fosse feita, mesmo antes de sentir em si os lábios de Shizuo; admitir que quis ficar desde o momento que ouviu seu nome saindo como um murmúrio dos lábios de Shizuo durante o sono depois daquela perseguição que terminou com o choro do guarda-costas a molhar seu rosto.
Três meses: esse foi o tempo que Izaya precisou para perceber que, mesmo depois de tudo, ainda queria ficar. Mesmo se ficar representasse reconhecer que estivera fugindo durante todo o tempo. Mesmo se ficar representasse matar seu orgulho e admitir que os beijos sempre foram beijos, as carícias nunca foram unilaterais e o desejo sempre fora correspondido. Mesmo que “ficar” implicasse “incondicionalmente”.
– Me mate se quiser, Shizu-chan. – exclamou, fechando atrás de si a porta de seu apartamento.
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