Depois de um sonho
18 Eu não me importaria...
Capítulo 18 – Eu não me importaria...
“pelo amor e o que ele nega
pelo que dá e que cega
pelo que virá enfim,
não digo que a vida é bela
tampouco me nego a ela:
– digo sim”
“Digo sim” — Ferreira Gullar
Shizuo
“Você não está em casa.”
Mesmo que já não encarasse a mensagem em seu celular, Shizuo ainda podia ver nitidamente em sua mente as palavras nela contidas.
Ainda que não fosse um homem de grandes palavras, Shizuo sentia falta de concretude expressiva no que o impulsionava a frente. O guarda-costas gostaria de dizer que tinha um bom motivo para estar agora a correr a passos largos e firmes até Ikebukuro. Gostaria de poder colocar em palavras a certeza que sentia de dever encontrar Izaya mesmo quando tinha dito a si mesmo que não voltaria a fazê-lo. Mas, como tudo quando o ponto era Izaya, tudo o que podia pensar era que “sentia”: “sentia” que a mensagem era de Izaya, “sentia” que devia encontra-lo, “sentia” que queria vê-lo mesmo que nada pudesse dizer ou mesmo que não pudesse explicar ao outro o porquê de querer vê-lo.
O homem mais forte de Ikebukuro não podia perceber por nunca ter sentido antes aquilo que agora tomava seu peito e manchava seus decididos passos, mas, neste exato momento, era tomado pelo medo.
Era irônico como o homem capaz de sobreviver a tiros e arremessar carros era agora atormentado por um sms.
“Você não está em casa” implica “eu sei que não porque estou aqui”. Não havia problema algum por trás da lógica das palavras, era claro com o dia (exceto aquele dia, uma quinta-feira chuvosa) que a pessoa que enviara a ele aquela mensagem estava em Ikebukuro.
Também não era um problema associar aquela mensagem a Izaya. Mesmo que a justificativa de “sentir” não agradasse Shizuo, ele sabia que estava certo em atribuir as palavras em sua caixa de entrada ao informante. De qualquer forma, ele era apoiado pelo fato de que as mensagens e ligações anônimas que recebia eram sempre — absolutamente sempre — de Izaya.
Não havia problema algum com a mensagem ou com o remetente dela, não havia mistério a ser desvendado, mas, ainda assim, Shizuo sentia-se a ponto de explodir de apreensão.
Shizuo, que não era adepto de preocupar-se com algo que não estivesse imediatamente diante de seus olhos, não podia deixar de pensar no que havia por trás da mensagem lida.
– O que, caralho, está fazendo em Ikebukuro? – não pode evitar que seus pensamentos fugissem até seus lábios. Mantê-los presos agora era um trabalho que exigia mais força do que possuía o homem mais forte de Ikebukuro – O que, caralho, está fazendo em Ikebukuro? – repetiu, dessa vez, mais alto, como se a resposta estivesse ali mesmo, na pergunta, e só precisasse ouvi-la mais uma vez para encontrar. – Era para ficar longe! Eu ia te matar se aparecesse! Você não respeita merda alguma... – os sons de seus fortes passos já não eram o suficiente para suprimir o som de sua voz, que aumentava a cada palavra dita, como se após a liberdade do primeiro pensamentos todos os outros resolvessem escapar à força – Dessa vez... o que você quer, Izaya! – a última palavra, o nome que não lhe saíra da cabeça nenhum instante dos últimos três meses, libertou-se em um grito.
Qualquer um que acompanhasse o desenvolvimento do monólogo de Shizuo se surpreenderia ao notar que, diferente do que a estrutura pedia, o tom usado na última fala foi o afirmativo. Entretanto, nenhuma daquelas pessoas que passava rapidamente em frente à estação de metrô de Ikebukuro naquela quinta-feira chuvosa acompanhara os pensamentos teimosamente altos de Shizuo. A única coisa que os poucos expectadores do grito de Shizuo pensaram foi, portanto, em como aquele grito soava familiar e como, provavelmente, haveria uma briga logo mais. Alguns poucos — ainda menos dos que os poucos que ouviram o grito — pensaram que fazia tempo que não escutavam o grito “IZAYA” soar em Ikebukuro. Desses ainda mais raros expectadores, somente um sabia o motivo por trás do sumiço daquele grito de Ikebukuro. Esse único expectador, um homem com um jaleco branco e olhos curiosos circundados por óculos, foi o único a reduzir os passos apressados e direcioná-los à origem do grito.
– Eu o vi indo na direção do Russia Sushi. – o particular expectador aproximou-se da origem do grito e disse, com um sorriso sincero estampado no rosto.
Shizuo espantou-se ao ouvir atrás de si uma conhecida voz soar e virou-se para encontrar um sorridente rosto a fita-lo intensamente.
– Shinra... – disse, após recuperar-se do choque inicial de receber de alguém na rua, de repente, exatamente a informação que queria. Shizuo soube no exato momento que colocou os pés em Ikebukuro que Izaya não estava em seu apartamento, ele não sentia, afinal, o cheiro de Izaya naquela direção. Parado em frente a estação de metrô, o guarda-costas sabia que Izaya estava por perto, mas, talvez por causa da chuva ou pela ansiedade que o consumia, era incapaz de determinar o que “perto” significava – Sim. – respondeu ao outro, limitando-se ao monossílabo e a um aceno com a cabeça, e, posteriormente, girando os calcanhares e pondo-se na direção indicada pelo médico.
“Russia Sushi!”, pensou, atravessando a praça em frente à estação.
O caminho da estação até o restaurante não era longo e Shizuo fazia-o quase inconscientemente. Mas, ainda que pouco atento estivesse ao caminho, um fator inquestionável o mostrava que estava na direção correta: a cada passo, Shizuo podia sentir mais a presença de Izaya; como consequência, cada passo o fazia cada vez mais consciente do informante.
Se no início estava confuso e paradoxal sobre o que significaria a presença de Izaya em Ikebukuro, agora já não se preocupava com nada. Já há alguns passos parara de pensar sobre qualquer coisa. Seus passos, portanto, já não eram relutantes nem decididos, não eram manchados pela indecisão ou pelo medo, pelo receio ou pela saudade. Nenhum sentimento, dentre todos os que poderiam guiar o sangue de Shizuo por suas veias, era capaz de vencer o efeito que causava nele o cheiro de terra molhada misturado ao cheiro de Izaya. Com a mente e o peito vazios, Shizuo avançava guiado puramente por seu olfato. Diferente do que se poderia pensar, entretanto, a falta de questionamento não era antinatural ou forçada, o guarda-costas apenas não conseguia pensar em nada. Toda sua mente era preenchida pelo cheiro do outro, pela sensação de sua presença.
Foi neste estado que Shizuo correu a porta do Russia Sushi, quase tirando-a de seus trilhos.
Com o estrondo da abertura repentina da porta, muitos olhos viraram-se para ele, mas nenhum deles possuía a coloração estranhamente avermelhada que pintara seus sonhos nas noites anteriores.
– Oh, Shizuo! Veio comer sushi?
Direcionou os olhos para a sonora voz que chamava seu nome e sentiu seu coração parar por instantes.
À frente do sorridente Simon que o fitava com solicitude por trás do balcão do restaurante estava a fonte do cheiro que o guiara. Ainda que a única coisa que pudesse fitar fossem os cabelos negros e as costas de um casaco de mesma cor — e, portanto, não pudesse encontrar os aprisionadores olhos castanho-avermelhados -, Shizuo tinha certeza que aquele ali era Izaya.
Aos poucos, as sensações que evitara durante o caminho foram voltando a ele.
Primeiro o alívio. E com ele seu coração voltou a bater.
O homem cujas costas fitava estava inteiro, sentado corretamente diante do balcão. Ainda que não pudesse vê-lo por inteiro, Shizuo sabia que não havia nele sequer rastro de sangue e que ele em nada lembrava o homem machucado no galpão ou o homem sangrando em seus sonhos.
Respirou fundo algumas vezes, sem desviar os olhos das costas do homem no balcão.
Mais uma onda de alívio: não havia cheiro de sangue. O único cheiro era o da pele dele, dos cabelos dele, da presença dele.
Ao alívio seguiu-se um sentimento que Shizuo desconhecia o nome, mas que tinha como efeitos colaterais a garganta presa e o aperto no peito. A sensação era como se o que quer que ele sentisse tivesse ficado preso no caminho que fazia de seu coração para sua mente; assim, preso antes de chegar a sua razão, o sentimento não ganhava direito a nome.
E então, liberado por este sentimento inominado, todos os outros o invadiram como a loucos: angústia, incerteza, medo, falta, presença, desejo.
Por instantes que a Shizuo pareceram horas, ele limitou-se a fitar as costas de Izaya, incapaz de dizer palavra.
Fugindo daqueles conflitantes sentimentos que agora brigavam por espaço dentro dele, Shizuo apegou-se às costas que fitava como um cego a sua bengala e, ainda que não fosse um homem de recuar, viu-se obrigado a retroceder ao único sentimento claro que sentira desde que as fitara minutos atrás: alívio.
O alívio desbloqueava sua garganta e fazia seu peito leve. Estranhamente leve. Mais leve do que se sentira em qualquer momento dos últimos três meses.
“É assim, então?!”, pensou, agora capaz de furar o bloqueio de sua mente e formar palavras coerentes. “Então é assim que deve ficar!”.
Shizuo não estava certo sobre o que significava a presença de Izaya em Ikebukuro, mas isso não importava. Shizuo não estava certo sobre o que significava a mensagem enviada por Izaya, chamando-o a seu encontro, mas isso não importava. Shizuo não estava certo sobre o porquê de ser tão difícil continuar em sua decisão de manter-se afastado, mas isso, definitivamente, não importava. Ele nunca fora, mesmo, um homem de preocupar-se com o significado de coisas que não estivessem diante de seus olhos e que não pudessem ser tocadas. Não seria daquela vez que Shizuo ouviria algo que não fosse seu instinto, e o que seu instinto, repleto de alívio, gritava era que havia algo certo a se fazer. Mesmo dentro todas as incertezas, ou talvez acentuada por todas elas, havia uma coisa certa. E isso, inegavelmente, era tudo o que importava.
“Ele está bem. Isso é tudo. Assim que deve ficar.”
– Então você voltou, hein?! – disse e sentiu-se orgulhoso por perceber que sua garganta, assim como sua mente, estava livre das amarras de antes.
Shizuo nem se importou por não receber uma resposta, afinal, nada daquilo importava. Ouvir Izaya não era importante, importante era defender sua posição.
Conforme avançava alguns passos, as costas que fitava desfocavam-se. Quando parou, o que preenchia o espaço diante de seus olhos era o topo da cabeça que ameaçara arrancar tantas vezes antes mas que agora lutava para manter em seu devido lugar: sobre o pálido pescoço no qual tantas vezes pousara os lábios três meses atrás.
– Está surdo, desgraçado? Disse que ia te matar se aparecesse aqui! O que merda está fazendo em Ikebukuro?
As palavras brotavam em seus lábios sem esforço. Era fácil continuar naquele papel. Era fácil carregar sua língua com ódio e cuspir tudo em Izaya. Por mais que não gostasse de admitir, era fácil a ele enraivecer-se. Era fácil dizer que mataria o informante, seus lábios já tinham um vício de dez anos nestas palavras. Essas foram, inclusive, as últimas palavras que dissera a Izaya antes daquela quinta-feira chuvosa; Shizuo já as dissera, portanto, até quando não as queria dizer.
Era fácil, também, estender sua mão ameaçadoramente na direção dos cabelos negros e puxar com força o dono deles. Tão fácil que seu corpo moveu-se instintivamente nesta direção.
Segurar aquele corpo magro e leve era ainda mais fácil, então não fazia qualquer esforço para suspendê-lo pelo pescoço a uns bons centímetros do chão.
Era tudo tão fácil... mas, então, aqueles olhos o fitaram. Aqueles malditos aprisionadores olhos castanhos com tons rubros, mesmo evitando contato direto com seu olhar, quebraram algo ele.
– O que diabos você quer? – a voz que ouviu escapar de seus lábios chocou-o. Não havia nela qualquer rastro de facilidade ou simplicidade: ela era pesada e dolorida. Saíra rasgando a força sua garganta, saíra como se carregada com pedras. Mas, mais do que dor e peso, Shizuo sentia sinceridade, e era isso o que terminava de quebra-lo.
“Eu me importo”, pulsou sua mente.
Shizuo, mesmo que evitasse se apegar a significados profundos, não pode ignorar a mensagem que aquelas palavras que se libertaram dele traziam.
“Eu me importo com o motivo pelo qual você está aqui”, o pensamento lhe doía, “Merda! Eu me importo! Que merda, Izaya!”.
Franziu o cenho, observando o rosto do homem a sua frente. Ele ainda mantinha os olhos baixos, não vendo, portanto, a indecisão que Shizuo sabia que seu rosto mostrava.
“Que merda, Shizuo! Para com essa merda!”, apertou mais a mão que segurava o pescoço de Izaya, “Para, só para! Isso não importa! Só faça!”.
Usando toda a força que seu corpo poderia juntar no momento, soltou o pescoço de Izaya e empurrou-o para longe. Assistiu o corpo magro do informante chocar-se com inúmeras mesas e cadeiras, criando um rastro considerável de destruição antes de colidir contra a parede e parar.
“Você só tem que ficar longe!”, pensava, encarando o informante do outro lado do restaurante, “Não importa o que veio fazer aqui, só vá embora!”, concluiu, aproximando-se de Izaya a passos decididos, “Na verdade, eu mesmo posso te tirar daqui”.
Parou diante do moreno e olhou para baixo, fitando novamente os fios negros. “Eu posso fazer isso!”. Abaixou-se até ficar na altura do homem sentado no chão e encarou-o. Aqueles olhos castanho-avermelhados tinham sobre ele tanto poder quanto momentos antes, fazendo seu corpo retrair-se. “Faça!”, gritou a si mesmo.
Cerrou os punhos com força e baixou-o diretamente na direção dos enclausuradores olhos, forçando-os para longe de si. “Ótimo! Longe!”, pensou incongruente. Afastou o punho para conseguir um novo impulso e baixou-o novamente no rosto de Izaya. Seu punho formigava em expectativa, ansiando por continuar o que fazia.
– O que você quer aqui? Hein?
Mesmo que seu corpo respondesse ativamente e alegremente a sua decisão de afastar Izaya e seus punhos aguardassem ansiosos por liberar mais energia, algo dentro dele o traía. Algo dentro de seu peito queimava em revolta, envenenando sua garganta e forçando-a a trai-lo. Sua voz liberada era uma punhalada nas costas, traiçoeira e covarde.
O paradoxo do qual tentara livrar-se mais cedo o invadia com força total: seu punho descia com violência, novamente, enquanto sua garganta insistia em sua decisão de se importar.
– Hein? – gritou exausto ao homem no chão.
Shizuo estava cansado, tanto seus punhos quanto sua garganta doíam.
Era difícil.
Era difícil manter duas posições opostas.
Era difícil escolher um lado.
Era difícil abandonar um lado.
“Por que você só não me deixou gostar de você, idiota?!”, era a segunda vez que aquelas palavras invadiam sua mente e sua atual posição em muito lembrava a primeira vez: assim como naquela vez, Izaya estava machucado e ele sentia uma necessidade incontrolável de protegê-lo. Entretanto, desta vez, havia uma diferença fundamental: aquele que machucava Izaya, agora, não era Ueno, mas o próprio guarda-costas. Tomar consciência disso o feria, mesmo que ele tentasse se convencer que era o certo a fazer.
Um movimento sutil do homem diante de si chamou-lhe a atenção e tirou-lhe de seus confusos pensamentos: Izaya, sem virar-se para olhá-lo, moveu uma das mãos até o bolso do casaco e, lentamente, tirou de lá seu canivete.
Shizuo observava inerte enquanto o informante levantava o canivete, ainda fechado, até a altura de seus olhos.
Um de seus lados sentia-se empolgado e aliviado ao olhar aquele objeto: aquilo significava que Izaya resolvera reagir e lutar contra ele? Se sim, seu plano havia sido um sucesso, usar os punhos o traria de volta a sua zona de conforto, afinal, Shizuo sempre fora melhor usando os punhos que as palavras. Ele tinha certeza de que se Izaya reagisse iria conseguir continuar com isso até fazê-lo nunca mais procura-lo, nem que pra isso tivesse que machuca-lo.
Seu outro lado, aquele que tomava conta de seu peito e sua garganta, estava em choque. “Eu não quero isso!”, gritava este lado para ele. “Não é esta a resposta que eu quero!”.
– Essa é sua resposta, então? – sua voz, teimosa e traidora, voltara a deixar seus lábios, ultrapassando os limites de seus pensamentos e exteriorizando-os.
O próximo movimento do informante aconteceu num piscar de olhos: em um momento Shizuo encarava o canivete levantado na altura de seus olhos, no outro, o canivete estava no chão, e, milésimos de segundos depois, era empurrado pelo informante para longe, e, então, pela primeira vez naquele dia, Shizuo via-se na mira dos olhos castanho-avermelhados. Perdeu-se por alguns instantes no vermelho daquele olhar: ele queimava intenso, como brasa, e o guarda-costas sentia como se pudesse derreter sob ele.
“O quê?!”, pensou, confuso, retribuindo o ardente olhar cravado nele.
Estreitou os olhos, procurando o que tinha perdido. Num instante tinha o canivete, agora...
Desprendeu seus olhos daqueles que os fitavam, procurando ao redor a incongruência.
Alguns metros distante deles jazia indefeso o canivete de Izaya, ainda fechado.
Seus olhos se arregalaram brevemente antes de suavizarem por completo. “Então é essa a sua resposta?!”.
Shizuo não precisava de explicação. Para dois homens que passaram os últimos dez anos lutando intensamente só havia um significado possível para o baixar de armas: rendição. Seu inimigo pusera a arma a seus pés, este era um gesto que não precisava de esclarecimentos.
O guarda-costas sabia o que implicava Izaya botar abaixo sua arma preferida: ele não pretendia lutar.
E, se Izaya não pretendia lutar, tampouco Shizuo o pretendia.
Voltou seus olhos na direção de Izaya, que ainda o encarava, e fitou longamente os olhos avermelhados que pareciam ter poder suficiente para botar abaixo o mais forte dos homens.
E, então, Shizuo resolveu parar de lutar.
Estendeu a mão direita na direção de Izaya e viu-o fechar os olhos, apreensivo. A reação tão sincera do outro despertou um sorriso em seus lábios, mas que se desfez conforme se aproximava mais de Izaya. Pousou a mão no pescoço do informante, no mesmo lugar que minutos atrás apertava, e fechou, ao mesmo tempo, os olhos e a distância entre eles. A ardência que sentia pulsar em seu peito e queimar sua garganta parecia agora concentrar-se toda em seus lábios. Mas, diferente de antes, não era dolorido, pelo contrário, sentia que o calor em seus lábios aquecia-os ao invés de queimá-los, fazendo-os formigar gostosamente. Apertou a mão no pescoço de Izaya, ao mesmo tempo em que com a outra mão o enlaçava pela cintura, puxando-o mais para perto. O calor do corpo de Izaya, os lábios de Izaya movendo-se nos seus, ainda que minimamente: Shizuo sorvia, extasiado, cada parte de Izaya em contato com seu corpo.
– É uma ótima resposta – disse, afastando-se um pouco do outro. Não que Shizuo quisesse interromper o contato, mas sentia a necessidade de confirmar que aqueles lábios sob os seus pertenciam ao informante.
Izaya o fitava com os olhos abertos em choque. Os lábios avermelhados pelo recente beijo estavam entreabertos e deixavam escapar uma respiração pesada.
Shizuo não pode reprimir um riso sonoro. “Oh, essa não é uma cara que verei sempre, com certeza!”, pensou divertido.
– Não vai dizer nada, pulga? O gato comeu sua língua? – perguntou, incapaz de reprimir a diversão que sentia invadir seu peito, preenchendo-o por completo e varrendo qualquer vestígio do que o deixava apertado minutos antes.
“Desculpe, pulga... Não vou me segurar mais! Não consigo mais me segurar!”, pensou, encarando salivante os lábios de Izaya.
Shizuo subiu lentamente sua mão do pescoço para o queixo do informante, traçando o caminho com a ponta dos dedos. Então, voltou a fechar os olhos e diminuiu mais uma vez a distância entre eles, pousando os lábios sobre os de Izaya. Dessa vez, a reação do moreno foi um pouco mais ativa, retribuindo mais seus toques. Mas ainda não era o bastante.
“Tão contido, pulga!”, pensava, surpreso com a passividade do sempre tão altivo informante.
Apertou um pouco a mão que segurava o queixo do moreno, forçando-o a abrir-se. O coração de Shizuo deu um salto enquanto ele invadia com sua língua a boca do informante e foi obrigado a conter um suspiro de satisfação ao sentir nela a aspereza da língua do outro, roçando-se contra a sua.
– Ah! Na verdade não... ainda está aqui... – provocou, afastando-se novamente.
Ainda sentia em sua língua a sensação de tê-la entrelaçada à língua do outro, sentindo-a formigar em expectativa. Quando pensou em aproximar-se novamente para ter mais daquele toque, viu os desejados lábios moverem-se, deixando escapar uma voz vacilante e baixa:
– Beijo... você me deu um beijo...?
“Sim... sua língua ainda está aqui!”, pensou, embebedando-se, satisfeito, com a voz do outro.
Shizuo não fazia ideia do rosto que mostrava neste momento, mas podia imaginar que provavelmente era tão estranho quanto ouvir a voz de Izaya escapar vacilante e baixa, já que o moreno o olhava surpreso, arregalando cada vez mais os olhos.
– Na verdade, foram dois... – respondeu, satisfeito com a expressão que via no rosto de Izaya, que fechava os olhos enquanto ele se aproximava para tomar novamente para si seus lábios – Até agora. – completou, de olhos fechados, roçando os lábios nos de Izaya enquanto pronunciava as palavras.
“Se você veio, desta vez, para ficar...!”.
O beijo que se seguiu a este pensamento em nada se assemelhava os outros dois: ele era faminto, era duro, era voraz, era entremeado a mordidas. Shizuo queria tudo, queria tudo ao mesmo tempo, queria tomar cada pedaço de Izaya, queria de volta os três meses que ficara longe, queria puni-lo por afastar-se, queria puni-lo por não aceita-lo, queria puni-lo por força-lo a ser racional, queria puni-lo por fazê-lo protegê-lo, queria puni-lo por precisar de proteção, queria puni-lo por despertar nele coisas que não conseguia nomear.
Apertou Izaya com força e o empurrou mais contra a parede atrás dele, enquanto mordia com força o lábio inferior do moreno.
Ouviu um suspiro abafado e sorriu. “Agora sim, pulga... prefiro você mais participativo!”, pensou, desviando os dentes do lábio de Izaya e pousando-os em seu queixo, para, então, traçar com eles um caminho até o pescoço pálido do moreno. Quando Shizuo pensava que sentiria novamente o sabor estranhamente doce que aquela parte do corpo de Izaya tinha, ouviu um grito:
– Ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus! Eu não falei! Eu sempre disse! Eu sabia! Caramba! É de verdade! Olha, olha, oooooolha, Dotachin!
Shizuo, mesmo contrariado, afastou os lábios de Izaya e virou-se na direção do grito.
Seu olhar oscilou por um instante ao encontrar a alguns metros a sua esquerda aquela garota que estava sempre com Kadota... “Erika... certo?”, pensou, “E Kadota está com ela...”, refletiu fitando a figura do moreno com o lenço a cobrir-lhe os cabelos, “Por que diabos estão aqui?!”, perguntou-se.
Confuso, olhou ao seu redor, virando a cabeça para os lados a fim de encarar tudo o que o cercava. Seus olhos, involuntariamente, alargaram-se. Havia esquecido que estava no Russia Sushi. Havia se esquecido completamente de que estava no Russia Sushi. Somente agora percebia-se no chão do restaurante, cercado por mesas e cadeiras reviradas, com ambas as mãos em Izaya e prensando-o com o corpo contra a parede.
Ouviu um riso baixo e virou-se em sua direção.
Izaya fitava-o com uma das sobrancelhas levantadas e com um sorriso irritante no rosto.
– Cala a boca, idiota! – rosnou a ele, mas tudo o que conseguiu foi um novo riso seguido de uma falsa expressão de inocência.
“Eu deveria te matar, pulga... mesmo!”, pensou, mas sem qualquer rastro de raiva.
Afastou-se de Izaya e soltou dele ambas as mãos, levantando-se em seguida.
Sentia cada um dos olhos presentes naquele restaurante a fita-lo.
“Foda-se!”.
De pé, caminhou alguns metros a sua direita, sentindo cada uma das pessoas daquele lado do restaurante retrair-se com sua aproximação. Entretanto, seu destino não era ninguém ali. Na verdade, seu destino não era sequer uma pessoa. Tinha uma coisa que precisava recuperar antes de sair dali.
Parou alguns centímetros antes do local onde Simon o olhava confuso e abaixou-se, apanhando no chão o canivete de Izaya.
– Shizuo... – Simon chamou.
– Simon, desculpe, o sushi fica pra outro dia. – interrompeu-o.
Virou as costas para Simon e voltou para onde Izaya estava. O moreno encarava-o com um sorriso nos olhos, claramente intrigado com o gesto de Shizuo.
– Não deixe isso por ai, pulga. – rosnou a ele, jogando o canivete em seu colo – Consegue andar? – perguntou baixo, duvidando das próprias palavras.
– Se não conseguir, você vai me carregar, Shizu-chan? – Izaya provocou-o, mas, ainda assim, guardou o canivete no bolso do casaco e começou a levantar-se, escorando-se um pouco na parede.
– Tsc. – um muxoxo irritado escapou dos lábios de Shizuo. Não que ele estivesse verdadeiramente irritado, mas começara a incomodar-se com os olhares que sentia a suas costas. A fim de apressar as coisas, buscou um dos braços de Izaya e passou por seus ombros, ao mesmo tempo em que o segurava firmemente pela cintura, ajudando-o a apoiar-se.
Sentiu o corpo de Izaya tencionar-se brevemente antes de relaxar completamente. Começou a andar na direção da porta do Russia Sushi. Queria sair dali o quanto antes. Seus passos, entretanto, hesitaram por um momento ao sentir a cabeça de Izaya afundar-se na curva de seu pescoço.
O guarda-costas sorriu discretamente antes de reiniciar seus passos e deixar o restaurante.
****
Durante todo o caminho do restaurante até seu apartamento — cuja porta acabara de abrir -, Shizuo ouviu vários cochichos e encarou vários olhares confusos. Mesmo que entendesse que era natural que as pessoas o olhassem desse jeito ao vê-lo praticamente carregando Izaya em seus ombros, irritava-se ao ser o centro das atenções.
No início, enquanto Izaya ainda escondia o rosto na curva de seu pescoço, os comentários eram temerosos: “- Ele o matou. Heiwajima pegou o Orihara e agora está exibindo seu cadáver por Ikebukuro!”. Shizuo quase ria do quão irônico era ouvir aquelas palavras. Ele não poderia, agora, estar mais longe de matar o tal Orihara...
Aparentemente, Izaya também se irritava com os comentários — o que em muito surpreendia Shizuo, já que ele parecia sempre querer esse tipo de atenção – pois, em algum momento do caminho, ao ouvir mais uma exclamação sobre sua suposta morte, levantou o rosto e gritou “- Eu estou vivo! Eu parem de encarar o Shizu-chan!, ele é meu!”. Neste momento, Shizuo quase o largou para voltar a soca-lo, mas nada fez além de continuar andando. Durante todo o resto do caminho, Izaya ficou com o rosto levantando.
Shizuo adentrou o apartamento, largando Izaya encostado à parede e virando-se para fechar a porta atrás de si. Terminando de passar à chave, virou-se para encarar Izaya.
Agora ele tinha certeza: eles estavam sozinhos. Sozinhos como não ficavam há mais de três meses.
Mesmo que não fosse um homem de palavras, Shizuo sentia que tinha centenas de coisas a dizer... Contudo, verdadeiramente, não sentia vontade de dizer nada.
Olhou o moreno diante de si e pensou que talvez ele estivesse na mesma situação, mas, antes de concluir seus pensamentos sobre o estado de Izaya, viu-o separar os lábios e tomar fôlego para dizer algo:
– Shizu-ch...
Interrompeu-o, tomando seus lábios de volta para si.
– Cala a boca. – afastou-se para dizer, mas logo voltou a tomar a boca do informante.
Shizuo tinha certeza que não queria ouvir o que Izaya diria. Não importa o quão claro lhe tenha parecido o gesto de empurrar para longe o canivete, ainda tinha medo do que pudesse dizer o informante agora que estavam sozinhos e tinham somente um ao outro para encarar.
“Só... fique quieto!”, pediu silenciosamente, invadindo novamente a boca do informante com sua língua e forçando-a contra a dele.
Ainda que Izaya parecesse querer falar algo, Shizuo não estava disposto a liberá-lo daquele beijo, intensificando-o ainda mais, urgente por calar Izaya e sentir mais de seu gosto. Contraditoriamente, porém, foi justamente Shizuo quem interrompeu o contato, olhando intensamente para Izaya, surpreso.
–Você está bem? – perguntou ao homem diante de si, espantado com o gemido de dor que acabara de ouvir. Esperava muitas reações a seu beijo, mas nenhuma delas incluía um gemido de dor.
– Sim... mas... que tipo de animal bate em uma pessoa que acabou de se recuperar? – respondeu provocador, pousando ambas as mãos no peito de Shizuo e empurrando-o. Só com o empurrão de Izaya Shizuo se deu conta de que estivera todo este tempo a prensar o corpo do moreno contra a parede.
Agora afastado, Shizuo pôs-se a fitar Izaya longamente.
O rosto estava levemente inchado na região do queixo e uma das mãos que o mantinha afastado trazia arranhões. Os machucados eram resultado, provavelmente, da surra que aplicara no moreno momentos antes no Russia Sushi. Mesmo que pensasse que estava a fazer o certo, sabia que tinha usado demasiada força, não era de se admirar, portanto, que a resposta de Izaya ao ter ser corpo prensado contra a parede fosse um gemido dolorido. Shizuo, entretanto, teve pouco tempo para arrepender-se da força empregada nos socos, logo sua atenção se prendeu a uma faixa que envolvia um dos dedos da mão direita do informante. Olhou-a, intrigado. Sabia que não era o responsável por aquele ferimento.
“Foram cinco fraturas: tornozelo esquerdo, nariz, duas costelas e um dedo da mão... Fora isso... Escoriações pelo corpo todo, principalmente nas costas.”
As palavras de Shinra voltaram a soar na mente de Shizuo.
“Então essa é uma das fraturas...”, pensou.
Antes que desse por si, Shizuo pousou uma de suas mãos sobre a mão direita de Izaya, e apertou-a com força contra seu próprio peito, para, então, afastá-la de si e acaricia-la levemente enquanto entrelaçava seus dedos aos dedos do moreno.
Izaya o olhava com as sobrancelhas juntas, confuso.
“ ‘Alguém que acabou de se recuperar’, hein?!”, repetiu mentalmente as palavras de Izaya.
Vendo Izaya inteiro e munido de seu usual sorriso sarcástico e palavras carregadas de provocações, Shizuo quase se esquecera de que na última vez na qual pousara seus olhos nele, Izaya estava em pedaços. Encarar aquele dedo enfaixado trouxe de volta Shizuo para a realidade.
“Você é uma pulga idiota!”.
– Que tipo de animal sequestra o irmão de alguém?! – perguntou retribuindo o sarcasmo de Izaya, desenlaçando seus dedos dos dedos do informante e levantando a mão de Izaya até a altura de seus olhos.
– Oh... isso é um bom ponto, Shizu-chan. – Izaya respondeu, distraído, fitando entretido a própria mão levantada poucos centímetros acima da linha de seus olhos.
Shizuo segurou o dedo enfaixado e o forçou para baixo, como se fosse quebra-lo, empregando força suficiente para receber um olhar dolorido de Izaya.
– Que tipo de animal acaba caído todo machucado em um galpão idiota?! – sua voz descarregava toda a angústia que sentira ao ver Izaya machucado no galpão meses antes.
Shizuo fechou os olhos por alguns instantes, na tentativa de conter as imagens que insistiam em invadir sua mente: Izaya sangrando no galpão, Izaya sangrando em seus braços, Izaya sangrando em seus sonhos. Balançou levemente a cabeça e voltou a abrir os olhos. Tão logo o fez, encontrou o motivo de suas preocupações a fita-lo com confusos olhos castanho-avermelhados. Inevitavelmente, soltou o dedo machucado de Izaya, baixou levemente a mão na qual mantinha presos os dedos do informante e os pousou sobre os próprios lábios. Izaya nunca perceberia o que significava aquele gesto, mesmo depois de muito refletir. Tampouco Shizuo o fazia de forma consciente. Mas, ao pousar seus lábios sobre os dedos de Izaya, Shizuo fez uma promessa silenciosa de nunca mais machuca-lo daquela forma.
– Shizu-chan...? – a voz que o chamava era livre de qualquer provocação, soava profunda e quase preocupada.
– Se fizer isso de novo, eu te mato de verdade. – disse, afastando os dedos de Izaya dos lábios e voltando a entrelaça-los aos seus.
O olhar de Izaya acompanhava cada um de seus movimentos, e, quando finalmente Shizuo soltou os dedos que mantinha presos entre os seus, viu o informante respirar fundo e, aproximando-se devagar, apoiar a cabeça em um de seus ombros.
– Bem, tecnicamente não fui eu a fazer isso... “apanhar” não é uma ação ativa, sabe?! – mesmo que ainda mantivesse a cabeça baixa em seu ombro, Izaya carregava sua voz de sarcasmo.
– Cala a boca, pulga. – Shizuo sorriu diante das palavras do informante. Não era adequado a ele pensar dessa forma, mas, ainda assim, não podia deixar de sentir-se feliz ao ver voltar a Izaya o aspecto provocador e teimoso – A única pessoa que pode te deixar de cama sou eu! – completou, não podendo evitar ser invadido pela satisfação que sentia ao notar que aquele que ainda apoiava o queixo em seu ombro era a mesma pulga insuportavelmente teimosa e irritante de sempre.
– Isso não soou muito como uma ameaça, Shizu-chan... – Izaya respondeu debochado, contaminado pelo bom-humor que o guarda-costas mostrava.
Shizuo não pode conter um sorriso, que não foi, porém, visto por Izaya.
“Não foi uma ameaça, hein?! Não é você quem determina isso, pulga!”, pensou, afastando Izaya com ambas as mãos e prensando-o novamente contra a parede, cuidando, entretanto, para não usar tanta força quanto antes.
Izaya o encarou num misto de diversão e curiosidade, levantando provocador uma das sobrancelhas. Shizuo supôs que ao levantar de sobrancelhas se seguiria uma risada debochada, mas isto ele nunca pode confirmar já que, tão logo sentiu em si o olhar castanho-avermelhado, investiu contra o pescoço pálido do dono dos provocadores olhos e depositou ali uma mordida forte o suficiente para varrer dos lábios qualquer rastro de sorriso. Shizuo supôs que a mordida se seguiria uma reclamação enfática sobre sua brutalidade, mas isto ele nunca pode confirmar já que, tão logo desprendeu os dentes do pálido pescoço, ocupou-se a prendê-los novamente nos vermelhos lábios do homem diante de si. Com a mesma violência com a qual prendia a si o lábio inferior de Izaya, rasgou a camisa negra que o moreno vestia, deixando-o com o peito livre, ainda que continuasse a vestir os frangalhos de sua camisa e seu usual casaco. Sorriu de leve ao receber um suspiro assustado como resposta a seu gesto.
“Assim está melhor... mas... ainda não é o bastante!”, pensou divertido.
Ao mesmo tempo em que com uma das mãos segurava o pescoço de Izaya e o mantinha preso com os lábios colados aos seus, com a outra invadiu as calças do informante. Ao receber um novo suspiro surpreso como resposta, soltou os dentes dos lábios do moreno e expandiu seu território, apoderando-se de toda a boca do informante e conquistando sua língua. Um gemido contido ressoando contra sua língua foi tudo o que precisou para que intensificasse os movimentos, ainda que limitados, dentro das calças de Izaya.
Shizuo liberou os lábios de Izaya pra permitir que de seus próprios lábios irrompesse um riso divertido. Estava em êxtase ao notar o quão excitado Izaya ficara apenas com os poucos toques que dedicara a ele.
– Hum! Ah!... Ok... Acho que isso foi uma ameaça bem perigosa, na verdade!
Mais um riso que não poderia ser contido ecoou dos lábios de Shizuo: a incongruência nas declarações de Izaya, entremeadas por gemidos, trazia um sensação gostosa ao guarda-costas. Aqueles gemidos que agora arrepiavam cada pelo de seu corpo em muito diferiam dos gemidos gravados em suas memórias pelos sonhos dos últimos três meses, e isso trazia uma sensação impagável. Se os gemidos dos sonhos soavam baixos e sofridos, os que invadiam agora os ouvidos de Shizuo eram selvagens e quase revoltados, como se travassem uma luta para saírem. Desejando ouvi-los cada vez mais, Shizuo não podia evitar pensar que estes novos gemidos, que arrancavam a força os outros de sua mente, combinavam muito mais com o homem que cravava as unhas em seus braços e o puxava cada vez mais para si.
– Ah!... Para de mexer a mão, Shizu-chan! Hum...
Esses gemidos teimosos eram os verdadeiros gemidos de Izaya: Shizuo queria cravar isso em sua mente, então se esforçava a ouvi-los mais e mais, até que não restasse qualquer vestígio de outros.
– Para, para, Shizu-chan... eu vou...
De repente, os gemidos tão preciosos os ouvidos de Shizuo pararam, substituídos por gemidos sôfregos e, então, por uma respiração pesada.
Shizuo encarou intrigado o homem diante de si, que voltara a apoiar a cabeça em seu ombro.
– Cala a boca, seu idiota! – ouviu uma voz revoltada e ofegante xingar e demorou alguns instantes para perceber que ela vinha do homem apoiado em seu ombro.
“Calar a boca?!”, pensou, intrigado, refletindo sobre as palavras.
– Eu nem disse nada! – deixou escapar de seus lábios.
– Não importa! Cala a boca! – ordenou mais uma vez a voz ofegante.
Com o objetivo de afasta-lo de si para poder olhar-lhe o rosto, Shizuo libertou a mão que mantinha dentro das calças do informante. Só então percebeu qual era, provavelmente, o motivo da revolta do moreno.
Enquanto encarava com um sorriso vitorioso no rosto a mão consideravelmente molhada, sentiu o moreno desapoiar-se de seu ombro e encostar-se novamente à parede. Desviou os olhos do líquido que escorria por sua mão para o rosto de Izaya e encontrou-o ultrajado.
– Cala a... – o informante começou novamente a dizer, mas foi interrompido por Shizuo.
– Foi rápido... – aproximou os dedos dos lábios e os lambeu, sob o olhar atento de Izaya — ... hein, pulga?!
Assistiu Izaya corar até o último fio de cabelo. A única vez que tinha visto Izaya corar fora quando o prensara, alguns meses atrás, contra esta mesma parede e o fizera admitir que a desculpa de devolver roupas era só para encobrir o desejo que tinha de transar com ele.
“Oh! Então a pulga cora quando cede! Essa é nova!”, pensou divertido.
– Cala a maldita boca! Fazia tempo, seu monstro desgraçado! – viu Izaya gritar a ele. Shizuo nunca achou que assistiria a um Izaya descompassado, mas não podia deixar de achar a visão extremamente tentadora.
– Fazia tempo... três meses, pulga? – provocou.
– Eu estava de cama! – defendeu-se o informante, caindo na provocação de Shizuo, que sorriu diante da resposta recuada do outro; logo, porém, o olhar recuado de Izaya foi substituído por um sorriso perverso – Aposto que você está igual, Shizu-chan...
Shizuo encarava expectante o sorriso de Izaya, ele sabia que nada de bom viria dele. Aquele sorriso sempre fora o prenúncio de sua perdição, mesmo no início, quando ele significava apenas uma provocação e colocava-o a correr por Ikebukuro arremessando placas de trânsito.
Como resposta a sua expectativa, sentiu os dedos de Izaya pressionarem seu membro por cima do tecido de sua calça.
Shizuo fechou momentaneamente os olhos, focando-se apenas na sensação que os ágeis dedos do informante lhe causavam. O guarda-costas sequer importava-se com a presença do tecido de sua roupa e sua roupa íntima a impedirem-no de sentir o calor que sabia conter a mão do moreno, afinal, ele não se importava como aquele toque viria, ele apenas queria sentir mais e mais dele. Izaya, entretanto, não parecia concordar com sua perspectiva, e logo direcionou os dedos ao botão de suas calças, desfazendo-o rapidamente e livrando-se de toda a roupa que impedia o contato direto.
Um riso sonoro inundou o apartamento. Shizuo suspeitava que aquela situação divertia muito Izaya, mas sua latente excitação o impedia de pensar sobre isso ou mesmo irritar-se.
Sentiu os dedos de Izaya tocarem novamente seu membro, desta vez sem qualquer impedimento, e não pode reprimir um gemido que teimosamente insistiu em deixar seus lábios.
– Eu sabia, Shizu-chan! Você já está bem animado aqui.... – mais um sonoro riso inundou o apartamento.
Os dedos de Izaya eram quentes e deslizavam fluidamente por seu membro, ajudados pela quantidade considerável de pré-gozo que escapava de seu pênis.
Mais gemidos seguiram o primeiro e, conforme os movimentos de Izaya aumentavam, Shizuo sentia-se queimar por dentro, um calor intenso que fluía progressivamente por todo seu corpo.
– Você se lembra, Shizu-chan? Foi aqui também a primeira vez... – Izaya inclinou-se sobre ele e sussurrou em seu ouvido, fazendo os pelos de sua nuca arrepiarem-se.
Lembranças nada pudicas invadiram a mente do guarda-costas. Como poderia ele não lembrar-se? Izaya invadira seu apartamento como um louco e prensara-o contra a parede, pronto para tocar Shizuo de uma forma como nunca antes o guarda-costas imaginou que seria capaz. Como se respondendo a seus pensamentos, Izaya inverteu suas posições, enlaçando os braços em seu pescoço e girando ambos os corpos, de forma que agora era Shizuo quem tinha a parede às suas costas.
– Então, Shizu-chan... – olhando-o nos olhos e sorrindo maliciosamente, Izaya começou a dizer – a sua preferência inicial é pela minha boca. Devo dizer que é uma ótima pedida pra uma... deixe-me ver... quinta à noite. – o informante parecia divertir-se enquanto escolhia as palavras – Talvez você não seja tão burro quanto parece. – concluiu, gargalhando em seguida.
Apesar da provocação clara nas últimas palavras, Shizuo não pode evitar sorrir em resposta, surpreso: aquelas eram exatamente as palavras que Izaya dissera naquela primeira noite em seu apartamento, a exceção do dia da semana, que antes era sexta.
Shizuo sabia o que viria depois daquelas palavras e, divertido, levantou uma sobrancelha para Izaya, incentivando a ir em frente.
– Você não estava assim tão obstinado naquela vez, devo te dizer, Shizu-chan-pervertido. – Izaya disse, aparentemente divertindo-se tremendamente com o olhar que Shizuo lançava a ele.
Shizuo assistiu Izaya abaixar-se, ajoelhar-se a sua frente, segurar seu membro e, sem tirar os olhos dos seus, lambê-lo da base até a ponta.
– Foi assim? Daquela vez? – ouviu-o perguntar, mas nada respondeu. A sensação da língua áspera e quente de Izaya tomava-o por completo, fazendo suas costas curvarem-se e seus olhos apertarem-se fortemente em resposta. – Ah... foi exatamente assim, Shizu-chan. – Izaya exclamou, visivelmente satisfeito.
Shizuo não sabia qual fora sua reação daquela vez e sequer sabia qual era o rosto que fazia agora, mas não se surpreenderia em descobrir que eram parecidos, afinal, não havia muitas reações possíveis à sensação de ter a boca de Izaya estimulando-o: era quente, era bom, era absurdo. Shizuo só conseguia fechar os olhos e abrir a boca deixando-o escapar alguns suspiros satisfeitos. Era assim, e não poderia ser diferente, não quando era Izaya ajoelhado diante dele.
Se Shizuo pudesse atentar-se para qualquer coisa que não fosse a boca de Izaya em seu pênis, ele provavelmente divertiria-se pensando que, entretanto, o sexo oral daquela quinta-feira chuvosa em muito diferia do sexo oral daquela longínqua sexta-feira quente: daquela vez, Izaya parecia disposto a leva-lo à loucura com movimentos lentos e espaçados, agora, Izaya parecia impaciente, chupando-o intensamente, impaciente, como se ele próprio estivesse louco.
Inesperadamente, contudo, a sensação quente em seu pênis parou. Shizuo abriu os olhos a procura do motivo por trás daquela quebra e encontrou Izaya a olhá-lo com embriagados e intensos olhos. O guarda-costas poderia perder uma vida inteira a encará-los, mas obrigou-se a desviar-se daqueles olhos ao notar no rosto de Izaya algo ainda mais chocante que aqueles olhos: sua própria mão pousava na lateral do rosto de Izaya, entrelaçando os dedos aos seus cabelos.
Um choque percorreu o corpo de Shizuo e ele franziu o cenho.
Fora exatamente assim daquela vez, ele, involuntariamente, acarinhara Izaya e, como resposta, recebera um tapa que trazia a claramente a ordem para que ele não o tocasse.
– Haah... – suspirou Shizuo – Não pare. – pediu, sentindo seu coração pulsar fortemente.
– Foi você que me parou... – Izaya respondeu, sorrindo minimamente, um sorriso raro, que não trazia a malícia dos outros. Shizuo assistiu Izaya pousar os próprios dedos sobre sua mão e entrelaça-los aos seus. – Eu não vou parar. – anunciou, passando a língua generosamente por toda a extensão do pênis de Shizuo e abocanhando-o novamente, reiniciando os rápidos movimentos de vai-e-vem.
Shizuo gemeu satisfeito, sentindo as palavras de Izaya varrerem de si qualquer rastro de sanidade. O único pensamento que relutantemente insistia em pulsar em sua mente era: “Ele quer ser tocado!”.
– Ah, Izaya. – gemeu alto, sem conseguir conter em seus lábios a vontade de dizer o nome do outro.
Sentiu a mão livre de Izaya juntar-se a sua boca, intensificando os já loucos movimentos, e, inevitavelmente, apertou os dedos que se entrelaçavam os do moreno.
– Izaya... eu vou... – avisou e sentiu o informante sugar com força seu pênis, aplicando o golpe final em sua sanidade.
– Já te disse que é doce, não é, Shizu-chan?
Shizuo, lutando contra sua pesada respiração, entreabriu os olhos e direcionou-os a voz que o chamava. Seu corpo pesava e ele percebia-se exausto, sentindo-se convulsionar por seu recente orgasmo. Ao por seus pesados olhos no que estava a sua frente, entretanto, cada músculo de seu corpo despertou e seu coração bateu como louco.
– Sabia que daquela vez você abandonou assim? Isso é imperdoável, Shizu-chan.
Shizuo encarava perplexo um Izaya sentado no chão, completamente nu, plenamente excitado e olhando-o maliciosamente com uma das mãos perto dos lábios, mão esta que continha o que Shizuo julgava – corretamente – ser o fruto de seu recente orgasmo.
Provavelmente satisfeito com o olhar que Shizuo o lançava, Izaya alargou ainda mais seu sorriso e direcionou a mão contendo o gozo de Shizuo ao próprio pênis, despejando ali o conteúdo e, então, com uma intensa gargalhada, começando a massageá-lo, lentamente.
“Ah... merda, Izaya”, Shizuo pensou, rendendo-se completamente e largando-se pesadamente no chão.
Shizuo encarava intensamente enquanto Izaya substituía sua gargalhada por gemidos nada inocentes, deslizando a mão por seu pênis com a ajuda do gozo de Shizuo e misturando a ele sua própria lubrificação.
“Merda, merda, merda... caralho, pulga!”, pensou ao ver como os olhos castanho-avermelhados fitavam-no com interesse e ardor.
Os olhos que o encaravam oscilaram por um instante, fechando-se minimamente, emoldurados por sobrancelhas que se juntavam, franzidas.
Shizuo relutantemente desviou seu olhar dos olhos avermelhados, intrigado sobre o que poderia ter causado aquela reação.
“Desisto! Puta que pariu!”.
A cena que os olhos cor de avelã encontraram ficaria marcada para sempre na mente do guarda-costas, como se gravada a ferro em brasa: auxiliado pelo gozo do loiro, que escorria por entre suas pernas, Izaya inseria um de seus dedos em si mesmo.
Shizuo estava em transe, incapaz de mover um músculo.
Duas extremas vontades corroíam-no por dentro: ele queria Izaya, queria tanto que sentia seu membro, novamente excitado, doer em expectativa; entretanto, ele queria olhar Izaya, ver a forma como pequenos gemidos escapavam de seus lábios cada vez que ele inseria mais profundamente o dedo em si mesmo, ver a forma como seus ágeis dedos agiam sobre o próprio pênis, ver como seu rosto expressava-se e ver a ardência em seus olhos com tons rubros.
A decisão sobre seu próximo movimento não foi, entretanto, tomada por ele:
– Você vai me deixar lidar com isso sozinho mais uma vez, Shizu-chan? – Izaya desviara seu olhar dos olhos de Shizuo e agora encarava o já enrijecido membro do loiro.
“Mais uma vez... Porra, Izaya!”, Shizuo perdia-se nas palavras de Izaya, vagando a imaginá-lo fazendo aquilo que fazia agora outras vezes.
– Shizu-ch... – começou Izaya novamente a chama-lo.
– Você sabe onde é meu quarto. – disparou a Izaya, vendo-o sorrir abertamente, afastar ambas as mãos de sua intimidade, levantar-se e caminhar na direção da única porta fechada dentro do apartamento.
Shizuo encarava Izaya afastar-se, segurando-se para não segui-lo e toma-lo ali mesmo, na parede do pequeno corredor onde o moreno agora estava. Viu Izaya abrir a porta do quarto e suspirou aliviado.
Shizuo não era, nem de longe, um romântico. Não havia nenhum traço nele de “tem que ser na minha cama, meu amor!”. Nenhum! Mas ele sabia que se não afastasse Izaya dele naquele exato momento, acabaria por perder a cabeça e, infelizmente, terminar a ação mais cedo do que planejava, pois, ainda que tivesse acabado de gozar, a visão de Izaya se masturbando na sua frente com o seu gozo o tirara do sério.
Inspirou forte, deixando o frio ar noturno invadir seus pulmões e acalmá-lo.
– Ei... – um chamado o fez olhar na direção da porta de seu quarto, onde encontrou Izaya parado, olhando-o. – O que você está fazendo, Shizu-chan? – Izaya o encarava, claramente divertido com o que via. – Não me diga que... – começou a dizer com uma voz falsamente inocente — ... você é virgem? Desculpe minha indelicadeza, eu deveria te pegar nos meus braços? Eu estou com um pouco de pressa aqui, na verdade... podemos pular essas introduções?! – perguntou, ainda com sua falsa voz, apontando para o próprio pênis.
Shizuo o olhou com raiva, Izaya sempre dizia alguma merda. Mas sua raiva não passou de seus olhos para seu corpo. Na verdade, era difícil sentir raiva da língua afiada do outro quando estava tão excitado.
O informante ainda o encarava com um sorriso malicioso, esperando por ele.
Olhando-o novamente, Shizuo notou algo que não tinha notado antes: o tornozelo de Izaya, assim como seu dedo, também estava enfaixado.
Shizuo levantou-se do chão, tirou a própria camisa e a jogou no chão. Agora ele, assim como Izaya, estava completamente despido.
Izaya o olhou e alargou o sorriso.
– Desistiu da cama?
– Não... mas tem algo que preciso confirmar...- respondeu, caminhando até Izaya, pegando-o pelo pulso e o puxando até a porta de entrada.
****
Izaya
– Não... mas tem algo que preciso confirmar...
Shizuo respondeu a ele, a voz soando grave, carregada pelo desejo que o guarda-costas, aparentemente, tentava esconder. Izaya percebera o efeito que sua pequena cena causara no guarda-costas e estava realmente orgulhoso disso, mas, agora, sinceramente, a única coisa que queria era ser possuído por ele. A cena não fora só um espetáculo para Shizuo, o próprio Izaya também fora afetado e estava no seu limite.
“A única coisa que quero confirmar é o quão melhor seu pau é em comparação com meus dedos, Shizu-chan... vem logo, droga!”.
Contrariando a vontade de Izaya, entretanto, Shizuo começou a arrastá-lo até a porta de entrada.
“Esse maldito vai me abandonar assim de novo?! Ele não faria isso, não é?!”, pensou, sentindo sua excitação diminuir quanto mais próxima a porta ficava.
O destino de Shizuo, entretanto, não parecia ser porta, mas sim a parede ao lado dela, onde, momentos atrás, Izaya o chupara.
“O que você planeja, Shizu-chan?!”, pensou, sentindo seu corpo ser novamente prensado contra a parede e as laterais do seu rosto serem firmemente seguradas pelas fortes mãos do guarda-costas.
Ao sentir o corpo nu de Shizuo colado contra o seu, inevitavelmente voltou a se excitar. Não sabia o que Shizuo planejava com aquilo, mas estava, definitivamente, empolgado com o que viria.
Uma das mãos de Shizuo deixou a lateral de seu rosto e pousou em seus lábios, acariciando-os minimamente, ao mesmo tempo em que os lábios de Shizuo pousaram em seu pescoço, provando-o.
Uma memória pulsou na mente de Izaya: Shizuo prensando-o contra a parede, seus dedos traçando a linha de seus lábios, a língua dele em seu pescoço. Izaya lembrava-se, fora exatamente isso o que fizera Shizuo antes de expulsá-lo de sua casa naquela sexta que eles tocaram-se pela primeira vez.
Shizuo afastou os lábios de seu pescoço e encarou-o.
Izaya encontrou ali os mesmos enigmáticos olhos que encontrou da outra vez, mas agora era diferente: ele sabia o que significava aquele olhar e, mais importante que isso, ele sabia que tinha o mesmo olhar neste exato momento.
Fora daquele olhar que Izaya fugira desde o início. Fora por causa daquele olhar que ele sequestrara Kasuka e cometera seguidos erros. Fora aquele olhar a trazê-lo de volta, depois de três meses, a Ikebukuro. Era aquele olhar que o mantinha preso naquele exato momento. Era por causa daquele olhar que ele decidira ficar.
E, então, Izaya tornou-se muito consciente de todo o estranho caminho que percorrera fugindo daquele homem que agora o mantinha firme entre suas mãos.
“Eu já fugi demais”, concluiu Izaya, “Eu desisto, Shizu-chan”.
Com uma das mãos, Izaya afastou a mão de Shizuo que ainda acarinhava seus lábios. Com os lábios livres, aproximou-se de Shizuo e o beijou: usando os lábios de Shizuo para continuar os afagos que antes eram feitos por seus dedos.
Os dedos de Shizuo entrelaçaram-se a seus cabelos e intensificaram o contato, para, então, quebra-lo de vez.
– Pronto. – resmungou Shizuo e, num só impulso, colocou Izaya sobre seus ombros e o carregou até o quarto, jogando-o, em seguida, sobre a cama.
– Pronto?! Você é estranho, Shizu-chan! – ainda que fossem estas debochadas palavras a deixarem os lábios de Izaya em direção ao outro, ele sabia que era exatamente esta a mais adequada palavra, então, fez eco a ela em sua cabeça: “Pronto!”.
Jogado de barriga sobre a cama, Izaya sentiu seu quadril ser levantado e Shizuo inclinar-se sobre ele. Esperou pela dor que sabia que viria, mas, no lugar dela, sentiu os lábios do ex-barman em suas costas e uma de suas mãos em seu pênis.
Com o rosto afundado no travesseiro, Izaya sentia a língua de Shizuo percorrer a linha de sua espinha, de seu pescoço até seu quadril, enquanto sua mão continuava a estimulava-o lentamente.
– Oh... você fez um bom trabalho aqui! – ouviu Shizuo exclamar, deslizando os dedos para dentro dele.
Izaya sabia que, mesmo com a interrupção de momentos antes, ainda estava lubrificado o suficiente para que os dedos deslizassem com facilidade.
– Eu sempre faço um bom trabalho, Shizu-chan. – respondeu entre risos.
Sentiu os dedos de Shizuo abandonarem-no e suspirou fundo ao perceber que agora o que o preenchia era o pênis do guarda-costas.
Um gemido alto escapou de seus lábios, sendo seguido por um suspiro que ecoava contra sua nuca. Shizuo estava exatamente onde ele gostaria que estivesse, exatamente onde o desejou por três longos meses.
Os gemidos de Shizuo eram todos seus, os movimentos de Shizuo eram todos em seu corpo, os lábios de Shizuo procuravam a sua pele.
Este pensamento fez com que algo em seu interior se contraísse satisfeito e, como resposta, ganhou mais um gemido do outro.
Uma mão forte em sua cintura forçou seu quadril a empinar-se ainda mais e Izaya sentiu como Shizuo ia cada vez mais fundo dentro dele.
– Izaya... eu quero ver. – a voz que o chamou soava rouca.
– Ver? — perguntou, distraído, incapaz de pensar em qualquer coisa que não fosse a sensação em seu quadril.
Subitamente, sentiu o outro sair de dentro dele e reclamou com um muxoxo desagradável.
Assistiu Shizuo afastar-se dele e deitar-se na cama, olhando-o com os olhos famintos.
– Quem disse que você podia par... – começou a dizer, mas foi interrompido pelo outro.
– Quero te ver. – ordenou Shizuo, estendendo uma das mãos em sua direção e puxando-o para cima dele.
Com a última declaração de Shizuo, Izaya entendeu perfeitamente o que o loiro queria.
– Tão pervertido, Shizu-chan... A história da virgindade era mentira, então? – respondeu com deboche.
Por mais excitado que estivesse não podia evitar troçar do tom mandão do guarda-costas. Não tinha, entretanto, qualquer intenção de, naquela vez, desobedece-lo.
Com um sorriso divertido, aproximou-se do guarda-costas e sentou-se sobre ele, uma perna de cada lado do quadril do loiro.
– Rápido, merda! – rosnou Shizuo, arrancando uma gargalhada dos lábios do informante.
Izaya posicionou-se sobre o membro de Shizuo e sentou-se sobre ele, deixando-se penetrar novamente, embriagado com a sensação de ter Shizuo a invadi-lo.
Apoiou ambas as mãos na barriga de Shizuo, usando-as como alavanca para seus movimentos, que se tornavam cada vez mais profundos e intensos.
– Se toque... – a voz de Shizuo voltou a soar, ainda mais rouca – Se toque pra mim...
Izaya gostaria de ter dito “Vai se ferrar”, ou “Quem diabos você pensa que é para ficar dessa forma ordenando as coisas pra mim” ou ainda “Pare de me dizer o que fazer, idiota”, mas, ao encontrar os olhos cor de avelã a fitarem-no fixamente, por mais que se esforçasse, as debochadas palavras não deixaram seu lábios. Izaya sentia que todo o seu corpo já não o obedecia. E, ao ver sua mão movendo-se exatamente na direção indicada por Shizuo, pousando em seu próprio pênis e sua garganta liberar gemidos conforme os movimentos com os dedos começaram, teve certeza de que perdera totalmente o controle de seu corpo para Shizuo. Ele gostaria de dizer, também, que era frustrante, que a sensação era horrível, que seu corpo provavelmente estava louco, entretanto, contrariando o que ele achava que sentiria quando o controle lhe fosse tomado, ele se sentia incrível, sentia-se em brasa, sentia que cada célula de seu corpo estava exatamente onde deveria estar.
“Eu desisto”, pensou, pela segunda vez naquele dia, o informante.
Ele sabia que era inútil lutar contra Shizuo. Ele sabia que já não conseguiria retomar o controle da situação, ainda mais quando ele já não mais o desejava.
Izaya encarou o homem diante de si, perdendo-se nos olhos castanho-avelã que fitavam-no em brasa e colocavam fogo em cada parte de seu corpo.
– Mais... rápido... – pediu.
Izaya liberou o grito desesperado se prendia dolorosamente em sua garganta. Não era fácil a ele, mesmo que já tivesse desistido de lutar, liberá-lo. Aquele grito, afinal, trazia um pedido insano: Izaya pedia a Shizuo que terminasse de tirar dele qualquer controle, pedia para que fosse tomado completamente, com ele, Izaya assumia que era incapaz agora de fazer por ele próprio o que seu corpo queria.
Os já ardentes olhos cor de avelã arregalaram-se loucos e Izaya soube que naquela batalha não haveria vencedores. O controle que era tirado de seu corpo não era ganho por ninguém. Controle era algo que não existia ali, em nenhum deles, em nenhum lado. Assim como ele mesmo, tudo ao seu redor estava em fogo.
Sentiu duas mãos em sua cintura puxando-o com força para baixo, aprofundamento a penetração e, com um sorriso nos lábios, fechou os olhos e curvou o corpo para trás, soltando a mão que mantinha, até então, no peito de Shizuo. Izaya sentia-se como se se atirasse de um precipício, mas sem que seu corpo caísse, firmemente suspenso como estava pelas fortes mãos de Shizuo. Involuntariamente, uma gargalhada gostosa deixou seus lábios, repleta de satisfação. A sensação dos dedos de Shizuo em sua pele, a sensação dos olhos dele a fitarem-no em chamas, a sensação de seu pênis a preenchê-lo... Izaya achava que devia estar, realmente, louco, mas sentia-se livre como nunca antes se sentira.
A sensação de uma das mãos perdeu-se e Izaya, ainda que contrariado, abriu os olhos buscando o motivo. Ao fazê-lo, encontrou os dedos que antes se afundavam em sua cintura a pousarem-se em seu peito.
– Olhe pra mim, idiota. – ordenou-o o dono dos fortes dedos.
Izaya encarou mais uma vez os olhos do outro, perdendo-se novamente neles.
– Não. – respondeu com um sorriso nos lábios.
A mão em seu peito desceu para seu quadril, apertando-o firmemente contra o do homem abaixo de si.
Izaya fechou os olhos momentaneamente, saboreando a sensação de ser invadido pelo outro, e logo voltou a abri-los, fitando novamente os olhos em fogo de Shizuo.
– Não... – sussurrou de novo, abrindo ainda mais seu sorriso. – Você não está em posição de... – suspirou fundo ao sentir seu quadril levantado pelo guarda-costas, até que não sentisse mais o pênis dele dentro de si – ... fazer exigências aqui... – declarou, gemendo alto ao sentir-se novamente invadido.
Seu corpo tremeu intensamente e ele, incapaz de manter-se firme, apoiou novamente a mão livre no peito de Shizuo.
– Faça... – gemeu, olhando intensamente o guarda-costas nos olhos – ... mais disso!
– Você também.... – Shizuo sorriu, retribuindo o olhar de Izaya enquanto levantava mais uma vez o quadril do moreno – ... não está em posição... – continuou, alargando ainda mais seu sorriso e descendo, com força, o corpo de Izaya contra seu membro – ... de fazer exigências, pulga!
Izaya sentiu seu corpo tremer mais uma vez, como se atravessado por uma corrente elétrica, e seus lábios separaram-se em um longo gemido. O informante viu-se obrigado a parar o estímulo em seu próprio pênis para apoiar ambas as mãos no peito do guarda-costas e respirar fundo vário vezes para retomar o controle de seu próprio peito.
Durante todo seu processo de tentar, em vão, controlar seu corpo, Izaya podia sentir os olhos em Shizuo analisarem-no assiduamente. Era ainda mais difícil parar de tremer quando era vítima de tais loucos olhos.
– Parece que achei um lugar divertido, hein, pulga? – Shizuo perguntou-o, sorrindo malicioso.
– Não sei do que está falando, Shizu-chan... – respondeu Izaya, com dificuldade, entrecortando as palavras com gemidos – mas... – gemeu, alargando o sorriso – você pode continuar assim...
– Eu posso, é? – Shizuo riu, demorando em seus lábios a palavra “posso”.
– Pode. – respondeu, falhando na tentativa de fazer com que a resposta saísse mais como um deboche do que com um pedido.
Sentiu o aperto em seu quadril aumentar e fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, o que encontrou diante de seus olhos foi o branco da parede do teto de Shizuo. Demorou alguns instantes para perceber que seu corpo fora jogado em direção a cama e, agora, Shizuo, sentado a sua frente, mantinha seu quadril preso contra o dele e cada uma de suas pernas em um de seus ombros.
Shizuo mordeu com força sua panturrilha direita e voltou a penetrá-lo, profundamente.
Izaya não pode reprimir um riso. Parecia ser tão fácil ao outro manipular seu corpo que soava quase como uma piada tentar resistir a ele.
– Suas mãos estão livres agora, Izaya, pode voltar ao que fazia antes. – a voz de Shizuo soou novamente, rouca e provocadora.
– Você também pode voltar ao que fazia antes, Shizu-chan... – provocou, também, Izaya, antes de direcionar sua mão a seu membro e voltar a masturbar-se.
Ouviu um riso de Shizuo e sentiu-se ser novamente penetrado, longamente, profundamente, lentamente.
Intensificou os movimentos com a mão, “Mais rápido, Shizu-chan, merda!”, pediu em sua mente. Os movimentos lentos de Shizuo pareciam ser moldados na intenção de tortura-lo, mesmo que ele já estivesse em seu limite. Como que atendendo, porém, seu pedido silencioso, ou talvez porque o próprio Shizuo já não aguentasse os lentos movimentos, a penetração tornou-se rápida e contínua.
– Hum... Shizu-chan... mais... mais rápido. – pediu, por mais incongruente que este pedido lhe soasse.
Izaya sabia que sua pele ficaria marcada pelos dedos de Shizuo ou mesmo que uma de suas costelas recentemente curadas poderia voltar a partir-se, mas não se importava com nada disso, a única coisa que importava era sentir mais de Shizuo. Precisava, desesperadamente, sentir mais de Shizuo.
– Mais... – voltou a dizer, desta vez como uma ordem.
Sentiu Shizuo apertá-lo com ainda mais força e soube que era seu fim. Parou os movimentos da mão em seu pênis. Sabia que nada mais seria necessário agora. Sabia que iria, definitivamente, perder-se e queria, completamente, sem ação nenhuma, se entregar a isso; queria que o único a tomar conta de seu corpo, naquele momento, fosse Shizuo. E assim, livre de quaisquer amarras, entregou-se completamente a Shizuo, sentindo seu corpo convulsionar fortemente e libertar-se, enfim.
Fechou os olhos e abriu os lábios, deixando que saísse dele toda a angústia e incerteza que o tomara desde que encontrara Shizuo, naquele mesmo quarto, a gemer seu nome durante o sono. E então tudo ficou vazio. Ele estava completo, agora e deslizava sossegadamente para a calmaria que vinha depois da tempestade.
Uma batida forte em seu peito, porém, o fez despertar-se novamente: ainda havia algo que ele precisava fazer.
Forçou seus olhos a abrirem-se e fitou o homem diante de si. Os gemidos escapavam intensos de seus lábios e suas sobrancelhas se juntavam em uma expressão que quase poderia ser classificada como dor.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Impulsionou o corpo para frente e enlaçou os braços no pescoço de Shizuo, descendo, no caminho, suas pernas que antes se apoiavam nos ombros do guarda-costas.
Precisava ver qual expressão Shizuo faria enquanto gozava.
Com as ambas as mãos segurou o rosto de Shizuo próximo ao seu e assistiu-o fechar os olhos, apertar ainda mais as sobrancelhas e liberar um sonoro gemido.
Izaya sentia-se em êxtase novamente: a expressão de prazer de Shizuo era sua, os embriagados olhos cor de avelã fitando-o também eram seus. Shizuo era, inteiro, seu.
****
– Me diz, Shizu-chan... o que eu fazia nos seus sonhos?
Izaya encarava Shizuo, deitado ao seu lado na cama, curioso.
Mesmo que não fosse capaz de contar exatamente o tempo que já o olhava, daquela forma, deitado ao seu lado nos lençóis intensamente desarrumados, sabia que já estava a um longo tempo fitando-o.
O informante, estranhamente, não pensava em nada ao fita-lo, sua mente completamente preenchida e focada em olhar as nuances no rosto de Shizuo.
Entretanto, por mais distraído que se mantivesse, já há algum tempo, um pensamento curioso ameaçava pipocar em sua mente ao ver que as piscadas do guarda-costas se tornavam cada vez mais demoradas: ele já vira Shizuo dormir uma vez — naquela mesma cama, inclusive — e, nesta vez, sabia que o guarda-costas sonhara com ele. Olhando-o numa situação parecida com aquela, sentia uma necessidade absurda de saber o que era este sonho.
– Qual deles? – perguntou o loiro, fechando mais uma vez seus olhos para uma longa piscada. Ele não parecia estar muito consciente do que dizia, Izaya, entretanto, tornara-se ainda mais desperto com a pergunta.
– Foram muitos? Uau. – exclamou, levantando a voz e vendo o outro abrir largamente os olhos, talvez surpreso com a alta exclamação ou com a percepção do que acabara de assumir. – Deixe-me pensar...- Izaya permanecia em silêncio encarando Shizuo, que, ainda que surpreso, esperava por sua resposta – Agora.
Izaya surpreendeu-se com a palavra que escapou de seus lábios.
Izaya sabia que ambos estavam agora despertos, então falar de sonhos era absurdo. Entretanto, perdido no olhar atento de Shizuo, não conseguiu evitar que a desconexa palavra deixasse seus lábios.
“O que você sonha... agora”.
Shizuo, assim como Izaya, pareceu ter ficado confuso ao ouvir esta resposta: seus olhos estreitaram-se por um instante, para, em seguida, desviarem-se para o canto superior esquerdo, e, então, com um franzir de sobrancelhas, para o canto superior direito. Izaya sentiu vontade de rir diante da reação do outro, mas calou-se ao ver que agora o guarda-costas o olhava fixamente.
– Você ficava. – respondeu simplesmente.
Izaya entreabriu levemente os lábios, fora pego de surpresa pela sinceridade na resposta de Shizuo. Mesmo que soubesse da imprevisibilidade do outro, sentia-se totalmente desarmado diante dela.
– Bom... não é como se eu pudesse ir para casa depois de ser atacado dessa forma! – respondeu, sentindo seu rosto aquecer-se – Então... por hora... – continuou, sentindo os olhos avelã de Shizuo fixos em si – Eu não me importaria de ficar...
Izaya sentiu algo dentro de si acalmar-se com a saída daquelas palavras, e, subitamente, sentiu muito sono.
– Ótima resposta. – declarou Shizuo, fechando os olhos.
“Eu realmente não me importaria de ficar”, completou, mentalmente, fechando também os olhos.
********
A maioria das coisas no mundo acontece em gradações. Elas se desenvolvem lentamente. Evoluindo aos poucos, como um processo.
A exceção para isso são o que se pode chamar “momentos geniais”. Eles são únicos. São a ruptura. Não têm precedentes e não fazem parte de um processo. Eles rasgam seu caminho com as próprias mãos e se impõem.
Esses momentos são como o a queda da maça para Newton.
São simples e singulares. Mas carregam em si a capacidade de mudar tudo.
Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya são como estes momentos. Eles passam o tempo todo a impressão de que são um processo, de que estão evoluindo aos poucos e de que chegarão a algo. Mas, na realidade, eles são a ruptura.
Um precisou do sonho, outro do choque da perda.
Ambos precisaram de suas maças para perceberem o óbvio. E, assim como a gravidade de Newton, depois de constatado, pareceu realmente absurdo que nunca tivessem percebido antes.
Seria estranho, de alguma forma, reconhecer o que eles sentiam um pelo outro como “amor”. Izaya se recusava a aceitar que o mais estranho e contraditório dos sentimentos humanos o havia alcançado, e Shizuo recusava-se a aceitar que poderia, de alguma forma, existir amor entre um monstro e uma pulga. Mas isso era o mais esperado de um relacionamento entre pessoas que tinham sérios problemas com a semântica.
Talvez, algum dia, surgisse aquele momento que eles reconhecem “amor” no que sentiam uma pelo outro. Mas este seria outro daqueles casos de rupturas, que precisaria, certamente, de algum momento especial e diferente.
O mundo não é muito otimista quando se trata de rupturas, e, definitivamente não permite que muitas delas ocorram, mas talvez isto só valha para humanos e, quem sabe, a constância na ruptura seja permitida para monstros e pulgas.
Mas, isto, definitivamente, não é algo que possa ser previsto.
Amar é, mesmo, muito curioso.
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