Depois de um sonho
19 Especial 1 - Espectador
Notas iniciais
Especial 1 — Espectador
Ele era um homem normal e orgulhava-se disso. Ele não era protagonista de nada, não tinha inimigos, não tinha sequer pequenas vinganças. O que ele tinha era, sim, um trabalho, algumas parcelas pagas de um apartamento e talvez, atualmente, uma namorada. Mas, de todas as coisas que tinha, havia uma que o deixava especialmente realizado, seu único orgulho. Seu único orgulho poderia, entretanto, parecer inicialmente e aos desavisados, tremendamente comum, mas, independente de quaisquer prejulgamentos, ele se orgulhava imensamente de ser, acima de qualquer outra coisa, um homem comum.
Seria errôneo pensar que ele sempre fora orgulhoso de sua ordinária natureza. Em sua adolescência, lembrava-se de desejar ação, lembrava-se de candidatar-se a pequenos cargos na associação de bairro ou no grêmio escolar com o intuito de parecer mais importante e útil. Entretanto, há três anos um singular acontecimento mudara completamente sua perspectiva e o fizera pensar que tudo o que queria era uma mediocremente bela vida. Há três anos ele passara três dias em coma no hospital.
Durante os três anos que se seguiram ao dia no qual ele acordou a encarar as paredes absurdamente brancas do hospital, diversas vezes ele foi lembrado sobre o absurdo prazer que era ser um homem comum. Em específico, por seis vezes foi permitido a seu peito inflar-se honrado diante das maravilhas de sua invisibilidade e todas as seis vezes ele orgulhou-se de sua habilidade de passar despercebido enquanto o mundo explodia ao seu redor.
Portanto, quando o homem comum parou naquela rua, naquela manhã de quarta-feira, em seu usual caminho para seu banal trabalho, ele pensou que aquela cena que acontecia diante de seus olhos implicaria, simplesmente, em sua sétima vez e esperou ansioso pela sensação que sabia que viria. E foi com esta expectativa que ele manteve seus comuns olhos castanhos em dois homens alguns metros a sua frente. Não demorou muito, porém, para estes mesmos olhos arregalarem-se enquanto o homem comum via seu orgulho despedaçar-se junto à certeza de que aquela não seria, definitivamente, a sua sétima vez.
– Por que você está protegendo-o? – gritava, numa voz que parecia enjaular uma quantidade considerável de raiva, um dos homens a sua frente.
Mesmo que já conhecesse há anos aquela figura, ele não podia evitar tremer diante dela exatamente como na primeira vez que a vira. Os olhos daquele homem sempre o fizeram tremer. Talvez se não fosse por isso, o homem comum pudesse acha-los belos, com aquele tom rubro que se mesclava ao castanho. Mas ele sabia que encontrar beleza ali estava fora das capacidades de um ser humano cujo foco era, justamente, fugir dos problemas que aqueles olhos escarlates traziam. O único sentimento que o possuía era a gratidão por não ser o foco da atenção daquele perigoso olhar. Contudo, ainda que não fosse o foco, sentia seus joelhos prestes a cederem e sua boca desesperar-se para dizer qualquer coisa, qualquer promessa, qualquer mentira, qualquer palavra que afastasse para longe aqueles olhos. Ele sabia, entretanto, que nada do que pudesse dizer teria efeito naquele homem, não quando ele parecia tão focado no verdadeiro alvo de seu olhar.
Se o homem comum era consciente daquele homem de olhar abrasador alguns metros a sua frente, também era consciente do outro homem, mais perto de si, cujas costas fitava. Aquele homem era o verdadeiro alvo do olhar escarlate e das palavras raivosas, e mesmo sem poder ver o rosto deste outro homem, ele sabia perfeitamente quem ele era, só havia, afinal, um homem capaz de manter os joelhos firmes ao ser alvo do olhar rubro de Orihara Izaya. Mas, se restava nele qualquer dúvida quanto a identidade do dono das costas largas, esta dúvida dissolveu-se no instante no qual o ouviu pronunciar-se:
– I-ZA-YA!
O homem comum tremeu. Se a primeira voz esforçava-se por manter presa a raiva, aquela que respondeu não se prestava a tamanho trabalho, ela soava grave, gutural, e truncada, como se cada sílaba carregasse consigo um golpe. Em toda a sua medíocre vida, o homem comum só uma vez ouvira uma voz com propriedades tão particulares, o que fazia com que ele reconhecesse, sem sombra de dúvidas, aquela voz como a de Heiwajima Shizuo.
Aquela específica palavra gritada daquela precisa forma lançou um arrepio por todo o corpo do orgulhosamente medíocre homem. Ele lembrava-se dela. Aquela fora justamente a última palavra que ouvira antes de acordar no hospital com diversos tubos ligados a seu braço direito. A palavra que escapava aos berros viria a atormentá-lo muitas vezes durante os últimos três anos, e, em todas as vezes, ela lhe serviria como um lembrete do quão satisfeito ele estava por ser invisível. Um homem comum quase nunca tem direito a um mantra, mas aquele homem comum em especial arriscava dizer que aquele grito era o seu.
Ele arriscou um olhar a Heiwajima Shizuo: ele era alto, bem mais alto do que o pobre homem comum. Arriscaria dizer que havia entre eles no mínimo uns vinte centímetros de diferença. Não que esse fosse um fator importante, provavelmente o homem comum sentiria-se igualmente intimidado por sua presença ainda que fosse vinte centímetros mais alto. Heiwajima bufava, e mesmo se o homem comum já não conhecesse aquela situação tão bem quanto a palma de sua mão, não seria necessário muito esforço para saber que estava a um triz de descontrolar-se e jogar-se contra o dono dos olhos castanho-avermelhados. O dono dos olhos em questão, entretanto, não parecia preocupado com o eminente ataque. Ou, ao menos, foi isso o que o homem comum pensou ao pousar seus olhos castanhos comuns no largo sorriso que ele exibia.
Nesta hora, o dono dos olhos castanhos comuns poderia pensar muitas coisas, como, por exemplo, que muitas pessoas acumulavam-se ao redor deles, ou que algumas delas – não poucas – olhavam-no com olhos extremamente piedosos, ou ainda que algumas lojas haviam baixado as portas e encerrado o expediente. Mas a única coisa que o genérico homem pensou foi: “Ah, por favor, solte esse canivete!”.
O homem que segurava o canivete, entretanto, permanecia completamente alheio às suas súplicas mentais. Ou talvez estivesse plenamente consciente delas... Ele nunca conseguia distinguir qual era o limite dos conhecimentos de Orihara Izaya. Para fazê-lo ainda mais confuso, aquela pessoa que sempre parecia saber demais abanou um pouco o canivete em sua mão direita, girando-o entre os dedos posteriormente, e alargou ainda mais o já imenso sorriso.
– Shizu-chan... – as palavras dançavam nos lábios daquele que mantinha o canivete, numa coreografia perfeitamente ensaiada com seu sorriso malicioso – ... por que você está protegendo este homem?
O ordinário homem encarou suas mãos. Na primeira vez que ouvira aquelas palavras não havia compreendido o total de seu significado, mas agora era claro para ele que “este homem” era ele.
“Protegendo este homem?”, repetiu mentalmente, “Alguém está me protegendo?!”, olhou ansioso ao redor, pronto a jogar seus olhos suplicantes para quem quer que fosse seu salvador, mas as únicas pessoas que encontrou o olhavam com os mesmos olhos carregados de medo. A única pessoa na qual não podia ver o olhar recuado era o monossilábico homem de voz grave imediatamente a sua frente. Não que ele pudesse ver os olhos deste homem, já que tudo o que via eram suas costas, mas sabia que acima daqueles lábios que proferiam palavras de forma tão raivosa um olhar medroso nunca encontraria morada. Heiwajima Shizuo nunca olharia daquela forma para Orihara Izaya, e Orihara Izaya nunca olharia daquela forma para Heiwajima Shizuo, isso qualquer homem comum – e ainda mais aquele homem comum em especial – sabia.
Foi encarando as costas daquele homem incapaz de sentir medo que o banal homem percebeu que ele era o seu herói. Ou, ao menos, era isso o que o homem com o canivete pensava.
Seus pés fizeram menção de moverem-se, mas o resto de seu corpo não os seguiu.
– Você não vai a lugar algum. – pela primeira na vida ele ouviu aquela voz direcionada a ele e, como consequência, desejou nunca passar novamente por essa experiência.
“Ele sabe de tudo!”, pensou assustado. Ele tinha certeza que aquele homem via dentro de sua cabeça. “Ele não está me protegendo, Orihara!”, gritou para ele mentalmente, convicto de que poderia ser ouvido. O homem cujo nome chamou em seus pensamentos, entretanto, limitou-se a sorrir novamente em sua direção e desviar os olhos de volta a Heiwajima, que ainda permanecia parado e calado, ignorando totalmente a pergunta de Orihara. O homem banal deteve por mais uns instantes seus assustados olhos em Izaya, mas uma pequena nuance em sua expressão — uma mudança sutil no sorriso que se torceu suavemente à direita e os olhos rubros que se abriram levemente — o fez desviar o olhar para a mesma direção que encaravam os olhos castanho-avermelhados.
O trivial coração do homem simples saltou fortemente: o local no qual ele esperava encontrar Heiwajima Shizuo estava vazio. Um choque percorreu sua espinha. Não apreciava a companhia de Shizuo, mas sentia ainda mais relutância em notar-se sozinho com Orihara Izaya, não queria, de forma alguma, ficar sozinho com aquele homem munido de lâminas e leitor de mentes. Apreensivo, correu os olhos ao seu redor e encontrou alguns metros adiante o que procurava, Heiwajima, aparentemente, não abandonara a cena, apenas a expandira em alguns metros. O alívio que sentiu ao ver que não estava sozinho com Izaya, porém, não durou nem um minuto: Heiwajima Shizuo segurava uma placa de trânsito.
Se “I-ZA-YA” era seu mantra, a placa de trânsito era seu leitmotiv. E se um mantra não era algo usual para homens usuais, ainda mais não era usual um homem usual possuir conscientemente um leitmotiv. Ele não era um personagem principal, afinal, ele era só um figurante e figurantes, normalmente, não têm direito a leitmotiv. Mas, ainda assim, ele tinha um. Não era, entretanto, algo complexo ou recheado de significados, a questão era crua: se “I-ZA-YA” foi a última coisa que ouviu antes de acordar num hospital, “placa de trânsito” foi a última coisa que ele viu.
Ele lembrava-se daquele fatídico dia, três anos atrás, vividamente: era um dia bom e ele sentia-se nas nuvens, fazia sol, ele tinha uma namorada e caminhava para seu primeiro dia no trabalho dos sonhos. Ele quase sorria ao pensar em como aquele dia lhe parecia lindo, questionando se ele fora realmente assim ou se ele o havia pintado dessa forma durante os três anos que se seguiram. De qualquer forma, independente de sua beleza, aquele era o primeiro dia daquele homem em Ikebukuro. Ele saiu da estação de metrô, sorriu para o sol, cumprimentou pessoas desconhecidas e caminhava decidido para seu novo trabalho quando um tumulto o fez parar, curioso, por alguns instantes. Mas logo ele retomou os passos, não queria arriscar, afinal, chegar atrasado ao seu primeiro dia no trabalho. Porém, se ele resolveu encerrar o seu envolvimento com o tumulto, o mesmo não pode ser dito sobre o envolvimento do tumulto com ele.
Naquele dia, tão belo e tão maravilhosamente definitivo, ele encontrou pela primeira vez com o homem vestido de barman, que mais tarde veio saber chamar-se Heiwajima Shizuo, e com o homem de sorriso malicioso e inclinações para lâminas, que mais tarde veio saber chamar-se Orihara Izaya.
Primeiros encontros são sempre complicados, há sempre a surpresa inicial, seguida pela apreensão mesclada à satisfação pela possibilidade de viver um momento singular e então, o acontecimento que pode, ou não, chocar e mudar sua vida. O primeiro encontro do homem banal com Shizuo e Izaya não foi diferente: houve a surpresa inicial, quando ele encarou um homem capaz de arremessar sem dificuldade uma máquina de venda automática; houve a apreensão e a satisfação por presenciar um momento singular, quando ele viu a destreza como o rapaz que segurava um canivete conseguia desviar da máquina e então lançar algumas lâminas; e houve, por fim, o acontecimento que pode, ou não, mudar sua vida para sempre, o que, no caso do homem banal, realmente foi um acontecimento que mudou sua vida, para sempre.
Tudo aconteceu tão rápido, entretanto, que o homem comum mal teve tempo de processar o momento no qual sua vida virou do avesso: num instante ele via o homem arremessar a máquina de vendas, no outro o outro homem desviar e lançar lâminas, então assistiu o primeiro homem — atingido no braço pelas lâminas – gritar “IZAYA”, arrancar raivoso uma placa de trânsito do chão e arremessa-la com força na direção do outro, que, por sua vez, desviou mais uma vez. No instante seguinte, ele via a placa de trânsito vir com força em sua direção. E enfim, a próxima imagem na qual pousou os olhos foi o teto branco do hospital de Ikebukuro.
Livrando-se das memórias de seu epifânico momento — no qual percebera a importância de ser invisível e ser incapaz de se colocar em brigas — o homem comum encarou Shizuo, alguns metros a sua esquerda e assistiu enquanto a placa de trânsito deixava suas mãos em direção a Izaya, que, assim como naquela primeira vez três anos atrás, desviou com destreza, liberando uma gargalhada de diversão ao terminar o movimento.
Suspirou cansado, afinal, “suspirar cansado” era a única coisa que podia fazer aquele homem naquele momento. “Sabia que você pode deixar as pessoas em coma caso as atinja com isso, Heiwajima?!”.
Essa não era a primeira vez na qual o homem comum repreendia mentalmente a vocação de Shizuo para o arremesso de objetos. E não era sequer a segunda ou a terceira. Aquele homem já nem sabia quantas vezes já havia topado com Izaya e Shizuo naqueles três anos que se encontrava estabelecido em Ikebukuro. Mas, de todos os encontros, ele não podia se esquecer de um, um encontro muito diferente, que acontecera há dois anos, mais ou menos.
***
Ele voltava para casa tarde, seu chefe o obrigara a fazer horas extras até quase meia-noite por causa da proximidade do fim de um prazo. Ele não gostava de voltar para casa a pé naquele horário, mas não pode evitar que, daquela vez, isso se fizesse necessário. Naquele momento, tudo o que ele podia pensar era que, independente de ter ou não dinheiro para isso, devia comprar um carro. Seus pensamentos desviaram-se para o motivo pelo qual ele ainda não havia conseguido dinheiro o suficiente para isso: Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya, afinal, se, naquele dia, um ano atrás, ele não tivesse sido atingido por uma placa de trânsito e não tivesse acabado em coma talvez ele tivesse conseguido chegar para seu primeiro dia de trabalho e não tivesse acabado demitido antes mesmo de começar e, consequentemente, não precisasse estar em um trabalho que o pagava metade do que ganharia no emprego de seus sonhos.
No momento no qual pensava isso sobre sua falta de sorte por ter topado com Heiwajima e Orihara, ouviu um curioso som ecoar pelas paredes do beco no qual passava em frente: uma gargalhada. O homem comum lembrava-se de ter tremido até o último fio de cabelo, afinal, ele, dois anos atrás, assim como agora também, já era familiarizado com aquela gargalhada.
Inevitavelmente seus olhos desviaram-se na direção do beco e, lá dentro, encontraram os dois maiores estopins de desgraça que já encontrara na vida: Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. E, como na vez na qual foderam sua vida, eles pareciam estar brigando. Ou era o que pensava o homem comum até ouvir a frase “Shizuo, tudo bem?”, deixar os lábios de Orihara num tom preocupado. O simples homem, naquela altura, não conhecia os dois dos homens mais perigosos de Ikebukuro o suficiente para mensurar o quão insólito era aquele tom deixar os lábios de Orihara Izaya, mas, ainda assim, sentiu desconforto ao ouvi-lo.
O homem comum não pode ver o que se seguiu à pergunta de Izaya, mas, se ela despertara seus sentidos quanto à estranheza da situação, o que aconteceu em seguida confirmou suas suspeitas, cravando o momento pra sempre em sua memória: Heiwajima Shizuo passou por ele correndo, como se fugisse desesperadamente de algo, mas, mais admirável que a fuga foi o tom com que as palavras “Sentiria-me em ruínas” deixaram os lábios daquele destrutivo homem. Naquele momento, a única coisa que o homem trivial conseguiu pensar era que aquele homem, o mais forte de Ikebukuro, realmente parecia em ruínas.
***
“Ruínas”, pensou o homem comum.
Aquele homem que agora passava diante dele em direção a uma barra de ferro fixa na calçada oposta a qual ele arrancara a placa de transito instantes antes não lembrava nem de longe o homem que fugira do beco naquela noite dois anos atrás. O homem que esbarra nele naquele dia não era nem a sombra do imponente homem que girava a barra de ferro recém-arrancada nas mãos. Mesmo que ele odiasse o fato de que o homem mais forte de Ikebukuro já quase o havia matado, ele não podia evitar sentir-se aliviado por ver que agora ele jogava-se, repleto de animação, pra cima de Orihara Izaya.
Durante muito tempo ele questionara a humanidade naquele homem e seus poucos conhecidos endossaram sua opinião ao acordar do coma: ele era um monstro, um monstro com força descomunal que quase o matara gratuitamente. Entretanto, ao ver a expressão de Shizuo ao deixar aquele beco ele não pode evitar pensar que havia ali, inegavelmente, humanidade. O tom de Shizuo, naquela noite no beco, mostrava dor, e ele não pode evitar sentir empatia por ele. Alguém capaz de proferir palavras daquela forma nunca poderia ser um monstro. Mas, é claro, ele nunca se aproximaria o suficiente de Heiwajima Shizuo para dizer isso a ele. Nem ele queria e nem Shizuo permitiria, ele sabia disso.
– Shizu-chan... – a voz do informante o tirou de seus pensamentos – ... sua princesa em perigo está te olhando apaixonadamente.
O homem comum desviou os olhos de Shizuo e os baixou para suas próprias mãos, ele não precisava encarar Izaya para saber que seus olhos escarlates estavam repletos de malícia, a voz que ecoava em seus tímpanos era uma prova assustadoramente eficiente para denunciar o quão sarcástico aquele homem era. Não precisou de muita reflexão para deduzir que a “princesa em perigo” era ele mesmo. E, por mais que não gostasse da alcunha, nunca seria capaz de rebatê-la. O que o intrigava, entretanto, era que além de malícia, ele sentia algo mais naquela voz, algo estranhamente familiar...
Inevitavelmente seus pensamentos correram para o dia seguinte ao encontro no beco.
***
Ele lembrava-se, era uma sexta-feira e ele tinha um encontro. O homem comum não tinha um encontro desde o que sua namorada o largara, logo depois de despertar do coma (ele suspeitava que ela havia se cansado de ouvi-lo lamentar sobre sua falta de sorte ao encontrar Heiwajima e Orihara, hoje, três anos depois, não a culpava por ter se cansado), mas, naquela sexta-feira longínqua, dois anos atrás, uma colega de trabalho havia aceitado seu convite para jantar.
Ele sentia-se muito feliz desfrutando um sushi num restaurante que lhe fora apresentado semanas atrás por um amigo, ele sentia-se muito feliz com sua companhia e sentia-se, principalmente, muito feliz por causa das doses de saquê que já havia tomado. Ele estava muito feliz... até perceber que não era o único naquela noite que tinha um encontro.
Do outro lado do restaurante viu Orihara Izaya.
O informante estava diferente, mas, ainda assim, seria impossível que o homem comum, por mais comum que fosse, não percebesse que ali estava um dos culpados por sua quase morte. A primeira coisa que pensou em fazer foi propor a sua companhia que o encontro continuasse em outro lugar, mas seu orgulho — ainda que escasso — o impediu de proceder desta forma. Entretanto, não pode evitar que seu corpo se movesse sem sua permissão e se levantasse bruscamente ao perceber que Heiwajima Shizuo acabara de passar pela porta do restaurante. Sua companhia o olhou surpresa e, neste momento, ele soube que deveria sair dali naquele exato momento.
Ele sabia que não teria muito tempo para deixar o restaurante antes do início da briga e, enquanto tentava explicar os motivos pelos quais eles deveriam sair dali, o trivial homem esperava que a briga irrompesse. Contrariando, porém, suas expectativas, tudo o que podia ouvir era o som de conversas casuais e ruídos de mastigação. O homem comum desviou o olhar de sua companheira e o correu pela restaurante: Orihara Izaya continuava conversando casualmente com sua companheira e Shizuo havia se sentado tranquilamente em uma mesa do restaurante, alguns metros a direita de onde sentava-se o informante.
Mesmo que a situação parecesse calma, aquele foi o fim de seu, até então, bem sucedido encontro.
O homem comum corria o olhar de Heiwajima para Orihara e então de volta a Heiwajima, incapaz de compreender qual o motivo que os levava a compartilhar o mesmo estabelecimento civilizadamente. Num primeiro momento pensou que Heiwajima não havia percebido Orihara, mas descartou a hipótese por dois motivos: até mesmo ele havia notado Orihara no restaurante e, mais importante que isso, Orihara parecia muito empenhado em fazer-se notar desde a entrada, ainda que silenciosa, de Heiwajima, de forma que parecia impossível que o homem mais forte de Ikebukuro ainda fosse ignorante de sua presença. O homem comum podia ser muitas coisas, mas não era ingênuo, ele percebera a mudança de comportamento de Orihara Izaya: se antes estava quieto e centrado em sua companhia, agora ele ria alto e focava seus assustadores olhos castanho-avermelhados no recém-chegado, de forma que mesmo a garota com quem dividia a mesa parecia intrigada.
Por maiores que fossem os esforços, entretanto, de fazer-se notar, o informante continuava duramente ignorado por Heiwajima. Ignorado, mas não invisível. Agora o homem comum percebia que Shizuo franzia as sobrancelhas e mantinha os punhos apertados sobre o colo, claramente inquieto. Talvez num esforço de manter seus dedos longe do outro.
– Hum... tudo bem com você? Você está meio pálido... – sua companhia chamou sua atenção. Apesar das palavras parecerem gentis, elas soavam entediadas. Só então o homem comum percebeu que há tempos não lhe dirigia atenção, focado como estava em manter-se longe do início de uma nova guerra.
– Bom... você percebeu que aqueles dois estão aqui...? – perguntou, receoso.
– Aqueles dois? – a mulher perguntou, distraída, olhando ao redor enquanto levava um sushi a boca.
– Hey, hey, não olhe assim... – “Ai meu deus se eles te virem assim, mulher!”.
– Hum... – respondeu-lhe simplesmente, nitidamente irritada pela repreensão recebida.
– Digo... – gaguejou o homem comum – ...Heiwajima e Orihara.
Sua companheira, que levava um novo sushi aos lábios, parou subitamente e dirigiu toda sua atenção a ele. Ele pensou que, provavelmente, aquele era um assunto que despertava interesse em todos os habitantes de Ikebukuro, sem exceções. Agora discretamente, a mulher voltou a correr os olhos pelo restaurante, detendo-se alguns instantes em Shizuo.
– Eu vejo o Heiwajima Shizuo... o Orihara não está aqui. – anunciou ela, claramente decepcionada – Falando nisso... – ela voltou a animar-se — ... você soube que alguns dias atrás o Heiwajima estava evitando o Orihara?
– Impossível... – sorriu debochado.
– É verdade! Eu ouvi de uma amiga! Ela estava dentro daquela papelaria perto da estação, sabe qual é? – o homem comum acenou positivo, era uma papelaria bem perto de onde o acidente fatídico com a placa de trânsito ocorrera – Então! Ela estava dentro desta papelaria, dai de repente o Heiwajima entrou, se abaixou perto da vitrine e ficou olhando fixo pro lado de fora. Quando minha amiga foi ver o que tanto ele olhava, sabe o que ela encontrou? O Orihara parado! E o Heiwajima só saiu de lá quando o Orihara já tinha ido embora! Incrível né?! Ontem estava todo mundo comentando isso no trabalho! O que será que o Orihara fez pra que o Heiwajima corresse assim com o rabinho entre as pernas, hein?!
O homem comum já havia percebido há algum tempo, mas, ao olhar para a empolgação da mulher que o encarava do lado contrário da mesa, ele confirmava suas suspeitas: todos sempre estavam comentando sobre Heiwajima e Orihara. As constantes brigas entre os dois estavam entre os assuntos mais comentados da cidade e mesmo ele ficara famoso por um tempo por causa da história de seu coma.
– Olha, olha! O Heiwajima está bebendo! É a primeira vez que o vejo fazendo isso. Onde você disse que está o Orihara mesmo? – a voz da mulher interrompeu seus pensamentos.
– Bem aqui na frente, um pouco pra esquerda. Ali – sinalizou discretamente com a cabeça – com aquela garota de cabelos castanhos compridos.
Desviou os olhos, repreendendo-se mentalmente por sua indiscrição e implorando para que o seu aceno tivesse sido suficientemente discreto. Um pequeno “oh!” surpreso que escapou dos lábios da mulher a sua frente o fez colocar novamente seus olhos em Orihara. Seu estômago gelou no mesmo instante: aquele homem potencialmente perigoso agora sorria abertamente. Piscou algumas vezes e tomou coragem para direcionar seus olhos para a direita, onde sabia estar Heiwajima, e, ao fazê-lo, notou o ex-barman em pé, olhando fixamente para Orihara.
– Shizu-chan, que prazer encontra-lo esta noite.
O homem comum olhava espantado para um Orihara que fazia uma grande reverência na direção de Shizuo.
– Ei, ei... era ele mesmo. – a mulher a sua frente sussurrou a ele – Ah... eu quase sinto pena daquela garota com ele... Olha como ela o olha! Tão confusa! Ela não tinha percebido quem ele era?!
O homem comum virou-se na direção da voz, mas tão logo o fez percebeu que não era ele o alvo daquela retórica pergunta. Sua companhia agora conversava calmamente com o jovem casal da mesa ao lado. Olhou ao seu redor e constatou que eles não eram os únicos que olhavam e comentavam sobre a cena que se desenrolava no restaurante. Os dois alvos de olhares e comentários, entretanto, pareciam totalmente alheios a eles: Orihara Izaya dirigia a Shizuo um sorriso maldoso enquanto empunhava seu canivete e Heiwajima Shizuo, por sua vez, focava olhos predadores em Izaya e se dirigia a passos rápidos a ele.
– Vocês acham que eles começarão uma briga aqui? – o rapaz da mesa ao lado perguntou a ninguém em especial. A voz do jovem carregava medo, mas o homem comum não poderia recrimina-lo, ele sabia que se ousasse falar o tom de sua voz muito pouco diferiria daquela temerosa que invadia seus ouvidos.
Os genéricos olhos castanhos do homem comum estavam fixos agora em cada novo passo de Shizuo. Ele não sabia explicar o que era, mas sentia que algo estava errado naquela situação e não pode evitar que lembranças da noite anterior, quando vira Shizuo deixando Izaya no beco com iguais apressados passos, o invadissem. Então os passos pararam. O homem comum arregalou os olhos, esperando o momento no qual ouviria as mesmas palavras que ouvira na noite anterior deixarem os lábios de Shizuo, mas, ao invés disso, o homem mais forte de Ikebukuro respirou fundo, socou o balcão com força o suficiente para espalhar lascas de madeira por todo o restaurante, virou-se com impetuosidade e abandonou o restaurante.
O primeiro a quebrar o silêncio que se instalou no ambiente após o forte estrondo do balcão a ceder diante da força de Heiwajima Shizuo foi Orihara Izaya:
– Shizu-ch... Shizuo! Não vai fugir de mim de novo, desgraçado!
O grito de Orihara pareceu lançar uma corrente elétrica por todo o restaurante, despertando ali todos os clientes atônitos com a saída de Shizuo, ou ao menos foi isso o que sentiu o homem comum ao ver como todos passaram a comentar o ocorrido tão logo o informante saiu porta afora atrás do homem mais forte de Ikebukuro.
– ‘Fugir de mim de novo’, ele disse?
– Isso, foi isso mesmo!
– Ah! Um conhecido viu Heiwajima se escondendo em uma papelaria...
– Eu sei dessa também... eu li num chat... ele se escondeu enquanto o Orihara passava.
– Fiquei sabendo... mas... antes disso, faz tempo que eles não brigam, não é?!
– Ei ei, você não é aquele cara que entrou em coma ano passado?
– Caramba... será que se eu for agora eu ainda consigo ver o Orihara perseguindo o Heiwajima?
– Mas o Heiwajima não é tipo suuuuper forte?
– Mas aquele cara, Orihara, é assustador também, não é?
– Dizem que tudo o que acontece em Ikebukuro é culpa dele...
O homem comum escutava todos os rumores que preenchiam o outrora silencioso restaurante, mas nenhum deles o prendia, a única coisa em que podia pensar era que algo estava errado com Heiwajima Shizuo.
***
– Shizu-ch... Shizuo! Responda o caralho da minha pergunta!
“Ah... então é isso o que é familiar!”, o homem lembrava-se que naquele dia no Russia Sushi ele sentira-se particularmente estranho ao ouvir a irritação e a ausência do apelido. Agora percebia que era isso o que o intrigava na situação diante dele e fazia com que suas memórias voltassem a aquele dia.
– Cala a boca, pulga. Não sei do que merda você está falando!
O homem comum assistiu Orihara estreitar os olhos na direção de Shizuo e mentalmente palpitou que a resposta do outro o deixara ainda mais irritado.
– Ei, ei, o que está acontecendo? – uma voz alguns metros a sua direita chamou sua atenção.
– Bom... Orihara e Heiwajima... estão brigando, eu acho. – outra voz respondeu, baixinho.
– De novo? – uma terceira voz, desta vez feminina, perguntou. – Por qual motivo agora?
– Psiu, está falando muito alto... – a segunda voz repreendeu, mas respondeu a pergunta – Como se precisassem de motivo... mas... desta vez... Parece ser culpa daquele cara ali.
O homem comum não precisava virar-se na direção da voz para saber o “aquele cara ali” apontado pelo dono dela era ele.
– Mas eles não estão junt... ? – a voz feminina voltou a soar.
– Ei, psiu, eles vão te ouvir...
Um sorriso involuntário ocupou os lábios do homem comum. Agora este tipo de rumor sobre o romance entre aqueles dois homens estava consolidado. Mas ele lembrava-se com perfeição que quando os burburinhos começaram a circular, eles eram incertos e temerosos, como um segredo que envolvia toda Ikebukuro. Tão involuntários quanto o sorriso, as lembranças sobre a terceira e a quarta vezes na qual se orgulhou por sua transparência inundaram sua mente. A terceira e quarta vez, assim como a primeira e a segunda, aconteceram quase juntas, separadas apenas por alguns dias.
***
Na terceira vez que o homem comum sentiu-se orgulhoso por ser um homem comum, ele sentiu-se, também, especialmente feliz por ser não Heiwajima Shizuo. É estranho sentir compaixão pelo responsável por sua experiência de quase morte, mas, naquela quinta-feira quente há dois anos, o medíocre homem desejou poder dividir sua transparente presença com o homem mais forte de Ikebukuro.
Ele estava lá quando tudo começou: Heiwajima Shizuo conversava com seu empregador em uma das ruas principais de Ikebukuro quando Orihara Izaya aproximou-se vestindo roupas de barman.
O homem comum piscou duramente enquanto encarava as roupas de Orihara e teria duvidado do que seus olhos lhe mostravam se as expressões das pessoas ao seu redor também não mostrassem o mesmo desconforto e surpresa que sabia estampar seu rosto. Havia, porém, um único rosto ali que parecia imune à surpresa, mas ainda assim, o homem comum sabia que ela não tardaria a se instalar também ali.
Isso não o deixava animado, mas sua visão da cena era privilegiada. De onde estava, na ponta do quarteirão, podia ver Izaya aproximando-se pelas costas de Shizuo. Pela expressão que estampava o rosto do homem mais forte de Ikebukuro, era claro que ele já havia notado a presença do outro, mesmo que sequer tivesse se virado para olhá-lo.
O homem comum sempre estranhou esta capacidade que Heiwajima Shizuo tinha de sentir quando Orihara Izaya estava por perto. Ele a achava assustadora e torcia para nunca ninguém desenvolvesse essa habilidade com ele.
A primeira vez que ouviu sobre este talento especial de Heiwajima foi alguns dias depois de acordar do coma, quando, ao ser levado até seu pequeno apartamento por um amigo, topou com mais uma briga entre os dois perigosos homens. Ele lembrava-se de ter se irritado imensamente por saber que aqueles dois potenciais assassinos estavam à solta e criando novamente uma situação como a que quase o matou. Seu amigo, enquanto dirigia, respondeu somente que ninguém conseguiria pará-los e, portanto, nada mudaria. Ele contou, também, que aquela briga acontecia há muitos anos, desde quando Orihara Izaya e Heiwajima Shizuo estavam no colégio (ele não soube precisar quantos anos aqueles dois tinham, mas disse que “ah, já faz um bom tempo sim, cara...!”). Contou também que Orihara não morava em Ikebukuro, mas que sempre aparecia por lá e, todas estas vezes, o Heiwajima era capaz de saber de sua presença. O homem comum lembrava-se das palavras ouvidas: “Um dia um conhecido meu disse que o ouviu sussurrar algo como ‘Ikebukuro fede, com certeza aquela pulga está por aqui’”.
Voltando a encarar a cena que decorria diante de seus comuns olhos castanhos, assistiu a repetição do seu leitmotiv: Shizuo, ignorando o chamado que acabara de deixar os venenosos lábios de Izaya e ainda sem virar-se para ele, caminhou até uma placa de trânsito na calçada e a arrancou. Não era a primeira vez desde o incidente que resultou em seu coma que via Heiwajima Shizuo empunhar uma placa de trânsito, mas, ainda assim, sentia um choque percorrer sua espinha ao encarar a cena. Sabia o que se seguiria a isso, e preparou seus ouvidos para escutar o mantra.
– I-ZA-...
O esperado mantra, porém, engasgou-se na garganta de seu maior recitador.
Heiwajima Shizuo virara-se, finalmente, para encarar um Orihara Izaya vestido com suas roupas.
– Minha... – a palavra escapou baixa dos lábios do homem mais forte de Ikebukuro, mas alto o suficiente para ser ouvida por todos os que ali se reuniam com olhos curiosos.
– Oh, céus... é mesmo dele! – uma mulher exclamou baixinho ao lado do homem comum.
E, pela primeira vez de muitas que viriam naquele dia, o homem comum sentiu empatia por seu quase assassino. Era visível o quão desconcertado ele estava ao encarar Orihara Izaya vestido de barman.
– Shizu-chan, vim devolver a camisa que esqueceu na minha casa.
Não que o homem comum ou qualquer um dos presentes precisasse de alguma confirmação sobre a natureza daquelas roupas depois da palavra “minha” que escapou dos lábios de Shizuo, entretanto, se restava ali entre os presentes quaisquer dúvidas quanto à procedência das roupas, ela foi sanada no exato momento que Izaya se pronunciou.
O homem comum olhou para Izaya, e sentiu o segundo momento de empatia por Shizuo. Se o homem mais forte de Ikebukuro parecia desconcertado, aquele outro homem, dono de maliciosos olhos vermelhos, parecia apresentar um espetáculo perfeitamente ensaiado. Seus olhos brilhavam com diversão e ele olhava orgulhoso para seu público.
– Você sabe, não deveria deixar as roupas na casa das pessoas depois de tirá-las... O correto é vestir-se depois de acabar, Shizu-chan bobinho. Eu as lavei e passei para você. E ah! Espero que não se incomode, não quis trazê-las em uma bolsa para que não amassassem então as vesti eu mesmo.
– Ei, ei, o que foi que Orihara disse? Vestir-se depois de acabar? – um rapaz ao seu lado perguntou inseguro, claramente surpreso pelas palavras ditas num tom divertido pelo informante.
– Por que Heiwajima tiraria as roupas na casa de Orihara? – uma jovem ao lado do rapaz adicionou uma perguntou, fazendo coro às dúvidas do rapaz.
– Eles estavam... não... impossível, certo?!
Ninguém ali se atrevia a falar, mas o homem comum sabia que os pensamentos de todos ali estavam em sintonia com os seus próprios: “Eles estavam transando, né?!”. “Eles estavam transando na casa do Orihara!”.
A constatação fez os olhos do homem comum arregalarem-se na direção de Heiwajima, buscando ali alguma negação para as palavras de Izaya. Mas de todas as expressões que via passar pelo rosto do assustador homem, nenhuma chegava perto de parecer uma negação: primeiro foi o choque, com os olhos excessivamente abertos; depois um sorriso de lado, discreto, como se o Heiwajima achasse divertido ver Orihara com suas roupas em plena rua movimentada; em seguida, o mais surpreendente: um leve agitar com a cabeça, como aqueles que pessoas normais mostram quando querem se livrar de alguns pensamentos, um daqueles que o homem comum nunca (nunca!) esperou ver realizado pelo homem mais forte de Ikebukuro; e por último, uma carranca de raiva, essa sim usual e constante no rosto daquele homem. Em acompanhamento à carranca, a placa girou com força na direção de Izaya, que desviou, reclamando desagradavelmente entre risos sarcásticos.
– Izaya maldito. Me devolva agora estas roupas.
O tom de ordem nas palavras daquele homem faria qualquer pessoa arrancar as próprias roupas e entregar a ele. Mas Orihara Izaya não era qualquer pessoa. A resposta de Izaya faria com que, pela terceira vez naquele dia, o homem comum sentisse que poderia pagar uma bebida a Heiwajima Shizuo, com direito a leves tapinhas consoladores nas costas.
– Shizu-chan tããão mandão. “Izaya, tire a roupa”, “Izaya, solte o canivete”, “Izaya, agora pode ir embora”. Acha que sou sua puta, Shizu-chan? Eu lavei e passei suas roupas, mostre um pouco de gratidão.
“Oh, céus, Orihara”, pensou.
– Caramba, eles estão neste tipo de relação, então?! – uma voz masculina soou a sua esquerda.
– Eu sempre desconfiei disso, na verdade – a garota às suas costas parecia orgulhosa.
O homem comum não sabia se Orihara estava escutando a estas pessoas tão claramente quanto ele, porém, olhando para aquele homem de sorriso malicioso e braços abertos em reverência, soube que esta era exatamente o tipo de reação que ele esperava arrancar do público que se formara àquela altura. O outro ator principal do espetáculo, porém, não parecia nem um pouco satisfeito com a reação do público ou, antes disso, com a existência da encenação. Mas, ainda assim, pelo sorriso que se alargava cada vez mais no rosto de Orihara, o homem comum sabia que, mesmo que involuntariamente, Heiwajima seguia o script a risca.
“De novo esta placa, Heiwajima! Você vai acabar matando alguém”, pensou o medíocre homem ao assistir a placa que Shizuo mantinha nas mãos ser arremessada na direção de Izaya.
– Eita porra!
– Caralho!
– Mano... alguém tem que filmar isso!
– Amor, vamos embora!
– Ele está mesmo fazendo isso?!
– Ai meu deus, ai meu deus!
Dezenas de diferentes comentários invadiram os ouvidos do homem comum enquanto ele olhava para a cena que se desenrolava diante de seus olhos, mas, na realidade, tudo o que ele podia reter eram as últimas palavras de Izaya: “Tá bom, Shizu-chan. Vou te devolver!”. Ele devia ter desconfiado que nada de bom viria de um Orihara dizendo “tá bom”, mas, definitivamente, não esperava por aquilo que agora acontecia a sua frente. Na verdade, sequer os comentários chocados faziam jus à cena.
Orihara Izaya fazia um strip-tease.
O homem comum não tivera muitas parceiras durante sua medíocre vida, mas, ainda assim, não era sexualmente ingênuo. Entretanto, em definitivo, nenhuma cena que já vira ou que ainda veria se compararia àquela. Orihara vestia seu mais malicioso sorriso enquanto se desfazia dos botões de sua camisa, um por um. Seus olhos castanho-avermelhados, não mais preocupados em observar os arredores como antes, agora queimavam unicamente na direção de Heiwajima Shizuo. A forma como ele olhava Shizuo enquanto se despia era tão obscena que todos os comentários se calaram e todo o ambiente foi tomado por uma tensão tão grande que não seria exagero dizê-la palpável.
Mesmo com o medo que aquela pessoa lhe inspirava, o homem comum não era capaz de resistir ao poder atrativo que emanava de Orihara Izaya. E então sentiu sua quarta experiência de empatia com Shizuo: era compreensível que Shizuo caísse por Izaya. Em seu apartamento, naquela noite, o homem comum negaria estes pensamentos infinitas vezes, até se convencer que eles nunca haviam existido, mas era inegável que, naquela tarde quente de quinta-feira, seus olhos estavam plenamente presos nos botões abertos da camisa que vestia o informante de Ikebukuro.
A única coisa que foi capaz de despertar o homem comum de seus pensamentos deveras confusos sobre Izaya foi a voz inigualavelmente raivosa que soou em seguida:
– Vou te matar hoje, com certeza, pulga!
E o único pensamentos que correu por sua mente naquele momento foi que, realmente, aquele devia ser o homem mais forte de Ikebukuro se era capaz de tecer ameaças a um Orihara que despia-se.
Não muitos dias após o incidente do strip-tease e não após tempo o suficiente para que o homem comum pudesse se recuperar dele, o quarto episódio no qual ele agradeceu por ser um homem comum plenamente capaz de passar despercebido por aquele distrito absolutamente incomum que era Ikebukuro ocorreu.
Ele passava em frente à estação Ikebukuro em direção a seu trabalho quando um tumulto chamou sua atenção.
“Ah, deus, é segunda-feira, 7h da manhã... o que caralho vocês estão fazendo, Heiwajima e Orihara?!”
– Izaya, maldito! Saia já de Ikebukuro!
– Ué... é tão difícil de te entender, Shizu-chan. Ontem, enquanto gemia meu nome no meu apartamento, não parecia querer que eu ficasse longe... Você é meio tsundere, né, Shizu-chan?
–I-ZA-YA!
“Pronto, esse é o mantra”, o homem comum, mesmo que involuntariamente, desviou seus olhos para a praça em frente à estação, onde os dois dos homens mais fortes de Ikebukuro brigavam, “Agora só falta... ah, sim... o leitmotiv...”, seus olhos ordinariamente castanhos suavizaram-se por alguns momentos e um suspiro cansado escapou de seus lábios, “Oh, desta vez é um banco da praça e não uma placa de trânsito. Sim, é bom variar, Heiwajima, mas continua sendo destruição de patrimônio público, sabia? E também... bem perigoso... merda!”, pensou com o coração a mil ao ver o banco de concreto despencar com um estrondo na calçada há alguns metros a sua frente. “Quase! Merda, Heiwajima!”.
Talvez pelo horário – já que muitas pessoas usavam metrô para dirigirem-se ao trabalho – ou talvez pela natureza dos boatos que se espalharam sobre o strip-tease de Izaya, uma multidão considerável começou a formar-se ao redor da praça. Aparentemente, todos ali estavam expectantes por um pouco de emoção naquela desanimadora segunda-feira. Todos, menos o homem comum. O homem comum apenas queria sair de lá o mais rápido possível, antes que outro objeto voador tivesse chance de atingi-lo. Um coma era o bastante para ele, o segundo não estava, definitivamente, na sua lista de “coisas para se viver antes de morrer”. Mas, ainda que seu desejo não fosse ficar, quando deu por si estava com ambos os pés dentro da praça e aproximava-se cada vez mais do epicentro do caos. Não que quisesse realmente diminuir a distância entre ele e sua provável morte. Na verdade, ele realmente não o queria, mas, independente de sua vontade, uma pessoa o agarrara pelo braço e o arrastava.
– Hey, quem é você? me solta... – sua voz soou muito mais implorante do que desejava.
– Mas... você estava olhando super curioso, dai perguntei se queria chegar mais perto e você disse sim! – a garota que o respondeu o encarava inocentemente com enormes e castanhos olhos. – Ei, ei, você não é aquele cara do coma? – o rosto dela se distorceu em um sorriso malicioso como o de quem descobre um segredo. – Entendo...
– Espera... quem é você? O que você entende? – perguntou ele, confuso com a expressão que estampava o belo rosto da jovem.
– Karisawa Erika! – ela fez uma breve continência – E... é síndrome de Estocolmo, né? Ou esta síndrome é só pra sequestros? ... enfim, não sei... você se apaixonou pelo Shizuo! Ah... mas... o Shizuo já tem o Izaya. Sinto muito Coma-san, este será um amor platônico.
– Ei, você! – ele nem sabia como organizar todas as informações que recebera daquela garota – Eu não me apaixonei por ninguém... quer dizer, eu estou apaixonado e tudo mais... mas não é pelo Heiwajima. Ahh!! Eu não tenho que te dizer isso!
– Você parece estressado, Coma-san! Quer falar sobre isso?
– Eu... – ele estava chocado, não sabia qual era a forma correta de lidar com aquela pessoa de olhos curiosos a sua frente — ... Primeiro de tudo, meu nome não é “Coma-san”!
– Então... qual o seu nome?
– Meu nome é...
Antes que o homem comum pudesse, entretanto, dizer seu nome à garota curiosa, uma onda de gritos irrompeu por toda a praça, interrompendo seu discurso. Tanto a sua quanto a atenção da garota desviaram-se forçadamente para o centro da praça, e focaram-se na luta que ocorria em frente ao chafariz. A luta, contra todas as possibilidades lógicas, se tornara ainda mais intensa.
– Isso é bem incrível, não é, Coma-san?
“Incrível” não era o primeiro adjetivo que vinha à mente do homem comum ao pensar sobre a luta que via acontecer entre Heiwajima e Orihara, talvez “assustador” ou “irreal” definissem melhor a cena que se desenrolava diante de seus ordinários olhos castanhos. Mas, ainda assim, ele não negava que este fosse um bom adjetivo para caracterizar uma interação que envolvia um homem a jogar infinitas lâminas em outro homem, que, por sua vez, as rebatia com um poste de iluminação.
– Incrível a forma como eles expressam amor, né?! Tão intenso!
– Oi?! Espera, o que você está chamando de “incrível”, garota doid... Ei ei, não acha que já estamos perto o suficiente?!
Era uma pergunta retórica, mas isso não evitou que um “claro que não” deixasse, em resposta, os lábios da garota que o puxava por um dos braços para mais perto da intensa confusão. Estranhamente, entretanto, eles não eram os únicos que se aproximavam do centro da praça.
– Ei, ei, você estava naquele dia na última semana quando o Orihara apareceu vestido de barman? – soou a voz de uma pessoa que passava rápido à sua direita.
– Caramba! De onde ele tira tantas lâminas, hein?! – uma voz admirada ecoou alguns metros às suas costas.
A voz que soou diretamente a sua esquerda, entretanto, roubou toda a atenção de seus atentos ouvidos:
– Eles estão bem animados hoje!
Por mais peculiar que fosse aquela garota – e, portanto, tão díspar do homem simples – ele tinha que concordar com ela: Heiwajima rugia com vontade para um Orihara que gargalhava intensamente, parecendo muito divertir-se com a situação. Um meio-sorriso dançou nos lábios do homem comum. Ele não sabia ao certo se era aquela a sensação que eles passavam antes, mas agora, olhando para aqueles dois irregulares homens manipulando postes e lâminas, pensou que eles pareciam se divertir. Era à moda deles, mas, definitivamente, algo como diversão preenchia o ar em volta do chafariz. E como se capaz de ler seus pensamentos, a dona dos curiosos olhos castanhos a seu lado sussurrou:
– Eles parecem diferentes... Pergunto-me se algo aconteceu...
O homem comum franziu um pouco o cenho. “Talvez...”, pensou intrigado, direcionando toda sua atenção ao homem que agora lançava longe o poste de iluminação e partia para cima de Izaya com os próprios punhos e um largo sorriso lateral. “Talvez... Heiwajima...”, a maliciosa voz que ecoou em seus ouvidos, porém, rompeu sua linha de pensamento:
– Shizu-chan, adoro quando usa suas mãos...
– Cala a boca, maldito, ou arranco sua língua.
O sorriso que ostentava Orihara Izaya se abriu ainda mais e cada célula do homem comum teve certeza de que nada de bom poderia vir de lábios que sorriam daquela forma. Entretanto, por mais conhecimento acerca disso que possuísse, o ordinário homem nunca poderia ter se preparado para o que vinha a seguir:
– Tsc tsc, Shizu-chan, isso é maldade! Ameaçar dessa forma a língua de um informante! – Izaya parecia saborear as palavras, dizendo-as lentamente, como se pra provar o valor que defendia conter nelas – Principalmente quando... – tirou o canivete do bolso e, com um rápido ataque, diminuiu a distância entre ele e Heiwajima –... gosta tanto dela!
“Principalmente quando gosta tanto dela!”: estas foram as palavras que acompanharam como trilha sonora todos os boatos das semanas que se seguiram. Semanas durante as quais o homem comum ouviu os acontecimentos contados de variadas formas, como, por exemplo, por um colega de trabalho: “Era um dia normal, segunda-feira, não era?! Então, dai o Heiwajima e o informante brigavam. O informante parecia estar dando bastante trabalho e dai, de repente, ele o beijou! Sim, sim! Beijou o Heiwajima! Não tô brincando, você viu também, né... ei, qual seu nome mesmo?!”; ou de duas jovens no metro: “Você viu o vídeo que postaram na internet semana passada? O Heiwajima estava beijando aquele moço com quem ele sempre briga! Parece que eles estão se pegando por ai.”; ou de adolescentes na sorveteria: “Sério, parece que eles estavam quase transando na praça!”, ou de pessoas suspeitas numa ruela: “Precisamos saber o que o Orihara está aprontando. Será problemático se o monstro se juntar a ele!”. Mas, independente da forma como aquela história fosse contada, a imagem que permaneceu na ordinária mente do homem nada especial era inalterável: Orihara envolvia o pescoço de Heiwajima com ambos os braços e selava com seus destrutivos lábios os lábios do homem mais forte de Ikebukuro, barrando quaisquer reclamações ou ameaças que escapavam dali instantes antes. Diferente dos barulhentos dias que se seguiram, aquele momento era um absoluto silêncio: Orihara não provocava e Heiwajima não ameaçava. E, acima de qualquer rumor que ouvisse, pairaria na memória do homem comum o momento calmo e inalteravelmente silencioso daquele beijo.
Ele nunca pode se desculpar por ter sido ele mesmo o responsável por quebrar aquele sagrado silêncio quando a palavra “beijo?” desprendeu-se de sua língua em um tom perfeitamente chocado. A palavra ecoou por toda a praça com um despertador, acabando com o silencioso sono de todos ali, e despertando, também, os dois responsáveis por aquele feitiço. O homem comum nunca se esqueceria da emoção que sentiu emanar de Orihara quando o dono daqueles monstruosos olhos avermelhados os correu pela praça, como se a palavra “beijo” fosse uma maldição.
***
– Viu só, você está o protegendo! – a voz de Orihara correu como veneno por suas veias, despertando-o de suas memórias. Seus frágeis joelhos finalmente haviam cedido, mas não sem motivos: para provar seu ponto, Orihara acabara de arremessar contra ele uma quantidade de lâminas que o homem comum não arriscava contar, lâminas as quais “graças ao bom deus, sério, preciso acender um incenso mais tarde” haviam sido paradas antes de atingir seu alvo por Heiwajima com um irreconhecível objeto que parecia constituído de ferro e cimento mas que o homem comum não podia perceber a procedência.
Os olhos castanhos comuns abriram-se além da capacidade que julgava o homem comum possuir. Ele sabia como era ser quase morto pelo homem vestido de barman, ele sabia como era fugir de placas de trânsito ou máquinas de venda-automática voadoras, ele sabia como era pegar o caminho mais longo para casa a fim de desviar de uma briga do homem mais forte de Ikebukuro, mas ele não sabia, em definitivo, como era ser salvo por Heiwajima Shizuo.
– Ob... obrigado... – sussurrou, sentindo a voz raspar em sua seca garganta.
Pela primeira vez naquele dia e, provavelmente pela primeira vez em sua vida, o homem comum sentiu em si os olhos que possuíam uma bonita cor avelã, mesmo que escondida agora por óculos escuros. Por cima dos óculos escuros, ele viu as finas sobrancelhas juntaram-se no que julgou dúvida. “Oh, ele realmente não fazia ideia de que eu estava aqui... mesmo eu não sei se fico decepcionado com isso ou não...”, pensou resignado o homem que tanto se orgulhava de sua invisibilidade.
– Oh! Estamos todos com um clima tão gostoso, hein?! Querem que eu me retire para deixa-los mais a vontade ou posso participar também?!
“Oh, Orihara, por favor! Não, só não... por favor...”, um arrepio corria a espinha do homem comum a cada vez que ele ouvia a voz de Orihara. Agora ele tinha certeza: Orihara era a representação física do “nada está tão ruim que não possa piorar” tão recitado pelo senso comum.
– O que caralho você está rosnando ai, pulga?
“Oh, Heiwajima, não o pergunte, por favor... corra atrás dele e só! Por que você tem que conversar agora?! Vai, vai, tem um poste recém-colocado ali na rua à direita... Por favor!”.
– Shizu-chan, não se faça de inocente! Eu disse desde o começo: você está protegendo este homem ai. Eu quero saber por que.
“Espera, espera um pouquinho... isso é...?”
– Cala a boca, maldito. Você só fala merda. Eu nem sei quem é este.
“Não pode ser, não é?! Não pode ser isso... seria impossível, né?!”
– Claro que sabe, Shizu-chan... ele é aquele que...
“Orihara não estaria com...”.
– Ciúmes?
Era a primeira vez que o homem comum experimentaria a sensação de calar dezenas de vozes com uma única palavra. Não era um feito pequeno, principalmente quando se acrescentava entre os calados o nome do informante de Ikebukuro, Orihara Izaya, o homem que tanto orgulho tinha de sua língua. Seria enganoso, pensar, entretanto, que o pobre homem comum tivesse esta intenção quando abriu sua boca, o mais adequado seria dizer que o ele sequer tinha a intenção de abri-la. Mas um único fato era inegável: o homem comum, que tanto buscara em sua juventude o centro das atenções, agora finalmente o alcançara, mas, assim como a maioria dos sonhos de juventude, a sensação não era nada parecida com a que ele tanto desejava. Com tantos olhos curiosos nele, incluindo um par assustadoramente vermelho e um parcialmente encoberto por óculos escuros, o homem comum desejou ser comum o suficiente para sumir.
Não era necessário que o homem comum fosse tão duro com sua própria existência, já que, independente de sua vontade, aquela palavra nunca aceitaria a prisão de sua garganta, não quando ela poderia fluir tão naturalmente através dela. E esta permitida fluidez só era possível porque o homem comum conhecia aquela situação, afinal, fora justamente num situação parecida que ocorrera sua sexta vez, a sexta na qual ele se orgulhou de ser invisível.
***
Não era fácil reconhecer ciúmes em Orihara Izaya, na verdade, o correto seria dizer que não era fácil nomear qualquer uma das ações de Orihara Izaya. Não era nada fácil, mas, ainda assim, o homem comum estava diante, naquela noite, de uma inegável demonstração de sentimentos do informante mais temido que já pusera os perigosos pés em Ikebukuro. Não que ele precisasse de muita perspicácia para captar a tal prova de que até mesmo o dono dos analisadores e inteligentes olhos castanho-avermelhados era capaz de cair por sentimentos mundanos e comuns, afinal, era só olhar para aquele homem cujas bochechas espelhavam o rubro dos ferozes olhos e qualquer um saberia que ele estava perdido no fáunico labirinto das emoções humanas. Mas, claro, o homem comum teve uma pequena ajudinha para chegar até esta conclusão, e esta pequena ajudinha pede que a narração retroceda alguns minutos, para quando as vermelhas bochechas estavam pálidas como folhas de papel.
Era uma noite comum de uma quinta-feira comum, e mesmo contra sua vontade, o homem comum aceitara o convite para a despedida de um colega de trabalho. Não que não gostasse do colega em questão ou que se sentisse demasiadamente melancólico com despedidas e as evitasse, a relutância em aceitar o pedido vinha da escolha de local para sua realização: o Russia Sushi. Já há algum tempo, talvez alguns meses, o homem comum evitava com veemência o restaurante dirigido pelo chef russo. Não que não gostasse de sushi ou do chef russo, o problema eram os regulares clientes que aquele amigável restaurante possuía, dois em específico: Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Ele lembrava-se com perfeição que da última vez que pusera os pés naquele digníssimo restaurante, Orihara estava em um encontro quando Heiwajima cruzou a porta de entrada. Naquele dia nada acontecera, mas ele sabia o quão perigoso era estar tão próximo do olho do furacão e, desde então, evitava os honrosos e às vezes exóticos sushis russos.
Não era algo tão forte que pudesse ser chamado de dom, mas, ainda assim, o instinto do homem comum estava certo: naquela noite ele encontraria os dois homens que mais temia e com os quais menos se identificava. Mas, naquela noite, algo extraordinário aconteceria, algo que faria não só aquele homem, mas todos os outros ali, parecerem ainda mais ordinários.
Tudo começou com um Orihara Izaya sentado com o rosto pálido como papel encarando três intocados sushis com um celular nas mãos, o qual era frequentemente vítima do olhar que naquela noite parecia mais castanho do que avermelhado. Verdadeiramente, “vítima” não era a palavra adequada para descrever nada no qual aqueles olhos pousassem naquela noite. Naquela estranha noite, aqueles olhos não eram capazes de fazer vítimas. Ou, ao menos, foi isso o que o homem comum pensou enquanto procurava manter-se focado nos próprios sushis e problemas.
– Você soube? – uma voz o chamou – As brigas pararam há um tempo.
– Oi? – perguntou, confuso.
– Ele... – o homem ao seu lado acenou com a cabeça na direção do informante no balcão, e o homem comum lamentou-se por ter sido pego a observar Orihara Izaya – ... eu ouvi sobre algo que ele fez que emputeceu de vez o Heiwajima, não sei o que foi e quem sabe não quer falar... enfim, faz tempo que ele não aparece por aqui. Talvez esteja finalmente com medo do monstro de Ikebukuro. Só não sei o que ele veio fazer aqui hoje.
– Hum... sei... – respondeu simplesmente, correndo os olhos que haviam se desviado para seu interlocutor de volta a Izaya. Ele não sabia nada sobre Orihara, o informante não era, afinal, alguém que se pudesse conhecer, mas, ainda assim, ele arriscava dizer que sabia que medo nunca afastaria aquele homem. A única coisa que arriscaria dizer sobre a relação entre aquele informante e Heiwajima era que eles não temiam um ao outro e, exatamente por isso eram, ambos, tão diferentes de qualquer pessoa normal.
– Oh, Shizuo! Veio comer Sushi? – a voz grossa e alta do garçom do restaurante retumbou pelo recinto.
Enquanto desviava os olhos para o recém-chegado, o homem comum podia jurar ter visto Izaya mexer-se desconfortável em sua cadeira, mas nunca pode confirmar o gesto, pois, quando desviou os olhos novamente para o informante, ele encontrava-se na mesma posição inicial: sentado, pálido, encarando seus sushis, indiferente ao recém-chegado. A mesma indiferença, entretanto, não podia ser atribuída ao recém-chegado, que, tão logo adentrou o restaurante, fitou o local onde os sushis eram intensamente encarados pelos olhos castanho-avermelhados. O homem comum procurou em Heiwajima Shizuo a mesma incerteza que via em Orihara Izaya, mas naqueles olhos que mostravam-se desta vez descobertos, sem óculos escuros, ele não conseguiu encontrar nada: nem incerteza, nem a usual raiva, absolutamente nada. Ele era completamente incapaz de ver por trás daqueles olhos, mesmo que eles estivessem descobertos.
– Hey, hey, acha que eles vão brigar agora? – a voz que soou a sua direita impediu que ele ouvisse as palavras que saíram da boca do homem mais forte de Ikebukuro, que, ainda próximo a entrada o restaurante, encarava o informante.
– Claro que sim! Olha só como o Heiwajima parece irritado.
– Sim, olha só. E o outro está lá parado. Isso é coisa de doido. Melhor sairmos daqui.
– Sempre sobra para alguém quando eles começam.
– Hey, hey, você não é aquele cara do coma?
O homem comum firmou os olhos na direção do guarda-costas, procurando ali a aura assassina que os outros pareciam ver, mas a única coisa que pode pensar era que ele agora parecia decidido, a mover-se com passos firmes na direção do homem sentado ao balcão.
– Está surdo, desgraçado? Disse que ia te matar se aparecesse aqui. O que merda está fazendo em Ikebukuro? – dessa vez, a voz do homem mais forte de Ikebukuro soou com força o suficiente para que seu dono merecesse o epíteto.
Todas as vozes calaram-se.
Heiwajima Shizuo era este tipo de homem, o que fazia os outros calarem-se. Como se intimidadas pelo som de sua voz, todas as outras se recusassem a sair. Mas, naquele momento, não foi medo o que fez os homens ali calarem-se, mas curiosidade: não havia ninguém ali disposto a perder um só fonema de Heiwajima. Orihara Izaya era um homem ameaçador, qualquer pessoa no mundo seria incapaz de manter-se calada ao ser interrogada por ele, a sensação que a voz dele passava ao dirigir-se a alguém era que o silêncio não era uma resposta possível e que à vítima de suas perguntas nunca era permitido manter seus segredos. Com Heiwajima Shizuo era diferente. A pergunta que deixava os lábios de Heiwajima não permitia respostas, o homem comum tinha impressão que palavra nenhuma o alcançaria, à sua vítima, no extremo contrário da de Orihara, só era permitido o silêncio. E foi o silêncio sua resposta.
O problema com a situação era que até mesmo o homem comum sabia que não era característico de Orihara Izaya calar-se. O ordinário homem pegou-se a pensar qual era o acontecimento capaz de manter o informante de Ikebukuro em silêncio ao ser provocado por Shizuo.
– O que diabos você quer?
Um arrepio percorreu a espinha do homem comum enquanto ele encarava o rosto de Heiwajima ao segurar Orihara pelo pescoço.
Se havia algo no mundo mais surpreendente que o silêncio de Orihara, era o tom com que as últimas palavras de Heiwajima deixaram seus lábios. O homem comum já havia ouvido um tom como aquele uma vez, uma única vez, e julgou que nunca o voltaria a ouvir. Aquele era justamente o tom que despertara nele empatia pelo homem mais forte de Ikebukuro, era o tom com o qual as palavras “sentiria-me em ruínas” escaparam como um sussurro na noite na qual o guarda-costas fugira deixando Orihara para trás.
– Ei, ei, eles vão começar a sério agora, hein?! – uma voz empolgada soou ao seu lado.
– Calado. – foi a única resposta que conseguiu proferir. Ele sentia raiva de todos os outros ali por empolgarem-se com a situação. Como eles poderiam não notar o tom de Heiwajima Shizuo naquele momento?
“O que você fez, Orihara?”, pensou.
Não havia tempo, porém, para reflexões, não quando as duas pessoas a sua frente eram dois dos homens mais perigosos de Ikebukuro, e logo uma onda de gritos que ecoou pelas paredes do restaurante interrompeu as especulações do homem comum. O motivo para o intenso barulho não era insignificante: o restaurante estava em ruínas, praticamente todo o lado direito em profunda confusão de cadeiras e mesas; as pessoas que antes comiam tranquilamente naquelas mesmas cadeiras que agora estavam de pernas para o ar eram as responsáveis por tal alvoroço. Além do rastro de destruição era possível encontrar Orihara Izaya, caído contra a parede.
– Ele vai mata-lo!
O pavor que tomava a voz da mulher a sua frente reverberava por todo o restaurante, somando à voz feminina dezenas de ecos. Mas ainda que alguns sussurros assustados pudessem ainda ser ouvidos, a maior parte dos clientes permanecia em silêncio assistindo Heiwajima socar Orihara no rosto.
O único som agora ouvido era o choque seco dos punhos de Heiwajima Shizuo contra o rosto do homem inerte na parede. Repetidas vezes.
– O que você quer aqui? Hein? – apenas o homem mais forte de Ikebukuro seria capaz de quebrar aquela sequência sonora dura e cruel que se mantinha, mas o homem comum desejou que ele não o tivesse feito. Ouvir aquele tom em Heiwajima Shizuo, o homem mais forte que ele conhecia, trazia um gosto amargo a sua boca. – Hein?
O homem comum, incapaz de suportar a pressão daquela voz em seus ouvidos, levantou-se de súbito.
– Hey, o que você está fazendo?! Sente-se!
Ignorando, entretanto, a voz a qual ele não podia reconhecer a procedência, ele manteve-se de pé. “Heiwajima...”, pensou.
– Heiwaj... –
Começou a dizer, mas calou-se quando o até então inerte Orihara Izaya moveu-se. O informante, o homem que ele tanto temia, agora tirara seu canivete do bolso e o apontara na direção de Heiwajima Shizuo. O homem comum não sentia empatia alguma por Orihara Izaya, não era uma relação ambígua como a que ele mantinha com Heiwajima Shizuo, que oscilava entre medo e empatia; ao informante de Ikebukuro o homem comum dedicava apenas medo e receio. Entretanto, naquele momento, mesmo que aquele temível homem trouxesse em suas mãos sua arma, mesmo o homem comum não sentia medo ao olhá-lo. Havia algo de resignação na forma como aquele assustador homem mantinha sua arma fechada em punhos. A sensação de abdicação que sentia emitir dele confirmou-se com a próxima ação de Orihara Izaya, que pousou seu canivete no chão e o empurrou para longe.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!O homem comum olhou para o canivete que jazia agora imediatamente a frente de seus pés e então de volta a Orihara Izaya, onde encontrou olhos mais vermelhos que castanhos que fitavam intensamente o homem diante deles. O homem diante deles, entretanto, não parecia notar-se vítima de tal olhar, tão concentrado que estava em fitar com olhos excessivamente abertos o canivete que jazia a frente do homem comum. Quando os olhos cor de avelã do homem mais forte de Ikebukuro voltaram a pousar-se em Orihara Izaya, não havia neles mais nenhum traço de surpresa. O acontecimento que se seguiria a aquele olhar ficaria marcado na memória de cada um dos presentes naquele restaurante de sushis preparados por um chef russo naquela noite de quinta-feira. Muitos foram os adjetivos usados para descrever o que ocorreu nos anos que se seguiram, mas nenhum deles definiria tão bem a cena quanto os sussurros que correram pelos lábios dos que lá estavam:
– Ow!
– Nossa!
– Uau!
– Era isso...?
– Então é assim?
– Você está vendo isso também?
– Um beijo, certo?
– O Heiwajima... Orihara... ?
– Os dois...
– Isso é mesmo um beijo...?
– Caralho... na verdade, é um puta beijo, né?!
– Eita porra!
Dos lábios do homem comum, entretanto, nenhum sussurro, nem exclamativo nem duvidoso, soou. Toda a energia de seu corpo estava focada em permanecer de pé enquanto assistia o beijo nada contido entre Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Ele quase poderia jurar que aquela também era uma forma de luta e até o faria se os dois envolvidos não tivessem expressões tão satisfeitas. Ele poderia julgar aquilo como a coisa mais bruta a qual já vira na vida, e até o faria, se não ouvisse entremeado ao beijo sussurros de Heiwajima e risos contidos. Ele quase poderia dizer que o que via o perturbava profundamente e que não era nem de longe agradável, e até o faria, se aquela não fosse, em absoluto, a cena mais sexy a qual assistira em toda a sua vida (ainda que ele se recusasse veementemente a assumir isto como fato). E ele até poderia afirmar que aquela cena nunca acabaria e que ele estava condenado a assistir aquele beijo para o resto de sua vida, mas, um último comentário, que em nada se assemelhava aos anteriores sussurros, correu pelo restaurante, libertando todos daquele transe absurdo. Todos, sem exceção, o que inclui também, portanto, os dois maiores envolvidos.
– Ai meu deus, ai meu deus, ai meu deus! Eu não falei! Eu sempre disse! Eu sabia! Caramba! É de verdade! Olha, olha, oooooolha, Dotachin!
“É você! a doida da praça!”, pensou, fitando o rosto excessivamente animado que quase beirava a loucura da responsável por quebrar o clima que envolvia todo o restaurante.
O homem comum desejou nunca ser vítima de um olhar como o que Heiwajima direcionou a Karisawa Erika. Ele não pareceu feliz em ter de parar o que fazia, mas logo sua expressão furiosa foi substituída por uma expressão confusa enquanto seus olhos cor de avelã corriam por todo o restaurante.
“Não me diga que ele... esqueceu onde está... bom, isso explicaria um pouco as coisas...”, pensou o homem comum divertido. A diversão que sentiu ao notar o desconforto do homem mais forte de Ikebukuro era compartilhada por mais uma pessoa ali, pessoa que, diferente dele, não reprimiu seu riso, deixando-o correr solto, ainda que anormalmente baixo. Heiwajima sussurrou o que o homem comum julgou ser uma ameaça ao dono do riso, mas Orihara limitou-se a rir novamente, indiferente a qualquer coisa que o homem mais forte de Ikebukuro tenha sussurrado a ele.
Diferente de Orihara Izaya, não eram todas as pessoas no mundo que eram capazes de permanecerem impassíveis diante de Heiwajima e o homem comum teve certeza que não era um deles no momento em que viu os olhos cor de avelã desviarem-se em sua direção. O homem mais forte de Ikebukuro levantou-se, afastou-se de Orihara e pôs-se em sua direção a passos lentos. Recuou alguns passos, e teria recuado infinitos outros se a expressão de Heiwajima não se mostrasse tão calma. Olhando para aquele rosto, o homem comum sentia sua empatia sobressair-se ao medo. Aqueles olhos cor de avelã que pareciam sorrir não eram olhos de alguém que machucaria voluntariamente outra pessoa. E o homem comum estava certo — como ele normalmente estava, por mais que não reconhecesse este seu dom — o objetivo de Heiwajima era capturar o canivete que Orihara empurrara para longe e, tão logo o fez, voltou suas costas a ele, ignorando-o completamente.
– Não deixe isso por ai, pulga. Consegue andar? – ouviu Heiwajima perguntar ao homem que, ainda no chão do restaurante, o olhava com curiosos olhos castanho-avermelhados, talvez surpreso por receber de volta seu canivete.
– Se não conseguir, você vai me carregar, Shizu-chan?
Havia várias coisas que ele não compreendia sobre a estranha relação que aquele dois homens mantinham, os apelidos trocados eram uma delas. O homem comum sempre se perguntara como alguém podia referir-se a Orihara Izaya como “pulga”, ou como alguém poderia referir-se ao homem mais forte de Ikebukuro com o honorífico “chan”. Ele pensava que, inicialmente, talvez aqueles apelidos fossem alguma forma de ofensa, mas não eram assim que eles soavam a seus ouvidos naquela noite de quinta-feira.
De qualquer forma, muitas coisas naquela noite não soavam com deveriam soar: o riso que não soava debochado, a atrevida voz que soava baixa, a reclamação que não parecia ameaçadora, os rosnados que pareciam mais ronronas. Então o homem comum pensou que aquela noite fosse daquelas atípicas, daquelas que só acontecem uma vez, daquelas necessárias para juntar Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Daquelas noites que tem como efeito colateral o homem mais forte de Ikebukuro a enlaçar em seus ombros os braços do mais perigoso informante e leva-lo junto consigo sem sombra de relutância ou hesitação.
Era a terceira vez naquela atípica quinta feira que o restaurante mergulhava em profundo silêncio. O homem comum não soube dizer quanto tempo durou, desta vez, o transe que fazia dezenas de olhos fitaram a entrada do restaurante sem dizer palavra.
– Então eles... ? – alguém começou a dizer, e o homem comum teve certeza que todos ali completaram mentalmente a indagação com “estão juntos”.
Aquela era a primeira vez que o homem comum via quieto o distrito que nunca se calava. Mas achou que talvez isso fosse mais por limitação semântica do que por qualquer outra razão. Afinal de contas, como homens comuns poderiam descrever tal conturbado romance?
– Hey!! – “Mas, bom, nem todos aqui são homens comuns!”, pensou o mais comum dos homens ali ao ouvir o empolgado chamado e virar-se na direção dos curiosos olhos castanhos de Karisawa Erika – Coma-san!!!! Vamos atrás deles, sim?! Não podemos perder nada! Vamos, se apresse! Rápido, rápido! Dotachin vem também?
O rapaz ao lado dela sorriu e acenou negativamente com a cabeça e o homem comum repetiu seu gesto, se aquele rapaz era capaz de dispensá-la daquela forma, talvez valesse a pena a ele também tenta-la. Mas ele estava enganado. Acenos negativos não são suficientemente recusativos quando utilizados por cabeças comuns e logo ele se viu puxado pelo braço para fora do restaurante, ouvindo uma voz que soava excessivamente alta recitar (im)possíveis juras de amor trocadas Heiwajima e Orihara.
– E, então... – ela continuava a arrastá-lo através das ruas do distrito — ... “Ah, Shizu-chan... eu quero brincar com outro tipo de poste!”, ele dirá, certo?! Não é?! E dai...
– Ei, ei, você viu aquilo lá na rua de trás? Parece que o monstro está carregando um cadáver... assustador!
– Um cadáver? Tem certeza? De quem?
– Que horror! Não pode ser sério isso!
– Como não?! Eu vi. O cadáver de um cara. E ele parece bem feliz arrastando por ai o corpo.
As vozes que soavam como zumbidos de abelhas indicavam que, se a intenção era encontrar Heiwajima e Orihara, eles estavam perto de alcançar seu objetivo.
– Hahaha, Coma-san! Eles acham que ele o matou! Matar? Só de for mais tarde, de praz...Ahhh! Achei, ali, ali!
“Você é meio instável, não é?!”, pensou fitando os olhos castanhos que brilhavam de empolgação no belo rosto da jovem que até segundos atrás o acotovelada nas costelas e que agora o arrastava a passos rápidos na direção que os levava a seus alvos.
– É o informante!
– Sim, Orihara, não é?! Ele finalmente o pegou!
– Que medonho, exibindo o cadáver dele por ai.
– Bom, um dia ia acabar assim, certo?
– Mas eles não tinham parado com isso?
– Não teve aquele dia que eles se beijaram?!
– Ei, mas... você não acha estranho o jeito que ele tá segurando o cadáver?
– Sim... tipo como se... estivesse apoiando-o ou sei lá...
– Tem certeza que aquilo tá morto?
“Eles podem ouvir vocês, provavelmente, pessoal!”, repreendeu mentalmente as pessoas que, assim como ele, observavam Heiwajima carregar Orihara.
– Hehehe – Erika sorriu maliciosa ao seu lado.
“Você é um caso perdido, garota!”.
– Escuta... Erika, certo?! Então, na verdade, eu não compartilho destes seus interesses estranh...
– Psiu, Coma-san! Olha, olha!
Relutantemente, dirigiu seus olhos de cor ordinariamente marrom para onde apontava indiscretamente a garota ao seu lado. Não pode conter um suspiro assustado: Orihara agora levantara sua cabeça e fitava a todos com claro desgosto. Ao sentir aqueles perspicazes que brilhavam em fúria, não pode conter um arrepio que passou por sua espinha.
– Eu estou vivo! – gritou o dono dos brilhantes rubros olhos — E parem de encarar o Shizu-chan!, ele é meu!
E aquela foi a quarta vez naquela noite que Ikebukuro se calou.
***
“Oh, então é isso que é tão parecido?! Isso é ciúmes, certo? Como daquela vez...”, pensou, abaixando a cabeça a fim de evitar todos os olhos que se mantinham nele.
– Você está com ciúmes, certo?
– Oi? Acho que não entendi direito o que você disse. Pode repetir?
O homem comum entendia perfeitamente que aquela era uma pergunta retórica. Mas, tão bem quanto entendia isso, sabia que perguntas retóricas deviam ser proibidas a Orihara Izaya, o homem capaz de conseguir qualquer informação. Por mais que soubesse, portanto, que aquela pergunta não pressupunha resposta, não pode evitar que sua língua se movesse.
– Isso são ciúmes, não é? Você está com ciúmes do Heiwajima porque acha que ele está me protegendo. – “Oh, cale-se, seu idiota! Fecha esta merda de boca!” – Mas ele não está me protegendo. Sério. Não mesmo. Eu só estava passando por aqui e vim parar aqui no meio. Não queria interromper nada. Nadinha. Não tinha intenção de...
– Ei, quem diabos, afinal, é você?!
“Bom, não que eu tivesse esperanças que você se lembrasse, Heiwajima. Mas você quase me matou, ok? Mais de uma vez!”
– Eu sou...
– Ah, Shizu-chan... não seja cínico. Claro que você o conhece.
– Orihara, por favor, não tenho nada a ver com isso... eu só...
– Calado! – a voz de Izaya soava risonha, mas era inegável a ordem por trás dela.
Pensando sobre a situação depois, o homem comum concluiu que seu estresse provavelmente atingira níveis altíssimos com o desenvolvimento daquela situação. Só isto explicaria o porquê de não só não ter obedecido a ordem de Izaya, mas também dirigido-se a Shizuo pela primeira vez em sua vida.
– Heiwajima, eu não sei do que ele está falando... por favor, eu não...
– Calado!
A ordem de Heiwajima não era velada como a de Orihara, era crua e dura, o que fez com que se recriminasse por ousar dirigir-se ao homem mais forte de Ikebukuro. Ou, ao menos, foi isso o que ele fez depois de algumas horas, no conforto de seu apartamento. Entretanto, naquela hora, com aqueles dois pares de olhos, um escarlate outro mel, fixos nele, tudo o que pode fazer foi manter-se a desrespeitar irresponsavelmente ordem atrás de ordem. O homem comum atingira seu limite e homens que cruzam suas fronteiras, por mais comuns que sejam, fazem coisas impensáveis, como, por exemplo, abrir a boca diante de Heiwajima e Orihara.
– Espera, Heiwajima, ele só está com ciúmes, certo Orihara? E quando alguém sente ciúmes, fica meio desesperado e estúpido, né? Mas você não precisa descontrolar-se e destruir nada. Só fique calmo.
Não são muitas as coisas no mundo que podem fazer dois dos homens mais fortes e perigosos de Ikebukuro voltarem sua raiva a alguém que não um ao outro. Aquele irrisório homem, entretanto, poderia gabar-se de romper esta fronteira e ganhar um pouco do particular ódio de Orihara Izaya e Heiwajima Shizuo. Ele não gabaria disso, no entanto. Fitando aqueles dois pares de olhos que agora arregalavam-se em sua direção, o homem comum percebia que acabara de cruzar não só sua própria fronteira, ao manter-se falando, mas também as de Orihara e Heiwajima.
– Ei, ei, é impressão minha ou ele chamou Orihara de desesperado e estúpido?!
– Caramba, ele mandou o Heiwajima ficar calmo?!
– Esse cara é louco!
As palavras que chegaram até seus ordinários ouvidos o acertaram como socos. Cerrou a mandíbula fortemente e apertou os olhos, fugindo dos olhares nele fixos. Apertou os punhos e desejou que seu corpo parasse de tremer.
Poucas eram as coisas no mundo que podiam unir Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya. Os dois homens mais perigosos de Ikebukuro estavam sempre em constante conflito. Entretanto, naquele momento, não seria inadequado julgá-los com sentimentos semelhantes, ou, ao menos, era isso o que os espantados olhos que brilhavam intensos em ambos os semblantes insinuavam. E não era tarefa fácil fazer nem um nem outro estamparem seus rostos com olhos como aqueles. Orihara e Heiwajima não estavam acostumados a ouvir ofensas diretas a não ser pelos lábios do outro. E talvez exatamente por isso ficaram ambos parados, como se petrificados pelas palavras do homem comum. Mas, se esta foi a primeira vez que vivenciaram algo assim, certamente não seria a última, e, em absoluto, não estariam preparados mesmo que já fosse uma experiência adquirida. Assim, mesmo que seus olhos já estivessem absurdamente abertos em choque, eles forçaram-nos ainda mais ao ouvir as palavras que deixaram em seguida os lábios ordinários do homem comum:
– Mas vocês se amam, então tudo bem, não é?!
Poucas eram as coisas no mundo que podiam unir Heiwajima Shizuo e Orihara Izaya, mas o homem comum era, provavelmente, um infeliz especialista em encontra-las. E, assim, conseguiu um feito inimaginável: sintonia.
– Calado, idiota! – exclamaram ambas as vozes, a assustadoramente debochada e a roucamente grave.
E, enfim, o homem comum calou-se. Sentou-se no chão, resignado, e esperou que, de alguma forma, a ele fosse permitido voltar inteiro para casa. Buscou em sua mente alguma oração, mas sua busca foi brutalmente interrompida pela provocativa voz que soou em seguida. Por um instante, ele pensou que Orihara era realmente um homem surpreendentemente inabalável: seus castanho-avermelhados olhos já não traziam sequer traço do choque que mostravam anteriormente, como se sempre emitissem aquele brilho malicioso.
– O que você viu num idiota como ele?!
A mesma rapidez em retornar a sua postura inicial, entretanto, não pode ser atribuída a Heiwajima Shizuo, que ainda trazia em seus olhos avelã a marca do abalo recém-sofrido. Assim, o homem mais forte de Ikebukuro permaneceu silencioso diante da provocação do informante. Não que alguma resposta fosse esperada, o guarda-costas não era, afinal, um homem de muitas palavras. O mais adequado seria dizer que Heiwajima Shizuo não cometeu nenhuma infração contra o bem-público. Diante do silêncio de Shizuo, a voz carregada de deboche voltou a soar, machucando os ouvidos do resignado homem comum que havia lançado-se à calçada.
– Ah, claro, você estava negando, né, Shizu-chan?! “Eu não sei quem é esse cara!”, você disse né? Tsc tsc tsc... e eu dizia: “Claro que sabe, Shizu-chan bobinho. Esse é aquele que...”, antes de ser interrompido pelas bobagenzinhas dele. – Orihara soava como se reprimisse uma criança enquanto acenava negativamente com a cabeça na direção de Heiwajima – Como eu dizia, Shizu-chan... claro que o conhece! Ele é aquele cara que você deixou em coma naquela terça-feira ensolarada de março três anos atrás. Você o acertou com uma placa de transito.
Os miseráveis olhos castanhos do homem comum que outrora fitavam resignados seus próprios dedos das mãos estavam agora fixos em Orihara Izaya, surpresos, quase inquisidores. “Ele sabe...”, foi o que pulsou dolorosamente em sua mente.
– “Izaya, saia agora de Ikebukuro”, você dizia naquele dia. E a gente brigava. Era o primeiro dia de trabalho dele, sabia!? Ele é programador. Mas ficou três dias em coma e perdeu o emprego. Dai ele teve que trabalhar fora da área dele. Mas ano passado ele finalmente conseguiu um emprego melhor, né?! – “Orihara... como...?”, pensava o homem comum, a atenção plenamente capturada pelas palavras que saiam com extrema facilidade dos lábios do informante – Mas essa não foi a única vez que você o viu, sim?! No beco, dois anos atrás, depois no Russia Sushi, depois na praça em frente à estação, depois de novo no Russia Sushi... lembra daquele dia no Russia Sushi, Shizu-chan?! Foi nos pés dele que buscou meu canivete. Hahaha... e depois encontramos ele no mesmo dia na rua... – os olhos vermelhos, que estavam o tempo todo fixos em Heiwajima, voltaram-se subitamente ao homem comum, brilhantes e maliciosos, ao mesmo tempo em que um perverso sorriso instalou-se em seus lábios – Mas, enfim... faz tempo que não nos vemos, não é?! Reencontros são divertidos.
“O que diabos...?!... O que você pretende com isso, Orihara?!”.
Hipnotizado, o homem comum sentia-se preso às palavras que fluíam suavemente pela língua de Orihara Izaya. Ele poderia dizer que sentia medo, e o arrepio gelado que corria por sua espinha o apoiaria nesta descrição, entretanto, mesmo absorvendo cada uma das maliciosas palavras e atento a cada uma das nuances no olhar escarlate, ele não era capaz de determinar o quão assustador era aquele homem. Assim, o que pode fazer foi manter-se sentado, sentindo seus olhos e emoções guiados como marionete pelas talentosas mãos daquele homem.
– Mas sabe, Shizu-chan... ele é um homem bem comum... Não acho que seria divertido ficar com ele. Você entediaria-se. – agora os rubros olhos fitavam Heiwajima, alguns metros a frente de onde sentava-se submisso o homem comum – E ele se orgulha disso.
“Tudo.”, era a única palavra que pulsava repetidamente na mente do homem comum. “Ele sabe tudo. Mas, então... por quê?!”. O homem comum desviou os olhos de Orihara Izaya e retribuiu todos os outros olhares que insistentemente se pousavam nele. Seus ombros curvaram-se sobre o peso da dúvida que o tomava: “Para que isso, Orihara? Qual o motivo...?”.
– Foda-se, Izaya, maldito. O que merda você está grunhindo ai, desgraçado?
Os olhos castanhos comuns detiveram-se no único rosto daquele lugar que não voltava-se a ele. E um meio sorriso ameaçou em seu rosto. As palavras que deixavam os lábios de Heiwajima Shizuo poderiam ser as suas, se ele tivesse coragem para tal.
– Ops, Shizu-chan... será que me enganei? – a voz maliciosa de Orihara mascarou-se como inocente – Será que você realmente não faz ideia de quem ele é? – o homem mais forte de Ikebukuro não moveu um músculo, era claro que ele não tinha intenção alguma de responder à falsa pergunta do informante. – Bom... devo ter me enganado, então, Shizu-chan! – uma sonora gargalhada deixou os lábios de Orihara antes de seus olhos maliciosos voltassem-se novamente ao homem em uma piscadela – Sinto pelo show, orgulhoso homem comum.
O homem comum nunca seria audacioso o suficiente para dizer que entendia Orihara Izaya, nem sequer minimamente, mas, naquele momento, ele soube que aquelas últimas palavras que deixaram os lábios do informante de Ikebukuro em direção a ele significavam algo completamente diferente do que a mensagem nas palavras parecia trazer. Não havia nenhum pedido de desculpas por trás delas. Não havia arrependimento. “Gostou do show?!, era o que elas diziam, orgulhosas e divertidas. Mas, dentre as palavras escolhidas por Orihara, havia três que não podia ignorar: “orgulhoso homem comum”.
O homem comum, que tanto orgulhava-se de sua inexistente importância, encarava o sorriso malicioso do homem que orgulhosamente o impedia de permanecer anônimo. Tanto naquele dia, três anos atrás, quanto agora, ele, o último homem de Ikebukuro a deseja-la, conseguia fama.
“Como é a sensação?!”, supunha perguntar-lhe os olhos escarlates que o fitavam interessados. “Gratidão? Raiva? Qual a sensação de possuir a tão ambiguamente querida e odiada atenção?”.
Levantou-se lentamente, batendo a poeira das calças, encarou os olhos escarlates diretamente pela primeira e última vez na vida, virou as costas e foi embora. Antes, porém, de virar a esquina e preparar-se para tentar entender o assustador homem que respondia pelo nome de Orihara Izaya, captou pela visão periférica o sorriso que este mesmo assustador homem dirigia a Heiwajima Shizuo enquanto apontava a ele, mais uma vez, seu canivete.
O homem comum não sabia quase nada sobre Orihara Izaya ou sobre Heiwajima Shizuo, mas sabia que aquele sorriso que estampava os maliciosos lábios e refletiam-se nos lábios que tanto gritavam raivosos por Ikebukuro não escondiam nada do que aqueles dois homens planejavam esconder. Ele já não sabia se orgulhava-se ou não por ser um homem comum, já não sabia se o queria ser, mas ainda sabia que, independente do que fosse, ainda desejava não ser Orihara Izaya nem Heiwajima Shizuo. Sabia que por mais que deixasse de ser alguém comum, por mais que conseguisse tornar-se alguém diferente naquele anormal distrito, jamais estaria preparado para direcionar a outra pessoa um sorriso como aquele. Sabia que mesmo um homem diferente não teria coragem o suficiente para sustentar um sorriso como aquele.
“Esta intensidade é só para monstros”, pensou virando a esquina e fitando apenas a rua vazia a sua frente.
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