Depois de um sonho
20 Especial 2 - Sobre seus pontos fracos
Notas iniciais
Especial 2 — Sobre seus pontos fracos
Shizuo
“- Por favor! Sim, sim, o Shizu-chan é o dono do mundo! É o melhor! Shizu-chan com certeza é perfeito! Agora, para! Para, por favor!”
Celty e Shinra – que recém chegara à sala, atraído pelo som dos gritos suspeitos – mantinham-se parados, surpresos, diante de um Shizuo deveras orgulhoso a segurar um pequeno aparelho de celular. Os olhos castanhos do médico piscavam confusos e as sombras que ocupavam o lugar onde deveria figurar a cabeça da entregadora oscilavam inconstantemente, como chamas de uma vela. Foram necessários consideráveis minutos até que o silêncio que se instaurou após a cessação do som dos gritos fosse quebrado:
– Shizuo... como? – a voz de Shinra soava fraca e baixa, num misto de incredulidade e indignação, traduzindo com perfeição também as sensações que Shizuo sentia emanar de Celty. A voz incerta do amigo lançou um arrepio de satisfação por seu corpo e um sorriso dançou em seus lábios.
– Descobri o ponto fraco de Izaya. – declarou, a voz denunciando sua autossatisfação.
Divertido, desviou dos amigos o orgulhoso olhar que sustinha e o baixou para o pequeno aparelho em sua mão esquerda. Seu dedo indicador direito correu pelo botão que acionava a repetição, brincando por ali, formigando pelo desejo de apertá-lo e deixar soar novamente pelo apartamento a voz implorante de Orihara Izaya.
A sugestão de sorriso que pairava em seus lábios eclodiu, revelando um sorriso aberto que deixava a mostra todos os dentes absurdamente brancos do homem mais forte de Ikebukuro. O sorriso não era sem propósito: o homem mais forte de Ikebukuro sabia que tinha realizado um feito digno de odes. Sabia o quão difícil fora conseguir gravar naquele frágil aparelho que agora mantinha entre os dedos as palavras suplicantes do mais perigoso informante que já pusera os pés em Ikebukuro. E, fora exatamente este o motivo que o levara naquele sábado ensolarado a aquele apartamento finamente decorado e habitado por dois de seus poucos amigos. Ele sabia o quão absurda era a mensagem que o botão “play” guardava e, exatamente por isso, precisava confirmar sua existência mostrando-a a alguém. Aquela gravação era, afinal, a prova física do seu sucesso em encontrar, depois de anos de incessante procura, o ponto fraco de seu maior rival. Aquela gravação era a confirmação da existência de sua tão sonhada retribuição por todos os anos nos quais Izaya o provocara unilateralmente.
“- Por favor! Sim, sim, o Shizu-chan é o dono do mundo! É o melhor! Shizu-chan com certeza é perfeito! Agora, para! Para, por favor!”. Invadido pelo mais puro sentimento de completude, Shizuo apertou o pequeno botão sob seu dedo e deixou a voz de Izaya, carregada de desespero e entrecortada por risos não irônicos, inundasse mais uma vez o apartamento dos amigos.
“-Shizuo” – Celty digitava em seu próprio celular e o mostrava – “Como conseguiu isso?”.
– Bom... – começou a dizer, mas foi brutalmente interrompido pelo estrondo de uma porta aberta com desnecessária força a chocar-se duramente contra a parede.
O rosto de Shizuo transfigurou-se numa careta. Não era necessário que se virasse para saber quem acabara de irromper de forma tão espetaculosa pelo apartamento do médico clandestino, mas, ainda assim, virou-se sutilmente, desviando o olhar na direção da entrada e espiou rapidamente o recém-chegado antes de dar-lhe novamente as costas. Um sorriso afiado apontou em seus lábios: o inesperado invasor trazia ambas as bochechas coradas. Shizuo sabia que aquele anormal vermelho a pintar o rosto sempre calmo daquele homem poderia ter diversos significados, mas assumiu, por hora, que era devido à provável corrida desenfreada até ali.
– Então é aqui que você estava, hein, Shizu-chan? – a voz que soou oscilava entre raivosa e receosa, o que em muito divertiu os atentos ouvidos de Shizuo.
– Izaya-kun, precisa de algo? – ainda sem virar-se para encarar os olhos castanho-avermelhados que sabia estarem intensamente fixos nele, perguntou com falsa solicitude.
– Preciso do seu celular. Agora! Dê-me! Já!
Entre as nuances na voz de Izaya que Shizuo conhecia, só havia uma capaz de irritá-lo mais do que a usual e costumeira malícia: o tom de ordem. Nada irritava mais Shizuo o misto de “ordem”, “deboche” e “arrogância” que assumia, às vezes, o informante. Assim, não evitou um segundo sequer antes de vestir seu mais ardil sorriso e virar-se, finalmente, para o recém-chegado. Viu os olhos castanho-avermelhados apertaram-se em sua direção e, com satisfação, estendeu o celular que tinha em mãos na direção deles. Os olhos brilharam, intensos e rubros, e oscilarem ora a fitarem seu rosto ora a fitarem a mão que trazia o celular.
– Por que está com o celular na mão, Shizu-chan? – Shizuo classificou, divertido, a voz de Izaya como “bomba-relógio”.
– Eu faço o que quiser com meu celular, I-za-ya-kun. – ouvindo a forma como Izaya soava como alguém prestes a explodir, Shizuo esforçou-se por soar tranquilo. Não era fácil a ele manter sua voz calma, não só porque aquele não era um tom ao qual ela estivesse acostumada, mas principalmente porque a vontade de rir diante das bochechas avermelhadas que emolduravam olhos repreendedores quase o dominava por completo.
Mais uma vez os repreendedores olhos estreitaram-se em sua direção, obstinados e intimidadores.
“Oh. Está bravo, pulga”, pensou ao sentir o rubro dos olhos queimarem sobre sua pele.
– Você fez? – o tic-tac da voz bomba-relógio voltou a soar, ainda mais intenso do que antes.
– Fiz o que? – retrucou, incapaz de impedir que a diversão soasse através das palavras.
Não seria necessário um mestre em análise do discurso para notar que a pergunta carregada de sorrisos era retórica. Shizuo sabia perfeitamente o que perguntava Izaya, sabia tão bem como se fosse ele mesmo a fazer a pergunta, e saber só aumentava a diversão que sentia. E compreendia, também, que Izaya sabia que Shizuo não era ignorante como tentava fazer-se. A pergunta que aquelas duas simples palavras escondiam era a nada sutil: “Você gravou aquela merda, caralho?”, exatamente desta forma, carregada de raiva e de palavras que crianças curiosas buscam nos dicionários. Mas, tão bem quanto sabia qual era a verdadeira natureza da pergunta, sabia que Izaya nunca a faria em voz alta. Absolutamente não. E muito menos na frente de outras pessoas. Não que Izaya tivesse problemas com o linguajar inadequado ou com exposição, mas, ainda assim, naquela situação, seria impossível que aquelas específicas palavras deixassem aqueles precisos lábios que quase nunca hesitavam em abrir-se.
Assistiu Izaya correr os olhos que revelavam todos os segredos que seus lábios teimosamente insistiam em manter para os outros ocupantes do cômodo. Provavelmente buscava neles alguma informação válida, a informação que Shizuo insistia em manter escondida dele através dos estúpidos jogos retóricos. Shizuo agora se arrependia do momento no qual virara as costas aos donos da casa, pagaria qualquer preço para saber qual era a expressão que aqueles dois mantinham e que era capaz de causar a atual expressão de Izaya. Eram poucas as coisas no mundo que podiam juntar as sobrancelhas do informante, e isso Shizuo aprendera depois de anos de observação intensa, ainda que forçada. Izaya sempre mantinha a expressão aberta e relaxada, numa harmoniosa combinação com os olhos maliciosos e o sorriso irônico. Mas, agora, sua expressão era tensa: as sobrancelhas juntas e os lábios retesados. Divertido, Shizuo pôs-se a imaginar quais eram as expressões corporais de Shinra e Celty. Concluiu que, se tivesse que escolher, diria que Celty segurava seu celular, pronta a digitar algo e Shinra trazia algum absurdo sorriso idiota.
– Ah... – começou a dizer – Você quer dizer isso? – pressionou o play pela terceira vez naquele dia e mais uma vez a voz alta e suplicante de Izaya ecoou pelas paredes brancas do apartamento normalmente silencioso do médico clandestino.
“- Por favor! Sim, sim, o Shizu-chan é o dono do mundo! É o melhor! Shizu-chan com certeza é perfeito! Agora, para! Para, por favor!”.
Shizuo não pode impedir que uma risada alta e absolutamente divertida fizesse eco às palavras manchadas pelos zumbidos do gravador. Risada que se intensificou quando viu, aos poucos, Izaya deixar de encarar Celty e Shinra e pousar novamente seus olhos nele, olhos que combinavam perfeitamente com a expressão que o informante trazia em seu rosto: olhos vermelhos num rosto absolutamente corado e lábios escarlates que tremiam de raiva. Shizuo não era um homem com um grande senso de humor, contudo, não pode evitar que um sorriso ainda mais aberto escapasse dos seus lábios ao pensar que Izaya, daquela forma como estava agora, lembrava-lhe uma maça-do-amor, uma extremamente raivosa e, provavelmente, produzida nas profundezas do inferno, mas, ainda assim, adoravelmente rubra e doce.
– Shizu-chan... aproxime-se um pouco, quero te dar uma recompensa pela surpresinha.
“Ohhh... a maça-do-amor puxou um canivete. Perigo!”, pensou divertido. Por mais que soubesse que Izaya não hesitaria em ataca-lo com o canivete que ele mentalmente desprezava, não conseguia tremer diante das ameaças daquele homem corado até o último fio de seus negros cabelos.
– Não me agradeça, pulga, eu me diverti bastante também – respondeu debochado, não se movendo nem um milímetro.
– Não seja tímido, Shizu-chan! – os olhos outrora estreitos de Izaya agora se arregalavam. Assim, abertos como estavam, a raiva que contraditoriamente carregavam suas gentis palavras podia ser mais facilmente percebida – Ah! Tudo bem! Eu vou até você!
Shizuo piscou duro algumas vezes e não pode evitar que seu coração disparasse em excitação enquanto assistia Izaya diminuir o espaço entre eles com passos gingados, um sorriso louco e o canivete em punho. Quando viu o informante levar a mão livre ao bolso da calça – provavelmente recheado com as usuais lâminas – soube que deveria agir rápido caso não quisesse levar aquela briga ao consagrado e derradeiro patamar ao qual Ikebukuro toda já se havia acostumado. E, naquele dia, Shizuo não queria repetir a frequente e destrutiva caçada, por mais divertida que ela fosse.
Assim, se Izaya aproximava-se munido de raivosos olhos rubros e incontáveis lâminas, o guarda-costas, por sua vez, não sentia nenhum dos comuns sentimentos de descontrole tomarem-no. Ao olhar para aquele rosto raivoso, mas ainda corado, e para aqueles lábios retesados, mas que sorriam sem malícia na gravação em seu celular, nada o fazia querer perder o controle e iniciar uma briga. Era um sentimento diferente, e ele sabia muito bem o quão anormal era: ele estava absolutamente calmo ao ver Izaya aproximar-se ameaçadoramente. Além de sua falta de desejo em brigar, ele possuía também plena consciência do público que o encarava: Celty e Shinra quase o imploravam para que não destruísse o apartamento deles.
“Certo, certo! Parar Izaya sem destruir o apartamento”. Shizuo sabia tão bem quanto sabia de sua força que era quase impossível uma interação com Izaya não acabar com algo destruído. Tanto quanto confiava na força que emanava de seus punhos, confiava também na vontade de Izaya em não deixar-se deter. Sempre fora assim. Mas, diferente de antes, ele tinha um trinfo, a rigidez e frieza que sentia em sua mão esquerda ao apertar os dedos contra o frágil celular provava isso. Não pode evitar um sorriso divertido ao encontrar a solução para seus dilemas.
Mas, ainda que a solução lhe parecesse sólida e precisa, aquela era uma situação inusitada, e Shizuo teve consciência disso no momento em que deu o primeiro passo em direção a Izaya. Era a primeira vez que avançava contra o informante com o intento de pará-lo, não acertá-lo. Uma emoção nova tomou seu peito enquanto ele reduzia a distância entre eles, e não pode evitar que um arrepio estranho gelasse seu estômago. Shizuo estava surpreso com a própria calma, mas não tão surpreso quanto, provavelmente, Izaya. Os olhos castanho-avermelhados nublados pela raiva agora mostravam algo de surpresa e curiosidade: Izaya, claramente, estava confuso com a aproximação de Shizuo e, talvez por este exato motivo o plano de Shizuo tenha funcionado tão perfeitamente.
Tudo aconteceu rápido demais para que os olhos rubros, por mais inteligência que refletissem, pudessem perceber: num instante Shizuo avançava seu punho direito em direção ao rosto de Izaya, e, como sempre, o golpe foi evitado com maestria pelo sagaz informante. Normalmente, ambos sabiam, este ataque estaria terminado e a ele seguiriam-se outros de igual intensidade, com uma série que só seria interrompida quando Shizuo fosse obrigado a recuar por causa das afiadas lâminas de Izaya. Normalmente, mas não desta vez. Desta vez o golpe não acabara quando o punho de Shizuo passara raspando pela lateral do pálido rosto do informante. Desta vez — num plano que faria até mesmo o teimoso informante reconhecer a destreza do homem mais forte de Ikebukuro — o golpe estava apenas começando. Os olhos escarlates piscaram algumas vezes, confusos com a pressão que seu dono sentia na parte de trás da cabeça, na região do pescoço, e precisaram de alguns instantes para perceber que o punho que haviam deixado escapar assumia agora forma de gancho que mantinha preso o corpo de Izaya. Izaya, porém, mal teve tempo para processar a prisão na qual se encontrava, Shizuo golpeou-o de leve onde antes o pressionava, golpe que, ainda que sutil, forçou ao desequilíbrio o informante.
Shizuo mal pode conter sua surpresa ao ver o informante quase cair com seu toque, indicando o sucesso completo na missão. Mesmo naquele intenso momento, Shizuo não pode deixar de pensar que era, assim, então, que Izaya conseguia controla-lo: permanecendo calmo enquanto o outro avançava cheio de raiva, e acertando-o de forma não prevista.
Girou o corpo e, pondo-se atrás de Izaya, enlaçou-o com ambos os braços, impedindo-o de cair ao mesmo tempo em que o trazia para si, forçando as costas do moreno contra seu peito. Ao vê-lo preso, soltou um dos braços e, com movimentos rápidos e precisos, segurou o punho de Izaya que sustentava o canivete, mantendo-o a uma distância segura.
– Te peguei, pulga. – sussurrou, aproximando os lábios da orelha do informante.
Shizuo não podia ver qual a expressão que Izaya tinha em seu rosto naquele exato momento, mas absolutamente nada o faria soltar aquele homem, nem mesmo sua curiosidade, por maior que ela fosse. Mas não seria necessária demasiada reflexão para opinar sobre o estado do informante. Shizuo sabia o quanto Izaya odiava ser pego, sabia o quanto odiava ter os movimentos restritos daquela forma, sabia o quanto orgulhava-se de sua agilidade e de seu canivete, sabia, portanto, o quanto ter suas duas maiores armas fora de combate o irritaria. É importante, entretanto, dizer que Shizuo, neste momento, esquecia-se que agilidade e canivete não eram as únicas armas de Izaya e não eram, também, nem de longe, as mais eficiente.
– Vai ser melhor se me soltar agora, Shizuo. – o “tic-tac” da bomba relógio não era mais audível na voz que deixou os lábios de Izaya. Shizuo sabia o que significava quando Izaya não deixava a raiva crua transparecer em sua voz, assim, a voz contida e baixa, que abandonara o apelido, correu gelada por suas veias.
“Shizuo, hein?! Ele está bravo!”, pensou, pressionando o queixo contra o pálido pescoço do informante.
– Não me parece uma boa ideia te soltar agora, pulga. – respondeu seguro, sorrindo sutilmente contra a pele alva de Izaya.
Shizuo era um homem intenso e cometia diversas falhas por conta de sua impulsividade, entretanto, estava longe de ser um homem estúpido. Portanto, agora, com sua cabeça no lugar e com seu maior rival seguramente preso em seus braços, ele sabia exatamente o que deveria fazer, independente do quão ameaçador Izaya parecesse.
Afastou-se minimamente de Izaya, aproximando em seguida de seu ouvido direito. Um riso baixo escapou por entre seus dentes enquanto separava os lábios, pronto a aproveitar-se de sua carta trunfo. Justamente aquela que o levara até o apartamento do médico clandestino naquele sábado e que o colocara na atual situação.
– Não me restam opções, então, a não ser usar minha arma fatal! – as palavras, ditas baixas e confiantes, por mais ridículas que pudessem parecer aos ouvidos alheios, causaram efeito imediato no corpo magro que Shizuo mantinha aconchegado em seu peito.
– Você não se atreveria... – Shizuo sabia que o tom frio de Izaya faria o mais corajoso dos homens transformar-se num garotinho mijão, mas não ele, não o homem mais forte de Ikebukuro. Ele já chegara até ali, não recuaria.
– Mas, primeiro, você solta isso... – Shizuo ignorou a ameaça de Izaya, apertando e torcendo um pouco sua mão ao redor do pulso do informante, forçando-o a soltar o canivete. – Agora... – soltou o pulso de Izaya e direcionou a mão livre a barriga do informante, pousando-a sutilmente no fim das costelas do moreno.
– Shizuo... – a voz do informante soou uma última vez e Shizuo, por um curto momento, pensou que, daquela vez, ele, provavelmente, poderia ter recuado. Mas a voz que poderia fazer o homem mais forte de Ikebukuro pensar em recuar — mesmo que poucos instantes — calou-se rapidamente, substituída por um som esganiçado e curioso. Um sorriso divertido e involuntário brotou nos lábios do homem mais forte de Ikebukuro: este era, para ele, o som da vitória e ele permitiu-se saboreá-lo por instantes antes de mover, pela segunda vez, os dedos ritmicamente pelas costelas de Izaya – Há... – o informante levou uma das mãos ao rosto, tapando a boca.
– O que você disse, pulga? Não ouvi direito. – provocou Shizuo, voltando a mover sua mão na barriga do informante.
– Háháháhá – foi a única resposta que recebeu, ainda que abafada pela mão de Izaya.
Incentivado pela resposta, Shizuo soltou a mão que mantinha a cintura de Izaya presa a si e, agora, com as duas mãos provocava cosquinhas em Izaya, movendo seus dedos rapidamente por toda a extensão da barriga do informante, com especial atenção ao fim das costelas do moreno.
Izaya já não mantinha mais sua mão sobre os lábios. O moreno agora ria a solto, debatendo-se e tentando inutilmente afastar de si as mãos de Shizuo. Inutilmente não apenas porque seu algoz era o homem mais forte que conhecia, mas também porque as forças do informante estavam todas concentradas em seus pés, no quase inútil e dificílimo esforço de sustenta-lo dignamente.
Quando viu que sua vítima respirava com dificuldade, Shizuo parou os movimentos e deixou-a respirar. Não podia negar que achava encantadora a forma como, entre inspirações profundas, o informante deixava escapar alguns risos, mesmo que as cócegas estivessem cessadas.
– Háhá.. para, Shizu-chan... Háhá... – Shizuo não precisava encarar o rosto de Izaya para saber que suas bochechas agora estavam coradíssimas e seus olhos castanho-avermelhados repletos de lágrimas. A recordação de quando o vira daquela forma, naquele mesmo dia, mais cedo, era suficientemente eficiente para trazer um sorriso estranhamente bobo a seus lábios. Daqueles que ele, normalmente, só ostentava quando pensava em Kasuka.
– Não vou parar até você pedir adequadamente. – anunciou, iniciando uma nova onda de seu “ataque” e só parando quando sentiu que Izaya estava pronto a começar a cumprir suas condições.
– Para! Por favor, para, Shizu-chan! – pediu a voz sôfrega, sem qualquer traço da usual malícia. Shizuo tinha que admitir que aquela voz era quase irreconhecível. Se de sua posição não pudesse ver os lábios de Izaya mexerem-se, duvidaria veementemente de sua procedência.
– Tsc tsc tsc... Você sabe que não é assim que se pede, Izaya-kun. – repreendeu Shizuo começando novamente as cócegas, e, mais uma vez, parando ao sentir que Izaya queria dizer algo.
– Tá bom, tá bom... – começou Izaya – Pare, por favor, ó grande Shizu-chan. – emendou.
Shizuo sorriu diante das palavras de Izaya. Ele achava absurdamente engraçado unir a palavra “grande” ao honorífico “chan”, mas, ainda assim, julgava perfeitamente harmonioso que esta fosse a “palavra de segurança” escolhida para que o ataque parasse. Mas, abrindo ainda mais seu sorriso, Shizuo decidiu que desta vez isso não bastaria e recomeçou os movimentos com as mãos.
– Há... por quê, Shizu-chan?... háháhá... – Shizuo divertia-se ao ver como Izaya parecia confuso com o recomeço das cosquinhas.
– Dessa vez eu quero algo diferente, pulga. – disse sem parar de mover os dedos, dedicando especial atenção ao que ele nomeava mentalmente como “super-ponto-fraco” de Izaya: suas costelas – Quem é seu dono, hein? – perguntou, forçando sua voz a passar uma seriedade que ele não sentia no momento.
Shizuo sabia que quanto mais longe fosse, maior seria a raiva de Izaya. Conhecia o informante bem o suficiente para saber quando atingia seus limites. Mas não podia reprimir a vontade que tinha de torturar Izaya ao vê-lo daquela forma tão vulnerável. Afinal, as cócegas eram a única forma de conseguir acesso a um Izaya flexível e obediente.
Parou os movimentos com os dedos e esperou que Izaya se recuperasse.
– Não fode, Shizuo! Nem morto digo algo assim.
– Se você prefere assim... – posicionou novamente as mãos sobre o abdômen de Izaya, retomando sua posição de ataque – Shinra, é possível morrer de cócegas? – perguntou alto o suficiente para que pudesse chamar a atenção do médico que o encarava a uma distância segura.
– Ele pode ficar sem ar... – Shinra respondeu. Shizuo notou que o próprio médico parecia estar muito perto de morrer pela tal falta de ar.
– Você ouviu o doutor, pulga. – Shizuo riu e recomeçou o ataque – É melhor ceder logo.
– Nem... háháhá... pensar...háháhá... Shizu-chan – risos soavam entrecortados às palavras.
– Tsc... – estalou a língua – Teimoso.
Involuntariamente, Shizuo parou mais uma vez os movimentos de seus dedos, mas desta vez não era uma trégua ou uma oportunidade de rendição. O homem mais forte de Ikebukuro estava chocado com sua própria atuação.
Não era a primeira vez que Shizuo via-se numa situação como aquela. Verdadeiramente, não foram muitas as vezes, mas era certo que durante os últimos dois anos, em diversas ocasiões Shizuo surpreendia-se com suas próprias reações diante de Izaya. Não que o homem mais forte de Ikebukuro dedicasse-se longamente a pensar em sua estranha relação com Izaya. Pensar longamente sobre qualquer assunto não era, afinal, seu modus operandi. Mas, ainda que não pensasse sobre isso, era inevitável que, em momentos como aquele — quando a palavra “teimoso” deixava sorridente e quase amável seus lábios na direção de seu maior rival — ele não pensasse sobre o quão estranho era ter Izaya a seu lado. Mesmo Shizuo não podia evitar pensar no quão inesperado era seu tom, no quão inesperado era seu sorriso, no quão absurdo era pedir a Izaya que se declarasse como seu, ainda que como uma brincadeira.
– O Shizu-chan... – a voz desesperada e sofrida que chegou aos seus ouvidos cortou seus pensamentos. Shizuo abriu excessivamente os olhos cor de avelã, mantendo-se em anormal espera silenciosa – O Shizu-chan é meu dono!
O riso que o choque causado pela anterior amabilidade em suas palavras matara renascia com uma risada alta e sonora que soou por alguns instantes antes de recuar a um aberto sorriso lateral. “É sempre assim, não é?!”, pensou, focando-se no homem que mantinha preso em seus braços e esquecendo-se completamente das considerações que intrigavam-no instantes antes.
– Satisfeito agora? – a voz de Izaya soava desagradavelmente baixa.
Shizuo, que nunca respondias às palavras de Izaya que não fossem insultos, ponderou por alguns instantes.
– Não. – respondeu simplesmente.
Assistiu Izaya afastar-se, parar a sua frente e encará-lo abrasadoramente. O homem que o encarava com tamanha intensidade mostrava-se vermelho, em especial na região das maças do rosto e ao redor dos olhos que, por sua vez, ainda traziam rastros de lágrimas. Shizuo não era um homem de elogios ou julgamentos, apesar disso, naquele momento, o homem mais forte de Ikebukuro poderia julgar que a avermelhada e chorosa expressão de Izaya era estranhamente adorável... Poderia julgar. Poderia, se por trás dos sutis resquícios de lágrimas não brilhassem escarlates e mortais olhos. Entretanto, ignorando a raiva rubra que emanava daquele par de orbes, fechou a distância e depositou um beijo simples em Izaya, apenas um selar de lábios.
– Agora estou. – declarou, afastando-se novamente.
– Eu vou te matar, sabia?! – um sorriso breve dançou nos lábios de Shizuo ao perceber que o “tic-tac” voltara a soar na voz de Izaya, ainda que sutil. A voz que o ameaçava voltara a exibir seu usual deboche e subira alguns tons, abandonando o soar baixo e rancoroso. Entretanto, se a voz que o ameaçava soava um pouco rendida, o mesmo não poderia ser dito dos olhos que o fitavam como carvões em brasa. Olhos que permaneciam fixos nos seus, mesmo que os cor de mel recusassem-se a retribuir o olhar, mais preocupados como estavam em acompanhar os movimentos dos dedos finos e ágeis de Izaya, que agora se dirigiam habilmente até o bolso recheado de lâminas.
– Você não devia ameaçar tão despreocupadamente alguém que sabe como te deter, pulga – Shizuo sorriu largo, levantou as mãos até a altura do rosto, e, encarando profundamente o rosto irritado de Izaya, flexionou os dedos repetidamente, como se apertasse algo no ar.
Viu o olhar decidido de Izaya vacilar e sua mão deixar o bolso sem nenhuma arma, e soube que, ao menos provisoriamente, estava livre dos afiados objetos. Não houve tempo, entretanto, para um sorriso vitorioso. Não que Shizuo esperasse por algo deste tipo, ele sabia que, como sempre quando se tratava de Izaya, fosse qual fosse a competição ou ataque, não havia vencedores. Assim, tudo o que pode fazer ao ver o informante cruzar os braços na altura do peito e encará-lo com as vermelhas bochechas levemente infladas pela raiva e olhos rancorosos foi: “Como você não percebe que sou eu o derrotado aqui, pulga?!”.
O deleite rendido de Shizuo, entretanto, durou menos do que ele desejava. Logo as infladas bochechas estenderam-se em um sorriso sacana e o único vermelho visível tornou-se o brilho intenso dos olhos castanho-avermelhados. Olhos que corriam maliciosos por todos os presentes, de Shizuo a Celty e Shinra.
– Mas você expos meu ponto fraco... – a voz que soou em nada se assemelhava com a raivosa ou com a baixa contida, ela era alta e maliciosa, como se carregasse algum segredo cruel.
– E seu ponto é...? – Shizuo ousou perguntar, mesmo com a certeza de que a resposta, certamente, não o agradaria.
– Significa que tenho o direito de fazer o mesmo.
Mesmo que provavelmente não parecesse assim aos ouvidos de Celty e Shinra, esta era uma ameaça séria. Era exatamente desta forma que uma ameaça de Orihara Izaya soava: a voz maliciosa que brincava entre a língua, dentes e lábios, os olhos que brilhavam como carvões em brasa, as palavras não aleatoriamente escolhidas. E, diferente de Celty e Shinra, Shizuo entendia completamente a gravidade das palavras de Izaya.
Culpa tomou-o, ele deveria saber. Depois de tanto tempo ele deveria saber... Deveria saber que o mais perigoso de Izaya não era suas lâminas, o mais perigoso de Izaya era, justamente, quando ele não podia usa-las. Izaya era infinitamente mais perigoso quando tudo o que levava para a batalha era sua língua. E ele, por diversos motivos — e metade deles muito diferentes de todos os outros habitantes de Ikebukuro -, sabia dos problemas que aquela língua traziam. E o motivo era simples: Shizuo era uma vítima metafórica e literal da língua de Izaya. Diversas vezes já fora colocado em situações perturbadoras por causa da habilidade discursiva de Izaya, já fora preso, perseguido, provocado. Mas, neste instante, o que mais o preocupava eram os problemas que Izaya trazia-o quando usava literalmente a língua. E ele dolorosamente sabia que era a isso que Izaya referia-se quando dizia que pretendia revelar seu ponto fraco.
– Oe, oe, pulga... você não faria... – involuntariamente, recuou alguns passos enquanto observava Izaya avançar para ele com um cínico sorriso que se alargava a cada novo passo – Isso seria contra a lei. É atentado ao pudor.
– Só seria atentado ao pudor se estivéssemos na rua, Shizu-chan bobinho – o olhar de Izaya se expandia a cada palavra dita, meio divertido meio louco. Por fim, as duas orbes castanho-avermelhadas pousaram em Celty e Shinra – Assim é, no máximo, voyeurismo.
Um arrepio gelado percorreu a espinha de Shizuo ao ver Izaya piscar um de seus perigosos olhos rubros para os atônitos donos da casa. “Você faria”, foi o que concluiu ao encarar o sorriso malicioso que rasgava o rosto do informante.
Inevitavelmente, lembrou-se das orgulhosas palavras ditas por Izaya alguns dias antes ao realizar mais uma de suas literais performances com a língua: “A boca é a melhor arma de um informante, Shizu-chan”.
Mesmo toda a força que possuía não seria suficientemente poderosa para negar a afirmação de Izaya e Shizuo sabia disso. Sabia também que não teria escapatória caso fosse pego. Sabia que sexo era o único embate que destoava da harmônica igualdade entre eles. Resignada e dolorosamente sabia que quando o assunto era sexo ele não podia resistir bravamente e dignamente a Izaya.
Sabendo que não seria forte o suficiente para resistir caso fosse pego, juntou toda a força que possuía e usou-a para afastar as imagens obscenas que insistentemente invadiam sua mente ao mesmo tempo em que se forçava a virar as costas e cruzar a porta de entrada a passos rápidos, ambiguamente torcendo para ser pego o mais rápido possível.
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Shinra
– Shizu-chan maldito! Não se atreva a fugir de mim! – Shinra assistia Izaya berrar na direção da porta que acabara de ser cruzada por Shizuo.
O médico clandestino estava em choque.
Ele estava em plena execução de seu plano para convencer Celty a sair com ele naquela tarde bonita de sábado quando ouviu a voz de Shizuo soar em seu apartamento. O primeiro pensamento que cruzou sua mente foi uma prece silenciosa para que a visita do amigo não significasse a saída de sua namorada e a consequente ruína de seu plano. Afinal, ele passara dias para escolher aquelas flores que acaba tirava de seu esconderijo provisório. Este pensamento foi varrido de sua mente, entretanto, ao ouvir na sala outra voz soar. De início pensou que, definitivamente, não só seu encontro estaria em ruínas, mas também seu apartamento. Mas ao correr até a sala modestamente decorada de seu apartamento e captar as últimas sílabas daquela voz que soava risonha, percebeu aliviado que era apenas uma gravação.
Quase sorria agora ao lembrar-se de seu alívio, afinal, ele fora completamente desmotivado, já que não pouco tempo depois o dono daquela voz irrompeu em carne e osso – e barulho e lâminas e malícia – pela porta de seu apartamento para apresentar um espetáculo que Shinra nunca imaginou presenciar.
“Cócegas, hein?!”, sorria ao encarar a porta de seu apartamento escancarada, por onde Shizuo acabara de sair.
Desviou os olhos para o outro invasor daquela tarde de sábado: Izaya, e olhou-o com atenção. Ainda tentava, arduamente, entender o que Izaya planejava fazer. Assustava-se com o que a palavra “voyeurismo” usada por ele poderia significar. Não que ele se importasse de observar os outros, e, com certeza, ver a interação entre Shizuo e Izaya seria algo interessante, mas ele sabia muito bem que aquela palavra remetia diretamente a um contexto sexual e, sinceramente, observar seus dois amigos naquele contexto não parecia tão tentador quanto ele achava que pareceria.
– Vocês dois... – sua atenção foi chamada pela voz firme de Izaya – não saiam dai! Eu volto logo! – declarou com uma certeza que não permitia contestações.
Assistiu Izaya abaixar-se, pegar seu canivete que jazia no chão, e correr em direção à porta. Suspirou aliviado. Aqueles dois eram como furacões: invadiram seu apartamento sem qualquer motivo aparente, destruíram todos os conceitos de normalidade e bom-senso, para então deixaram-no com a mesma rapidez com a qual chegaram.
Desviou o olhar da porta para buscar conforto em Celty, esperava que nada daquilo acabasse com seus planos, mas, antes que pudesse pousar seus castanhos olhos em sua amada um chamado alto atraiu-os de volta a porta:
– Vocês... – se não soubesse que sua namorada era a única capaz de fazer isso, juraria ter visto sombras negras cercarem Izaya – ... nunca, escutem bem, nunca comentem sobre aquilo, nunca pensem sobre aquilo, e, acima de tudo, nunca tentem fazer algo como aquilo!
Mesmo que suas capacidades cognitivas estivessem parcialmente nubladas pelo medo que sentia ao ouvir aquela voz dirigir-se a ele, Shinra entendera perfeitamente o recado: “aquilo” era nada além da inclinação de Izaya por cócegas. A única coisa que conseguiu pensar, entretanto, em reação à ordem de Izaya foi: “E quem, diabos, além de Shizuo, tentaria aquilo?!”. Mas antes que pudesse responder a Izaya que não seria um problema manter-se quieto sobre aquilo, viu o amigo virar novamente as costas e deixar definitivamente o apartamento.
Um silêncio sepulcral instalou-se na sala de estar.
Mas silêncio não era um problema para Shinra. Silêncio era, para o médico clandestino, a prova de que tudo tinha voltado ao normal. Ele estava, enfim, a sós com Celty. Assim, finalmente fez o que queria ter feito durante todo o tempo, fitou a namorada longamente, notando como ela mantinha-se virada para a porta com o celular em mãos. Uma ideia pululou em sua mente e não pode evitar que um sorriso divertido se apossasse de seus lábios.
– Você gravou isso, não é?!
Um gesto, um simples gesto, mas comunicativo o suficiente para fazer Shinra explodir em gargalhadas: Celty levantou positivamente seu polegar direito.
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