Depois de um sonho
15 Depois de um engano
Notas iniciais
Depois de um engano
– Agora, — mais uma vez, a voz de Ueno cortou seus pensamentos trazendo-o de volta a realidade a sua frente – eu quero que você dê seguimento aos seus planos!
Izaya o encarou confuso, como se não tivesse entendido direito o significado daquelas palavras.
– Isso mesmo. Sabe... eu estou realmente curioso. Me frustra não entender nada... Eu quero ver, informante-san. – explicou com um sorriso malicioso.
“É frustrante não entender, não é?!”, pensou sobre as palavras de Ueno. Quase ria ao notar que, mesmo por motivos e direções diferentes, o que eles sentiam era, ironicamente, o mesmo.Não entender era frustrante.
Uma série de difusos pensamentos passava por sua mente enquanto um conjunto de sentimentos até então desconhecidos inundavam seu peito e faziam-no apreensivo. Não conseguir chegar a uma decisão era inimaginavelmente agoniante. Dor em sua cabeça e dor em seu peito: as dores de Izaya eram dobradas, dividindo-se entre a confusão entre milhares de diferentes conclusões sobre Shizuo — sendo todas elas absolutamente contraditórias entre si — e a encruzilhada entre abandonar Kasuka e escapar ou ajudar Kasuka e encontrar uma solução. Ele poderia dizer que o que o deixava inclinado a ajudar Kasuka era seu orgulho negando-se a ser manipulado por Ueno, mas, talvez como resultado do desespero que sentia pela tão urgente situação, Izaya sequer considerava esta justificativa. Uma única e solitária razão brilhava em sua mente, destacando-se acima de quaisquer outros pensamentos: abandonar Kasuka faria Shizuo odiá-lo. E, assim, ele era trazido de volta aos pensamentos dicotômicos sobre o que queria de Shizuo, num ciclo sem fim que o matinha preso, a encarar Ueno com os olhos bem abertos.
Esse era, porém, apenas um dos problemas de Izaya.
Outro pensamento não deixava-o em paz, martelando ininterruptamente em sua já confusa mente: Ueno havia pego-o e agora ele estava sendo forçado a dançar conforme a melodia de outra pessoa. Longe de ser um pequeno problema, este fato — que se forçava para ele a todo o momento — era completamente inaceitável para Izaya, que sempre fora um maestro a ditar direções e reger pessoas. Ele era um informante, era absurdamente irônico como um informante havia deixado escapar informações contra sua vontade. Era irônico como ele não tinha calculado com precisão cada um de seus passos e tivesse sido pego com o pé fora da linha por Ueno.
“Onde tinha errado?!”, ou, mais importante que isso “Por que tinha errado?” — essa era uma questão primordial para a qual Izaya não tinha nenhuma resposta.
“Informante, hein?!”, pensou frustrado, encarando Ueno novamente e encontrando ali um sorriso malicioso. Por um instante, franziu o cenho, distraído de seus devaneios. “Esse sorriso...”, pensou intrigado. O sorriso de Ueno lhe parecia extremamente familiar. Vasculhou sua mente a fim de encontra-lo novamente e se surpreendeu por reconhecer um sorriso exatamente igual a aquele em suas lembranças: o seu próprio. Aquele era o sorriso que Izaya exibia quando seus planos tinham sucesso. O sorriso de quando sua coleta de informações mostrava-se útil.
Intrigado com a origem daquele sorriso, Izaya se desprendeu de seus pensamentos, respirou fundo e focou-se no homem a sua frente. Aquela não era hora para deixar-se levar pela dúvida e ele sabia disso. Izaya não estava acostumado a passar por situações desconfortáveis, nunca estivera em uma posição tão desfavorável, ao mesmo tempo, porém, ele sabia que ainda tinha consigo todas as armas necessárias para escapar, só precisava acalmar-se e conhecer seu adversário. “Conhecer Ueno”, pensou olhando o homem a sua frente. E, então uma luz acendeu em sua mente: Ueno exibia o sorriso da vitória. Com a conclusão sobre o sorriso, em um instante, todos os pontos se juntaram:
“Informante-san, é uma honra conhecê-lo”.
“O que o informante quer comigo?!”.
“(...) não me entenda mal, eu não sou um informante como você, não sou muito esperto ou muito observador, mas se tem algo que eu aprendi depois de anos trabalhando no submundo é a ser desconfiado.”.
“Eu não sou informante! Mas eu queria ser, sabe?! Acho super legal!!”.
“Então fui investigar! E, sabe... mesmo para quem não é informante, algumas informações não são assim tão difíceis de conseguir...”.
“Um canivete, hein? Ohhh! Ouvi dizer que essa é sua arma! Que legal tocar nela!”.
“Sabe... eu estou realmente curioso. Me frustra não entender nada... Eu quero ver, informante-san.”.
Um leve sorriso, discreto o suficiente para passar despercebido aos olhos de Ueno, brotou nos lábios de Izaya. “Então é isso?!”, pensou divertido.
Izaya sentia-se, pela primeira vez desde que entrou naquele galpão, no controle. Sabia que nada o ajudaria pensar nos motivos por trás de sua queda inicial, agora tinha que focar-se no que havia descoberto de Ueno: ele não era um informante. Essa era, absolutamente, a melhor descoberta que poderia ter feito, por mais óbvia que ela parecesse. Na realidade, o importante não era a descoberta em si, mas as implicações dela: Ueno não era um informante, logo, ele não sabia o que fazer com as informações coletadas; e, mais do que isso, ele desejava saber o que fazer com elas, desejava saber como elas poderiam ser úteis a ele, mas não era capaz de chegar a esta conclusão sozinho. Izaya recriminava-se por não ter percebido desde o início o tom usado por Ueno ao dirigir-se a ele: fascínio. “A forma como ele me trata por informante, a forma como ele se orgulha de ter conseguido as informações mesmo sem ser um informante, a forma como ele reagiu ao pegar meu canivete. Ele quer aprender! Ele quer aprender comigo! Ele quer saber o que eu faria!”.
Mesmo que não pudesse ser percebida por Ueno, a diversão tinha retornado aos olhos castanho-avermelhados.
“Ah, Ueno. Vou te ensinar a regra básica de um informante: não existem informações erradas, absolutamente todas as informações tem valor.”, pensou satisfeito, traçando o plano em sua mente, “Isso significa que não há passos fora da linha. Significa que tudo pode ser usado a meu favor, que tudo que fiz está absolutamente correto”.
– Heiwajima é um pobretão, certo? Seria melhor sequestrar-lo e pedir dinheiro pro atorzinho... – a voz de Ueno soou alta no galpão. – Por que você sequestrou o bonitinho?
Com seu orgulhoso plano arquitetado em mente, Izaya foi obrigado a conter uma gargalhada ao ouvir as palavras de Ueno.
“Ele está me perguntando! Diretamente! Ah! Porra! Essa sensação é realmente a melhor, Ueno!”, pensou em êxtase, “Agora sei o porquê de você a buscar com tanto furor: é maravilhoso estar certo!”.
– E por que eu diria a você? – respondeu com a voz carregada de malícia. – Eu nunca diria nada a um idiota como você. Na verdade, é engraçado ver um porco de segunda linha achar que tem controle assim. Coloque-se no seu lugar, Ueno, mesmo entre os porcos do submundo seu nome é jogado na lama.
Com seu olhar mais arrogante sob Ueno, assistiu a cor sumir do rosto do outro por alguns instantes e ódio brilhar nos olhos castanhos do homem de cabelos compridos. Longe de se intimidar pela reação de Ueno, Izaya se divertida com o sucesso de seu primeiro passo. Sua diversão foi momentaneamente interrompida, porém, por uma dor aguda no queixo. Mesmo com a dor, Izaya mal pode conter uma gargalhada. A tão bem-vinda dor no queixo marcava seu segundo sucesso: um soco forte que o obrigou a recuar alguns passos.
“Izaya, sorrir não é uma opção agora!”, teve que lembrar para evitar comemorar em alto e bom som sua conquista, “Fico feliz que você tenha decidido lidar assim com a situação, Ueno. Sempre me dei melhor com gente que se descontrola e resolve manter o controle pela força! São seeeempre tão fáceis de provocar e tão suscetíveis a deixarem-se levar pela raiva”.
– Você é mesmo um filho-da-puta bem arrogante, hein, informante-san? Isso estava certo do que diziam sobre você. Tá fodido, mas mantém a pose! – viu Ueno se aproximar e puxá-lo pelo colarinho da camisa – Mas, devo te lembrar que não está em posição de negar respostas, hein?!
“Uau! Ueno, você é perfeito! Tinha me esquecido de acrescentar um ponto na minha lista, obrigado por lembrar: você não só não é um informante, você é um torturador! Torturadores são incríveis quando querem resposta, né?!”, refletiu contendo um sorriso.
Sentiu seu colarinho largado e então mais um soco, desta vez em suas costelas.
“Os socos de Shizuo são bem melhores, entretanto, Ueno... esse seu trabalho como torturador é bem decepcionante, na verdade! Você não trouxe nenhum outro brinquedinho além da bomba?!... Que chato!”.
Mais um soco, e então outro e mais outro, até obriga-lo a inclinar-se no chão. No chão, a série de socos foi substituída por chutes.
– Você disse que eu não podia machucar o moleque, mas não disse nada sobre te machucar, informante-san. – cantarolou com a voz cheia de malícia, continuando com os chutes.
Izaya dividia-se entre dor e satisfação: ele sentia o impacto que seu corpo sofria, sem nenhuma proteção, e, mesmo que os socos de Shizuo fossem melhores, Izaya admitia que nunca recebera uma sequência tão grande de golpes, consequentemente, ele sabia que provavelmente a repercussão dos golpes de Ueno por seu corpo estava a ser desastrosa; por outro lado, porém, ele sabia que os golpes que traziam-no dor deixavam Ueno transbordando confiança, e isso era exatamente o que desejava Izaya.
A confiança de Ueno em sua força e controle da situação eram pontos cruciais para o sucesso de plano de Izaya, por este motivo, ele sequer pensava mais em sua atitude anterior com o torturador como algo ruim: a anormal maneira como Izaya tinha agido antes de encontrar Ueno, a hesitação na ligação, a caminhada em linha reta até a armadilha do outro, absolutamente tudo era favorável. Ueno, agora, subestimava Izaya. Era com regozijo que Izaya lembrava-se de quando Ueno dissera que “ele não era tudo o que diziam”. Subestimando Izaya, Ueno deixava a guarda aberta, e era exatamente nesta abertura que o informante iria atacar. Além do mais, Ueno era exatamente o tipo preferido de Izaya: pessoas que julgam ter o controle e que têm plena convicção de suas capacidades.
– Você não é nada sem seu canivete, hein?! – Ueno cuspiu as palavras carregadas de repúdio contra Izaya.
“Sim, sim, sem meu canivete... Mas calma, calma, Ueno-san... eu ainda tenho uns truques nos bolsos, mas ainda não é hora de usar. Gosta de Knife Throwing?!”, pensou.
– Que merda, informante! Por que todo mundo fica se cagando por você?! – Ueno parou os chutes, aparentemente frustrado com a falta de reação do outro.
“Por que será, Ueno-san?! Quer descobrir? Se bem que acho que você não vai perceber que te passei pra trás nem se eu esfregar na sua cara idiota”.
– Hahaha... você é mesmo um porco bem descontrolado, hein, Ueno?! – insultou o informante, gargalhando enquanto tentava-se levantar.
– Isso, isso, de pé, informante! É chato se você só ficar no chão apanhando! – declarou satisfeito com a iniciativa do outro – Ohhhhh! Que legal, informante! Isso que você cuspiu é sangue? Quero ver mais... me mostra, sim?!
Recompondo-se da melhor forma que pode, Izaya ficou de pé e cuspiu sangue na direção de Ueno, quase acertando-o o pé.
– Tá ai, porco! Vai fazer o que? Lamber? – provocou. “Ah, Izaya, tsc tsc, que provocações baratas idiotas... ”, riu-se.
Izaya sentia um prazer imenso em ver como era fácil provocar Ueno e como ele ficava mais irritado a cada instante. O moreno sabia que a melhor postura a assumir com o outro era manter-se arrogante. Ele sabia como Ueno o tinha em grande expectativa pela forma como falava sobre sua profissão como informante ou sobre sua fama, sabia, também, que Ueno estava questionando esta mesma fama enquanto batia nele com tanta facilidade e como subestimava-o desde o início do contato entre eles devido aos deslizes iniciais de Izaya, assim, concluía que a melhor postura a manter era continuar com sua pose superior. Ueno não conseguiria suportar a arrogância de alguém que considerava mais fraco.
Ueno avançou e acertou-o com seus punhos mais uma vez. E então iniciou uma série que Izaya percebeu concentrar-se em seus pontos já fragilizados pelos golpes anteriores: rosto, costelas e perna esquerda.
“Tá, tá, agora é a hora de brincar um pouquinho com você, Ueno.”, pensou recuando alguns passos a fim de aumentar a distância entre eles e colocando a mão no bolso direito de sua calça. Izaya fez questão de que seu movimento fosse o mais previsível possível, fazendo-o dezenas de vezes mais lento do que normalmente o faria, afinal, não podia correr o risco de surpreender Ueno e fazê-lo apertar o botão da bomba que sustinha em sua mão esquerda. Mas, mesmo prevenido, Ueno acabou por ser acertado na bochecha.
– Ops, errei. – Izaya olhava-o com um sorriso malicioso, “Nem vendo de onde vem você desvia, porco idiota?!” – Que bom que tenho outras aqui...
– Ohhhh... então você ainda tem algumas coisinhas ai! – Ueno ainda sorria, mas parecia ter recuado sua posição em defensa.
Izaya recuou mais alguns passos, girando o corpo lentamente para uma direção em específico e caminhando um pouco para a lateral, mantendo seus olhos com foco em algo atrás de Ueno. Era sua isca e ele contava que Ueno fosse mordê-la. Ele precisava que Ueno a mordesse! Portanto, quase soltou um suspiro de satisfação ao ver Ueno virar o rosto na direção na qual prendiam-se os olhos de Izaya, disposto a ver o que o informante fitava com tanta dedicação. Acreditando no sucesso de sua isca, Izaya parou novamente e se pôs em posição de guarda, apontando novamente as lâminas para Ueno e lançando mais uma, que acertou de raspão no braço direito do torturador.
– Você parece bem seguro de si com suas lâminas, não é? – perguntou o homem com o rabo-de-cavalo. Izaya reparou que seu sorriso voltara a alargar-se e que sua postura relaxara – Parece que esqueceu quem dita os termos aqui!
– Quem dita os termos é o rapaz com as facas, Ueno. – respondeu alargando também seu sorriso. Tinha certeza, com a última declaração de Ueno, que seu plano fora um sucesso.
– Não, quem dita as regras é o rapaz com a bomba, informante-san.
“Ah, merda, isso é mesmo muito bom!”, Izaya teve que se focar para não deixar transparecer o quanto ficara satisfeito com a resposta de Ueno. O moreno, durante o processo, fizera intencionalmente com que Ueno voltasse novamente seus olhos para Kasuka. Era um plano arriscado: fazer Ueno pensar no ator como seu trunfo, mas sem voltar-se violentamente contra ele, e, ao mesmo tempo, acreditar que Izaya estava completamente indefeso em suas mãos e que tudo estava correndo conforme seu desejo. A maneira como irritara Ueno era a forma de fazê-lo direcionar toda a violência a ele e poupar Kasuka.
– Eu ainda tenho o garoto Heiwajima aqui, não é? – Ueno aproximava-se novamente de Kasuka.
– Sai de perto dele!
Um vacilo e novamente a dubiedade tomava Izaya: ele planejava ser realista o suficiente para convencer Ueno de que estava preocupado com Kasuka e que cederia às suas provocações, mas, até mesmo para ele, aquele grito suplicante soara demasiado sincero. Vendo Ueno aproximar-se de forma ameaçadora de Kasuka, Izaya vacilara um pouco em seu plano, repensando-o. Entretanto, ele sabia que se questionasse o próprio plano estaria perdido, assim, esforçou por controlar as batidas insistentemente fortes em seu peito e manter a postura.
– Então é assim que te faço ficar mansinho... não é, informante? Então, agora... – Ueno parou atrás da cadeira na qual se encontrava Kasuka e pousou levemente as mãos nos ombros do garoto — ... você me conta o que planejava, não é? – a voz do homem soava ameaçadora.
– Eu só queria brincar com o irmão dele. – “Preciso continuar... Só mais um pouco! Aguente só mais um pouco, Kasuka...”.
Ueno pressionou os ombros de Kasuka e o rapaz soltou um gemido de dor.
– Isso é mentira, não é?! Eu sei que é! Se mentir de novo... – apertou mais forte os ombros de Kasuka, fazendo-o gritar de dor em resposta- ... eu quebro o braço dele, informante-san.
Izaya soltou as lâminas que tinha em mãos e chutou-as para longe, rendido. Esse era seu plano deste o início: fingir que cedia diante das ameaças contra Kasuka, para, assim, Ueno acreditar na próxima mentira que contasse. Ele sentia-se, porém, verdadeiramente rendido, não havia nele sequer um pingo de encenação ao chutar para longe suas lâminas e levantar as mãos em sinal de capitulação.
– Isso mesmo! – Ueno parecia satisfeito – Agora abre a maldita boca!
Mesmo dividido, sabia que devia seguir o plano.
Olhou suplicante para Ueno, como quem reluta em dizer, e Ueno susteve seu olhar. Dos dois sentimentos que Izaya transmitia — súplica e relutância -, porém, apenas um era verdadeiro e Izaya torcia para que Ueno não percebesse a diferença. O homem mantinha-se ameaçadoramente esperando por sua resposta.
– Minha intenção era conseguir a colaboração de Shizuo. – começou a dizer com a voz repleta de nervosismo. Izaya esperava que Ueno atribuísse o nervosismo em sua voz ao fato de que ele não queria falar, mesmo que aquela não fosse a verdadeira razão para seu trêmulo tom — Ele nunca me ouve e sempre tenta me matar. Isso é ruim. Kasuka seria a oportunidade perfeita para fazer Shizuo me ouvir. Ele seria um bom aliado. Não preciso que ele goste de mim, só preciso que ele me deva alguns favores. – Izaya sentia um genuíno alivio por ser capaz de manter seu plano mesmo com a pressão que sentia ao ver Ueno com as mãos em Kasuka.
– Heiwajima Shizuo devendo favores? – viu um suspiro deixar os lábios de Kasuka e concluiu que Ueno afrouxara o aperto em seus ombros, provavelmente pego pela isca lançada por Izaya.
– Sim. Ter a ajuda dele de vez em quando seria ótimo para os negócios.
– É por isso que você não queria machucar o moleque? Por que assim ele estaria mais disposto a te ajudar?
“Ele mordeu!”, Izaya quase sentiu suas pernas cederem de alívio.
– Claro.
– Heiwajima Shizuo me devendo favores... parece uma boa, informante! – Ueno soava empolgado — Agora entendo você... Você é mesmo esperto, né?! Acho que não se importa se eu tomar seu lugar, né?! Não que você esteja em posição de reclamar, na verdade... Vou entregar o bonitinho pro irmão! – Ueno ria satisfeito — Consegui dar uma surra no informante Orihara Izaya e de quebra consigo o apoio do monstro de Ikebukuro!
“Ótimo, está bem orgulhoso da sua ideia, né?!”, pensou Izaya. Ele compreendia o quão importante era Ueno acreditar que chegara sozinho àquela conclusão.
– Boa sorte lidando com Shizuo. Acha que consegue? – perguntou jogando sua última carta, ansioso.
– Hum... – Ueno parecia apreensivo, mas logo seu olhar se firmou em Izaya – Ah! Vou te usar como escudo e te oferecer junto no combo, informante. Quem sabe ele não te mata? Assim também me livro de qualquer retratação que você planeje nessa cabecinha doente. – o tom de Ueno era o de quem repreende uma criança – Então, o primeiro passo é você ligar para ele.
“Certo, Ueno, me use como intermédio”, Izaya sentia-se orgulhoso sobre como Ueno havia mordido seguidamente cada uma de suas iscas. Ele sabia que tão importante quanto Ueno acreditar que chegara sozinho à ideia de usar Kasuka contra Shizuo era ele acreditar que precisava de Izaya para controlar Shizuo. Izaya sabia que este era um pensamento natural, surgido de sua reputação de lutar contra o guarda-costas por anos, mas, ainda assim, sentia-se aliviado por Ueno ter feito a conexão.
Agora ele tinha tudo exatamente onde deveria estar: Ueno afastara-se de Kasuka e aproximava-se dele. Entretanto, entendia que o que viria a seguir seria o mais complicado: lidar com Shizuo sem que o loiro desconfiasse e jogasse seu plano por água abaixo. “Por favor, só desta vez, Shizu-chan, não seja tão imprevisível”.
– E porque você acha que eu te ajudaria, porco? – perguntou com a voz carregada de nojo e malícia, dando continuidade a seu plano.
– Porque... – Ueno se aproximou mais dele e segurou com força seus cabelos negros, forçando-o para baixo e fazendo-o ajoelhar involuntariamente -... você não está em posição de questionar nada. Mas eu já disse isso, certo? Não me faça repetir o tempo todo, certo? – Ueno forçou sua cabeça ainda mais para baixo e a acertou brutamente contra o chão, posteriormente, puxou de volta e manteve-o ajoelhado, ainda preso pelos cabelos. – Uh, informante, acho que seu nariz já era... melhor só falar o que eu mandar agora, né?! Então, primeiro: celular, me dê, agora!
Izaya não se moveu mesmo diante da ordem, ouviu então um riso e sentiu um chute nas costelas e então as mãos de Ueno em si, apalpando seus bolsos em busca do celular.
– Agora, ligue para ele. – Ueno o entregou o celular com um olhar maníaco no rosto. Izaya sabia que não seria mais necessário resistir, Ueno, notavelmente via as ações de Izaya como forçadas, manipuladas por ele, assim, já acreditava que Izaya não queria ajuda-lo ou fazer a ligação.
Izaya pegou o celular e discou os números que sabia de cor.
– Viva-voz, hein, espertinho! – Ueno disse com um riso.
O informante selecionou o início da chamada e então pressionou o botão de viva-voz. Um toque, dois... ele entendia que teria que ser cuidadoso em dobro: lidar com Shizuo sequer chegaria perto de ser tão descomplicado quanto lidar com Ueno, afinal, Shizuo era anormalmente atento e nunca se deixava enganar. Mas, contrariando o risco que sabia correr, não tinha bolado nenhum plano para lidar com Shizuo. Não que não desejasse um, Izaya simplesmente não achava que um plano era o suficiente para garantir sucesso com o guarda-costas. Ele só podia desejar que Shizuo seguisse corretamente o caminho que ele traçasse. Sua maior esperança era a de que a raiva tomasse de tal forma Shizuo que ele ficasse incapaz de pensar em qualquer contradição ou estranheza por trás de suas palavras.
– Shizu- — começou a dizer, mas teve a voz cortada por um puxão mínimo em seu cabelo: Ueno estava lembrando-o quem estava no controle. A interrupção foi mínima. Ao outro, provavelmente, sua voz pareceria com um gaguejar. Era difícil, entretanto, falar com o pescoço retesado daquela maneira, dessa forma, foi com sacrifício que continuou a ligação — Shizuo...
– Izaya, maldito! Agora não é uma boa hora. Estou a espera de outra ligação. – rosnou o homem do outro lado da linha. Izaya sentiu um peso ser retirado de seu peito ao ouvir a voz de Shizuo, mas logo o peso voltou dobrado. “Ah, Shizu-chan... a ligação que você espera é a minha...”.
– E-eu estou com Kasuka. – o gaguejar fora genuíno daquela vez. Um sentimento novo tomava seu peito... apreensão? medo?, Izaya não sabia determinar o que o fizera gaguejar, mas sentia todos os seus sentidos presos, expectantes pela resposta de Shizuo a sua declaração.
– Você! Você é o mostro, Izaya! Maldito!
E, então, sentiu-se quebrado. Se não fosse pelos dedos de Ueno sustentando-o pelos cabelos, Izaya provavelmente teria novamente lançado sua própria cabeça ao chão. “Eu fiz merda, não fiz?!”, era só o que pensava, sem conseguir encontrar a resposta à própria pergunta e sem conseguir explicar por qual razão sentia-se destruído pela dor na voz de Shizuo, pela dor nas palavras de Shizuo, pela dor de ter direcionado a si o xingamento que sempre dirigia ao outro. Izaya era, agora, todo desespero.
– Ele está bem, Izaya? – uma voz diferente soou do outro lado da linha.
– Shin-Shinra? – perguntou surpreso e sentiu mais uma vez seus cabelos puxados, desta vez, com força. Ueno provavelmente não gostara de ter mais uma pessoa envolvida na transação, Izaya, pelo contrário, sentia-se aliviado por saber que Shizuo não estava sozinho, provavelmente Shinra perceberia que algo estava errado e aconselharia o loiro, assim, ao menos um pouco de sua sensação de desespero se desvaneceu e ele conseguiu se controlar para continuar a ligação — Você está com Shizuo?
– Só responde, Izaya. – rebateu a voz segura de Shinra.
– Kasuka está bem. – respondeu simplesmente. Sabia que dar mais informações ou uma informação diferente enfureceria Ueno.
– E você quer o quê, maldito? – a voz de Shizuo voltara a soar do outro lado da linha. Para Izaya, a voz do loiro soava calma como nunca ouvira antes. A frieza da voz do outro lançou uma corrente elétrica pela espinha de Izaya.
“Ele me ouvirá... ao menos ele me ouvirá”, agradeceu mentalmente.
– Shizuo... Eu quero que você me deva um favor. S-só isso. Eu devolverei Kasuka e você me deve um favor. – com dificuldade, já que estava com o pescoço retesado pelo puxão de Ueno, Izaya lançou seu ponto. Era mentira. Ele sabia que era mentira e sabia que, provavelmente, no momento que ouvisse, Shizuo também compreenderia que era uma mentira. Diferente do que Ueno pudesse pensar, aquela nunca fora uma relação possível entre eles. Troca de favores não estava, definitivamente, na lista de Shizuo ou na de Izaya. “Por favor, Shizuo, perceba que você deve fazer como eu falo.”
– Certo. – Izaya não pode conter um sorriso diante da resposta que ouviu do outro lado da linha – E você está onde?
Izaya explicou a localização do galpão e determinou o horário para que a entrega fosse feita. Ele definitivamente não acreditava que Shizuo respeitaria qualquer horário, mas Ueno insistira efusivamente para que o encontro acontecesse dali à duas hora. Izaya não seria aquele que informaria ao torturador que Shizuo provavelmente já se pusera a caminho dali; contava que Ueno fosse pego desprevenido pelo loiro. Considerando que Shizuo estava na casa de Shinra, provavelmente o loiro estaria ali dentro de 30 ou 40 minutos no máximo, isso sem contar a possibilidade — ainda que pequena — de que Celty viesse junto e, consequentemente, a viagem levasse ainda menos tempo na ágil moto da dullahan (mesmo que achasse que Celty sequer teria tempo de sugerir a carona antes que Shizuo saísse correndo do apartamento).
– Então... – a voz de Ueno interrompeu seus pensamentos — ... curioso do porquê de eu ter pedido duas horas?
– Vai se arrumar para receber o Shizu-chan? – perguntou irônico.
– Você é bem engraçadinho mesmo. Na verdade, eu vou te arrumar pra receber o Heiwajima. – a malícia na voz de Ueno fez Izaya apreensivo – Eu acho que essa vai ser minha última chance de fazer isso... então... eu vou aproveitar bastante meu tempo com você, informante-san!
Izaya soltou o celular que ainda segurava e instintivamente levou a mão ao bolso do casaco, apenas para lembrar que seu canivete já não estava lá há um bom tempo.
– Eu sei que você já não tem nada, informante-san. E, também, no seu estado, não tem muito o que possa fazer, mesmo armado, não é? – Ueno parecia divertido com o receio de Izaya – Mas, acho que nem preciso dizer para que você nem tente reagir, certo?! Eu não quero machucar o garoto. Mas também não há nada que me entregue caso eu o faça, certo?! Heiwajima não sabe que estou aqui... Se ele chegar aqui e só vir você e o irmãozinho explodido, ele vai achar que foi você e vai te matar. – o homem de rabo-de-cavalo abaixou-se até ficar na altura do ouvido de Izaya, ainda ajoelhado, e ameaçou – Entenda, informante-san, eu só estou te mantendo vivo porque eu quero favores do mostro, mas, para mim, tão gratificante quanto favores do mostro é te matar, então, um passo em falso e eu te mato, ok?! De qualquer forma, depois que te usar como escudo contra ele, vou te entregar para ele, e, então, provavelmente você vai morrer... mas, bom, não tem como saber, certo?! Melhor não arriscar... Uma morte pelas minhas mãos, te garanto, seria bem mais dolorosa do que uma pelas mãos do Heiwajima. Afinal, ele é tão... sem técnica... eu brincaria bastante com você antes... Entende?
Izaya entendia.
Entendia, principalmente, que se ele tentasse fugir, Ueno voltaria-se contra Kasuka. Entendia também que, mesmo sem esta implicação, ele não podia fugir: sabia que ao menos seu nariz e seu tornozelo esquerdo estavam quebrados, mas, mesmo sem levar isso em conta, entendia que não chegaria longe com os machucados que sofrera. Izaya compreendia que teria que ficar e aguentar os quarenta minutos que Shizuo levaria para chegar. Por hora, preferia não pensar quais seriam as consequências da chegada de Shizuo: se o guarda-costas acabaria ele mesmo por assumir o papel de seu algoz, se o largaria ali, se o entregaria de volta a Ueno... Ele só torcia para que qualquer que fosse o resultado fosse rápido e que ele não precisasse falar nada ou olhar para Shizuo. Ainda não compreendia a situação que tinha-o levado naquela espiral precipício abaixo, mas sabia que não queria ter que olhar Shizuo e nem ouvir nada do que ele quisesse dizer. Pela primeira vez na vida, não tinha o menor interesse em observar a reação de Shizuo. Não lhe interessava ver nada. O pensamento de que fizera algo terrivelmente errado confrontava com a certeza de que nunca fazia nada errado, não ele, não o informante Orihara Izaya. Orihara Izaya não cometia erros. Ele não podia se arrepender de ter armado pra cima de Kasuka, ou de ter sido pego, ou de estar machucado agora, ou de ter chantageado Shizuo. Arrependimento não fazia parte de sua gama de sentimentos possíveis.
– Preocupado, informante-san? – Ueno soltara, finalmente, os dedos que prendia os cabelos negros de Izaya e agora estava parado diante dele, analisando suas expressões – Com medo de mim?
“Ah, você é mesmo desses que sente prazer nesse tipo de coisa, né?! Você quer que eu implore... bom, isso não vai acontecer, porco. Até porque... não é com você que me preocupo agora.”, pensou Izaya.
– Não vai dizer, hein?! Tsc, tsc, tsc – Ueno estalava a língua, repreensivo – Sabe, informante, eu odeio quando não respondem minhas perguntas. Deixa-me louco, sabe? Eu também sou um tipo de informante, sabe? Você recebe e repassa informações, né? Pois bem, eu retiro as informações...
De pé como estava na frente de Izaya, Ueno levantou a perna e acertou uma joelhada no rosto do informante, atingindo seu já quebrado nariz, Izaya gemeu de dor e caiu de costas no chão. Mas mal teve tempo de se recuperar antes de sentir um chute em seu estômago. Mesmo arfante e sem ar, Izaya não moveu um músculo, nem para implorar, sem para defender-se.
Izaya entendia o motivo pelo qual não implorava: orgulho. Entendia o motivo pelo qual não atacava Ueno ou fugia: Kasuka. Não entendia, entretanto, o que fazia com que ele não tentasse conter o impacto dos golpes, protegendo o corpo de alguma forma, ou porque não reforçava sua guarda na defensiva. O fato era: enquanto Ueno atacava, Izaya permanecia inerte no chão recebendo os golpes.
Izaya já não mais sabia quanto já apanhara ou quais eram os danos sofridos por seu corpo, não sabia sequer quanto tempo passara desde que Ueno começara a bater. Periodicamente, ouvia Ueno falando algo ou dirigindo a ele alguma pergunta, Izaya, porém, não se preocupava com o que quer que o outro dissesse e não prestava atenção às palavras a ele dirigidas. Sabia que, independente do que dissesse Ueno, as coisas que atormentavam sua mente continuariam ali, torturando-o.
Seu plano fora um sucesso do início ao fim: ele conseguira fazer Ueno agir exatamente da forma como quisera, mas... Ele não se sentia satisfeito. Na verdade, “satisfação” não chegava nem perto de ser o que ele sentia. Só sabia que, agora, sem seu plano para pensar e arquitetar, via voltar a si todas as incertezas de antes.
“Você tá vindo pra cá agora, Shizu-chan?”, refletia, tentando marcar em si a sensação de imaginar Shizuo indo ao seu encontro. “Eu consegui, você vai ver... o Kasuka ficou bem... Você vai me odiar...Mas tudo bem, não é?!”, desconexos pensamentos cruzavam rapidamente sua mente, logo sendo substituídos por outros.
Sentia o corpo leve. Talvez a mente agitada deixasse o corpo leve, como se fosse demais para alguém lidar e uma parte precisasse ser desligada. Ou talvez Ueno tivesse usado tanta força que já não tinha mais nada para quebrar e, assim, como os piores danos já tinham sido feitos, todo o resto não pareceria grande coisa.
“Haha... você chegou, né, Shizu-chan?!”.
Izaya não compreendia exatamente como sabia, mas tinha certeza que Shizuo já estava perto. Não se surpreendeu, portanto, ao ouvir um barulho demasiadamente alto onde sabia estar a porta do galpão.
“Você gosta de quebrar portas, né?! Vamos precisar de várias portas, no futuro, então...”, a cabeça de Izaya girava e seus pensamentos já não faziam mais qualquer sentido.
– Ops, esqueci de avisar, Ueno... Shizu-chan é péssimo em esperar, sempre aparece assim do nada... – disse sem se importar se a altura da sua voz fora o suficiente para fazer-se entendido por Ueno.
“Shizu-chan está brilhante assim...”, pensou ao focar os olhos na figura parada no lugar onde antes havia a porta do galpão.
“Não me odeie, Shizu-chan...”,
Foi o último pensamentos que correu pela sua mente antes de apagar.
****
Estava escuro e ele sentia dor.
Queria dormir para que a dor parasse, mas algo o incomodava, empurrando repetidamente sua já dolorida costela.
Queria dizer para o que quer que estivesse cutucando-o para que parasse com aquilo. Era dolorido e irritante. Mas sua voz não saia.
Pensou que se ignorasse, aquilo pararia. Mas não parava. Não só não parava, mas estava ficando cada vez mais forte.
“Pronto, agora estou desperto”, pensou em dizer, mas não encontrou voz.
Desperto, Izaya tentou abrir os olhos, que estavam muito pesados. Abriu-os lentamente, mas logo voltou a fechá-los: a luz feria seus olhos.
“Luz...”, pensou.
E, então, imagens invadiram sua mente. Kasuka, Ueno, galpão, bomba, Shizuo brilhando com a luz do sol.
Ele sabia, agora, quem estava ali empurrando-o. Sabia tão bem que não acreditava como não tinha reparado antes. Não precisava de nenhuma confirmação, mas ela veio, numa voz gelada e distante.
– Ah... está vivo.
A voz de Shizuo soava estranha a ele. Talvez Ueno tivesse perfurado algum de seus tímpanos. Ou os dois. A voz de Shizuo mal soava como a voz de Shizuo.
– Já chamei Shinra. Estou indo.
A estranha voz disse e Izaya se sentiu subitamente invadido por milhares de questões. “Chamar Shinra? Por quê? Não vai me matar? Por que vai embora? Vai me deixar aqui? Não vai me bater?”. Mas nenhuma pergunta foi proferida em voz alta, ao invés disso, juntou forças e disse a única palavra que achava que conseguiria pronunciar.
– Shizu-chan...
Nenhuma resposta.
Abriu um pouco os olhos e viu que Shizuo o encarava. Alívio invadiu seu peito ao ver que ele estava bem e que Kasuka estava logo atrás dele, bem também. Não podia ver a expressão que o loiro fazia, mas já sentia alívio ao ver que tudo acabara, aparentemente, da melhor forma. Voltou a fechar os olhos, a luz ainda o incomodava.
A voz voltou a falar:
– Não vale a pena. – soava diferente. “Raiva? Não... É mais que isso”, pensou, mas antes que pudesse concluir o que sentia na voz, ela voltou a ecoar pelo galpão – Você está tão fodido que nem vale a pena. Eu nem sinto vontade de te matar, na verdade. Olha pra você... dá pena... – “Ah... é isso...”, pensou Izaya, “Decepção, talvez? Não... acho que é mais que isso...” — Acho que não preciso nem dizer, mas se vier atrás de mim de novo, eu te mato, Orihara Izaya.
“Ah! Uma ameaça...”, constatou, “Mas... eu sei... eu não vou...”.
E, então, tudo ficou escuro de novo.
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