Depois de um sonho
2 Consequências do pesadelo
Notas iniciais
“Ok, já entendi! É um sonho, só um sonho. Pare de pensar nisso!”, pensava Shizuo enquanto caminhava ao lado de Tom pelas ruas de Ikebukuro em mais um dia de trabalho.
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Tom estranhava a maneira como Shizuo o acompanhava através das sempre lotadas ruas do distrito naquela terça-feira quente, ora nervoso demais, ora distraído demais. Ele só precisara de um olhar, o primeiro dirigido ao guarda-costas algumas horas antes, para notar o quão estranhamente atípico o homem ao seu lado estava comportando-se. Os preocupados olhares que se seguiram ao primeiro apenas confirmaram suas suspeitas.
Seria ingênuo achar, entretanto, que ao encarar as sobrancelhas franzidas e a carranca de alguém prestes a destruir algo, Tom percebera imediatamente o que havia de errado com Shizuo. Afinal, trabalhava com o homem mais forte de Ikebukuro a tempo demais para estranhar nele o semblante assassino que trazia quase como acessório. Mas agora, com o sol quase a pôr-se, compreendia que o problema não era, propriamente, a existência da careta, mas a ausência dos acontecimentos que sempre se seguiam à ela. Era um fato: Shizuo, apesar de trazer no rosto a expressão de alguém prestes a trazer o distrito abaixo, mantinha-se especialmente calmo, mesmo enquanto lançava-se atrás dos devedores. O cobrador não negava que Shizuo parecia-lhe nervoso — muito e o tempo todo — mas, ainda assim, sua impressão era que o problema que merecia as sobrancelhas franzidas do homem mais forte de Ikebukuro não relacionava-se nem minimamente com qualquer situação que eles tivessem enfrentado naquele dia.
Tom teria-se mantido quieto. Não era um problema a ele, mesmo preocupado, manter-se a parte dos problemas pessoais de Shizuo. Sabia que se o guarda-costas quisesse dizer algo, faria-o por vontade própria. Mas não pode evitar considerar uma exceção após, pela absurda segunda vez no dia, ter sido obrigado a pedir a Shizuo para que agisse mais violentamente com o devedor. "Como assim lembrar Shizuo de agir violentamente?", pensou contrariado. Normalmente as repreensões de Tom tomavam justamente o sentido contrário.
Suspirou longamente. Em todo o tempo que trabalhavam juntos, esta era a primeira vez na qual Tom — cujas expressões resumiam-se basicamente a lamentos cansados perante a falta de controle do ex-barman — suspirava diante do não descontrole de Shizuo.
Um novo suspiro escapou dos lábios retesados do cobrador, ele sabia que não seria fácil manter a decisão que tomara, mas, ainda assim, teria que interpelar Shizuo.
Decidido, Tom separou os lábios decidido, entretanto, antes que dali pudesse escapar qualquer doloroso comentário do qual o cobrador arrependeria-se posteriormente, um terceiro e audível suspiro soou. Os receosos olhos castanhos escuros abriram-se indignados, não fora de seus cansados lábios que este último suspiro escapara.
– Shizuo, conte o que houve.
– O quê? – perguntou o guarda-costas, visivelmente confuso com o pedido.
– Você está assim o dia todo, suspirando e sem tentar, voluntariamente, machucar alguém.
– Eu nunca tento, voluntariamente, machucar alguém.
Tom pensou em retrucar a afirmação tão convicta do outro, mas, tão logo abriu os lábios, voltou a fechá-los, resignado. Por mais firme que fosse sua decisão de interrogar Shizuo, sabia que não conseguiria arrancar mais informações do que estivesse disposto a dar o homem mais forte de Ikebukuro.
Imaginou se algo acontecera na noite anterior, visto que durante todo o último dia o guarda-costas agira normalmente. Encarando as costas tensas do homem que caminhava a sua frente, forçou-se a refletir sobre os possíveis motivos. Não era difícil encontrar a respostas. Tom sabia que eram apenas duas as razões que possuíam poder o suficiente para levar Shizuo ao limite: Kasuka e Izaya.
"Opção número um: Kasuka", pensou o cobrador. Falar de Kasuka — pelo menos para Tom — era um território seguro.
– Tudo bem com Kasuka? – perguntou com a máscara mais casual que foi capaz de vestir.
– Sim. Começou recentemente a trabalhar em um novo filme. – respondeu-o, distraidamente, Shizuo.
“Algo importante o suficiente para merecer suspiros e fazê-lo falar despreocupadamente sobre Kasuka”, pensou seriamente, “Ok, segunda opção: Izaya”.
Franziu as sobrancelhas, desviando o olhar das costas de Shizuo e encarando desatentamente o restaurante diante do qual passavam em frente, fitando desleixadamente cada uma das pessoas ali parada, como se procurasse um cúmplice disposto a protegê-lo no caminho que tomariam suas palavras.
– Faz tempo que não encontramos o Izay... – recrutando toda sua coragem e ousadia, começou a dizer, mas foi brutalmente interrompido por um forte puxão em seu braço direito. A próxima coisa que percebeu era que estava dentro de uma loja, abaixado, com Shizuo ao seu lado. Olhou surpreso para o homem ao seu lado e percebeu-o pálido — Oe, Shizuo, o que houv...? – calou-se ao ver, na calçada, um homem caminhando animadamente com pequenos saltos. Desviou novamente seus olhos para Shizuo e encontrou-o apreensivo.
“Shizuo apreensivo? Shizuo se escondendo em uma loja enquanto Izaya passa na rua? Shizuo segurando a respiração? Mas que merda?!? Ele deveria estar descontrolado, berrando, correndo atrás de Izaya e segurando placas de trânsito!”, os olhos castanhos escuros excessivamente abertos encaravam incrédulos o rosto do homem a sua frente, incapaz de acreditar no que via ali, “Ok, opção dois, Izaya: check!”.
Enquanto permanecia ao lado de Shizuo dentro da loja, assistia Izaya caminhar tranquilamente pela rua, exibindo seu característico sorriso e olhando atentamente ao redor, como se procurasse por algo. O homem ao seu lado permanecia em silêncio, fitando o exterior através da vitrine da loja com o que Tom ousou julgar como um incomum misto de tensão e fixação. Foi, portanto, com igual fixo interesse que Tom observou o informante estancar em uma esquina, se balançar nos pés, levantar ambos os braços em sinal de dúvida, e então, depois de tempo olhando em todas as quatro direções, voltar a andar, com rápidos passos.
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Shizuo
Shizuo, encarando as costas de Izaya afastarem-se, soltou o ar que prendia nos pulmões: “Ele está vivo e bem”. Não pode evitar que uma sensação estranha invadisse seu peito.
– Aliviado, Shizuo? – ouviu a voz de Tom soar ao seu lado direito.
"Aliviado, hum?!", pensou.
– Aliviado? – ao ouvir o questionamento deixar seus lábios, algo dentro dele despertou. Quando deu por si, estava a fitar um imenso par de olhos castanhos confusos – Aliviado quanto ao que, Tom? — perguntou, lentamente tornando-se consciente de sua atual situação.
– Shizuo, estou confuso. Eu te pergunto: o que foi aquele suspiro aliviado? Por que não foi atrás de Izaya? — a voz do cobrador voltou a soar, desta vez com um tom de exasperação.
– Você sempre me repreende por ir atrás de Izaya. — respondeu simplesmente.
– Esse não é o ponto! – assistiu Tom voltar a abrir os lábios algumas vezes, como se pronto a dizer algo, mas, por fim, com um suspiro claramente impaciente, o cobrador calou-se.
O silêncio de seu empregador acalmou-o, afinal, como explicar a Tom o motivo pelo qual havia arrastado-o para dentro de uma loja ao avistar Izaya, ou mesmo o motivo por trás de seu suspiro? Como explicar para Tom se ele mesmo não entendia?
Se passara toda a manhã martirizando-se por não deixar de pensar no sonho que tivera na noite anterior, durante a tarde Shizuo percebera que não havia escapatória: havia, sim, afetado-se com o sonho. E, por mais que tentasse negar, a sua reação ao ver Izaya provava indiscutivelmente seu abalo.
Resignado, Shizuo pôs-se a pensar sobre o motivo de sua inquietação quanto ao sonho e só pode encontrar uma saída: sua agitação não era sobre ter matado Izaya, mas sobre ter matado alguém, ponto. 'Sonhar que mata alguém com os próprios punhos' não está, definitivamente, na lista dos sonhos mais agradáveis para uma madrugada de segunda-feira.
"E, de qualquer forma...", pensava o guarda-costas, deixando a loja com Tom ao seu lado, “Foi um sonho.”.
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Aquele cheiro insuportável invadia suas narinas e mexia com sua cabeça: sangue! Sangue!
Aqueles confusos olhos vermelhos fitavam-no intensamente.
A pele pálida.
O vermelho que se esvaia dos olhos enquanto se espalhava para em todas as outras direções, possuindo todos os outros lugares.
A pele suja de sangue.
O terror. O desespero. O cheiro insuportável. A sensação pegajosa em suas mãos. Os nós dos dedos doendo.
Shizuo abriu os olhos, plenamente acordado.
Forçou-se a relaxar a mandíbula e os dedos das mãos, que traziam profundas marcas de unhas.
Estava tenso.
“Essa merda de sonho de novo!”
Era a quarta vez que acordava de um sonho no qual matava Izaya. Nas duas primeiras vezes, acordara com lágrimas nos olhos, nas duas últimas, acordara com o punho fechado e as unhas cravadas tão fortemente que feriam sua pele até encontrarem sangue.
Ele sabia que tinha que agir antes de enlouquecesse pelos sonhos. "São só sonhos!", gritava sua mente a ele, exausta pelo pouco descanso das últimas noites, "Mas tão reais...", respondia seu corpo, impregnado pela sensação de arrancar o sangue de seu inimigo.
Sentia-se extremamente desorientado: não era isso o que desejava desde os tempos do colégio? Matar Izaya não era seu objetivo há anos? Por que se sentia tão fodido, então, quando realizava isso, ainda que em sonhos?
Era só um sonho e ele não podia controlar um sonho, certo? Nada o garantia, então, que era isso o que realmente sentiria se o sangue de Izaya manchasse suas mãos.
Franziu o cenho, confuso como nunca esteve na vida.
Nunca refletira seriamente sobre o que faria se matasse Izaya. Tão acostumado como estava com o informante a escapar de suas investidas e desviar de qualquer objeto com o qual tentasse acertá-lo que nunca pensou, sinceramente, na possibilidade de que ele morresse durante uma perseguição. Apesar de gritar que iria matá-lo, nunca considerara sobre a morte do outro, afinal, não era obrigado a considerar a hipótese, não era obrigado a pensar sobre nada além de lançar-se com toda a sua força contra Izaya.
Izaya era um louco. Desde o início, enquanto todos o evitavam – exceto Shinra, mas ele mal valia como exceção, visto que também era um louco – Izaya o procurou e o provocou. Que tipo de adolescente idiota procuraria briga com um homem que era chamado de monstro? Izaya não era um ser humano normal. Com certeza, Izaya o provocava por saber que aguentava sua fúria.
Foi com esta conclusão em mente que Shizuo se absteve a pensar sobre a seriedade nas ameaças constantes de morte. Não que não tentasse mata-lo. Não que não se lançasse com tudo o que tinha para cima dele. A forma como o atacava seria mais do que o suficiente para matar qualquer outro humano. Mas... se tratando de Izaya... não é como se fosse matá-lo, não é?
Quanto mais pensava sobre isso, mais confuso fazia-se. Queria ou não matá-lo?
Sorria pensando nas perseguições, e tinha que esforçar-se a segurar teimosas risadas quando pensava nas vezes que conseguia acertá-lo.
"Então, por que nos sonhos é diferente?".
– São só sonhos, certo?!
“Nada me garante que eu sentiria isso se o pegasse, certo?!”.
Uma distorcida careta invadiu sua expressão. Todos esses “não é?” e “certo?” estavam enlouquecendo-o.
“O que realmente sentiria?”
Um choque elétrico percorreu todo o corpo do guarda-costas, seguido de um sorriso decidido a dançar em seus lábios.
A resposta era simples.
Só havia uma forma de saber como realmente se sentiria.
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Em Shinjuku, um informante olhava intrigado para uma peça de xadrez.
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