Depois de um sonho

3 "Só em seus sonhos, Shizu-chan!"


Notas iniciais
Olá, pessoal! Primeiro, gostaria de agradecer imensamente quem comentou e está acompanhando a fic! Fico muito feliz que estejam gostando! Gostei muito de escrever este cap, então espero que vocês tenham o mesmo prazer que eu ao lê-lo. Obrigada! Beijos



Izaya

– Já há alguns dias tenho o visto bastante por Ikebukuro. – Izaya ouviu um rapaz exclamar.

– Psiu! Ele pode te ouvir. – advertiu a garota que acompanhava o rapaz – E ele sempre esteve bastante em Ikebukuro. – acrescentou mais baixo.

– Sim, mas parece que agora passa o dia todo aqui.

– Pensando nisso, faz tempo que não vejo Heiwajima.

– Bom, então acho que é isso o que acontece quando Heiwajima não o expulsa de Ikebukuro.

Izaya podia claramente ouvi-los, mas se há algo de importante que os anos de intensa observação da raça humana lhe provou foi que os humanos acreditavam no que queriam. Se fingisse que não os ouvia e não esboçasse nenhuma reação, eles continuariam comentando como se fossem invisíveis. Sorriu. Humanos eram realmente engraçados. O sorriso, entretanto, não permaneceu muito tempo em seus lábios. Engraçados... mas, ainda assim, curiosamente perspicazes, e, às vezes, terrivelmente assertivos.

Era um fato: já há algum tempo não topava com Shizuo. Na verdade, fazia tempo que sequer tinha notícias dele. E, para um informante — e, em especial, o informante em questão -, isso era algo verdadeiramente inusitado.

Inconscientemente, a presença de Orihara Izaya em Ikebukuro tornava-se cada vez mais constante. Tanto, que por onde quer que passasse, ouvia rumores sobre isso.

"Normalmente é só colocar meus pés aqui e ele já aparece como um animal atrás de mim!", pensava, intrigado, enquanto caminhava calmamente pela praça em frente a estação Ikebukuro.

Aquela situação deixava-o divertidamente intrigado.

“Shizu-chan é o melhor!”, empolgava-se, dirigindo-se a locais aos quais sabia que a presença de Shizuo era comum, “Totalmente imprevisível!”, concluiu, com um sorriso nos lábios, mas que morreu quando um novo pensamento invadiu seus pensamentos:

“O que diabos Shizu-chan está aprontando?”

Mesmo que evitasse pensar sobre a ausência do outro, ou procurasse um motivo para divertir-se com ela, Izaya tinha que admitir que sentia-se nervoso.

“É algum plano estranho de Shizu-chan, com certeza. Me fazer baixar a guarda e então me pegar!”, pensava.

– Só em seus sonhos, Shizu-chan! – exclamou exasperado.

Izaya olhou ao seu redor e um sorriso sutil voltou a brotar em seus lábios.

"Então foi aqui, hein?!", perguntou-se, irônico, alargando seu sorriso.

Diante dos olhos do informante brilhava um letreio com os dizeres "Papelaria".

Aquela loja trazia recordações a Izaya. Era a loja sobre a qual lera no chat, no dia anterior, enquanto realizava mais uma busca por informações sobre o sumiço de Shizuo. Lembrava-se perfeitamente das palavras que brilhavam na tela de seu computador:

“Uma amiga minha viu Heiwajima se esconder em uma loja enquanto Orihara, o informante, passava na rua.”

A mensagem no chat despertou nele a mais pura e genuína curiosidade, tanto que, por diversas vezes, Izaya acionou a barra de rolagem e voltou a ela, ignorando as milhões de outras que pululavam em resposta.

“Uma amiga minha viu Heiwajima se esconder em uma loja enquanto Orihara, o informante, passava na rua.”

Izaya encarou novamente a fachada loja antes de entrar. Assistiu rostos desconhecidos virarem-se para ele, alguns indiferentes, outros temerosos, ignorou, porém, todos eles. Com um sorriso nos lábios, posicionou-se diante da vitrina e virou-se, olhando o lado de fora através do vidro. Aquele era o exato local no qual supunha que Shizuo estivera dias atrás, observando-o.

“O que diabos está aprontando, Shizu-chan?”



****

Shizuo

– “Shizuo, tenho ouvido uns boatos estranhos” – Shizuo leu no celular de Celty.

Havia encontrado a amiga enquanto voltava para casa após o trabalho.

– Que tipo de boatos? – perguntou cansado enquanto acendia seu cigarro. Sabia quais eram. Ele também os havia ouvido. Mas não sentia-se nem um pouco inclinado a discutir sobre isso. Queria, portanto, postergar ao máximo aquela conversa.

– “Que você tem evitado Izaya” – a dullahan mostrou-lhe novamente o celular.

Shizuo tossiu a fumaça do cigarro, engasgado. Não esperava uma abordagem tão direta e assertiva. Esperava por algo como “que faz tempo que não há uma briga entre você e Izaya”. Era esse o boato que havia ouvido, afinal.

Nos mais recentes dias, ouvira frequentemente pessoas comentando a ausência de máquinas de refrigerante voadoras. Todos pareciam curiosos sobre a trégua entre Shizuo e Izaya.

Isso Shizuo entendia. Afinal, nada mais comum que a curiosidade quanto a tranquilidade de Shizuo diante da presença cada vez mais constante de Izaya em Ikebukuro, considerando que até não poucos dias bastaria o informante por os pés em Ikebukuro para que o guarda-costas tentasse arduamente matá-lo.

Apertou a mandíbula fortemente.

Não entendia, entretanto, como a partir deste não insignificante mas pequeno fato tinham concluído que estava a evitar o informante. Não que fosse uma mentira. Shizuo estava, de fato, ignorando a todo custo a presença de Izaya no distrito. Mas como diabos de “não brigar” haviam chegado a “evitar” era a questão que o aturdia.

– Não estou evitando ninguém. Ando trabalhado demais e não tenho mais tempo para desperdiçar com o Izaya. — esperou pela resposta de Celty, que não veio. Resolveu, então, aprofundar seu discurso – Além do mais, já não somos mais aqueles rapazes do colégio, estamos mais velhos. Eu posso, sem problema algum, lidar com Izaya com maturidade, não preciso responder aos atos dele com violência.

Fitou Celty com orgulho, mas a frase que encontrou brilhando diante de seus presunçosos olhos cor de avelã destruiu todo o seu inflamado discurso sobre maturidade:

– “Viram você se escondendo em uma loja enquanto Izaya passava”.

Olhou inexpressivo as palavras na tela do celular, não ousando desviar novamente os olhos na direção da amiga.

O celular saiu momentaneamente do seu campo de visão, mas não demorou a retornar, com novas palavras.

– “Shizuo?!”

Celty parecia preocupada e Shizuo olhou-a, contrariado. O guarda-costas não fazia ideia da expressão que estampava agora seu rosto agora, caso soubesse, talvez fosse mais compreensivo com a ansiosidade que sentia emanar da dullahan. Shizuo estava, afinal, branco como uma criança pega fazendo uma grande, enorme, travessura.

– Ok, Celty. — ainda que não pudesse aceitar sem relutância, sabia que devia contar a Celty a razão de tudo. Primeiro porque sentia-se mal em mentir para uma das poucas criaturas no mundo que preocupava-se com ele. Segundo porque sabia que a dullahan não se contentaria com meias-verdades.

A entregadora esperava ansiosamente pela história, e não interrompeu Shizuo em nenhum momento, ouvindo interessada e esperando que ele acabasse de contá-la.

– “Então, o que vai fazer?”

– No começo fiquei confuso sobre o que poderia fazer. Mas depois cheguei à resposta mais óbvia possível. – anunciou com um sorriso nos lábios.

Celty esperou, mas a única resposta que recebeu foi o alargamento do já intenso sorriso de Shizuo.

– “Não.” – digitou – “Definitivamente não, Shizuo!”– voltou a digitar, ainda mais rápido – “Esta não é, definitivamente, a resposta”.

A dullahan mantinha o celular na frente de Shizuo e ele podia sentir o quão chocada ela estava. Mas, por mais respeito que tivesse pelos conselhos da amiga, Shizuo já não dava mais atenção às palavras na tela, plenamente submerso em sua decisão e no que ela acarretaria.

O sorriso determinado que surgia nos lábios de Shizuo ao reforçar sua decisão, porém, morreu antes mesmo de manifestar-se plenamente, substituído por um sorriso malicioso que se estendeu a seus olhos.

O guarda-costas agora encarava um ponto atrás de Celty.



****

Izaya

– Shizu-chan, há quanto tempo! Estava com saudades – Izaya abriu um sorriso imenso enquanto se aproximava de Celty e Shizuo, que estavam a poucos passos diante de si.

Não era coincidência que o informante os tivesse encontrado ali, ele recebera a informação sobre a conversa que ocorria entre "o motoqueiro negro" e o "mostro de Ikebukuro" na praça central de Ikebukuro. E, agora, encarando-os ali, o informante não podia evitar sorrir diante da verdade na informação.

Seu sorriso aumentou ainda mais ao ver Celty correr em sua direção, abandonando um raivoso Shizuo a encará-lo.

– “Izaya, não é uma boa hora. Melhor voltar para Shinjuku”.

"Não é uma boa hora, Celty?! As 'horas não boas' são minhas preferidas!", pensou divertido.

– Por que voltaria justo agora que encontrei o Shizu-chan, Celty? – juntou os lábios em um falso bico chateado. Sem esperar por resposta, entretanto, abriu novamente um sorriso perverso e exclamou – Ou estou atrapalhando algo? Não sabia que se interessava por garotas, Shizu-chan!

Izaya sentiu algo segurando sua camisa e seus pés perderem o apoio do chão.

– Shinra ficará chateado se você mexer justo com a garota dele. – sorriu para Shizuo, que o mantinha suspenso pela gola da camisa, o rosto perigosamente próximo ao seu.

Sentiu quando a dullahan os separou bruscamente com suas sombras e liberou uma gargalhada alta.

Tão logo se viu livre, retirou suas facas dos bolsos e as lançou na direção de Shizuo. Sabia que não precisaria de muito para irritar o guarda-costas, podia ver em seu rosto como parecia esperar por aquela briga tanto quanto o ele. Sorriu empolgado. Era divertido! Era divertido quando Shizuo cumpria suas expectativas. Era divertido ver Shizuo fora de controle, pronto para persegui-lo.

Girou os calcanhares e pôs-se a correr. Como esperado, isto foi o suficiente para que Shizuo gritasse seu nome e se lançasse atrás dele.

*

–IZAYA! – Shizuo gritava, a plenos pulmões, enquanto buscava acertar o informante com a placa de trânsito que arrancara há alguns metros de onde estavam agora.

“Uou! Perigoso, muito perigoso, Shizu-chan. Você está tentando com força hoje, hein?!”, pensava, desviando de mais uma investida.

Izaya havia percebido que aquela não era uma perseguição normal. Shizuo parecia focado. Nenhum desvio, nenhuma faca, nenhuma pessoa, nada tirava o guarda-costas de seu caminho. Nada o distraía ou retardava.

“Shizu-chan é tão divertido! Quero mais! Muito mais desse Shizu-chan!”.

– Kasuka está bem? Soube que ele vai gravar em Shinjuku na próxima semana.

“Isso! Shizu-chan”, pensou eufórico ao ver o guarda-costas soltar o carro que segurava e correr até ele de mãos vazias.

Izaya sabia que Shizuo só usava os próprios punhos quando estava plenamente fora de controle. Normalmente, preferia tentar acertá-lo com uma placa, ou um carro, ou uma máquina de refrigerante, ou qualquer coisa que fosse parar em suas mãos. O guarda-costas só recorria aos próprios punhos quando não queria correr o risco de errar o alvo.

“Está brigando a sério, Shizu-chan?!”, sorriu e empunhou seu canivete.

****

Shizuo

“Maldito Izaya! Desgraçado! Desgraçado! Desgraçado!”, pensava Shizuo enquanto tentava estancar o sangue dos cortes em seu braço com as mãos.

O informante parecia notar o quão sério estava e retribuía sua seriedade. Shizuo já nem sabia mais quantas vezes fora atingido pelas lâminas de Izaya.

A seriedade de Izaya tirava, ainda mais, Shizuo de seu estado normal. O guarda-costas nunca havia usado tanta força em uma briga, nunca havia lançado-se com tudo o que tinha para cima de alguém. Ser capaz de fazer isso naquele momento deixava-o em êxtase, quase grato a Izaya.

Tentou, novamente, acertar um soco, mas o golpe foi prontamente defendido pelo informante, que, logo após absorver o impacto do soco com um dos braços, girou o corpo e o acertou novamente a sempre afiada lâmina do canivete.

– I-za-ya-kun – Shizuo sorriu de canto – se não ficar paradinho, não poderei te matar corretamente.

– Me matar? – o informante ria a plenos pulmões – Nem em seus sonhos, Shizu-chan!

Involuntariamente, Shizuo hesitou, deixando morrer em seus lábios o sorriso que exibia. "Esse é o ponto, não é?!", foi o pensamento que insistente e teimosamente inundou dolorosamente sua mente. "Te matar em meus sonhos...".

Uma dor aguda a pulsar em sua bochecha esquerda o despertou e livrou-o do pensamento. A sua frente, Izaya o olhava confuso com o canivete sujo de sangue em punho.

Levou uma mão ao rosto recém-ferido por Izaya. Olhou para o sangue nela. Fechou os punhos e avançou para o informante que continuava a olhá-lo confuso.

– Que rosto confuso é este, maldito?! Percebeu que vai morrer e está se arrependendo por sua vida miserável?

Se não estivesse tão descontrolado de raiva, Shizuo perceberia que sua voz soava engasgada.

Se não estivesse tão possesso, notaria que além de sangue, algo mais molhara suas mãos quando limpara o rosto.

Agarrou Izaya pelo colarinho da camisa e o levantou. Seus olhos não o encaravam, não encaravam nada, sua vista estava totalmente nublada.

Desferiu um soco. E depois outro. E outro. Outro.

Izaya arfando, os nós dos dedos doendo: tudo marcava-o com uma desconfortável familiaridade.

Soltou o informante, que caiu bruscamente no chão. Abaixou-se até seus rostos ficarem na mesma linha.

Enquanto se abaixava, ouviu uma risada de Izaya. “Maldito masoquista!”.

– Shizu-chan está tão sério! Shizu-chan vai me matar... Que assustador!

Durante a briga, ao fugir dos lugares mais cheios, haviam chegado a um beco. Izaya estava sentado com as costas encostadas na parede e Shizuo agachado a frente do informante. Olharam-se, pela primeira vez desde o início da briga, nos olhos.

Shizuo via, intrigado, enquanto, gradativamente, o ar irônico sumia do rosto de Izaya, substituído pelos surpresos olhos que atormentavam suas noites.

– Iguais àqueles dos sonhos... – suspirou baixinho, enquanto encarava a incomum coloração rubra.

– Shizuo? Tudo bem?

“Shizuo?!”

“Nada de Shizu-chan?”

“Nada de ironia?”

Shizuo encarou novamente os olhos vermelhos diante de si olhando-o com intensidade. O guarda-costas balançou a cabeça fortemente e desferiu mais um soco. Izaya virou, forçadamente, o rosto. Os olhos deixaram de encarar Shizuo. Longe da supervisão daqueles olhos de fogo, sentia-se livre para mais um soco.

Ajoelhado, puxou o rosto de Izaya para perto do seu. Os olhos do informante estavam fechados, mas sentia as batidas em seu peito enquanto segurava-o pela camisa.

Shizuo se surpreendeu quando viu aquele líquido transparente molhar o rosto de Izaya.

Dèjà vu.

Izaya abriu os olhos, talvez surpreso ao sentir seu rosto sendo molhado.

Não era um dèjà vu. Dessa vez, os olhos de Izaya estavam abertos.

Soltou Izaya.

“Não posso! Eu só...não posso!”, pensava nervoso.

Levantou-se e pôs-se a correr, não podendo mais encarar os olhos vermelhos surpresos.

Sequer se preocupou com a promessa feita a si mesmo ou com qualquer ponto que quisesse provar. Não mataria Izaya. Agora sabia como se sentiria ao matar Izaya.

– Sentiria-me em ruínas – suspirou.

Quando chegou a seu apartamento, Shizuo se sentia esgotado. As imagens daquela noite inundando sua mente. Só sentia vontade de jogar-se em sua cama, dormir e esquecer tudo, mas sabia que devia, antes de tudo, tomar um banho e tirar o suor e sangue seco.

Depois do banho, deitou-se.

Naquela noite, o sonho que teve foi completamente diferente dos que tivera até então.

*

Izaya arfava. Seu cheiro espalhava-se em todas as direções, inebriando-o, deixando todos os seus sentidos à flor da pele. Não havia fuga.

Sentia cada parte do seu corpo ansiar por tocá-lo. Sentia sua língua formigar para sentir seu gosto.

Estendeu as mãos e tocou na pele pálida e exposta do pescoço do informante. Sentiu quando a pele arrepiou-se ao seu toque, e queimou quando um suspiro deixou os lábios de Izaya.

Aproximou o rosto e pousou os lábios na volta entre o ombro e o pescoço do informante, sentindo a anormal maciez da pele. Sentiu os dedos do informante se enrolarem em seus cabelos, puxando-os levemente para intensificar o contato.



*

Abriu os olhos devagar, ainda em êxtase pelo sonho, e viu de relance uma figura em seu quarto. Ainda abalado pelo sonho, voltou a fechar seus olhos e, antes que se desse conta, caiu em sono profundo. Dessa vez, sem sonhos para perturbá-lo.

Notas finais
Obrigada por lerem mais um capítulo! Beijos! *.*