Depois de um sonho

7 Confusão e Reflexão


Notas iniciais
Hey, pessoal! ^^ Como vão? Mais uma vez agradeço a todo mundo que leu, favoritou e comentou a fic! *.* Obrigada mesmo! Como prometido, aqui vai mais um capítulo! *.* Overdose de Shizaya no final de semana pra vocês! hahahha Espero que gostem! beijo e bom finalzinho de domingo pra vocês! Max

Abriu a porta de seu apartamento, entrou, trancou-a novamente e encostou-se a ela.

Finalmente estava em seu apartamento. Agora podia respirar novamente e tentar fazer com que seu corpo parasse de tremer e sua cabeça ficasse em ordem.

Antes de qualquer coisa, precisava de um banho. Seu rosto queimava, seu pescoço queimava, seus braços queimavam, e, principalmente, seus lábios queimavam. Tudo o que Shizuo havia tocado queimava.

Com um impulso, desencostou o corpo da porta e dirigiu-se ao banheiro de seu quarto, no segundo andar.

“Maldito Shizu-chan” – pensava enquanto se despia com as mãos trêmulas – “Maldito! Maldito! Maldito!”.

Sem suas roupas, encarou o que vinha tentando ignorar todo o caminho de volta até seu apartamento: estava excitado. Agora menos, já que havia demorado um pouco de Ikebukuro até Shinjuku. Mas, ainda assim, havia ali um resquício de excitação.

Não podia negar, porém, que naquele momento no qual se encostara às escadas, logo após ter saído do apartamento de Shizuo, estivera perto de explodir de excitação.

O que havia de errado com ele? Por que seu corpo havia reagido a Shizuo? Por que não havia se movido ao ser prensado na parede? Por que ficara preso nos braços do guarda-costas e só se movera quando ele o disse para fazer?

“Izaya, melhor sair daqui, agora!”

As palavras de Shizuo rodavam em sua cabeça. O que aquele tom, que parecia autoritário e suplicante ao mesmo tempo, significava?

– Por que ele me disse para afastar-me?!

Assustou-se com a pergunta que saiu dos próprios lábios e encheu novamente de raiva.

“Por que deixei aquele maldito me tocar? Era só uma brincadeira unilateral, certo?! A brincadeira era mexer com Shizu-chan... não era parte do plano ficar assim também!”, pensava encarando as mãos ainda trêmulas.

Posicionou o corpo debaixo da água quente do chuveiro e deixou que ela deslizasse por ele. Arrependeu-se na mesma hora por não ter escolhido a água fria.

O calor o lembrava de Shizuo. O calor o lembrava da respiração de Shizuo, os toques de Shizuo, o corpo de Shizuo contra o seu.

Antes que pudesse evitar, estava novamente excitado.

“Maldito! Maldito Shizu-chan desgraçado!”, pensava enquanto apoiava a cabeça nos azulejos gelados do banheiro.

“Maldito, Shizu-chan”, recitava mentalmente como um mantra enquanto levava uma das mãos ao membro que pulsava em expectativa.

–Maldito! Monstro! Shizu-chan desgraçado! – repetia para si em voz alta enquanto aumentava o ritmo dos movimentos da mão.

Com um último movimento, se desfez na própria mão e deixou-se cair no chão, sentindo a água quente que escorria pelo seu corpo.

– Você é o pior, Shizu-chan...



****



“Não sou eu” – pensava o guarda-costas sentado na poltrona de sua sala. – “Aquele não sou eu! Deve ter sido algo na bebida do Russia Sushi!”.

Shizuo tentava convencer a própria mente que aquele comportamento que seu corpo teve com a proximidade de Izaya era algo totalmente inesperado, anormal e, absolutamente indesejável.

Talvez seus argumentos parecessem melhores se as cenas do que acontecera entre ele e o informante não ficassem voltando o tempo todo aos seus pensamentos. Talvez a tarefa de convencer a si mesmo resultasse se seu corpo não começasse a reagir a seus pensamentos.

“O que diabos havia acontecido?! Por que Izaya havia feito aquilo?! Por que não havia repelido Izaya?! Por que havia gozado com aquilo?! Por que seu corpo se excitava ao lembrar daquele toque?!”, interrogava-se.

O que piorava toda a situação era que Shizuo sabia que não havia desculpa. Ele sabia que era mais forte que Izaya. Sabia que poderia ter mantido sem problema algum o informante longe dele.

Sentia-se humilhado por sua falta de reação. Sentia-se humilhado por ter ficado parado enquanto Izaya o chupava. Sentia-se humilhado por ter reagido aos toques dele. Mas, acima de qualquer coisa, sentia-se humilhado por ter gostado e por querer mais.

Por favor, me toque mais!

Seu corpo gritava por mais.

Mesmo agora, com todos os seus pensamentos contra Izaya, seu corpo pulsava por mais do informante. Mais da boca dele. Mais do calor dele. Mais do sabor dele.

Teve que reprimir um sorriso ao lembrar-se do gosto de Izaya. Daquele glorioso momento no qual o prensara contra a parede e provara do seu sabor ao lamber seu pescoço. Sentira-se maravilhoso ao ver como o informante havia arrepiado com seu toque.

Imediatamente, porém, lembrou-se do tapa que recebera ao tocar Izaya. Izaya não queria ser tocado.

“Maldito! Maldito! Maldito Izaya! O que você pretende?”.

– Toque-me mais o caramba! Aquela pulga vai me pagar por ter me tocado! – exclamou.



****



Mesmo sendo a manhã de um sábado, Shizuo não conseguiu evitar acordar cedo. Admirava-se por ter conseguido dormir tranquilamente. Mas, mal abrira os olhos, sua mente foi invadida novamente por Izaya.

Sabia que estava pensando muito nele.

Na verdade, sempre pensara uma quantidade de tempo considerável no informante. Afinal, ele estava sempre aparecendo para infernizá-lo e influenciando na sua vida de todas as maneiras: fazendo-o correr pela cidade, fazendo alguém ataca-lo, fazendo-o perder o emprego. Izaya o provocara desde o primeiro instante que o conheceu.

Cerrou os punhos fortemente.

“Aquele maldito está sempre a provocar-me! Foder com tudo é o maior prazer dele...” – pensou trincando os dentes – “Provavelmente é isso que ele está fazendo agora! Izaya está fodendo com minha cabeça! Aquele verme deve ter me infectado de alguma forma!”.

Mesmo que fosse uma manhã de sábado e nada o obrigasse a levantar-se e sair de casa, Shizuo sentia-se impelido ao movimento. Sabia que se ficasse em casa sua mente estaria a todo o momento a procurar uma explicação para tudo. Mas sabia, também, que de nada adiantaria procurar alguma razão.

– Izaya não tem explicação. – disse num suspiro cansado.

Mais do que frustrado por causa de uma busca inútil por explicação, sabia que se ficasse naquele apartamento, depois de todas as coisas que haviam acontecido lá, acabaria louco.

Tomou um copo de leite, fez sua higiene matinal e saiu do apartamento.

Acendeu um cigarro e iniciou uma lenta caminhada pelas ruas de Ikebukuro.

Os poucos moradores que estavam àquela hora da manhã na rua olhavam-no assustados.

Shizuo sabia que estava com uma expressão estranha. Torcia o nariz para cada coisa que estivesse na frente dele, fosse ela um homem ou um poste.

Shizuo estava possesso. Sua situação anterior não havia mudado nada. Somente o cenário era diferente, os pensamentos que o atormentavam em seu apartamento continuavam ali.

Cada esquina, cada rua, cada praça, o lembrava de Izaya. De alguma perseguição. De alguma provocação. De alguma briga.

– Maldita pulga insuportável! – gritou, assustando ainda mais as pessoas ao seu redor.

Jogou seu cigarro no chão.

Aquilo não estava ajudando-o.

O informante sequer estava ali e mesmo assim Shizuo sentia a presença dele.

Sentiu algo tocar seu ombro e fez um pedido mental para que não fosse alguma confusão causada pelo informante. Naquele momento, sentia como se realmente pudesse matar Izaya.

Virou-se pronto para explodir com quem quer que fosse e deparou-se com Celty em posição defensiva.

Surpreendeu-se por não ter sentido a presença da Dullahan antes.

– Celty.

– “Shizuo! Como vai? Ouvi sua voz gritando e fiquei preocupada. Achei que Izaya estava aqui e mais uma briga ia começar!” – a Dullahan digitou em seu celular e mostrou a Shizuo, que franziu o cenho em uma careta.

– Estou bem. – apontou para a rua ao redor deles – Viu? Nenhuma briga.

A Dullahan olhou ao redor e pareceu dar-se por satisfeita.

– Você está aqui a trabal...? – começou Shizuo, mas foi subitamente interrompido quando o celular de Celty foi colocado diante de seu rosto.

– “Como terminou aquela noite? Sei que você não o matou.” – leu Shizuo – “Além disso, hoje topei com a gangue de Kadota. Erika estava realmente eufórica contando sobre algo que viu ontem.”.

Shizuo usou toda a força de vontade que tinha para não quebrar o celular de Celty. Ele havia se esquecido de que Celty estivera com ele na noite na qual resolvera matar Izaya. Aparentemente, ela não havia se esquecido daquele detalhe. Mas, mais do que não esquecer, ela também estava a par do que havia acontecido na noite anterior.

Ele nem havia pensado na possibilidade de alguém interpela-lo sobre a noite anterior, se o tivesse feito, provavelmente não teria saído de casa. Mas aquilo só adiaria um pouco o problema. Sabia que uma hora ou outra as pessoas acabariam comentando sobre o que estava havendo entre ele e o informante.

“Claro que estariam falando! Aquele maldito saiu atrás de mim pelas ruas de Ikebukuro!”, pensou.

– Não o matei. – disse apenas – Você está aqui a trabalho? – tentou mudar o rumo que a conversa estava a tomar.

– “Então o que aconteceu depois que saiu correndo atrás dele na quinta?” – a Dullahan havia ignorado completamente sua tentativa de mudar o assunto.

Shizuo olhou atentamente para as palavras na tela e depois para Celty, encarando sério seu capacete com orelhinhas de gato.

Depois de um tempo viu a motoqueira pender levemente sua cabeça para o lado, como se confusa com o olhar intenso que o guarda-costas lhe dirigia.

Shizuo não pode conter um sorriso.

Ele gostava de verdade de Celty.

Quando a conhecera a achara suspeita. Muito suspeita. E perigosa. Mas a forma como ela agia com Shinra, a forma como ela se preocupava com todos ao seu redor — inclusive com ele, a quem todos chamavam monstro — não era algo que Shizuo podia ignorar.

Celty havia se tornado o mais próximo do que podia chamar de amigo. Kasuka, ela, Tom... Nenhum deles não tinha medo dele. Nenhum deles se importava com sua força extrema nem com sua alcunha de monstro. Mais do que isso, eles o faziam sentir que isso não importava de verdade, quase como se ele não tivesse a força que tem, quase como se não pudesse feri-los.Como se não fosse um mostro.

Além disso, sentia que ela era como ele. Todos a temiam assim como o temiam. Ele era um monstro descontrolado, mas ela não parecia realmente preocupada com isso. Ela era forte, e, diferente de todos os outros que se aproximam dele, ele sabia que a ela ele não conseguiria machucar. Talvez por isso se sentisse próximo a ela. Ele não iria feri-la mesmo se se descontrolasse.

– Celty... – começou a dizer, mas foi novamente interrompido pelo celular diante de seus olhos.

– “Tudo bem se não quiser me contar. Fico feliz que esteja bem e isso é tudo o que importa.”.

Aquelas duas frases que brilhavam na tela do celular acabaram por tirar qualquer dúvida da mente de Shizuo. Ele podia confiar nela. E, com certeza, ter mais alguém pensando sobre o que estava acontecendo seria ótimo para ajuda-lo a aclarar as coisas. Afinal, tinha que admitir que, ele, sozinho, por mais que quebrasse a cabeça pensando em tudo, não conseguia chegar a uma conclusão.

– Celty... – chamou a atenção da amiga – Se não estiver ocupada, sente-se comigo ali naquela praça. – apontou para um banco a poucos metros de distância deles.

A Dullahan pareceu feliz com a resposta e acompanhou a guarda-costas sem digitar nenhuma nova palavra. Ela sentou-se no banco. Shizuo permaneceu de pé, estava ansioso, de forma que não podia manter-se sentado.

Sentindo Celty encará-lo em expectativa, Shizuo começou a dizer:

– Bom. Acho que você chegou sozinha à conclusão de que eu queria matar Izaya naquela noite. – Celty acenou positivamente – Eu tentei. Seriamente. Achei que tudo correria bem, e, diferente de como tinha sido nos sonhos, eu conseguiria mata-lo. – Shizuo apertou os dentes, não era fácil dizer aquelas coisas em voz alta – Eu estava enganado. Não consegui mata-lo. Abandonei-o sozinho, todo quebrado, num beco. Achei que ele ficaria sem conseguir se mover por um bom tempo.

Shizuo parou o que dizia. Queria parar com aquilo. Era vergonhoso demais, ainda que ele omitisse algumas partes. As lágrimas eram completamente omitidas da história, por exemplo.

– “Mas, aparentemente, ele conseguiu, certo?!” – Celty o pressionou.

Shizuo fez uma careta e soltou um curto suspiro, desviando o olhar.

– Sim. Conseguiu. Ele foi atrás de mim e invadiu meu apartamento. – olhou novamente a Dullahan. – Mas eu já estava dormindo.

– “Então ele te acordou e vocês recomeçaram a briga?!”.

– Talvez essa fosse a intenção dele, mas não. Não foi assim.

Aquela era uma parte especialmente difícil. Shizuo estava prestes a admitir um sonho erótico para Celty. Um sonho erótico com Izaya.

– Eu estava sonhando. Dai murmurei o nome de Izaya. Acho que ele se assustou e saiu. Não voltamos a nos falar naquela noite.

– “Izaya o viu sonhando que ia mata-lo e não o acordou?! Isso é estranho, Shizuo. Ele estava tramando algo, certo?!”.

Shizuo tossiu. Sentia que seu rosto queimava. Mas já que tinha decidido contar à Celty, teria que ir até o final.

Acendeu um cigarro, tragou algumas vezes, limpou a garganta e continuou:

– Sim, ele estava tramando algo. Na sexta-feira ele colocou um plano estranho em ação, eu acho. Enfim... – Shizuo pausou, tragou nervosamente o cigarro e soltou num só fôlego – Ele levou uma garota até o Russia Sushi. Flertou. Fiquei bravo. Sai do restaurante. Ele veio atrás. Kadota viu. Apartamento. Me chupou. Reformar a parede.

Shizuo voltou a olhar para Celty diretamente. A Dullahan olhava para seu celular, com os dedos preparados para começar a digitar. Mas nenhuma palavra saia. Ela olhou para Shizuo, depois para o celular e então para Shizuo novamente.

Finalmente, digitou algo e mostrou ao guarda-costas.

– “Desculpe, Shizuo. Não entendi nada.”

O guarda-costas suspirou. “Claro que não entendeu. Eu só vomitei tudo em cima de você! Shizuo! Você disse que faria isso certo!”. – pensou impaciente.

– “Izaya soube que você sonhava em mata-lo, dai resolveu te provocar e encontrou uma garota? Quem era a garota? Alguma conhecida sua que fosse impedir você de mata-lo? Entendo! Izaya ia usar a garota que você ama contra você para impedir que você o machuque. Então ele a sequestrou e te chantageou. Você aceitou os termos dele e ele te devolveria a sua amada no Russia Sushi.” – Shizuo via Celty digitar freneticamente em seu celular, não dando chance ao guarda-costas de interrompê-la – “Quando você chegou para salvá-la, descobriu que, na verdade, ela era aliada a Izaya e os dois flertaram na sua frente. Você ficou bravo com a traição e, com o coração em pedaços, deixou o restaurante e correu pelas ruas de Ikebukuro. Izaya veio atrás de você para humilhá-lo e deixa-lo ainda pior. Foi quando vocês passaram por Kadota, Erika e afins. Ele te seguiu até o seu apartamento. Vocês brigaram. Sua parede foi destruída pela briga.”.

Shizuo estava chocado com a habilidade da dullahan em criar uma história tão complexa com as poucas informações que havia recebido. “Acho que tem visto muita TV, Celty”, pensou.

As últimas duas linhas que pulavam no celular de Celty, porém, destruíam toda a graça que Shizuo pudesse achar de tudo o que estava escrito.

– “Só não entendi, Shizuo, o que foi essa parte de chupar. O que Izaya chupou no seu apartamento? Ou era ‘culpou’? Do que ele te culpou?!”.

– Era chupou mesmo, Celty. – disse com a voz fraca e a certeza de que estava corado – Desculpe. Não é nada disso. Izaya não roubou minha amada. Na verdade, eu sequer tenho uma amada. – Celty pendeu novamente a cabeça-capacete para o lado, confusa – Tem um fato muito importante que eu omiti. O sonho no qual eu disse o nome de Izaya não era sobre assassinato. Era, na verdade, um sonho... – Shizuo engoliu em seco — ... um sonho daqueles...

“Porra, Shizuo! Fala logo! Você já teve sonhos eróticos antes. Qual o problema de falar sobre mais um! Não é como se fosse especial!”, Shizuo se repreendia.

– “Um sonho daqueles?”.

– Erótico.

Celty não moveu um músculo. Shizuo sabia que naquele exato momento ela estava reorganizando a história em sua mente, incluindo a nova informação.

– “Então... por chupar você diz...?” – digitou apenas.

– Sim. Chupar.

– “Entendo. Dai você bateu nele até destruir todas as paredes de seu apartamento. Ele está vivo, Shizuo?” – perguntou a Dullahan, e Shizuo pode sentir seriedade e um pouco de preocupação emanando dela.

– Sim, vivo.

– “Ele está muito machucado? Ele não procurou Shinra...”.

– Ele saiu do meu apartamento com as próprias pernas.

– “Mais uma vez. Não entendo, Shizuo.”

Shizuo acendeu mais um cigarro.

– Eu também não, Celty.

O silêncio se fez presente durante alguns minutos. Celty olhava para seu celular. Shizuo fumava tranquilamente.

Quando se preparava para acender outro cigarro, viu que Celty o mostrava novamente o visor do celular.

– “Você quer saber o que Erika estava dizendo?”.

– Eu desconfio o que é...

– “Desconfia?!”

– Sim. Eu a ouvi daquela vez, quando o repórter me atacou por causa da saika.

– “Então... o que acha?”.

– Besteira – Shizuo falou mais alto do que planejava – Uma porra de uma besteira! Você também conhece Izaya. Ele me odeia. Quase tanto...

– “Quanto você o odeia, certo?!” – mostrou a dullahan.

Shizuo pisou fortemente no cigarro que havia recém jogado no chão. Discutir aquilo, ainda que com Celty, estava tirando-o do sério. Havia prometido a si mesmo que não perderia sua paciência. Tinha decidido confiar na entregadora. Mas aquilo estava deixando-o com os nervos à flor da pele. Sequer cogitar que havia algo entre ele e o informante era absurdo e revoltante.

– “Eu entendo que esteja bravo, Shizuo.” – digitou Celty olhando-o atentamente. Ela sabia que o fato de que ele ainda estava ali parado era um sinal de que as coisas estavam realmente sérias. – “Mas também não entendo nada disso. Não confio em Izaya. Para mim, ele sequer é capaz de sentir algo que não seja doentio. Mas não entendo direito ainda os sentimentos humanos... então, acho que estou tão perdida quanto você... Você acha que é algum jogo?”.

– Sim. Provavelmente. Pelo menos, é o que ele disse: “uma nova brincadeira...” – Shizuo disse entredentes.

– “Shizuo! Você acha que ele vai continuar com isso?!”.

Shizuo encarou o celular de Celty. Não havia cogitado isso antes. Estava tão preocupado em entender o que havia acontecido que não havia pensado na possibilidade de que voltasse a acontecer.

“Será que com ‘nova’ a pulga quis dizer algo que iria substituir a ‘antiga’?” – pensou – “Ele iria desistir de provoca-lo pela cidade e agora iria apenas encurralá-lo em seu apartamento?”.

Encurralar

Essa palavra irritava imensamente Shizuo. Ele não seria encurralado. Não iria repetir a apatia da noite anterior. Izaya não iria jogar com ele daquele jeito.

“Não cairei no seu jogo, sua pulga maldita!” – pensou, apertando os punhos.

Celty via enquanto uma série de expressões diferentes passava pelo rosto de Shizuo. Havia percebido que o guarda-costas estava abalado com aquilo. Pensou que Izaya realmente estaria satisfeito em ver como havia afetado Shizuo...

– “Shizuo!” – digitou de repente a entregadora. Ela havia percebido algo. – “Qual a maior força por traz das atitudes de Izaya?”.

– Psicopatia. – respondeu Shizuo tão logo colocou seus olhos nas palavras que brilhavam na tela. Percebeu que o tom de Celty mudou imediatamente de sério para risonho.

– “Também... mas... acima de qualquer coisa, acho que Izaya gosta de controle. Ele gosta da sensação de poder.”.

– Por isso é tão manipulador.

“E por isso ele entra tanto em conflito com você!” – pensou a entregadora, mas nada disse.

– “Shizuo. Não precisa me dizer se não quiser, mas... qual foi sua reação quando ele foi para cima de você?”.

Shizuo permaneceu em silêncio. Celty sabia o que aquilo significava: Shizuo não havia recusado. Agora entendia o que o amigo quis dizer quando disse que Izaya havia saído de seu apartamento com as próprias pernas. Shizuo não havia, então, batido nele.

– “Eu não entendo muito disso, mas...” – digitou – “Shizuo, vi na TV que sexo pode ser uma arma de manipulação.”.

Shizuo derrubou o cigarro que havia acabado de pegar.

– Sexo? – “Oi oi, Celty! Está indo muito longe! Não rolou nada disso!” – pensou. Não pode ignorar, porém, que a ideia não lhe pareceu tão estranha quanto esperava.

–“Acho que ter o que todos consideram o homem mais forte de Ikebukuro é uma coisa que agradaria Izaya...”.

A última frase de Celty fez algo acender dentro de Shizuo: ele realmente havia ficado à mercê do informante na noite anterior. Isso mexia muito com o orgulho dele.

“Mas, não precisa ser desse jeito, né?!” – pensou, soltando um riso baixo.

Celty, que digitava no celular, voltou sua atenção para o rosto de Shizuo ao ouvir o riso baixo.

– Controle, né?! – disse, agora com todos os dentes à mostra – Bom... dois podem jogar este jogo.

Celty olhava intrigada para Shizuo. Ele parecia animado. Completamente diferente do Shizuo abatido e impaciente que encontrara mais cedo. Olhou para seu celular e leu as palavras que havia digitado:

“Mas não é como se você precisasse jogar o jogo dele, Shizuo.

Até mesmo Izaya irá se cansar se você ignorá-lo.”

Desviou sua atenção novamente para o rosto animado de Shizuo e apagou o que havia escrito.



****



– Droga, Shizu-chan!

Já era a segunda vez que Izaya percebia-se andando impaciente pelo apartamento.

Mesmo que fosse um sábado, o informante tinha que trabalhar. Tinha uma pilha de folhas e dezenas de e-mails para ler.

Não que Izaya não fosse atencioso com seu trabalho. Era exatamente o contrário, na verdade. E por isso ele estava tão impaciente agora. Afinal, ele era obcecado por seu trabalho. Reunir informações, analisa-las, repassá-las e traçar planos era o que mais gostava de fazer. Mas, contrariando isso, seu trabalho havia se acumulado bastante.

“Tudo sua culpa, Shizu-chan!”, pensava raivoso.

Desde o início da semana Izaya estava irresponsável com suas atividades, procrastinando-as. A situação que já era estranha, porém, agravou-se ainda mais depois da noite de quinta, por causa do “sonho molhado” (como Izaya gostava de, maliciosamente, denominar) de Shizuo. Durante toda a sexta Izaya sequer havia olhado para sua mesa ou ligado seu computador. Mais do que isso, havia cancelado compromissos da tarde de sexta. Mesmo seu celular, constantemente consigo, estava com uma série de mensagens de voz acumuladas.

Por todos estes motivos, o informante via-se agora na obrigação de olhar para um monte de informações desatualizadas e selecionar o que ainda não havia prescrito. Sua fama de bom informante vinha, afinal, da rapidez com a qual conseguia as informações. Às vezes, julgavam-no capaz de saber das coisas antes mesmo que elas acontecessem. Ver-se, portanto, em pleno sábado a olhar informações de quarta-feira o fazia sentir-se patético.

Para agravar a situação, ele sequer conseguia concentrar-se agora no que fazia.

Num momento lia o e-mail, no segundo seguinte percebia que estava girando sua cadeira rotatória e pensando em Shizuo.

Não conseguia esquecer-se da sensação dos dedos de Shizuo em seus lábios, e os lábios dele em sua pele. Não podia esquecer-se da textura do membro de Shizuo, nem de seu gosto.

“Ele ia beijar-me?!”, pensou contrariado.

Sentia raiva por Shizuo ter tocado nele. Sentia raiva por tê-lo expulsado.

Sentia raiva pelo que Shizuo havia feito. Sentia raiva pelo que Shizuo não havia feito.

Sentia seu corpo reagir às memórias. Sentia sua visão turvar-se de raiva pela reação de seu corpo.

“Ele nunca age como deve!”, pensou, iniciando uma nova ronda pelo apartamento.

Parou diante da janela e olhou através dela.

Piscou algumas vezes e olhou de novo.

Ou estava muito atordoado com a quantidade de pensamentos em sua mente, ou acabara de ver Shizuo entrando em seu prédio.

Notas finais
Olá de novo! *.* obrigada por lerem até o fim! Qualquer tipo de opinião é bem-vinda! Deixe reply e faça uma autoria insegura feliz! =D Küsse, Max